A noite que mudou tudo
O Despertar na Jaula de Ouro
O silêncio era absoluto, exceto pelo som rítmico e pesado de um coração que não era o dela. Elisa sentia o corpo flutuar em uma névoa densa, uma letargia que pesava em suas pálpebras como chumbo. O cheiro de asfalto úmido e o medo gélido de Londres haviam desaparecido, substituídos por uma fragrância inebriante de madeira de sândalo, couro caro e algo selvagem, como o cheiro da floresta após uma tempestade.
Lentamente, a consciência retornou em ondas dolorosas. Ela sentiu algo macio sob suas costas — seda, talvez, ou o algodão mais fino que já tocara. Onde estava? A última imagem em sua mente era o brilho amarelado e predatório por trás de uma máscara de terror.
Elisa abriu os olhos. A visão demorou a focar, mas o que viu a deixou sem fôlego. Ela não estava em uma masmorra ou em um porão sujo. O quarto era vasto, decorado com uma opulência sombria e masculina. Paredes revestidas de madeira escura, móveis de design clássico e uma lareira monumental onde o fogo crepitava suavemente, lançando sombras dançantes pelo teto alto.
Ela tentou se levantar, mas um gemido escapou de seus lábios. Sua cabeça girava.
— Devagar, passarinho. O efeito do sevoflurano ainda não passou completamente.
A voz veio de um canto escurecido do quarto. Era a mesma voz do beco — profunda, rouca, uma vibração que parecia ressoar dentro dos ossos de Elisa.
Ela se encolheu contra a cabeceira da cama imensa, puxando o edredom de veludo negro até o queixo. Seus olhos castanhos, arregalados de pavor, vasculharam a penumbra até encontrá-lo.
Ele não usava mais a máscara.
Sentado em uma poltrona de couro, com as pernas longas estendidas e os braços repousando sobre os apoios, estava o homem mais imponente que Elisa já vira. Ele era uma contradição de beleza e perigo. A pele era pálida, destacando as tatuagens que subiam pelo pescoço e desapareciam sob a camisa de linho preto entreaberta. O rosto tinha ângulos agudos, uma mandíbula forte e lábios que pareciam esculpidos em mármore. O cabelo preto, de corte moderno mas ligeiramente bagunçado, caía sobre a testa, quase tocando as sobrancelhas densas.
Mas eram os olhos que a paralisavam. Azuis como o centro de uma chama, mas com uma intensidade que sugeria que, a qualquer momento, o ouro poderia retomar seu lugar.
— Onde... onde eu estou? — Elisa perguntou, sua voz mal passando de um sopro. — Quem é você? Por que me trouxe para cá?
O homem levantou-se com uma agilidade que desafiava seu tamanho monumental. Com quase dois metros de altura, ele parecia dominar todo o espaço vital do quarto. Cada passo que ele dava em direção à cama era silencioso, como o de um animal caçador.
— Você está em sua nova casa — disse ele, parando à beira da cama. — E meu nome é Victor. Embora, para o resto do mundo, eu seja apenas o pesadelo que eles tentam evitar.
— Eu quero ir embora — Elisa declarou, tentando injetar uma coragem que não sentia em sua voz. — Você não pode me manter aqui. Eu tenho um emprego, eu tenho uma vida...
Victor soltou uma risada curta, um som seco que não chegou aos seus olhos.
— Vida? — Ele se inclinou sobre ela, apoiando uma das mãos no colchão, invadindo o espaço pessoal de Elisa de forma deliberada. — Você vive em um quarto alugado que cheira a mofo, trabalha para pessoas que nem ao menos sabem o seu sobrenome e passa suas noites sozinha, lendo sobre mundos que nunca visitará. Isso não é vida, Elisa. É sobrevivência.
Ele estendeu a mão para tocar um dos cachos ruivos dela que caía sobre o ombro. Elisa recuou, mas ele foi persistente, enrolando a mecha cor de fogo em seus dedos longos e fortes.
