a familia perfeita
O Jejum dos Fantasmas na Franklin Avenue
O vapor do chuveiro subia em colunas espessas, transformando o banheiro revestido de mármore negro em uma sauna sufocante. Nikki Sixx estava sentado no chão do box, com os joelhos puxados contra o peito, deixando que a água quase escaldante castigasse suas costas e ombros. A pele, coberta por uma tapeçaria de tatuagens que contavam a história de uma década de excessos, estava vermelha sob o impacto do calor, mas ele não se movia. Ele precisava sentir aquilo. Precisava de uma sensação física que fosse real, que não viesse de uma agulha ou de um espelho com pó branco.
Faziam três dias que ele não comia nada sólido. Apenas água, café preto e o gosto amargo da própria bile.
Seu estômago roncou, uma contração dolorosa que pareceu ecoar nas paredes de azulejo. Nikki fechou os olhos e sorriu. Era um sorriso sombrio, quase predatório. Pela primeira vez em anos, ele estava sentindo algo que não era induzido quimicamente. A fome era pura. Era uma dor honesta, um buraco no centro de seu ser que ele não estava tentando preencher com veneno. Ele queria sentir o vazio. Queria que o ronco de suas entranhas fosse mais alto que as vozes que imploravam por uma dose.
Ele se levantou devagar, sentindo a tontura típica da desnutrição. O mundo girou por um segundo, as luzes do banheiro borrando em manchas douradas. Ele se apoiou na parede, as mãos trêmulas, e desligou o registro. O silêncio que se seguiu foi pesado, interrompido apenas pelo gotejar rítmico da água e pelo som de sua própria respiração curta.
Nikki saiu do box e parou diante do espelho embaçado. Com a mão, limpou uma fresta no vidro. O reflexo que o encarava era o de um homem de trinta e poucos anos que parecia ter vivido cem. Seus olhos estavam fundos, cercados por olheiras que nem o sono mais profundo poderia apagar, e seu rosto exibia aquele inchaço residual de quem abusou do álcool por tempo demais. Ele odiava aquele inchaço. Odiava a maneira como suas bochechas pareciam esconder o homem que ele costumava ser.
— Você está desaparecendo, Sixx — sussurrou para o reflexo, a voz rouca, uma lixa contra o silêncio.
Ele vestiu um robe de seda preta e saiu para o corredor. A mansão na Franklin Avenue estava silenciosa, mas era um silêncio doente. Sharise estava em algum lugar, provavelmente evitando-o, e Kelly... Kelly agora tinha dezesseis anos. O menino energético que costumava quebrar porcelanas e explorar a casa tinha se transformado em um adolescente silencioso, um estranho que habitava o mesmo teto, carregando nos ombros o peso dos traumas que Nikki havia esculpido nele com o cinto e com a fúria.
Nikki desceu as escadas, sentindo cada degrau como um esforço monumental. Ele foi até a cozinha. O cheiro de comida — talvez algo que Sharise tivesse preparado para o jantar — atingiu seu nariz como uma agressão física. Suas glândulas salivares protestaram, mas ele cerrou os dentes.
Kelly estava lá, sentado à mesa, mexendo em um prato de macarrão com uma expressão de tédio absoluto. O garoto não usava mais os cabelos loiros de infância; agora eram escuros, compridos, escondendo metade do rosto, uma cópia quase perfeita do pai no início do Mötley Crüe.
Nikki parou no batente da porta. Seu estômago deu um solavanco violento, um ronco audível que quebrou a tensão do ambiente.
Kelly levantou os olhos. O olhar do rapaz era frio, desprovido daquela admiração infantil que Nikki havia destruído anos atrás.
— Você parece um cadáver, pai — disse Kelly, a voz plana, sem qualquer traço de preocupação. Era apenas uma observação de fato.
Nikki caminhou até a bancada e serviu-se de um copo de água gelada. Suas mãos ainda tremiam.
— É o jejum — respondeu Nikki, após um longo gole. — Estou limpando o sistema.
— Você está se matando — retrucou Kelly, voltando a enrolar o macarrão no garfo. — De novo. Só que agora é com a falta de comida em vez de heroína. É sempre um drama diferente com você, não é?
Nikki sentiu a pontada de raiva habitual, mas ela não tinha a mesma força de antes. Sem a droga para amplificar sua agressividade, a raiva era apenas uma chama fraca e cansada.
