a humana desejavel
Equação de Sangue e Desejo
A tarde em Bindburg estava mergulhada em um silêncio preguiçoso. O sol de verão, embora ainda brilhante, começava a declinar, lançando sombras longas e douradas através das cortinas de renda do quarto de [S/N]. A casa dos Tepes estava estranhamente vazia; Mihai e Elvira tinham levado Dakaria e Silvania para uma feira de antiguidades em uma vila vizinha, deixando [S/N] com a promessa de que usaria o tempo para colocar em dia suas tarefas de álgebra.
[S/N] estava sentada de pernas cruzadas no tapete felpudo, cercada por livros, cadernos e uma calculadora que parecia zombar de sua falta de concentração. Ela usava apenas uma camiseta de banda larga e um short de pijama extremamente curto, uma tentativa de combater o mormaço que pairava no ar.
— X ao quadrado mais y... — ela murmurou, mordendo a ponta do lápis. — Isso não faz o menor sentido.
— Para mim, faz todo o sentido do mundo.
[S/N] deu um sobressalto, o coração disparando contra as costelas. Ela não precisou olhar para a janela para saber quem era. O ar ao seu redor esfriou instantaneamente, e aquele perfume inconfundível de terra molhada e couro invadiu seus pulmões. Murdo estava encostado no batente da janela, a silhueta esguia bloqueando parte da luz. Ele vestia sua jaqueta preta habitual, e seus olhos pareciam capturar cada grama de sombra do ambiente.
— Você quase me matou de susto! — ela exclamou, embora um sorriso já estivesse curvando seus lábios. — Como você entrou sem eu ouvir?
— Eu sou um mestre da discrição, esqueceu? — Murdo saltou para dentro do quarto com a agilidade de um felino, seus pés mal fazendo som ao tocar o assoalho. — E você parece estar em uma batalha perdida contra esses números.
— Estou mesmo. álgebra é um pesadelo. — Ela suspirou, batendo no espaço vazio ao seu lado no tapete. — Já que você está aqui, por que não me ajuda? Você vive há... quanto tempo mesmo? Já deve ter visto essas equações mil vezes.
Murdo soltou uma risada baixa e rouca, sentando-se ao lado dela. A proximidade dele era elétrica.
— Eu prefiro a música, [S/N]. Números são frios demais. Mas, por você, eu posso tentar ser um acadêmico.
Ela começou a explicar os conceitos de funções lineares, apontando para as fórmulas no caderno. Murdo fingia ouvir, balançando a cabeça nos momentos certos, mas seu foco não estava no papel. Ele estava perigosamente perto. [S/N] gesticulava com entusiasmo, e a cada movimento, a barra de seu short subia um pouco mais, revelando a pele macia e pálida de suas coxas.
Murdo sentiu sua garganta secar. A visão daquelas pernas nuas, tão próximas que ele podia sentir o calor emanando delas, era uma tortura deliberada. O instinto possessivo começou a rosnar em seu peito. Ele não queria saber de X ou Y; ele queria saber como seria a sensação de deslizar as mãos por aquela pele.
— Murdo? Você está prestando atenção? — ela perguntou, virando o rosto para ele.
— Estou prestando atenção em algo muito mais interessante — ele murmurou, a voz descendo uma oitava.
Antes que ela pudesse protestar, Murdo estendeu a mão pálida e deslizou a ponta dos dedos pela lateral da coxa dela. O toque era frio, um contraste arrepiante com o calor da tarde, e fez [S/N] soltar um suspiro entrecortado.
— Murdo... os estudos... — ela tentou dizer, mas sua resistência estava derretendo.
— Os estudos podem esperar — ele disse, fechando o livro de álgebra com um movimento brusco e jogando-o para o outro lado do quarto. — Eu passei o dia todo pensando em você. No seu cheiro. No jeito que você me olha.
Ele se inclinou, derrubando-a suavemente sobre o tapete. Murdo se posicionou sobre ela, seus olhos brilhando com aquele carmesim faminto que ela tanto amava e temia. Suas mãos subiram pela cintura dela, puxando-a para mais perto, até que não sobrasse nenhum espaço entre o peito frio dele e o coração acelerado dela.
— Você é minha única equação — ele sussurrou contra os lábios dela. — A única que eu quero resolver todas as noites.
O beijo que se seguiu foi profundo e carregado de uma necessidade que beirava o desespero. Murdo a beijava como se estivesse reivindicando cada centímetro de sua alma. As mãos de [S/N] se perderam nos cabelos negros dele, puxando-o para mais perto, enquanto o mundo lá fora deixava de existir.
Eles estavam perdidos um no outro, em uma dança de mãos ágeis e suspiros abafados, quando um som vindo do andar de baixo os atingiu como um balde de água gelada. O bater de uma porta pesada e o som de vozes familiares.
— Eles voltaram cedo! — [S/N] sibilou, os olhos arregalados de pânico.
Murdo, que estava tão focado no sabor da pele dela que seus sentidos aguçados haviam falhado por um momento, deu um pulo para trás. O som de passos subindo a escada era inconfundível. Era Mihai.
— Esconda-se! — ela ordenou em um sussurro frenético.
Em um piscar de olhos, Murdo se dissolveu em uma névoa escura e se transformou em um pequeno morcego, voando para o topo do dossel da cama, escondendo-se entre as sombras das cortinas pesadas.