— Você é linda demais para ser desperdiçada na mediocridade — ele sussurrou, a voz descendo uma oitava. — Eu observei você por meses. Vi o momento exato em que você saiu daquele orfanato, vi como você caminha com a cabeça baixa para não atrair olhares, sem saber que o olhar mais perigoso de todos já estava fixo em você.
— Você é louco — ela cuspiu, as lágrimas de frustração e medo finalmente transbordando. — Me sequestrar não vai fazer eu gostar de você.
— Eu não preciso que você goste de mim agora — Victor disse, e por um instante, suas pupilas se dilataram, tornando os olhos quase inteiramente negros. — Eu só preciso que você entenda que é minha. O destino decidiu isso no momento em que meu lobo sentiu o seu cheiro a quilômetros de distância. Você é minha companheira, Elisa. Minha outra metade.
Elisa sentiu um calafrio percorrer sua espinha. "Meu lobo". "Companheira". As palavras soavam como delírios de um maníaco, mas a pressão física que ele emanava, aquela aura de poder bruto e sobrenatural, dizia que havia uma verdade terrível ali.
— Eu não sou um objeto — ela protestou, tentando se afastar da mão dele. — Não sou de ninguém.
Victor rosnou. Não foi um som humano. Foi um som gutural, vindo do fundo do peito, que fez o ar vibrar. Elisa congelou.
— Você ainda não entende a sorte que tem — Victor disse, sua expressão suavizando-se em uma máscara de possessividade fria. — Lá fora, o mundo é cruel. Aqui, você terá tudo. Joias, vestidos, a melhor comida, proteção. Ninguém nunca mais vai tocar em você. Ninguém nunca mais vai te olhar com desprezo por ser uma órfã sem nome.
— Eu prefiro a minha liberdade e o meu mofo do que ser sua prisioneira em uma gaiola de ouro — ela retrucou, o espírito de luta que a mantivera viva todos esses anos brilhando em seus olhos castanhos.
Victor sorriu, um sorriso que mostrava dentes brancos e perfeitos, mas que tinha algo de predatório.
— Veremos quanto tempo essa sua rebeldia dura.
Ele se afastou da cama e caminhou até uma mesa lateral, onde havia uma bandeja com frutas frescas e uma taça de cristal com água.
— Beba — ordenou ele. — Você precisa se hidratar.
— Não vou tocar em nada que venha de você.
Victor suspirou, uma demonstração de paciência que parecia custar-lhe muito.
— Elisa, não me force a ser o monstro que eu tento esconder de você. Eu sou um homem de muitos recursos e pouca paciência. Se eu tiver que te forçar a comer, eu farei. Se eu tiver que te amarrar a esta cama para garantir que não se machuque, eu farei.
Ele voltou para o lado dela, segurando a taça.
— Mas prefiro que colabore. Eu quero te dar o mundo, mas se você preferir apenas este quarto, assim será.
Elisa olhou para a água e depois para ele. A sede era real, sua garganta ardia devido ao produto químico que ele usara. Com as mãos trêmulas, ela pegou a taça. Seus dedos roçaram os dele, e uma descarga elétrica percorreu seu corpo. Foi um choque de reconhecimento, algo que fez seu coração falhar uma batida.
Victor sentiu também. Seus olhos brilharam em um amarelo intenso por um segundo antes de voltarem ao azul.
— O que foi isso? — ela perguntou, assustada, quase deixando a taça cair.
— O sangue reconhecendo o sangue — Victor respondeu, sua voz agora carregada de uma ternura perturbadora. — Sua alma sabe que pertence a mim, mesmo que sua mente tente lutar.
Elisa bebeu a água rapidamente, tentando ignorar a presença esmagadora dele. Quando terminou, ele pegou a taça de volta e a colocou na mesa.