— Você não entende, Kelly. Eu preciso sentir o chão. Eu passei anos flutuando. Se eu não sentir essa fome, eu volto para o que era antes.
Kelly soltou uma risada curta e amarga, largando o garfo. O som do metal batendo na louça fez Nikki estremecer.
— O que você era antes? O cara que me batia porque eu quebrei uma garrafa? O cara que deixava a minha mãe chorando no chão enquanto saía para se drogar com o Tommy? — Kelly se levantou, a altura agora quase igual à de Nikki. — Você acha que passar fome em um banheiro quente vai apagar o que você fez? Você não está sentindo "algo", pai. Você está apenas tentando fugir da culpa de um jeito novo.
— Eu não estou fugindo! — Nikki elevou a voz, e o ronco de seu estômago pareceu sublinhar seu desespero. — Eu estou aqui, não estou? Eu não saí de carro, eu não fui atrás de um traficante. Eu estou nesta porra de casa enfrentando você!
— Você está enfrentando um fantasma, Nikki — disse Kelly, aproximando-se. — Porque o filho que você tinha, aquele que queria o seu carinho, você matou faz tempo. O que sobrou sou eu. E eu não dou a mínima se o seu estômago dói.
Kelly passou pelo pai, esbarrando propositalmente em seu ombro. Nikki cambaleou, a fraqueza física tornando-o vulnerável. Ele se apoiou na mesa, respirando fundo, sentindo o suor frio brotar em sua testa.
Sharise apareceu na porta da cozinha logo em seguida. Ela observou a cena com uma exaustão que parecia ter se tornado parte de sua fisionomia.
— Ele tem razão, sabia? — disse ela, a voz baixa. — Você está trocando um vício por outro. Essa obsessão com o jejum, esses banhos de horas... você está se punindo, Nikki. Mas a sua punição não nos ajuda. Ela só nos lembra do quanto você é instável.
— Eu só quero ficar limpo, Sharise! — Nikki gritou, e o som pareceu rasgar sua garganta seca. — Por que ninguém nesta casa entende que eu estou tentando?
— Porque você está tentando sozinho, como sempre — respondeu ela, caminhando até ele e colocando a mão em seu peito, onde o coração batia de forma irregular. — Você sente prazer nessa dor, não sente? No estômago roncando, na pele queimando na água quente... É a única forma que você conhece de se sentir vivo. Mas a vida não é isso. A vida é sentar à mesa e comer com o seu filho sem que ele tenha medo de você explodir.
Nikki fechou os olhos, sentindo as lágrimas queimarem. Ele se afastou do toque dela, sentindo-se indigno de qualquer suavidade.
— Eu não consigo — sussurrou ele. — Se eu comer, eu fico pesado. Se eu ficar pesado, os demônios me alcançam.
Ele saiu da cozinha e subiu para o andar de cima, trancando-se no escritório. O quarto estava escuro, iluminado apenas pelas luzes da cidade que filtravam pelas cortinas. Ele sentou-se no chão, no tapete persa, e abraçou as pernas.
Seu estômago roncou novamente, uma dor aguda que o fez se encolher. Ele sentiu um prazer perverso naquilo. Cada pontada de fome era um lembrete de que ele ainda tinha algum controle sobre o próprio corpo, mesmo que fosse o controle da destruição. Ele se lembrou de Kelly pequeno, do choro do menino após o espancamento com o cinto. Lembrou-se do gosto do uísque barato misturado com o sangue do próprio lábio que ele mordia para não gritar de ódio de si mesmo.
Ele era Nikki Sixx. O líder do Mötley Crüe. O homem que sobreviveu à morte clínica. E, no entanto, ele era apenas um viciado faminto em um quarto escuro, tentando negociar com o próprio passado.
Horas se passaram. A madrugada caiu sobre Los Angeles, e o silêncio da casa tornou-se absoluto. Nikki sentiu a consciência oscilar. Ele estava em um estado de transe, a fronteira entre o sonho e a realidade borrada pela privação.
De repente, a porta do escritório se abriu com um rangido suave. Nikki não se moveu. Ele achou que era uma alucinação até ver a silhueta de Kelly contra a luz do corredor. O rapaz carregava algo nas mãos.
Kelly entrou e sentou-se no chão, a alguns metros de distância do pai. Ele colocou um prato com uma fatia de pão e um copo de leite entre eles.
