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A noite que mudou tudo

O Labirinto de Pinheiros e o Olhar do Predador

A mansão de Victor era uma fortaleza de silêncio e sombras, mas para Elisa, cada segundo entre aquelas paredes de luxo parecia um prego sendo martelado em sua liberdade. Ela passou horas fingindo sono, observando através dos cílios como a luz da lua mudava de posição no tapete caro. Ela precisava sair. Seus olhos verde-esmeralda, que brilhavam com uma determinação febril, vasculharam cada canto do quarto até encontrarem o que procuravam: uma pequena janela de ventilação no banheiro adjacente, estreita demais para um homem como Victor, mas talvez larga o suficiente para o seu corpo magro e alinhado.

Com o coração martelando contra as costelas, Elisa usou os lençóis de seda para improvisar uma corda. A adrenalina mascarava o tremor em suas mãos. Quando seus pés tocaram a grama úmida do lado de fora, a sensação de liberdade foi como um choque elétrico. Ela não olhou para trás. Ignorou a imponência da mansão e mergulhou na escuridão da floresta densa que cercava a propriedade.

Ela corria como a Chapeuzinho Vermelho daquelas fábulas sombrias, mas não havia cesta de doces, apenas o desejo desesperado de sobreviver. Seus cabelos ruivos, longos e cacheados, enroscavam-se nos galhos baixos, chicoteando suas costas enquanto ela avançava entre os pinheiros seculares.

Dentro do escritório, Victor sentiu a mudança no ar antes mesmo que os alarmes silenciosos fossem acionados. O cheiro de baunilha e medo de Elisa estava se afastando, sendo levado pela brisa noturna. Um sorriso lento e predatório surgiu em seus lábios. Ele se levantou, sentindo o sangue ferver e os músculos do pescoço retesarem.

— Lá vou eu, minha pequena Chapeuzinho Vermelho — sussurrou ele para o vazio, sua voz ecoando com uma promessa sombria. — Eu vou te encontrar, onde quer que você esteja.

Ele não chamou os seguranças. Ele queria isso para si. Victor saiu pela varanda, seus olhos azuis já faiscando em um dourado metálico. Ele permitiu que ela tivesse uma vantagem. Ele queria sentir o gosto da caçada, queria que ela entendesse que, no território dele, não havia para onde fugir.

Elisa corria até seus pulmões arderem. O terreno era irregular, coberto por raízes traiçoeiras e folhas secas. A escuridão da floresta era absoluta, quebrada apenas por fios de luz lunar que atravessavam a copa das árvores. Ela ouvia o som de seus próprios passos, mas, de repente, outro som se juntou ao dela.

Um estalo de galho. Um rosnado baixo, quase imperceptível, que parecia vir de todos os lados ao mesmo tempo.

Ele estava perto. Ela sentia a presença dele como uma pressão física em sua nuca. O medo, que antes era uma chama, tornou-se um incêndio. Elisa acelerou, seus cachos ruivos balançando freneticamente, mas o cansaço começava a cobrar seu preço.

— Por favor, não... por favor... — ela implorava em silêncio, as lágrimas embaçando sua visão verde-esmeralda.

De repente, a floresta pareceu ganhar vida. Victor não estava mais apenas seguindo-a; ele estava brincando com ela. Ele passava entre as árvores como um vulto negro, rápido demais para o olho humano acompanhar.

Em um movimento fluido, enquanto corria, Victor deixou que a fera assumisse o controle. Suas roupas rasgaram-se sob a pressão dos músculos que se expandiam, sua coluna se curvou e, em segundos, o homem de 1,95 m deu lugar a uma criatura de pesadelo e beleza. O lobo era imenso, com pelos negros como a noite mais profunda e olhos que brilhavam como ouro puro.

Elisa ouviu o uivo. Foi um som que paralisou seu sangue, uma nota longa e poderosa que declarava posse sobre toda a floresta. Em pânico total, ela tentou mudar de direção, mas seus pés falharam.

— Ah! — O grito de dor rasgou o ar quando ela pisou em falso em uma raiz oculta.

Seu tornozelo virou com um estalo seco. Elisa caiu no chão, a dor aguda subindo por sua perna como uma lâmina incandescente. Ela tentou se levantar, mas o tornozelo cedeu imediatamente. O desespero a fez rastejar, as unhas cravando-se na terra úmida, tentando desesperadamente se afastar do som das patas pesadas que se aproximavam.

O lobo parou. A poucos metros dela, a fera emergiu das sombras. Elisa congelou, sua respiração parando na garganta. Ela nunca tinha visto nada parecido. O lobo era enorme, maior do que qualquer animal que ela pudesse imaginar, com ombros largos e uma presença que emanava uma autoridade ancestral. Os olhos dourados da criatura estavam fixos nela, transbordando uma mistura de fúria e uma preocupação possessiva.

— O que é você? — ela soluçou, a voz falhando.

O lobo deu um passo à frente, as garras cavando o solo. Elisa, movida por um instinto puramente animal de fuga, ignorou a dor excruciante e conseguiu se impulsionar para trás, usando as mãos e a perna sã. Ela não percebeu que o terreno atrás dela terminava abruptamente.