— Agora, tente descansar mais um pouco. O sol logo vai nascer e eu tenho assuntos da máfia para resolver.
— Você vai me deixar trancada aqui?
— Por enquanto — ele disse, caminhando em direção à porta. — Até que eu tenha certeza de que você não vai tentar nenhuma estupidez. Há guardas por todo o perímetro da propriedade. Não tente fugir, Elisa. As florestas que cercam esta mansão não são amigáveis para uma pequena morena como você. Especialmente quando os meus irmãos estão caçando.
— Irmãos? — ela sussurrou, horrorizada. — Existem outros como você?
Victor parou na porta e olhou por cima do ombro. A luz da lareira realçava seus músculos potentes sob a camisa.
— Existem muitos como eu. Mas nenhum deles tem permissão para chegar perto de você. Você é a fêmea do Alfa. Se algum deles sequer olhar para você, eu arrancarei a garganta dele com minhas próprias mãos.
Com essa promessa sangrenta, ele saiu, e Elisa ouviu o som metálico da tranca girando.
Ela se deixou cair contra os travesseiros, o cheiro dele a cercando por todos os lados. Seu corpo estava exausto, mas sua mente trabalhava a mil por hora. Ela olhou para a janela imensa, onde as cortinas de veludo estavam entreabertas, revelando uma floresta densa e sombria sob a luz da lua.
Ela estava em algum lugar remoto, longe de Londres, longe de tudo o que conhecia.
Elisa levou a mão ao pescoço, onde a pele ainda formigava pelo toque dele. Ela sentia medo, um terror abjeto, mas, nas profundezas de seu ser, algo estranho e sombrio estava despertando. Uma conexão que ela não conseguia explicar e que a apavorava mais do que as trancas na porta.
Enquanto isso, do outro lado da porta, Victor permanecia imóvel. Ele encostou a testa na madeira fria, fechando os olhos e respirando fundo o aroma dela que escapava pelas frestas.
— Em breve — rosnou ele para o corredor vazio. — Em breve você não vai querer mais fugir.
Ele sentiu o lobo dentro de si uivar de satisfação. A caçada tinha sido longa, a espera agonizante, mas ele finalmente tinha sua rainha ruiva sob seu teto. E ele destruiria o mundo inteiro antes de permitir que ela saísse de seu alcance novamente.
Victor desceu as escadas de mármore, seus passos ecoando como trovões na mansão silenciosa. Ele tinha negócios a tratar, traidores a punir e um império para gerir. Mas nada disso importava tanto quanto a mulher que dormia no andar de cima.
Ele entrou em seu escritório, onde um homem de terno escuro o esperava.
— Senhor — disse o subordinado, curvando a cabeça. — Os russos estão causando problemas no porto. Eles acham que podem interceptar nossa carga.
Victor sentou-se atrás de sua mesa de carvalho, seus olhos azuis agora frios como gelo.
— Mande uma mensagem — disse ele, sua voz destilando uma violência contida. — Mate todos. Não deixe sobreviventes. Eu não estou de bom humor para negociações esta noite. Tenho algo muito mais precioso para cuidar.
O subordinado assentiu e saiu rapidamente, sentindo a aura perigosa que emanava de seu líder. Victor abriu uma gaveta e tirou uma pequena foto. Era Elisa, distraída, saindo da galeria de arte há algumas semanas.
Ele acariciou a imagem com o polegar tatuado.
— Você vai aprender a me amar, Elisa — ele sussurrou. — Mesmo que eu tenha que quebrar cada pedaço da sua vontade até que reste apenas eu.
No quarto, Elisa finalmente sucumbiu ao sono, sem saber que sua vida como a conhecia havia acabado para sempre. Ela não era mais a órfã invisível de Londres. Ela era a obsessão de um monstro, a companheira de uma fera, e o romance dark que começara em um beco escuro estava apenas em seus primeiros e sangrentos capítulos.