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a familia perfeita

O Cinturão de Couro e o Gosto Amargo do Abandono

O sol de Los Angeles era um intruso indesejado que atravessava as frestas das persianas, desenhando linhas de poeira dourada no ar estagnado da sala. Nikki Sixx estava jogado na poltrona de veludo, a cabeça pendida para trás, a boca entreaberta em um torpor pesado. O mundo ao seu redor era uma massa amorfa de sons distantes e cores desbotadas. Para ele, o tempo não passava de uma sucessão de batidas de baixo e o zumbido constante da heroína correndo em suas veias, um anestésico que transformava a realidade em um sonho nublado.

Sharise havia saído cedo. Ela mencionara algo sobre um ensaio fotográfico ou um compromisso urgente, mas Nikki não havia processado metade das palavras. A única coisa que ficou clara foi a responsabilidade que ela depositou em seus ombros, como um fardo pesado: cuidar de Kelly.

— Ele já tomou o café, Nikki. Por favor, só dê o almoço e não o perca de vista — ela dissera, a voz carregada de uma ansiedade que ele preferiu ignorar.

Agora, horas depois, o silêncio da casa era quebrado apenas pelo estômago de uma criança de seis anos.

Kelly estava na cozinha. Seus pés descalços faziam pouco barulho no piso frio. Ele sentia um vazio incômodo na barriga, uma pontada que o lembrava de que o café da manhã já era uma memória distante. Ele procurou por Sharise, mas a casa parecia um labirinto vazio. Ele chamou pelo pai, mas o único retorno foi o silêncio denso vindo da sala de estar.

O menino subiu em uma banqueta, tentando alcançar o balcão. Seus olhos pequenos e curiosos varreram a superfície em busca de algo que pudesse saciar sua fome. Foi então que ele viu.

No canto da mesa, esquecida entre cinzeiros transbordando e palhetas de guitarra, estava uma garrafa quadrada de vidro escuro. O líquido âmbar lá dentro brilhava sob a luz da tarde. Para Kelly, que ainda guardava na memória afetiva o conforto das mamadeiras de leite morno, aquela garrafa parecia uma promessa de alívio. Ele não sabia o que era Jack Daniel's. Ele só via um suco, um "leite especial" que o papai sempre bebia para ficar mais calmo — ou mais barulhento.

Com as mãos pequenas e trêmulas, ele esticou o braço. A ponta de seus dedos tocou o vidro frio. Ele puxou a garrafa para a beira do balcão, mas o peso era maior do que ele esperava. O vidro escorregou.

O som do impacto foi como uma explosão no silêncio sepulcral da mansão. A garrafa de uísque se estilhaçou contra o chão de mármore, espalhando fragmentos afiados e um líquido de cheiro forte e ardido por toda a cozinha. Kelly recuou, assustado, os olhos arregalados enquanto observava a poça se espalhar como um mar dourado aos seus pés.

— Papai? — sussurrou ele, a voz sumindo na garganta.

Na sala, o estalo do vidro quebrando perfurou a névoa narcótica de Nikki. Ele deu um solavanco, o coração disparando contra as costelas como um animal enjaulado. A irritação subiu instantaneamente, uma onda de calor que queimou o pouco de paz que ele sentia.

— Mas que porra foi essa? — resmungou Nikki, levantando-se com dificuldade.

Ele caminhou em direção à cozinha, seus passos pesados ecoando. Quando chegou ao arco da porta, a cena diante dele fez seu sangue ferver. O cheiro de álcool barato impregnava o ar, e lá estava Kelly, parado no meio da bagunça, com o rosto pálido e as mãos sujas de uísque.

— Você quebrou a minha garrafa? — A voz de Nikki era um trovão baixo, carregado de uma fúria irracional.

— Eu... eu estava com fome, papai. Eu achei que era leite — gaguejou Kelly, as lágrimas começando a brotar. — Desculpa, eu não queria...

— Fome? Você é um estúpido! — gritou Nikki, avançando para o centro da cozinha. — Eu te disse para não mexer em nada! Você destrói tudo o que eu tenho!

Nikki não via um menino de seis anos com fome. Ele via um obstáculo, um ruído, uma fonte de estresse que ele não tinha capacidade emocional para gerenciar. O vício havia corroído sua empatia, deixando apenas o instinto agressivo de quem se sente constantemente atacado.

Ele agarrou Kelly pelo braço, sacudindo-o com força. O menino soltou um grito agudo de dor.

— Eu já bati em você e não adiantou, não é? — Nikki rosnou, a pupila dilatada tornando seus olhos quase inteiramente negros. — Você precisa aprender de um jeito que nunca mais esqueça.

Kelly tentou se soltar, soluçando desesperadamente.

— Por favor, papai! Dói! Eu limpo, eu juro que limpo!

Mas Nikki já estava além da razão. Ele soltou o braço do menino e, com um movimento brusco e ensaiado por anos de rebeldia e violência urbana, levou a mão à cintura. O som do metal da fivela batendo contra o couro do cinto foi como um chicote estalando no ar.