[S/N] pulou do tapete, ajeitando o short e a camiseta amassada com mãos trêmulas. Ela pegou um frasco de perfume de baunilha forte e borrifou várias vezes pelo quarto, tentando desesperadamente mascarar o cheiro metálico e frio que Murdo deixava para trás. Ela se jogou sobre os livros novamente, fingindo uma concentração intensa.
Três batidas firmes soaram na porta.
— [S/N]? Está acordada, querida? — a voz de Mihai ecoou.
— Sim, tio! Pode entrar! — ela respondeu, tentando manter a voz estável.
Mihai abriu a porta. O vampiro mais velho tinha um olhar aguçado e uma postura imponente. Ele parou no batente, farejando o ar com uma leve careta.
— Que cheiro doce é esse? Parece que uma fábrica de doces explodiu aqui dentro.
— Ah... é um perfume novo que a Silvania me emprestou — mentiu ela, dando um sorriso nervoso. — Eu derrubei um pouco no tapete.
Mihai estreitou os olhos, percorrendo o quarto com o olhar. Ele parecia desconfortável, como se algo não estivesse certo, mas não conseguia identificar o quê.
— Entendo. Só vim perguntar se você viu meu exemplar sobre botânica oculta. Eu estava procurando uma planta específica, uma raiz de mandrágora negra que deixei no escritório, mas não encontro.
— Não vi nada, tio. Estive focada nessa álgebra o tempo todo. — Ela apontou para o caderno com uma mão que ainda tremia levemente.
— Matemática... uma ocupação curiosa para uma tarde tão bonita — Mihai comentou, dando mais um passo para dentro. Ele olhou para a janela aberta e depois para o topo da cama. [S/N] sentiu o suor frio escorrer por suas costas. — Bom, não a incomodarei mais. Tente não usar tanto perfume da próxima vez, está afetando meus sentidos.
— Desculpe, tio. Boa noite.
Mihai saiu e fechou a porta. [S/N] esperou até ouvir os passos dele desaparecerem no corredor antes de soltar o ar que nem sabia que estava prendendo.
O morcego desceu do dossel, transformando-se novamente no homem de jaqueta de couro antes mesmo de tocar o chão. Murdo parecia irritado, as presas levemente à mostra.
— Ele quase me sentiu — Murdo rosnou, a voz vibrando de tensão. — O cheiro desse perfume é horrível, [S/N].
— Salvou sua pele, ou melhor, suas asas! — Ela riu, o alívio tomando conta. — Agora, por favor, tranque essa porta. Não quero mais interrupções.
Murdo caminhou até a porta e girou a chave com um clique definitivo. Ele se virou para ela, e o brilho em seus olhos havia voltado, ainda mais intenso do que antes. O perigo de serem pegos parecia ter apenas alimentado o fogo entre eles.
— Onde estávamos? — ele perguntou, caminhando lentamente em direção a ela.
— Você estava jogando meus livros longe — ela lembrou, sentindo o desejo voltar a queimar.
Murdo a pegou pela cintura e a içou para cima da mesa de estudos, derrubando o restante dos cadernos no chão. Ele se encaixou entre as pernas dela, as mãos subindo para apertar suas coxas com uma possessividade feroz.
— Agora — ele sussurrou, aproximando o rosto do dela — eu vou te mostrar uma lição que você nunca vai esquecer.
Ele a beijou com uma fome renovada, suas mãos agora mais ousadas, deslizando por baixo da camiseta de [S/N]. O toque frio de Murdo contra sua pele quente era como gelo sobre brasas, provocando arrepios que a faziam arquear as costas. Ele desceu os beijos para o pescoço dela, sugando a pele sensível logo abaixo da orelha, marcando-a como sua.
— Murdo... — ela ofegou, as mãos enterradas nos cabelos dele, puxando-o para mais perto.
Ele a despiu com uma agilidade que só a imortalidade poderia conferir. Quando ela ficou nua diante dele, sob a luz fraca das velas que ela havia acendido para disfarçar o cheiro do perfume, Murdo parou por um segundo. Seus olhos percorreram cada curva dela com uma adoração quase religiosa.
— Você é perfeita — ele murmurou. — Cada batida do seu coração é uma música que eu quero ouvir para sempre.
Ele a levou para a cama, desta vez sem brincadeiras. O encontro foi intenso, uma mistura de paixão selvagem e uma ternura profunda que só Murdo conseguia demonstrar. Ele a possuía com uma lentidão torturante, saboreando cada reação dela, cada gemido que escapava de seus lábios. A possessividade dele era evidente no modo como ele a segurava, como se estivesse fundindo sua existência à dela.
O prazer era avassalador, uma onda que os levava para longe de Bindburg, longe das equações de álgebra e das preocupações com tios vampiros. Naquele momento, só existia o frio da pele dele, o calor da dela e a promessa silenciosa de que, não importa o que acontecesse, eles pertenciam um ao outro.
Depois, enquanto o silêncio voltava a reinar no quarto, Murdo a abraçou por trás, cobrindo-a com seu corpo pálido e forte.
— Eu nunca vou me cansar disso — ele sussurrou em seu ouvido. — De você.
— Nem eu — ela respondeu, fechando os olhos e sentindo-se, finalmente, em casa.
Lá fora, a noite de Bindburg continuava seu curso, mas dentro daquele quarto, o tempo havia parado para o vampiro e sua musa, unidos em um segredo que era muito mais poderoso do que qualquer álgebra.