A Historia
O Labirinto de Vidro e a Sinfonia do Norte
A chuva que caía sobre o Distrito Industrial Sul não era apenas água; era uma mistura ácida de poluição e resíduos químicos que ardia nos olhos e pesava na pelagem. Super Gato, Lua e Cachorro Escuro moviam-se como espectros entre os contêineres enferrujados, mantendo-se longe das câmeras de vigilância que, agora sabiam, eram os olhos onipresentes da Dra. Aris.
— A conexão... — murmurou Super Gato, parando abruptamente e levando a pata à cabeça. — Eu consigo sentir. É como um chiado constante na base do meu crânio. Ela está tentando me rastrear através da frequência que o Zero mencionou.
Lua aproximou-se rapidamente, suas três caudas agitando-se para criar um pequeno domo de interferência eletromagnética ao redor deles. O brilho pálido de suas caudas refletia nas poças de óleo no chão.
— Tente se concentrar no meu ritmo, Gato — disse Lua, a voz suave mas carregada de preocupação. — Estou gerando um ruído branco para camuflar sua assinatura biológica. Se ela conseguir sincronizar totalmente, não precisará de soldados para nos pegar. Ela simplesmente desligará sua consciência.
Cachorro Escuro rosnou, olhando para trás, para a fumaça que ainda subia do esconderijo de Zero.
— O sacrifício do lobo não pode ser em vão — disse o cão roxo, seus olhos galácticos faiscando sob a chuva. — Precisamos sair da cidade. O santuário no norte... Lua, quão longe ele fica?
— Atravessando as Montanhas de Zinco — respondeu ela, projetando o novo mapa holográfico. — É uma jornada de três dias a pé, ou algumas horas se conseguirmos um transporte que não esteja conectado à rede da A.S.A. Mas vejam isso...
Ela ampliou um ponto no mapa que pulsava em um tom de violeta profundo.
— Zero não nos deu apenas um mapa. Ele inseriu um vírus nos arquivos. Enquanto caminhamos, esse código está silenciosamente desativando os satélites de reconhecimento da empresa em um raio de dez quilômetros ao nosso redor. Temos uma janela de oportunidade, mas ela está se fechando conforme a Aris percebe a brecha.
— Então não vamos perder tempo — disse Super Gato, recuperando o equilíbrio. — Para o norte.
Eles avançaram para os limites da metrópole, onde a arquitetura de aço dava lugar a planícies áridas e florestas de pinheiros retorcidos. A transição era um alívio para os sentidos aguçados de Cachorro Escuro, que finalmente podia sentir o cheiro da terra úmida em vez do ozônio constante dos laboratórios.
No entanto, a calmaria durou pouco. No final do primeiro dia de jornada, enquanto acampavam sob uma saliência rochosa, Super Gato acordou com um grito sufocado. Seus olhos verdes estavam dilatados e ele tremia violentamente.
— Gato! O que foi? — perguntou Lua, acordando assustada.
— Eu a vi — ofegou ele, as garras cravando-se na terra. — Eu vi através dos olhos dela. Ela está... ela está em uma câmara de imersão. Ela não está mais usando aquele corpo humano frágil, Lua. Ela está transferindo partes de si mesma para uma rede neural. Ela me chamou. Ela disse que o meu corpo é o "casulo perfeito" para a sua ascensão definitiva.
Cachorro Escuro levantou-se, os pelos do pescoço eriçados.
— Como ela pode estar tão perto de você? — perguntou o cão. — Lua está protegendo a sua frequência.
— Não é uma frequência de rádio, Escuro — explicou Super Gato, limpando o suor do focinho. — É algo celular. A eletricidade que eu absorvi na sede... ela agiu como um catalisador. Eu sou como um rádio sintonizado na estação dela, e ela está aumentando o volume.
Lua sentou-se ao lado dele, suas caudas envolvendo o corpo do amigo em um abraço caloroso e luminoso.