— Deita no sofá. Agora! — ordenou Nikki, apontando para a sala.

— Não, papai! Por favor, não o cinto! — Kelly implorava, recuando até bater as costas na geladeira.

Nikki o agarrou pela gola da camiseta e o arrastou para a sala de estar. O desespero do filho parecia apenas alimentar a irritação do pai. Ele jogou o pequeno corpo de Kelly sobre o estofado de couro.

O primeiro golpe do cinto de couro pesado atingiu as costas e as pernas de Kelly. O som foi seco, um estalo que pareceu ecoar por toda a Franklin Avenue.

— Isso é para você aprender a ficar longe das minhas coisas! — gritou Nikki, desferindo outro golpe.

— Aaaaah! Mamãe! Mamãe, ajuda! — O grito de Kelly era lancinante, um som que deveria quebrar o coração de qualquer pai, mas que nos ouvidos de Nikki soava apenas como estática irritante.

— Cale a boca! Pare de gritar! — Nikki estava fora de si. Ele batia com a força de um homem que estava descontando no filho todas as frustrações de sua carreira, as pressões da banda e os demônios de sua própria infância negligenciada.

Foram quatro, cinco, seis vezes. O couro cortava o ar e atingia a pele macia da criança, deixando marcas vermelhas e inchadas que arderiam por dias. Kelly se encolheu em uma bola, tentando proteger o rosto com os braços, os soluços agora abafados pelo estofado do sofá.

Quando Nikki finalmente parou, ele estava ofegante. O suor escorria por suas têmporas, misturando-se à maquiagem borrada da noite anterior. Ele olhou para o cinto em sua mão e depois para o monte trêmulo de roupas e choro que era seu filho.

Por um segundo, um clarão de consciência atravessou a névoa de drogas. Ele viu o que tinha feito. Mas o ego de um rockstar viciado é uma armadura difícil de penetrar.

— Vá para o seu quarto — disse Nikki, a voz agora baixa e fria, desprovida de qualquer emoção. — E não saia de lá até a sua mãe chegar. Se eu ouvir um pio seu, eu volto lá com o cinto de novo. Entendeu?

Kelly não respondeu com palavras. Ele apenas se levantou, as pernas bambas, o rosto vermelho e molhado de lágrimas. Ele não olhou para o pai. Ele correu, tropeçando nos próprios pés, subindo as escadas o mais rápido que seu corpo dolorido permitia. O som da porta do quarto batendo foi o ponto final daquela sinfonia de horror.

Nikki jogou o cinto sobre a mesa de centro. Suas mãos tremiam violentamente agora. Ele caminhou de volta para a cozinha e olhou para os cacos de vidro no chão. O cheiro do uísque agora o enojava.

— Merda... — sussurrou ele, passando as mãos pelo cabelo desgrenhado. — Por que ele tem que ser tão difícil?

Ele pegou uma toalha de papel e começou a limpar o líquido, mas logo desistiu. Era trabalho demais. Ele precisava de algo para se acalmar. Precisava que o mundo parasse de girar e que a imagem dos olhos aterrorizados de Kelly desaparecesse de sua mente.

Ele voltou para a sala, sentou-se no sofá onde, momentos antes, havia açoitado o próprio filho, e preparou uma nova linha de pó.

Lá em cima, Kelly estava deitado sob as cobertas, embora fizesse calor. Ele sentia as costas queimarem, cada movimento era uma agonia. Mas a dor física não era nada comparada ao vazio que sentia no peito. Ele estava com fome, estava com medo e, acima de tudo, estava sozinho. Ele enterrou o rosto no travesseiro para abafar o choro, temendo que qualquer som trouxesse o monstro de volta.

Cerca de uma hora depois, o som da porta da frente se abrindo anunciou a chegada de Sharise. Ela entrou carregando sacolas de compras, um sorriso cansado no rosto que desapareceu no instante em que ela sentiu o cheiro de álcool e viu o estado de Nikki.

— Nikki? O que aconteceu aqui? Por que tem cheiro de Jack Daniel's na casa toda? — Ela largou as sacolas e caminhou até a cozinha, vendo os cacos de vidro que ele não terminara de limpar. — Meu Deus, Kelly se machucou? Onde ele está?

Nikki nem se deu ao trabalho de abrir os olhos.

— O seu filho é um idiota, Sharise. Ele quebrou minha garrafa. Estava tentando beber o uísque.

Sharise sentiu um frio na espinha. Ela conhecia aquele tom de voz. Era o tom de quando Nikki perdia o controle.

— Onde ele está, Nikki? — perguntou ela, a voz subindo uma oitava.

— No quarto dele. Eu dei um corretivo nele. Ele precisava aprender — respondeu ele, de forma displicente.

Sharise não esperou por mais explicações. Ela subiu as escadas correndo, o coração batendo na garganta. Ela abriu a porta do quarto de Kelly e o encontrou encolhido, tremendo sob os lençóis.

