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a humana desejavel

Sinfonia de Sombras e a Marca da Eternidade

A luz da lua filtrava-se pelas cortinas entreabertas do quarto de [S/N], desenhando rendas de prata sobre o tapete onde, horas antes, livros de álgebra haviam sido espalhados. O silêncio na casa dos Tepes era absoluto, mas para [S/N], o ar ainda vibrava com a eletricidade da presença de Murdo. Ele não havia partido imediatamente após o quase flagra de Mihai; em vez disso, permanecera fundido às sombras do canto do quarto, observando-a com uma intensidade que a fazia sentir-se o único ser vivo em todo o universo.

— Você está muito quieta — sussurrou a voz de barítono de Murdo, emergindo da escuridão. — Ainda está pensando no seu tio?

[S/N] sentou-se na beira da cama, puxando o lençol para cobrir os ombros.

— Ele suspeita de algo, Murdo. O olhar dele... foi como se ele estivesse tentando ler através de mim. Se ele descobrir, ou se a Elvira sentir que há algo errado, eu não sei o que eles fariam com você. Ou comigo.

Murdo moveu-se com aquela graça sobrenatural que desafiava a gravidade, sentando-se aos pés da cama. Seus olhos, agora de um castanho profundo com lampejos avermelhados, fixaram-se nos dela.

— Eles não podem desfazer o que já foi selado — disse ele, estendendo a mão para tocar o tornozelo dela. — O vínculo entre um vampiro e sua escolhida é mais antigo que as leis de qualquer clã. Mas você tem razão... o perigo é real. Talvez seja por isso que eu sinto essa necessidade urgente de te levar para longe todas as noites.

— Para onde? — perguntou ela, sentindo o chamado da aventura que sempre vinha com ele.

— Para o meu refúgio — respondeu Murdo, um sorriso enigmático surgindo em seus lábios. — Onde eu guardo o que realmente importa. Vista algo quente. A noite está gelada lá no alto.

Minutos depois, eles cruzavam o céu de Bindburg. [S/N] já se acostumara à sensação de ser carregada nos braços de Murdo, o vento cortante contra seu rosto e a visão das luzes da cidade tornando-se meros pontos de luz abaixo deles. Desta vez, ele não parou nas ruínas ou no lago. Ele voou em direção às montanhas mais distantes, onde a floresta se tornava tão densa que parecia um oceano de agulhas de pinheiro.

Eles pousaram diante de uma entrada de caverna escondida por uma cachoeira de águas termais. O vapor subia em colunas brancas, criando uma névoa mística. Dentro, a caverna não era úmida ou escura; era iluminada por centenas de velas e decorada com tapetes persas, instrumentos musicais e pilhas de vinis antigos.

— Este é o meu santuário — disse Murdo, soltando-a suavemente. — Nem mesmo a banda sabe deste lugar. Aqui, o tempo não existe.

[S/N] caminhou pelo espaço, maravilhada. Havia um piano de cauda no centro, com partituras manuscritas espalhadas sobre ele.

— Você traz todas as suas "vítimas" de obsessão para cá? — brincou ela, embora houvesse uma ponta de insegurança em sua voz.

Murdo apareceu atrás dela instantaneamente, suas mãos envolvendo sua cintura e puxando-a contra seu peito frio.

— Não seja tola — murmurou ele em seu ouvido. — Nunca houve outra. Antes de você, a música era apenas ruído para preencher o vazio. Agora, cada nota que eu escrevo tem o ritmo do seu coração.

Ele a conduziu até o piano e sentou-se, puxando-a para o seu colo. Suas mãos pálidas começaram a dançar sobre as teclas, criando uma melodia sombria, melancólica e profundamente apaixonada. Era a sinfonia que ele mencionara antes, a música que ele estava compondo para ela.

— Sente isso? — perguntou ele, parando a música e colocando a mão de [S/N] sobre as teclas frias. — É a nossa história. O início incerto, o medo, e agora... essa necessidade absoluta.

— É linda, Murdo — disse ela, voltando-se para ele. — Mas também soa como uma despedida. Como se você estivesse com medo de me perder.

Os olhos de Murdo brilharam com uma possessividade feroz.

