A Historia
Ecos do Subterrâneo e a Herança de Sangue
O sol da manhã, embora trouxesse uma promessa de renovação para os civis resgatados, parecia pesado sobre os ombros do trio. Eles não esperaram a chegada completa das autoridades; heróis como eles, nascidos de tubos de ensaio e fórmulas proibidas, sabiam que a linha entre "salvadores" e "propriedades recuperadas" era perigosamente tênue para o governo.
Escondidos em um antigo galpão de trens desativado na periferia da cidade, o silêncio era interrompido apenas pelo som rítmico das lambidas de Super Gato, que tentava limpar a fuligem de seus pelos amarelos. Suas patas ainda latejavam devido à sobrecarga elétrica.
— Você está bem, Gato? — perguntou Lua, aproximando-se com um pequeno kit médico que mantinha escondido sob uma das vigas de ferro. Suas três caudas estavam baixas, denotando o cansaço mental de ter invadido um sistema de inteligência artificial de última geração.
— Vou sobreviver — respondeu Super Gato, soltando um suspiro longo. — Mas aquela descarga... senti como se cada molécula do meu corpo estivesse sendo reescrita. Aris não estava brincando sobre a potência daquele gerador.
Cachorro Escuro estava deitado em um canto escuro, onde as sombras pareciam se fundir naturalmente à sua pelagem roxa. Seus olhos galácticos brilhavam com uma intensidade melancólica.
— Ela disse que a A.S.A. é maior que aquele prédio — rosnou o cão, a voz vibrando no peito de forma profunda. — Eu senti isso, Gato. Enquanto eu derrubava aqueles guardas, percebi que a tecnologia deles não vinha apenas de engenharia. Havia algo... orgânico. Algo que cheirava como nós.
Lua parou de enfaixar a pata de Super Gato e olhou para o companheiro de grande porte.
— Você acha que existem outros? — perguntou ela, a voz carregada de uma esperança que beirava o medo.
— Não apenas acho — disse Cachorro Escuro, levantando-se e caminhando até o centro do galpão. — Eu tenho certeza. Durante a luta, um dos guardas deixou cair um comunicador. Antes de esmagá-lo, ouvi uma transmissão. Falavam sobre o "Setor Ômega" e o transporte de "Lotes de Segunda Geração".
Super Gato ficou de pé instantaneamente, ignorando a dor.
— Se a Aris tem mais de nós, e se ela está aprimorando o processo, o que fizemos hoje foi apenas podar um galho de uma árvore venenosa. Precisamos das informações que você baixou, Lua. O que o banco de dados dizia sobre esse tal Setor Ômega?
A raposa amarela suspirou e ativou o bracelete em sua pata. Um holograma azulado projetou-se no ar frio do galpão, exibindo linhas complexas de código e mapas geográficos que pareciam não fazer sentido à primeira vista.
— Eu consegui extrair muita coisa antes do sistema entrar em autodestruição lógica — explicou Lua, manipulando os dados com movimentos rápidos de suas caudas. — Mas a Aris é esperta. Ela usou criptografia quântica baseada em DNA. Para abrir esses arquivos, eu não preciso apenas de poder de processamento... eu preciso de uma chave biológica.
— Uma chave biológica? — indagou Super Gato, aproximando o focinho do holograma. — O que isso significa na prática?
— Significa — Lua hesitou, olhando para os amigos — que só alguém que compartilha a mesma linhagem genética dos experimentos originais pode desbloquear o mapa. Ou seja, um de nós. Mas não qualquer um. O sistema pede a assinatura do "Paciente Zero".
Um silêncio sepulcral caiu sobre o grupo. Eles sabiam quem era o Paciente Zero. Ou, pelo menos, sabiam o que as lendas dos laboratórios diziam sobre ele. Era o primeiro sucesso da A.S.A., aquele que deu origem a todas as mutações subsequentes.
— O Paciente Zero desapareceu há cinco anos — lembrou Cachorro Escuro, as orelhas baixas. — Diziam que ele tinha morrido durante a Grande Explosão que destruiu a primeira sede.
— Ou — interveio Super Gato — ele foi o único esperto o suficiente para fugir e se esconder tão bem que nem a A.S.A. conseguiu encontrá-lo. Lua, você consegue rastrear qualquer rastro de frequência que combine com o código dele?
— Estou tentando — murmurou a raposa, fechando os olhos para se concentrar. — Se ele estiver vivo, e se ele estiver usando seus poderes, ele emite uma assinatura de energia única. É como procurar uma agulha em um palheiro de eletricidade urbana, mas... esperem.