— Kelly? Meu amor, sou eu. A mamãe chegou.

O menino se virou e, ao ver a mãe, desabou em um choro convulsivo. Sharise sentou-se na cama e o puxou para o colo. Foi quando a camiseta dele subiu levemente, revelando as marcas vermelhas e transversais em suas coxas e costas.

Sharise sufocou um grito, levando a mão à boca.

— Ele... ele usou o cinto? — sussurrou ela, as lágrimas transbordando instantaneamente.

Kelly apenas balançou a cabeça positivamente, escondendo o rosto no pescoço da mãe.

— Eu estava com fome, mamãe... eu só queria o leite...

A fúria e a dor disputavam espaço no peito de Sharise. Ela queria descer aquelas escadas e gritar com Nikki até perder a voz. Queria arrancar aquele cinto da mão dele e mostrar como era a sensação. Mas, ao olhar para o filho quebrado em seus braços, ela sentiu a mesma paralisia de sempre. Ela tinha medo de Nikki. Tinha medo do que ele se tornava quando a droga assumia o controle. E, acima de tudo, ela tinha medo de perder a vida de luxo e a estabilidade que, ironicamente, aquele monstro provia.

— Shhh... vai ficar tudo bem — mentiu ela, balançando o filho suavemente. — A mamãe vai cuidar de você. Vou trazer algo para você comer aqui no quarto.

Ela passou o resto da tarde cuidando dos ferimentos de Kelly com pomadas e compressas frias, contando histórias para tentar distraí-lo da realidade cruel do outro lado da porta.

Enquanto isso, lá embaixo, Nikki Sixx estava de volta ao seu mundo de sombras. Ele pegou o baixo e começou a tocar uma linha melancólica e agressiva. A música era sua única forma de processar o que ele não conseguia entender.

Ele sabia que tinha passado dos limites. O tremor em suas mãos não era apenas da droga; era o resquício da descarga de adrenalina da violência. Mas ele justificava para si mesmo que o mundo era um lugar cruel, que ele havia crescido apanhando e que isso o tornara forte. "O garoto precisa ser homem", pensava ele, enquanto a imagem de Kelly se encolhendo no sofá queimava no fundo de sua retina.

Ao anoitecer, Sharise desceu as escadas. Ela passou por Nikki sem dizer uma palavra. Foi até a cozinha, terminou de limpar o vidro quebrado com movimentos mecânicos e furiosos.

— Você vai ficar sem falar comigo agora? — perguntou Nikki da sala, sem parar de tocar o baixo.

— Você bateu nele com o cinto, Nikki. Ele tem seis anos — disse ela, a voz trêmula, mas contida.

— Ele me desobedeceu. Ele quebrou minhas coisas. Eu não vou criar um moleque mimado — rebateu ele, levantando-se e caminhando até ela.

Ele parou atrás dela, envolvendo sua cintura com os braços. O cheiro de couro e suor a envolveu, e Sharise sentiu um calafrio de repulsa misturado com uma dependência doentia.

— Eu perdi a mão, eu sei — sussurrou Nikki no ouvido dela, sua voz agora suave, sedutora, o Nikki que ela amava tentando emergir das cinzas. — Eu estava estressado. A gravação do álbum novo está me matando. Amanhã eu levo ele para comprar aquele conjunto de trens que ele queria. Tudo bem?

Sharise fechou os olhos. Era sempre assim. O ciclo do abuso se fechava com uma promessa material, um pedido de desculpas sussurrado e a esperança vã de que seria a última vez.

— Ele está com medo de você, Nikki. Ele se encolhe quando você entra no quarto.

— Ele vai superar. Crianças esquecem rápido — disse ele, dando um beijo no pescoço dela antes de se afastar para pegar outra bebida.

Mas Kelly não estava esquecendo. Lá em cima, no escuro de seu quarto, o menino olhava para o teto, ouvindo o som do baixo do pai vibrar através do chão. Cada nota parecia um golpe rítmico em sua memória. Ele aprendeu algo naquele dia, mas não foi a lição que Nikki pretendia ensinar. Ele aprendeu que o amor era algo que doía, que a fome era perigosa e que a pessoa que deveria protegê-lo era, na verdade, a maior ameaça de sua vida.

Naquela noite, na mansão da Franklin Avenue, o silêncio não era de paz, mas de uma trégua armada. Nikki dormia o sono pesado dos quimicamente anestesiados, Sharise chorava em silêncio no banheiro, e Kelly, o pequeno herdeiro de um império de caos, finalmente adormecia, sonhando com um mundo onde as garrafas nunca quebravam e as mãos dos pais serviam apenas para ninar.

A marca do cinto desapareceria da pele em uma semana, mas a marca na alma de Kelly Sixx estava apenas começando a se aprofundar, uma cicatriz invisível que ditaria o ritmo de sua própria música sombria nos anos que viriam. E Nikki, o rei do excesso, continuava sua descida ao abismo, acreditando que o poder de sua fama poderia apagar as cinzas que ele deixava em seu rastro doméstico.