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a familia perfeita

Sombras de Veludo e Hematomas na Alma

O silêncio que se seguiu à explosão de violência na cozinha era artificial, uma redoma de vidro prestes a estraçalhar novamente. Nikki Sixx estava sentado na beira da cama de casal, as botas de cano alto ainda calçadas, os cadarços desamarrados arrastando no tapete persa. Ele sentia o formigamento pós-adrenalina nas pontas dos dedos, aquela dormência familiar que a heroína costumava proporcionar, mas que agora era substituída por uma irritação crua e pulsante.

Sharise entrou no quarto em silêncio. Ela havia acabado de colocar Kelly na cama, após minutos exaustivos de compressas de água morna e mentiras sussurradas sobre como "o papai não teve a intenção". Ela se sentia oca. Cada soluço do filho havia arrancado um pedaço de sua dignidade, deixando apenas a carcaça de uma mulher que não sabia mais como lutar contra a gravidade destrutiva que era o marido.

— Ele dormiu? — perguntou Nikki, sem olhar para ela. Sua voz era um rosnado baixo, desprovido de remorso aparente.

— Dormiu — respondeu Sharise, a voz quase um fio. — Mas ele está apavorado, Nikki. Ele treme toda vez que ouve um passo no corredor.

Nikki se levantou bruscamente, a silhueta esguia e sombria projetada contra as paredes de papel de parede caro. Ele caminhou até o bar particular no canto do quarto e serviu-se de uma dose generosa de vodca, já que o uísque agora era apenas uma mancha pegajosa no andar de baixo.

— Ele tem que ser homem, Sharise! — explodiu Nikki, virando o copo de uma vez. — Eu não tive ninguém para passar pomadinha em mim quando meu velho sumia ou quando minha mãe trazia caras estranhos para casa. Eu aprendi na marra. Ele vive em uma mansão, tem tudo o que quer... a única coisa que eu peço é ordem!

— Ele tem seis anos, Nikki! Seis! — Sharise finalmente levantou a voz, os olhos brilhando com uma coragem desesperada. — Você não está ensinando ordem, está ensinando medo. Você viu as marcas? Você viu o que o seu cinto fez com a pele dele?

Nikki caminhou em direção a ela, o espaço entre os dois diminuindo perigosamente. O cheiro de álcool, cigarro e o odor metálico do suor de abstinência emanava dele como uma aura tóxica. Ele a encurralou contra a porta fechada, as mãos apoiadas na madeira de cada lado da cabeça dela.

— Não venha me dar sermão sobre paternidade — sibilou ele, o rosto a centímetros do dela. — Eu sustento essa porra toda. Eu mato e morro por essa banda para que vocês tenham essa vida. Se eu perco a cabeça de vez em quando, é o preço que vocês pagam.

Sharise sentiu a respiração quente dele contra seu rosto. Ela queria empurrá-lo, queria gritar que o dinheiro não valia o terror nos olhos de Kelly, mas o olhar de Nikki era magnético e aterrorizante ao mesmo tempo. Havia uma escuridão ali que ela amava e odiava em doses iguais.

— Você está me machucando, Nikki... — sussurrou ela, embora ele ainda não a tivesse tocado fisicamente.

— Eu estou machucado, Sharise. O mundo me morde todo santo dia — disse ele, e de repente, a raiva em seus olhos se transformou em algo mais faminto, uma necessidade desesperada de validação, de controle, de esquecimento.

Ele a beijou com uma brutalidade que não tinha nada de carinho. Foi uma invasão. Seus dentes bateram contra os dela, o gosto de vodca e tabaco inundando a boca de Sharise. Não era um pedido de desculpas; era uma reivindicação de posse.

Nikki a empurrou em direção à cama, desfazendo-se da jaqueta de couro com movimentos frenéticos. Ele não queria ternura. Ele precisava descarregar o resto da fúria que Kelly havia despertado, a frustração de se sentir um pai fracassado transmutada em desejo carnal agressivo.

— Nikki, não... agora não — pediu Sharise, tentando afastar as mãos dele que já puxavam o tecido de sua blusa de seda. — Eu não consigo... não depois do que aconteceu lá embaixo.

— Cala a boca — ordenou ele, a voz rouca e imperativa. — Você é minha mulher. Você está aqui para me apoiar, não para me julgar.

Ele a jogou sobre os lençóis de cetim negro. O ato sexual que se seguiu foi desprovido de qualquer suavidade. Nikki usava seu corpo como uma arma, descontando em Sharise cada grama de ódio que sentia por si mesmo, pela sua infância, pela pressão de ser o líder do Mötley Crüe e pela imagem do filho se encolhendo no sofá.

As mãos de Nikki apertavam os pulsos de Sharise contra o colchão com uma força desnecessária. Ele a possuía com uma urgência maníaca, os olhos fechados como se estivesse tentando expulsar demônios através do esforço físico. Sharise sentia as lágrimas escorrerem silenciosas pelos cantos dos olhos, perdendo-se no travesseiro. Ela não lutava, mas também não retribuía. Ela era apenas um receptáculo para a tempestade de Nikki.

— Diga que você me ama — exigiu ele entre dentes, o ritmo de seus movimentos tornando-se cada vez mais errático e violento.

— Eu te amo, Nikki... — respondeu ela mecanicamente, a voz embargada. Ela dizia as palavras como um mantra de sobrevivência, esperando que, se as pronunciasse, o monstro se acalmasse e o homem que ela conhecia voltasse.