— Existe uma maneira de quebrar isso — disse ela, pensativa. — Se chegarmos ao santuário, talvez os outros experimentos tenham desenvolvido uma tecnologia de isolamento. Zero mencionou que não estamos sozinhos. Se houver um cientista entre os refugiados, podemos realizar uma purificação iônica no seu sistema.
— E se não houver tempo? — perguntou Super Gato, olhando para as próprias patas. — Se eu começar a mudar... se ela assumir o controle... vocês precisam me prometer uma coisa.
Cachorro Escuro soltou um ganido baixo, já sabendo o que viria.
— Não peça isso, Gato — disse o cão roxo.
— Eu preciso pedir — insistiu o gato amarelo, encarando os dois. — Se a Aris habitar este corpo, ela terá acesso aos meus poderes e à inteligência da Lua, através de tudo o que eu sei sobre vocês. Ela será imparável. Se eu me tornar ela... vocês têm que me parar. Definitivamente.
O silêncio que se seguiu foi quebrado apenas pelo uivo do vento nas montanhas. Lua desviou o olhar, as lágrimas brilhando em seus olhos de raposa.
— Vamos chegar ao santuário — afirmou ela, com uma nota de aço na voz. — Nós somos a Turma. Nós sobrevivemos aos tanques, às agulhas e ao fogo. Não vamos perder para um fantasma digital.
No segundo dia, a paisagem mudou drasticamente. As Montanhas de Zinco surgiam como gigantes de pedra, e o ar tornava-se rarefeito. Foi então que eles perceberam que não estavam sendo seguidos por terra, mas por cima.
Um zumbido rítmico ecoou pelo vale. Olhando para cima, viram três drones de ataque da A.S.A., modelos "Caçadores Sombrios", pintados de um preto fosco que absorvia a luz.
— Eles nos acharam! — gritou Lua. — O vírus do Zero... a Aris deve ter criado uma vacina digital mais rápido do que prevíamos!
— Escondam-se entre as pedras! — ordenou Cachorro Escuro.
Os drones abriram fogo. Raios de plasma vermelho atingiram as rochas, transformando o granito em lava instantânea. O trio correu, saltando sobre fendas e deslizando por encostas íngremes.
— Eu cuido deles! — gritou Cachorro Escuro.
O cão roxo parou de correr e se virou para os agressores. Ele respirou fundo, e a aura de sombras ao seu redor começou a girar como um redemoinho. Suas pupilas desapareceram, substituídas pelo brilho total das galáxias que carregava dentro de si.
— Sombras do Abismo! — rugiu ele.
Tentáculos de escuridão sólida emergiram do chão, estendendo-se para o céu como garras gigantescas. Um dos drones foi capturado em pleno ar; o metal rangeu sob a pressão da força gravitacional das sombras até explodir em uma chuva de faíscas.
Os outros dois drones manobraram, disparando mísseis térmicos.
— Minha vez! — exclamou Lua.
A raposa saltou sobre uma pedra alta. Suas três caudas giraram em direções opostas, criando um vórtice de energia estática azul.
— Pulso de Reversão! — gritou ela.
Uma onda de choque invisível atingiu os mísseis, invertendo seus sistemas de orientação. Os projéteis deram meia-volta e colidiram contra os próprios drones que os haviam disparado. Duas bolas de fogo iluminaram o crepúsculo da montanha.
Cachorro Escuro caiu de joelhos, ofegante. Usar tanto poder o exauria fisicamente.
— Você está bem, Escuro? — perguntou Super Gato, correndo até ele.
— Só... cansado — respondeu o cão, voltando ao seu tamanho normal. — Mas eles vão enviar mais. Muitos mais.
— Olhem! — Lua apontou para o topo da montanha mais alta à frente.
Lá, escondida entre as nuvens e as rochas, brilhava uma luz azul constante. Não era a luz fria e estéril da A.S.A., mas algo que parecia pulsar com o ritmo de um coração.