As três caudas de Lua começaram a girar lentamente, criando um zumbido suave. O holograma começou a piscar em vermelho em um ponto específico do mapa da cidade: o Distrito Industrial Sul, uma zona abandonada e repleta de túneis de esgoto antigos.
— Encontrei algo — disse ela, ofegante. — É fraco, quase imperceptível, mas é a mesma assinatura de base que nós temos. Está vindo debaixo da terra.
— Então temos o nosso próximo destino — declarou Super Gato, ajustando seu cinto. — Se o Paciente Zero estiver lá, ele pode ser a nossa única chance de derrubar a A.S.A. de vez antes que eles ativem o resto do Projeto Ressurreição.
— E se ele não quiser ser encontrado? — perguntou Cachorro Escuro. — Se ele fugiu, foi por um motivo. Ele pode nos ver como inimigos, ou pior, como emissários da Aris.
— Teremos que convencê-lo do contrário — respondeu o gato amarelo, seus olhos verdes brilhando com determinação. — Somos a Turma. Nós não deixamos ninguém para trás, especialmente um dos nossos.
O trio partiu sob o manto da noite que voltava a cair. O Distrito Industrial Sul era um labirinto de metal retorcido e chaminés que não soltavam fumaça há décadas. O cheiro de ferrugem era sufocante.
— Por aqui — guiou Lua, apontando para uma entrada de ventilação que levava às profundezas.
Eles desceram por túneis estreitos e úmidos. O silêncio lá embaixo era diferente; era um silêncio que parecia observar. Cachorro Escuro mantinha-se na retaguarda, seus sentidos aguçados para qualquer movimento nas sombras.
— Tem algo errado — sussurrou o cão roxo. — O cheiro... não é apenas de mofo. Há algo... metálico e doce. Sangue?
— Ou fluido de contenção — sugeriu Super Gato, desembainhando as garras.
De repente, o túnel se abriu em uma vasta câmara subterrânea. Não era um esgoto comum; era uma instalação improvisada, repleta de monitores velhos, cabos remendados e tanques de oxigênio. No centro da sala, sentado em uma cadeira feita de sucata, estava uma figura envolta em um manto esfarrapado.
— Vocês demoraram para chegar — disse uma voz rouca, que parecia vir de cordas vocais que não eram usadas há muito tempo.
A figura levantou-se, revelando-se. Era um lobo de pelagem cinza-azulada, com cicatrizes profundas cruzando seu rosto e um braço mecânico rudimentar que soltava faíscas. Seus olhos, no entanto, eram idênticos aos de Super Gato: verdes, vibrantes e cheios de uma inteligência dolorosa.
— Você é o Paciente Zero? — perguntou Lua, dando um passo à frente, suas caudas iluminando o ambiente.
O lobo soltou uma risada amarga.
— Eles me chamavam de muitas coisas. Mas prefiro o nome que eu mesmo escolhi: Zero. E eu sei por que estão aqui. Vocês sentiram o despertar da máquina, não sentiram? A Aris não parou no subsolo 4. Aquilo era apenas o coração. O corpo da A.S.A. está espalhado por toda a rede elétrica desta cidade.
— Viemos buscar a chave — disse Super Gato, mantendo a postura firme. — Precisamos dos arquivos que a Lua baixou. Precisamos saber onde estão os outros centros de pesquisa.
Zero caminhou lentamente até eles, o som de sua pata mecânica batendo no chão de concreto ecoando como um relógio de má sorte.
— A chave que vocês procuram não é um código, pequeno gato. É uma maldição. Se eu abrir esses arquivos para vocês, a A.S.A. saberá exatamente onde estamos. No momento em que a criptografia for quebrada, um sinal de localização será disparado. Vocês estão prontos para lutar contra uma frota inteira para salvar pessoas que nem sabem que vocês existem?
— Nós já fizemos isso hoje — respondeu Cachorro Escuro, aproximando-se de Zero. — E faremos de novo. A Aris está drenando vidas. Não podemos ficar sentados enquanto ela "otimiza" a humanidade.
Zero olhou para o cão roxo por um longo tempo, parecendo reconhecer a dor em seus olhos.
— Você tem a sombra dentro de você, cão. A A.S.A. tentou transformar sua tristeza em arma. Mas vejo que você a transformou em escudo. Muito bem.
O lobo estendeu o braço mecânico em direção ao holograma de Lua.
