a familia perfeita
O Espelho da Sobriedade e o Peso do Fantasma
O silêncio na mansão da Franklin Avenue era diferente agora. Não era mais aquele silêncio tenso, carregado de eletricidade estática e fumaça de baseados, que precedia uma explosão de fúria ou um desmaio narcótico. Era um silêncio oco, quase clínico. Nikki Sixx estava sentado no chão de mármore do banheiro principal, as costas encostadas na banheira de hidromassagem que ele raramente usava para outra coisa que não fosse vomitar ou apagar debaixo da água fria.
Ele estava jejuando. Há três dias, nada além de água e café preto passava por sua garganta. Não era um jejum espiritual, embora ele estivesse tentando desesperadamente encontrar algum tipo de alma sob as camadas de couro e tatuagens. Era um expurgo. Ele queria sentir a fome, queria que o estômago roncasse para abafar o barulho das vozes em sua cabeça que imploravam por uma linha de pó ou uma dose de Jack Daniel’s.
Nikki levantou-se devagar. Seus joelhos estalaram, um som seco que pareceu um tiro no banheiro acústico. Ele caminhou até o espelho imenso, emoldurado em ouro, e acendeu as luzes frontais. A claridade foi agressiva. Ele piscou, esperando que a névoa habitual de ressaca turvasse sua visão, mas a sobriedade era um holofote impiedoso.
Pela primeira vez em meses — talvez anos —, ele realmente se viu.
— Que porra é essa? — sussurrou ele, a voz saindo como um lixo arrastado pelo asfalto.
Ele aproximou o rosto do vidro. O homem que o olhava de volta não era o deus do rock esguio e perigoso que estampava os pôsteres da *Hit Parader*. O rosto de Nikki estava inchado, as bochechas arredondadas de uma forma doentia, a mandíbula que costumava ser afiada como uma navalha agora estava perdida sob uma retenção de líquido grotesca. Seus olhos, embora claros devido à falta de substâncias, estavam enterrados em bolsas de cansaço e inflamação.
Ele apertou a própria bochecha com os dedos longos. A pele demorou a voltar ao lugar. O álcool e os excessos não tinham apenas corroído sua mente; eles haviam deformado sua imagem. Ele parecia um boneco de cera que começou a derreter sob o calor das luzes do palco.
— Eu pareço um cadáver inflado — resmungou, sentindo uma onda de auto-aversão que nem a heroína conseguiria anestesiar agora.
A porta do banheiro se abriu silenciosamente. Sharise parou no batente, observando-o. Ela estava usando um roupão de seda, os cabelos presos, e havia uma cautela em seus passos que Nikki sabia que ele mesmo havia instilado nela através de anos de imprevisibilidade.
— Nikki? — chamou ela suavemente. — Você está aí há uma hora. Kelly está perguntando se você vai descer para o café.
Nikki não desviou os olhos do espelho. Ele apontou para o próprio reflexo com um gesto vago.
— Olha para isso, Sharise. Olha para o meu rosto. Eu pareço um balão de festa prestes a estourar.
Sharise aproximou-se, parando ao lado dele. Ela olhou para o reflexo e depois para o homem real. Havia uma tristeza profunda em seus olhos, uma complacência de quem já tinha visto todas as versões de Nikki Sixx, das mais brilhantes às mais patéticas.
— É o álcool saindo, Nikki — disse ela, colocando uma mão hesitante em seu ombro. — Seu corpo está tentando se livrar de todo o veneno que você colocou para dentro. Leva tempo.
— Eu nem percebi — disse ele, a voz embargada pela fome e pela clareza súbita. — Eu passava por esses espelhos todos os dias, me maquiava, colocava o lenço na cabeça e achava que estava arrasando. Eu estava tão chapado que nem vi que estava ficando deformado.
— Você estava ocupado demais tentando não sentir nada — respondeu Sharise, apertando levemente o ombro dele. — O inchaço vai passar. Mas você precisa comer alguma coisa. O jejum não vai acelerar o perdão, Nikki.
— Eu não quero perdão — mentiu ele, afastando-se do espelho. — Eu quero o meu rosto de volta. Eu quero sentir que eu ainda sou o capitão dessa merda de navio.