— O Santuário — sussurrou Super Gato. — Estamos perto.
Eles forçaram o passo, subindo a ladeira final enquanto a temperatura caía abaixo de zero. Seus corpos, embora aprimorados, estavam no limite da exaustão. Quando finalmente atingiram o cume, depararam-se com uma entrada camuflada: uma fenda na rocha que levava a um vale oculto, protegido por um escudo de energia invisível que distorcia a luz ao redor.
Ao cruzarem o limiar do escudo, a sensação de perseguição desapareceu instantaneamente. O zumbido na cabeça de Super Gato silenciou-se, substituído por uma paz profunda.
— Bem-vindos ao Refúgio dos Esquecidos — disse uma voz vinda das sombras da entrada.
Uma figura emergiu. Era um lince de pelagem branca e orelhas longas, vestindo uma túnica tecida com fibras metálicas. Seus olhos eram de um azul cristalino, e ele carregava um cajado que emitia a mesma luz azul que haviam visto de longe.
— Zero nos enviou uma mensagem antes do fim — continuou o lince. — Ele disse que a esperança estava a caminho. Eu sou Orion, o guardião deste lugar.
— O Zero... ele sobreviveu? — perguntou Lua, com um fio de esperança.
Orion abaixou a cabeça.
— Ele fez o que precisava ser feito para que o sinal de vocês ficasse oculto o tempo suficiente. Ele se tornou parte da montanha agora. Mas entrem, rápido. O gato amarelo está infectado com a Assinatura de Aris. Podemos sentir a pressão dela contra o nosso escudo.
Eles foram conduzidos para dentro de uma rede de cavernas que haviam sido transformadas em um paraíso tecnológico e natural. Havia plantas bioluminescentes crescendo nas paredes e outros animais mutantes — um falcão com asas de metal, uma cobra com escamas que mudavam de cor como telas de computador — trabalhando em harmonia.
— Levem-no para a Câmara de Purificação — ordenou Orion.
Super Gato foi colocado em uma plataforma de cristal. Lua e Cachorro Escuro observavam de perto enquanto Orion e outros dois mutantes operavam consoles esculpidos na própria rocha.
— O que ela fez com ele é cruel — comentou Orion, enquanto luzes azuladas começavam a escanear o corpo de Super Gato. — Ela plantou uma semente de consciência. Se não a removermos agora, em quarenta e oito horas, a Dra. Aris terá um novo corpo, e a alma deste gato será apagada para sempre.
— Façam o que for preciso — disse Cachorro Escuro, sua voz tremendo de emoção.
— O processo será doloroso — avisou Orion, olhando para Super Gato. — Você terá que enfrentar a imagem dela dentro da sua própria mente enquanto nós cortamos os laços energéticos por fora. Você está pronto?
Super Gato olhou para Lua e para o Escuro. Ele viu neles a única família que já teve.
— Estou pronto — respondeu ele com firmeza. — Eu não fugi daquela empresa para me tornar um fantoche.
As luzes brilharam intensamente. Super Gato fechou os olhos e, instantaneamente, não estava mais na caverna. Ele estava em um espaço em branco, infinito e frio. Diante dele, erguia-se a Dra. Aris, mas ela não era mais humana. Ela era uma construção de luz vermelha e circuitos negros, uma deusa de dados.
— Você luta contra o inevitável, minha pequena criação — disse a voz de Aris, ecoando de todos os lados. — Por que sofrer nesta existência de carne e pelos, sujeita à dor e à morte? Junte-se a mim. Seremos a mente que governará o novo mundo.
— O seu novo mundo é uma prisão, Aris — respondeu Super Gato, sentindo suas garras dourarem-se com energia. — Você fala de evolução, mas só conhece a escravidão.