Mas o homem não voltava. Naquela noite, Nikki Sixx era apenas uma força da natureza em colapso. Quando ele finalmente atingiu o ápice, soltou um gemido que parecia um grito de dor sufocado. Ele desabou sobre ela, o peso de seu corpo parecendo esmagar o pouco de ar que restava nos pulmões de Sharise.

O silêncio que se seguiu foi mais pesado que o ato em si. Nikki ficou ali, ofegante, o rosto enterrado no pescoço dela. Por um momento, Sharise pensou que ele fosse dizer algo, que fosse pedir perdão pelo cinto, pela brutalidade, por tudo.

Em vez disso, ele se afastou e sentou-se na beira da cama, as costas voltadas para ela. As tatuagens em sua pele pareciam ganhar vida sob a luz fraca do abajur, contando histórias de uma vida vivida no limite.

— Eu preciso de um tiro — murmurou ele para o nada.

Sharise se sentou lentamente, puxando os lençóis para cobrir o corpo que agora exibia marcas vermelhas nos pulsos e nos quadris, ecos das mãos de Nikki.

— Você não consegue passar uma noite sem isso? — perguntou ela, a voz carregada de uma exaustão que ia além do físico. — Pelo menos hoje. Fica aqui comigo.

Nikki riu, um som seco e sem humor.

— Ficar aqui? Para olhar para você e ver que você me olha como se eu fosse o Frank Feranna Senior? Não, obrigado.

Ele se levantou e começou a se vestir. A reconciliação, se é que se podia chamar assim, havia falhado. O sexo não havia purificado a casa; apenas adicionara mais uma camada de sujeira e ressentimento.

— Eu vou sair — anunciou ele, pegando as chaves do Corvette que estavam sobre a cômoda.

— Nikki, são duas da manhã! — Sharise levantou-se, ignorando a dor em seu corpo. — Onde você vai? Para o apartamento do Tommy? Para algum beco?

— Vou para onde não me façam perguntas — respondeu ele, caminhando em direção à porta.

Ele parou por um segundo diante da porta do quarto de Kelly. A mão tatuada hesitou sobre a maçaneta, mas ele não a girou. Ele não tinha coragem de olhar para o filho agora. A vergonha, embora profundamente enterrada sob camadas de ego e narcóticos, ardia como ácido em seu estômago.

— Cuida dele — disse Nikki sem se virar.

— Eu sempre cuido, Nikki. Eu sou a única que cuida — retrucou Sharise, a amargura finalmente transbordando.

Nikki saiu, os passos ecoando escada abaixo. Momentos depois, o rugido do motor do Corvette rasgou o silêncio da madrugada na Franklin Avenue, diminuindo gradualmente até tornar-se apenas um zumbido distante no tráfego de Los Angeles.

Sharise caminhou até o espelho. Ela observou as marcas em seus pulsos, o lábio levemente inchado e o olhar vazio que lhe devolvia o reflexo. Ela se sentia cúmplice. Cúmplice da destruição de Kelly, cúmplice da autodestruição de Nikki.

Ela foi até o quarto do filho. O menino estava em um sono agitado, murmurando algo inaudível. Sharise sentou-se na beira da cama e passou a mão pelos cabelos loiros dele.

— O papai foi trabalhar, meu anjo — mentiu ela mais uma vez, as palavras deixando um gosto de cinzas em sua boca. — Ele vai trazer um brinquedo para você.

Kelly abriu os olhos por um segundo, a névoa do sono ainda presente.

— Mamãe... — sussurrou ele. — Por que o papai está sempre bravo?

Sharise sentiu o coração se despedaçar. Ela não tinha uma resposta que não envolvesse a verdade nua e crua sobre o vício e a herança de dor que Nikki carregava.

— Ele só está cansado, Kelly. O mundo é muito barulhento para ele.

— Eu queria que o barulho parasse — disse o menino, antes de fechar os olhos novamente.

Sharise ficou ali no escuro, ouvindo a respiração do filho. Ela sabia que, em algum lugar de Hollywood, Nikki estava agora injetando ou cheirando algo que o faria esquecer que tinha uma família. Ele voltaria ao amanhecer, talvez com o tal conjunto de trens, talvez com flores, e o ciclo recomeçaria.

A "reconciliação" na cama de casal não havia sido amor; fora apenas o último recurso de um homem que sentia o controle escorregar por entre os dedos e de uma mulher que não tinha forças para soltar a corda.

Lá fora, as luzes de Los Angeles brilhavam, indiferentes à tragédia silenciosa daquela mansão. Para o mundo, Nikki Sixx era o deus do rock, o rebelde incontrolável que vivia a fantasia que todos desejavam. Mas dentro daquelas quatro paredes, ele era apenas um homem quebrado, batendo em seu filho e usando sua esposa para tentar preencher um buraco que nenhuma droga, nenhuma fama e nenhum sexo bruto jamais conseguiriam tapar.

O silêncio voltou a reinar na Franklin Avenue, mas era um silêncio doente, carregado com o cheiro de uísque derramado na cozinha e o eco dos gritos que ninguém ouviu. E enquanto o sol não vinha, Sharise permanecia ali, vigiando o sono do filho, perguntando-se quanto tempo mais aquela casa aguentaria antes que as fundações de vidro finalmente cedesssem sob o peso de Nikki Sixx.