— Eu nunca vou perder você. Eu transformaria este mundo em cinzas antes de deixar você partir. Mas a sua mortalidade... ela é como um tique-taque constante nos meus ouvidos. Cada segundo que passa é um segundo a menos que eu tenho com você.

Ele a beijou com uma urgência renovada, um beijo que carregava todo o peso de sua imortalidade solitária. Murdo a deitou sobre os tapetes macios diante da lareira natural da caverna. O calor das águas termais e o fogo das velas criavam um ambiente de sonho.

— Eu quero te marcar — sussurrou ele, suas mãos explorando o corpo dela com uma fome que parecia insaciável. — Não apenas com beijos. Quero que sua alma reconheça a minha em qualquer vida, em qualquer lugar.

[S/N] sentiu um arrepio de antecipação. Ela sabia que, com Murdo, o amor nunca seria algo leve ou comum. Era uma entrega total.

— Faça — disse ela, a voz firme. — Eu já pertenço a você.

Murdo despiu-a com uma lentidão torturante, saboreando a visão de sua pele sob a luz das chamas. Ele seguiu o contorno de seu pescoço com os lábios, parando exatamente sobre a veia pulsante. Ele não a morderia para transformar, não ainda, mas seus dentes roçaram a pele de forma a deixá-la em êxtase e pavor.

O encontro que se seguiu na caverna foi o mais intenso de todos. Não havia a pressa de serem pegos, nem as distrações do mundo exterior. Era apenas o vampiro e sua musa, perdidos em um ritual de posse e prazer. Murdo movia-se com uma força controlada, seus olhos fixos nos dela, garantindo que ela sentisse cada grama de sua obsessão.

— Diga que você é minha — exigiu ele, sua voz vibrando contra o peito dela.

— Eu sou sua, Murdo — ela ofegou, as mãos cravadas em suas costas. — Para sempre.

— Para sempre é muito tempo para uma humana — ele rosnou suavemente, antes de beijá-la com uma paixão que parecia querer fundir seus corpos em um só.

Depois, enquanto descansavam entre as almofadas, Murdo pegou um pequeno pingente de prata de uma mesa próxima. Tinha o formato de um morcego com uma pedra vermelha no centro, que brilhava como sangue.

— Use isso — ordenou ele, colocando o colar em seu pescoço. — Ele tem uma gota do meu sangue encantado. Se você estiver em perigo, ou se apenas sentir minha falta, toque na pedra. Eu ouvirei o seu chamado, não importa onde eu esteja.

— É como uma coleira? — perguntou ela, meio brincando, meio séria.

— É um escudo — corrigiu ele, beijando sua testa. — E um lembrete. Você é a protegida de Murdo. E nenhum vampiro, humano ou demônio ousará tocar no que é meu.

O retorno para casa foi silencioso. Murdo a deixou na sacada, observando-a entrar no quarto com um olhar de quem não queria partir.

— Murdo? — chamou ela, parando na porta de vidro.

— Sim?

— O que acontece quando o verão terminar? Meus pais virão me buscar. Eu terei que voltar para a minha cidade, para a minha escola...

Murdo sorriu, um sorriso sombrio que não alcançou totalmente seus olhos, mas que carregava uma promessa inabalável.

— Você acha mesmo que eu vou deixar você ir para um lugar onde eu não possa te ver? Eu sou um rockstar, [S/N]. Minha turnê pode muito bem passar pela sua cidade. E se não passar... as sombras viajam rápido.

Ele desapareceu na noite, deixando [S/N] sozinha com o peso do colar em seu pescoço e a certeza de que sua vida normal havia acabado no momento em que ela olhou nos olhos do vocalista da Krypton Krax.

Na manhã seguinte, o café da manhã na casa dos Tepes foi tenso. Dakaria e Silvania trocavam olhares nervosos, enquanto Elvira servia o suco com uma expressão preocupada. Mihai estava sentado à cabeceira, lendo um jornal antigo, mas seus olhos se levantaram imediatamente quando [S/N] entrou na sala.

— Dormiu bem, [S/N]? — perguntou Mihai, sua voz calma demais.

— Sim, tio. Muito bem.

— Interessante — disse ele, voltando ao jornal. — Eu tive sonhos estranhos. Sonhei com uma melodia de piano que vinha das montanhas. Uma música que falava de possessão e segredos.