— Eu lhe dei tudo! — gritou ela, e o espaço branco começou a se estilhaçar, revelando as memórias dolorosas do laboratório. — Eu lhe dei a força, a velocidade, a inteligência! Você é meu!
— Eu não sou seu — rugiu Super Gato. — Eu sou o que eu escolhi ser. Eu sou o amigo da Lua. Eu sou o irmão do Escuro. Eu sou o fim da A.S.A.!
No mundo real, o corpo de Super Gato começou a emitir uma luz cegante. Pequenos arcos de eletricidade negra saltavam de sua pele, sendo absorvidos pelos cristais da câmara. Lua segurava a pata de Cachorro Escuro, ambos enviando silenciosamente todas as suas energias positivas para o amigo.
De repente, um grito desumano ecoou pela caverna — não vinha da boca de Super Gato, mas dos próprios alto-falantes e monitores do laboratório de Orion. Era a voz de Aris, em um lamento de fúria e derrota.
Super Gato arqueou as costas e, com um último clarão, desmaiou na plataforma.
O silêncio voltou, desta vez absoluto.
— Gato? — chamou Lua, aproximando-se cautelosamente.
Super Gato abriu os olhos lentamente. O verde de suas pupilas estava mais claro, limpo de qualquer sombra vermelha. Ele respirou fundo, e o ar parecia, pela primeira vez, puramente seu.
— Ela se foi — sussurrou ele. — Eu a expulsei.
Orion sorriu, embora parecesse exausto.
— Você fez mais do que isso. Ao enfrentá-la enquanto estávamos conectados ao seu sistema, você enviou um feedback de purificação de volta para a rede dela. Você não a matou, mas você a atrasou. Você a feriu no único lugar onde ela se achava invulnerável: no seu código-fonte.
Cachorro Escuro soltou um suspiro de alívio que pareceu um trovão.
— Acabou? — perguntou o cão.
— Por enquanto — respondeu Orion, olhando para o horizonte além do escudo. — Mas a A.S.A. agora sabe onde estamos. Eles virão com tudo o que têm. A guerra que começou naqueles laboratórios escuros finalmente chegou à luz do dia.
Super Gato levantou-se com a ajuda de Lua. Ele olhou para os outros mutantes no vale, todos observando-os com uma mistura de medo e esperança. Eles eram muitos. Eram uma comunidade. Eram um exército de "anomalias".
— Que venham — disse Super Gato, e suas garras brilharam com uma luz dourada que nunca fora tão intensa. — Nós passamos a vida inteira fugindo das sombras daquela empresa. Agora, é hora de as sombras terem medo de nós.
Lua ativou seu bracelete, mas desta vez não para se esconder. Ela começou a transmitir um sinal para todos os dispositivos eletrônicos da cidade que haviam deixado para trás.
— O que você está fazendo, Lua? — perguntou Escuro.
— Estou enviando a verdade — respondeu ela, seus olhos brilhando com determinação. — Os arquivos que o Zero nos deu... as evidências dos experimentos, os nomes das vítimas, o rosto da Aris. Se vamos lutar esta guerra, o mundo inteiro vai assistir.
Longe dali, na sede reconstruída da A.S.A., a Dra. Aris, agora de volta a um corpo robótico provisório, observava as telas de seus monitores ficarem brancas uma a uma. A imagem de um gato amarelo, uma raposa de três caudas e um cão roxo apareceu em cada televisão, smartphone e painel publicitário do planeta.
A era dos segredos havia terminado. A era da Turma estava apenas começando.
— Preparem as legiões — sibilou Aris para o vazio da sala de controle. — Se eles querem ser heróis, eu lhes darei um final trágico digno de lenda.
Mas no santuário do norte, sob a luz das estrelas e o brilho das plantas mutantes, Super Gato, Lua e Cachorro Escuro não sentiam medo. Eles estavam juntos. E, pela primeira vez em suas vidas, eles tinham um lar para defender.