Ele saiu do banheiro e caminhou pelo corredor em direção à escadaria. A mansão parecia maior quando ele estava sóbrio. Os tetos eram mais altos, as sombras mais longas. Cada passo que dava ecoava, lembrando-o de que ele era o dono daquele império de solidão.
Na cozinha, Kelly estava sentado à mesa. O menino de seis anos brincava com um cereal que já estava amolecido no leite. Ele olhou para cima quando Nikki entrou, e o silêncio que se seguiu foi quase doloroso. Kelly não sorriu; ele apenas observou o pai com aqueles olhos grandes e curiosos, que pareciam sempre prontos para detectar o próximo sinal de perigo.
Nikki sentiu uma pontada no peito. O inchaço em seu rosto era o de menos; o inchaço em sua alma, a inflamação de seu temperamento, era o que realmente importava.
— Bom dia, Kelly — disse Nikki, tentando forçar uma normalidade que não existia.
— Bom dia, papai — respondeu o menino, a voz pequena e cautelosa. — Você vai comer hoje? A mamãe disse que você estava fazendo uma dieta de roqueiro.
Nikki sentou-se à mesa, longe do prato de Kelly. O cheiro do leite e do açúcar o enjoava. Sua cabeça latejava com a desidratação e a falta de cafeína.
— É, algo assim — disse Nikki, passando a mão pelo cabelo desgrenhado. — O papai precisa limpar a máquina, entende? O motor estava meio engasgado.
Kelly inclinou a cabeça, observando o rosto do pai.
— Você está com a cara grande, papai. Parece que você guardou um monte de comida nas bochechas, igual ao esquilo que vi no quintal.
Nikki soltou uma risada curta, que mais pareceu um engasgo. Ele olhou para Sharise, que entrava na cozinha, e viu que ela evitava seu olhar.
— Viu? — disse Nikki para ela. — Até a criança percebeu. Eu sou um esquilo de heroína.
— Nikki, pare — pediu Sharise, servindo uma xícara de café preto para ele. — Não fale assim na frente dele.
— Por que não? — Nikki se inclinou para frente, os olhos fixos em Kelly. — Ele me viu quebrar metade dessa casa, Sharise. Ele me viu bater nele por causa de uma garrafa de vidro. Você acha que uma piada sobre o meu rosto inchado vai traumatizá-lo mais do que o resto?
O clima na cozinha esfriou instantaneamente. Kelly baixou a cabeça, mexendo no cereal novamente. O pequeno ombro do menino subiu, uma reação defensiva que Nikki conhecia bem demais. Ele sentiu a raiva começar a subir — não a raiva de Kelly, mas a raiva de si mesmo por ser incapaz de ter uma refeição normal sem despejar sua toxicidade sobre a mesa.
— Eu vou para o estúdio — disse Nikki, levantando-se tão rápido que a cadeira raspou no chão com um guincho agudo.
— Nikki, você não comeu nada! — Sharise exclamou, deixando a cafeteira de lado. — Você vai desmaiar no meio do ensaio.
— Eu prefiro desmaiar do que continuar olhando para esse reflexo de merda — rosnou ele.
Ele caminhou até a porta, mas parou antes de sair. Ele olhou para Kelly, que ainda não havia levantado a cabeça. O desejo de ir até lá, de abraçar o filho e pedir desculpas por ser um desastre ambulante, era imenso. Mas Nikki não sabia como fazer isso sem as drogas. Sem a anestesia, cada emoção era crua demais, pesada demais. Ele sentia que, se tocasse no filho agora, poderia quebrá-lo novamente, não com a mão, mas com a intensidade de sua própria dor.
— Tchau, Kelly — disse ele, a voz falhando.
— Tchau, papai — respondeu o menino, sem olhar para cima.
Nikki saiu da casa e entrou no seu Corvette. O sol de Los Angeles era um agressor. Ele colocou os óculos escuros, mas mesmo assim a luz parecia perfurar seu cérebro. Ele olhou pelo espelho retrovisor e viu novamente o rosto inchado. Ele socou o volante com força, uma, duas vezes.
— Limpo — sussurrou ele para o interior de couro do carro. — Eu vou ficar limpo até essa porra de inchaço sumir. Até eu não parecer mais com o meu pai.