— Come — disse Kelly. Não era um pedido, era uma ordem cansada.
Nikki olhou para o pão como se fosse um objeto alienígena.
— Eu disse que não...
— Cala a boca e come — interrompeu Kelly. — Eu não quero acordar amanhã e ter que ajudar a minha mãe a carregar o seu corpo para uma ambulância porque você decidiu que a inanição era a sua nova religião. Eu já vi drama demais nesta casa, Nikki. Come a porra do pão.
Nikki observou o filho. Na penumbra, a raiva de Kelly parecia ter dado lugar a uma resignação profunda. Havia algo de protetor naquele gesto, uma inversão de papéis que fez Nikki sentir uma vergonha que nenhuma droga jamais causara.
— Você me odeia tanto assim? — perguntou Nikki, a voz quase inaudível.
Kelly demorou a responder. Ele olhou para as próprias mãos sujas de graxa — ele estivera mexendo no carro novamente.
— Eu odeio o que você fez conosco — disse Kelly. — Eu odeio o fato de que eu não consigo ter uma conversa normal com você sem esperar que você me atinja. Mas você é o meu pai. E, por algum motivo estúpido, eu ainda quero que você viva. Não porque eu te perdoei, mas porque eu quero ver se você é capaz de ser um homem de verdade um dia.
Nikki estendeu a mão trêmula e pegou o pedaço de pão. Ele levou à boca, mastigando devagar. O sabor era avassalador. O trigo, o sal, a textura... era como se ele estivesse provando comida pela primeira vez na vida. O estômago dele protestou inicialmente, mas depois aceitou a oferta com um alívio que percorreu todo o seu sistema nervoso.
Ele bebeu o leite, o líquido frio acalmando a queimação em sua garganta.
— Obrigado — sussurrou Nikki.
Kelly levantou-se, limpando as calças jeans.
— Não me agradeça. Só para de ser um mártir de merda. O mundo não gira em torno da sua dor, Nikki. Tem gente aqui que sofreu por sua causa sem ter escolhido isso.
Kelly caminhou até a porta, mas parou antes de sair.
— Amanhã, a gente vai mexer no motor do Mustang — disse o rapaz, sem olhar para trás. — Se você estiver de pé e tiver comido, eu te ensino a ajustar o carburador. Se você estiver jogado ai nesse chão sentindo prazer em passar fome, eu vou trancar a porta da garagem e você nunca mais encosta no meu carro.
Kelly saiu, fechando a porta atrás de si.
Nikki ficou sozinho no escuro, o prato vazio diante de si. O ronco no estômago havia parado, substituído por uma sensação de peso que ele não sentia há muito tempo. Não era o peso dos demônios, nem o peso da heroína. Era o peso da realidade.
Ele se levantou e caminhou até a janela. Lá fora, as luzes de Hollywood brilhavam, indiferentes à pequena vitória que acabara de acontecer naquele quarto. Nikki Sixx olhou para as próprias mãos. Elas ainda tremiam, mas ele sentia o calor do leite em seu peito.
Ele não estava perdoado. As marcas em Kelly ainda estavam lá, invisíveis mas profundas. As cicatrizes em Sharise ainda doíam em dias frios. Mas, pela primeira vez, Nikki percebeu que o jejum não era a solução. Sentir fome não apagava o passado; apenas o tornava mais nítido.
Ele foi até o banheiro, ligou a torneira e lavou o rosto com água fria. Ele olhou no espelho. O inchaço ainda estava lá, os olhos fundos ainda estavam lá. Mas ele não desviou o olhar.
— Amanhã — disse ele para si mesmo.
Amanhã ele comeria. Amanhã ele ajudaria o filho com o carro. Amanhã ele tentaria não ser o monstro, mas apenas um homem tentando consertar o que restava de sua própria humanidade.
Nikki deitou-se na cama, e pela primeira vez em três noites, o ronco do estômago não o manteve acordado. O que o manteve desperto por mais alguns minutos foi a imagem de Kelly entregando-lhe o pão — um pequeno pedaço de paz em meio a uma guerra que parecia não ter fim.
Ele fechou os olhos e, finalmente, dormiu o sono dos vivos, não o dos entorpecidos. Na Franklin Avenue, o silêncio finalmente era apenas silêncio.