[S/N] sentiu o sangue fugir de seu rosto, mas manteve a compostura. Ela sentiu o pingente de Murdo aquecer levemente contra sua pele, como se ele estivesse ali, sussurrando para ela manter a calma.

— Deve ter sido o vento nas árvores, pai — interveio Dakaria, tentando aliviar a tensão. — Sabe como as montanhas de Bindburg são barulhentas.

— Talvez — murmurou Mihai. — Ou talvez haja um morcego jovem demais e ousado demais rondando minha casa.

O resto da refeição passou em um silêncio desconfortável. Assim que pôde, [S/N] escapou para o jardim, onde Silvania a seguiu rapidamente.

— Ele sabe, [S/N] — sussurrou Silvania, os olhos arregalados. — O papai não é bobo. Ele sentiu a energia do Murdo ontem à noite. Você precisa ter cuidado. Se o conselho vampírico souber que um vampiro famoso como o Murdo está envolvido com uma humana, eles podem considerar isso uma quebra de sigilo.

— Eu não me importo com o conselho — disse [S/N], segurando o pingente. — E o Murdo também não.

— Mas você deveria se importar — disse uma voz vinda de trás das sebes.

Não era Murdo. Era um vampiro que [S/N] nunca vira antes, vestido com roupas formais e antigas, com uma expressão de desdém.

— Quem é você? — perguntou [S/N], dando um passo atrás.

— Sou um enviado do clã de Murdo — disse o estranho. — Viemos para lembrar ao nosso vocalista que ele tem responsabilidades. E que brinquedos humanos são... descartáveis.

Antes que Silvania pudesse reagir, o vampiro avançou, mas parou bruscamente a poucos centímetros de [S/N]. Uma barreira de energia sombria pareceu repelir o ataque. O pingente no pescoço de [S/N] brilhava intensamente.

— Eu disse para não tocar no que é meu.

A voz de Murdo não veio do jardim, mas de todos os lugares ao mesmo tempo. Em um borrão de velocidade, ele apareceu entre [S/N] e o estranho, suas presas totalmente expostas e seus olhos brilhando em um vermelho letal.

— Murdo, você está sendo imprudente — disse o outro vampiro, recuando. — O clã não vai aceitar isso.

— O clã pode ir para o inferno — rosnou Murdo. — Diga a eles que se qualquer um se aproximar desta casa ou desta garota novamente, eu não apenas sairei da banda, eu caçarei cada um de vocês.

O enviado bufou, mas, vendo a fúria nos olhos de Murdo, desapareceu em uma nuvem de fumaça. Murdo virou-se para [S/N], sua respiração pesada. Ele a agarrou pelos ombros, verificando se ela estava bem.

— Ele te machucou? — perguntou ele, a voz tremendo de raiva e preocupação.

— Não, o colar... ele me protegeu — disse ela, ainda em choque.

— Agora eles sabem — disse Silvania, parecendo apavorada. — Agora a guerra começou.

Murdo olhou para [S/N] e depois para a casa, onde Mihai agora observava da janela. O segredo havia acabado. O romance proibido agora era uma declaração de rebeldia.

— Se eles querem guerra, eles terão — disse Murdo, puxando [S/N] para um abraço possessivo diante de todos. — Mas eles nunca, jamais, tirarão você de mim.

Naquela tarde, o céu de Bindburg escureceu mais cedo, como se a própria natureza estivesse se preparando para o conflito. [S/N] sabia que os dias de paz haviam terminado, mas ao olhar para Murdo, ela não sentia medo. Ela sentia-se parte de algo eterno.

O capítulo de sua vida como uma humana comum havia se encerrado. Agora, ela era a peça central de uma sinfonia de sombras, e a música estava apenas começando a ficar intensa. Murdo a levou para dentro da casa, pronto para enfrentar Mihai e quem quer que fosse necessário. A obsessão dele agora era o escudo dela, e o amor deles, embora perigoso e sombrio, era a única coisa que importava no meio da tempestade que se aproximava.

— Você está pronta? — perguntou ele, parando diante da porta da sala de estar.

— Com você? Sempre — respondeu ela.

Eles entraram juntos, de mãos dadas, prontos para desafiar o mundo dos vivos e dos mortos em nome de uma paixão que não conhecia limites. A marca de Murdo estava nela, e nada no universo seria capaz de apagá-la.