O trajeto até o estúdio foi um borrão de néon e palmeiras. Nikki sentia-se leve, quase flutuando, uma consequência perigosa do jejum prolongado. Quando ele entrou na sala de ensaio, Tommy Lee já estava lá, espancando a bateria com a energia de dez homens. Mick Mars estava em um canto, uma sombra pálida afinando a guitarra, e Vince Neil estava bebendo algo que parecia ser uma mistura de suco de laranja e vodca.
O cheiro de álcool no estúdio atingiu Nikki como uma parede física.
— Caramba, Sixx! — gritou Tommy, parando o ritmo e apontando com uma baqueta. — O que aconteceu com você? Você foi picado por um enxame de abelhas ou finalmente a sua cara resolveu se rebelar contra o sistema?
Vince deu uma risadinha, limpando a boca.
— Ele parece que engoliu um baixo Precision, cordas e tudo.
Nikki ignorou as provocações, embora cada palavra fosse como um prego sendo martelado em sua paciência. Ele pegou seu baixo, sentindo o peso do instrumento sobre o ombro. Suas mãos estavam trêmulas.
— Eu estou jejuando — disse Nikki, a voz fria. — Estou limpando o sistema. Algum problema com isso?
Mick Mars levantou os olhos, a expressão ilegível sob o chapéu.
— O jejum é bom para a alma, Nikki. Mas é péssimo para o tempo da música. Você está pálido.
— Eu estou bem — rebateu Nikki, ligando o amplificador. O zumbido da eletricidade foi um conforto. — Vamos tocar *Shout at the Devil*. Agora.
Eles começaram. O som era uma agressão necessária. Nikki tocava com uma fúria que vinha das entranhas vazias. Ele queria que o som arrancasse o inchaço de seu rosto, que a vibração das cordas expelisse o líquido retido em seus tecidos. Mas, após dez minutos, o mundo começou a girar.
As luzes do estúdio pareciam estar derretendo. O rosto de Tommy na bateria tornou-se uma massa borrada de movimento. Nikki sentiu o suor frio escorrer por suas costas, e o peso do baixo tornou-se insuportável, como se estivesse segurando um bloco de chumbo.
Ele parou de tocar no meio de uma frase musical.
— Sixx? — a voz de Vince parecia vir de dentro de um túnel.
Nikki largou o baixo. O instrumento bateu no chão com um estrondo dissonante que ecoou pelo estúdio. Ele cambaleou até o sofá de veludo no fundo da sala e desabou.
— Alguém traz uma água para esse cara! — gritou Tommy, pulando de trás da bateria.
Nikki sentiu mãos em seus ombros, vozes perguntando se ele estava bem, mas tudo o que ele conseguia pensar era no espelho. Ele via o reflexo de seu rosto inchado projetado em cada superfície escura do estúdio. Ele via a expressão de Kelly na cozinha.
— Eu só... — Nikki tentou falar, mas a língua parecia pesada demais. — Eu só quero ficar limpo.
— Você vai se matar tentando ficar limpo desse jeito, seu idiota — disse Tommy, colocando uma garrafa de água na mão dele. — Beba. E coma uma porra de um hambúrguer antes que você vire um fantasma.
Nikki bebeu a água lentamente. A clareza começou a voltar, e com ela, a dor de cabeça lancinante. Ele olhou para os companheiros de banda. Eles o olhavam com uma mistura de preocupação e irritação. Eles eram seus irmãos, mas nenhum deles sabia o que era acordar e não se reconhecer no espelho. Nenhum deles carregava o peso de ter agredido um filho de seis anos por causa de um delírio químico.
— Eu me vi hoje — disse Nikki, a voz baixa, quase um sussurro. — Eu realmente me vi no espelho. Sem o pó, sem o uísque. Eu pareço um monstro, Tommy. Eu pareço exatamente o que eu sou por dentro.
Tommy sentou-se ao lado dele, o silêncio raro caindo sobre o baterista.
— Todos nós parecemos monstros às vezes, cara. É o rock n' roll. A gente vive rápido, a gente incha, a gente murcha. É o preço do ingresso.
— Não para o meu filho — disse Nikki, as lágrimas finalmente vencendo a barreira. — Ele me olha e vê o inchaço. Ele me olha e vê a raiva. Eu não quero que ele cresça lembrando de um pai que parecia um balão de álcool prestes a explodir sobre ele.