— Mas saibam de uma coisa — avisou Zero. — O Projeto Ressurreição não é sobre criar softwares ou curar doenças. É sobre transferência de consciência. Aris não quer apenas controlar o mundo; ela quer viver para sempre em um corpo que não possa ser destruído. E ela escolheu o próximo receptáculo.
— Quem? — perguntou Lua, o coração acelerado.
Zero apontou para Super Gato.
— O gato amarelo. A mutação dele é a única que possui a estabilidade celular necessária para suportar a mente de Aris sem entrar em colapso. Ela deixou vocês escaparem hoje. Ela queria que vocês viessem até mim. Ela precisava que a chave fosse ativada para que o processo de sincronização começasse.
Super Gato sentiu um calafrio percorrer sua espinha. As descargas elétricas que ele suportou no laboratório... não foram apenas acidentais.
— Então eu fui marcado? — perguntou Super Gato, sua voz falhando por um breve segundo.
— Sim — disse Zero, enquanto seus dedos mecânicos começavam a digitar no ar, interagindo com o holograma de Lua. — Mas vocês têm uma vantagem. Ela não esperava que eu ainda estivesse vivo para contar a verdade.
O holograma de Lua mudou drasticamente. O mapa da cidade desapareceu, sendo substituído por uma rede global. Milhares de pontos vermelhos brilharam ao redor do mundo.
— A A.S.A. não é uma empresa — revelou Lua, horrorizada com os dados que surgiam. — É uma rede de parasitas. Eles estão em todos os governos, em todos os hospitais.
— E agora eles sabem onde estamos — disse Zero, enquanto um alarme estridente começou a soar nos túneis acima deles.
Vibrações pesadas sacudiram o teto da câmara subterrânea. O som de motores de jatos e o barulho de botas táticas aproximando-se indicavam que o tempo de conversa havia acabado.
— Eles estão aqui — rosnou Cachorro Escuro, suas sombras se expandindo para cobrir as entradas da sala.
— Lua, pegue os dados! — ordenou Super Gato. — Zero, você vem com a gente!
— Não — disse o lobo cinza, pegando um detonador de um painel próximo. — Eu vivi nas sombras por tempo demais. Se a Aris quer o Paciente Zero, ela vai ter o que restou dele. Vocês precisam ir. O mapa que a Lua agora possui mostra um santuário no norte. Outros como nós estão esperando.
— Não vamos deixar você para trás! — gritou Lua.
— Vocês não estão deixando ninguém — disse Zero com um sorriso triste. — Estão levando a esperança. Agora, corram!
Uma explosão derrubou a parede leste da câmara. Guardas em armaduras negras, equipados com visores térmicos e armas de supressão, invadiram o local.
— Protejam o Gato! — rugiu Cachorro Escuro, lançando-se contra a primeira linha de soldados como um furacão roxo.
Super Gato hesitou por um momento, olhando para Zero, que agora lutava com uma ferocidade selvagem, usando seu braço mecânico para esmagar os capacetes dos invasores.
— Vamos, Gato! — gritou Lua, puxando-o pela pata. — Precisamos levar essa informação para o santuário! É a nossa única chance de contra-atacar!
Com o coração pesado, Super Gato seguiu a raposa por um túnel de serviço estreito, enquanto o som da batalha e das explosões diminuía atrás deles. Eles emergiram em um beco chuvoso a quilômetros de distância, exaustos e com a alma marcada por mais uma perda.
Eles pararam por um momento para recuperar o fôlego. A chuva lavava o sangue e a fuligem, mas não a sensação de urgência.
— O que faremos agora? — perguntou Lua, as caudas encharcadas e pesadas.
Super Gato olhou para o horizonte, onde as luzes da cidade agora pareciam olhos de um monstro vigilante. Ele sentiu uma conexão estranha, um zumbido na base de seu cérebro que não estava lá antes. Aris estava tentando entrar. Mas ele não permitiria.
— Agora — disse Super Gato, sua voz assumindo um tom de liderança que nunca tivera antes — nós deixamos de ser a presa. Se a A.S.A. quer a perfeição, vamos mostrar a eles que a perfeição nasce da nossa liberdade. Vamos para o norte. Vamos encontrar o santuário. E depois... vamos quebrar cada engrenagem dessa empresa.
Cachorro Escuro apareceu nas sombras do beco, ofegante, mas vivo. Ele apenas assentiu, pronto para o que viria.
A Turma estava mais uma vez em movimento. O passado os havia criado, o presente os havia testado, mas o futuro... o futuro pertencia a eles. E enquanto caminhavam em direção ao desconhecido, a luz das três caudas de Lua brilhava como um farol de rebeldia contra a escuridão de aço da A.S.A.