Nikki ficou no estúdio por mais algumas horas, mas não tocou mais. Ele apenas observou os outros, sentindo a fome física ser substituída por uma fome de algo que ele não sabia nomear. Redenção? Talvez. Mas a redenção parecia algo muito limpo para alguém como ele.
Quando ele voltou para casa naquela noite, o sol já estava se pondo, pintando o céu de Los Angeles com tons de roxo e laranja que lembravam um hematoma. Ele entrou em casa silenciosamente. Sharise estava na sala, lendo um livro.
— Você está vivo — disse ela, sem sarcasmo, apenas alívio.
— Por enquanto — respondeu Nikki. Ele caminhou até a cozinha e, com as mãos ainda trêmulas, pegou uma maçã da fruteira. Ele deu uma mordida. O gosto era explosivo. — Eu quebrei o jejum. Tommy quase me internou em um hospício.
Sharise levantou-se e foi até ele. Ela tocou seu rosto novamente, traçando a linha da bochecha inchada.
— O inchaço está um pouco menor — mentiu ela carinhosamente.
— Não minta para mim, Sharise. Eu ainda pareço um porco — disse ele, mas desta vez não havia fúria na voz, apenas uma aceitação cansada. — Onde está o Kelly?
— No quarto. Ele estava desenhando.
Nikki subiu as escadas. Ele parou diante da porta do quarto de Kelly. Ele respirou fundo, sentindo o ar entrar nos pulmões sem o peso do cigarro ou do pó. Ele abriu a porta devagar.
Kelly estava sentado em sua pequena mesa, concentrado em um papel com giz de cera. Ele olhou para trás quando ouviu a porta.
— Oi, papai.
Nikki entrou e sentou-se no chão, ao lado da mesa. O movimento ainda o deixava um pouco tonto, mas ele ignorou.
— O que você está desenhando, campeão?
Kelly mostrou o papel. Era um desenho de um carro grande, com chamas saindo das rodas. E, ao volante, havia uma figura com cabelos pretos espetados.
— É você, papai. Indo para o estúdio.
Nikki observou o desenho. No papel, o rosto da figura era apenas um círculo com dois pontos para os olhos e um sorriso largo. Não havia inchaço. Não havia olheiras. Não havia marcas de agulha. Era apenas "o papai".
— Você me desenhou sorrindo — notou Nikki, a voz embargada.
— Você sorri às vezes — disse Kelly, voltando a pintar as chamas. — Quando você não está dormindo no sofá ou gritando com a mamãe. Eu gosto quando você sorri.
Nikki sentiu uma lágrima escorrer, mas desta vez ele não a limpou. Ele estendeu a mão e tocou levemente o topo da cabeça de Kelly. O menino não se encolheu. Foi um progresso minúsculo, um milímetro de terreno conquistado em um campo de batalha devastado.
— O papai vai tentar sorrir mais — prometeu Nikki. — E eu vou tentar... eu vou tentar diminuir o tamanho do rosto, tá bom?
Kelly riu, uma risada pura que iluminou o quarto escuro.
— Tá bom, papai. Mas eu ainda gosto de você, mesmo se você for um esquilo.
Nikki ficou ali por um longo tempo, sentado no chão do quarto do filho. A fome ainda estava lá, a vontade de usar drogas ainda era um sussurro constante no fundo de sua mente, e seu rosto no espelho ainda era o de um estranho inflado pelo veneno. Mas, ali no chão, cercado por giz de cera e desenhos de carros, Nikki Sixx sentiu que o inchaço não era permanente.
Ele estava jejuando de sua antiga vida. E, embora a abstinência fosse um inferno, o olhar de Kelly era o único espelho que ele realmente precisava enfrentar se quisesse, um dia, voltar a ser o homem que o filho desenhava.
— Um dia de cada vez — sussurrou Nikki, enquanto o filho continuava a pintar, alheio aos demônios que o pai tentava manter trancados do lado de fora da porta.
Naquela noite, Nikki Sixx não olhou no espelho antes de dormir. Ele apenas fechou os olhos e esperou que o amanhã trouxesse um pouco menos de veneno e um pouco mais de silêncio. O silêncio bom. O silêncio de quem, finalmente, está começando a acordar.