— Não se aproxime! — gritou ela, a voz carregada de terror.

Ela deu mais um impulso desesperado para trás, mas não encontrou solo firme. Elisa escorregou pela borda de um barranco íngreme. O mundo girou. Ela sentiu o impacto de galhos e pedras contra seu corpo enquanto rolava encosta abaixo.

O lobo soltou um ganido de angústia, um som quase humano, e saltou atrás dela com uma agilidade sobrenatural.

Elisa não teve tempo de reagir. Sua cabeça atingiu uma pedra saliente na base do barranco com um baque surdo. A última coisa que viu antes da escuridão total foram os olhos dourados se aproximando e a sensação de algo quente e macio cercando seu corpo.

O silêncio voltou à floresta, interrompido apenas pela respiração pesada da fera.

O lobo começou a mudar. Os ossos estalaram, os pelos recuaram e, em instantes, Victor estava lá, nu e imponente na penumbra, ignorando o frio da noite. Ele se ajoelhou ao lado de Elisa, seu rosto contorcido em uma agonia que ele raramente se permitia sentir.

— Elisa... — A voz dele era um rosnado baixo, carregado de remorso.

Ele passou os braços por baixo do corpo dela, sentindo a fragilidade de seus ossos contra seus músculos poderosos. A pele morena dela estava suja de terra e havia um pequeno filete de sangue escorrendo de sua têmpora, contrastando com o ruivo vibrante de seus cabelos.

— Eu disse para não fugir — murmurou ele, encostando a testa na dela. — Por que você me obriga a ser tão duro com você, meu pequeno passarinho?

Victor a levantou com uma facilidade desconcertante. O corpo de Elisa pesava quase nada em seus braços, mas o peso da responsabilidade sobre ela esmagava o coração do Alfa. Ele começou a caminhada de volta para a mansão, seus passos agora lentos e cuidadosos, protegendo-a de cada galho no caminho.

Quando ele cruzou os portões da propriedade, os seguranças se perfilaram, mas ninguém ousou dizer uma palavra ou olhar diretamente para o seu mestre. A aura de Victor estava perigosa, carregada de uma eletricidade estática que prometia violência para qualquer um que cruzasse seu caminho.

Ele a levou diretamente para a suíte principal, não para o quarto onde ela estava antes, mas para o seu próprio santuário. Colocou-a sobre os lençóis de seda branca, onde o contraste de sua pele chocolate e seus cabelos de fogo criavam uma imagem de beleza dolorosa.

Victor limpou o ferimento em sua cabeça com uma delicadeza que ninguém no mundo da máfia acreditaria que ele possuía. Ele enfaixou o tornozelo inchado dela e cobriu seu corpo com um roupão de veludo. Depois, ele se sentou na borda da cama, apenas observando-a.

Horas se passaram. O sol começava a tingir o horizonte de tons de laranja e rosa quando Elisa deu o primeiro sinal de consciência. Suas pálpebras tremeram e, lentamente, os olhos verde-esmeralda se abriram, turvos pela dor e pela confusão.

— Onde... — ela começou, mas a voz morreu quando ela viu Victor sentado ao seu lado.

Ele não estava mais nu; vestia uma calça de moletom preta, deixando o peito tatuado e musculoso à mostra. Seus olhos azuis estavam fixos nela, intensos e sombrios.

— Você está segura — disse ele, sua voz soando como um comando e uma promessa. — Mas você nunca mais vai tentar sair desta casa sem a minha permissão. Entendeu, Elisa?

Ela tentou se mexer, mas a dor no tornozelo e a pulsação em sua cabeça a fizeram desistir.

— Eu vi... eu vi um monstro — ela sussurrou, a memória do lobo gigante voltando em flashes aterrorizantes.

Victor inclinou-se sobre ela, prendendo-a com seu olhar.

— Você viu a minha verdade — disse ele, a mão subindo para acariciar o rosto dela. — O monstro que vai rasgar qualquer um que tentar te tirar de mim. O monstro que pertence a você, assim como você pertence a ele.

Elisa estremeceu sob o toque dele, mas, para seu próprio horror, não foi apenas de medo. Havia uma faísca de algo mais, uma conexão magnética que a puxava para aquele homem, para aquela fera.

— Por que eu? — perguntou ela, as lágrimas brilhando em seus olhos verdes. — Eu sou apenas uma órfã. Eu não sou ninguém.

Victor sorriu, um sorriso sombrio que não alcançou seus olhos, mas que carregava uma possessividade absoluta.

— Para o mundo, você pode ser ninguém, Elisa. Mas para o lobo, você é o mundo inteiro. E eu não pretendo deixar o mundo escapar das minhas mãos.

Ele se aproximou mais, o cheiro de sândalo e floresta inundando os sentidos dela.

— Agora descanse. Você está machucada porque tentou lutar contra o inevitável. Não lute mais. Aceite o seu lugar ao meu lado, e eu prometo que você nunca mais sentirá dor.

— E se eu não aceitar? — desafiou ela, embora sua voz tremesse.

Victor aproximou os lábios do ouvido dela, sua respiração quente enviando arrepios por todo o corpo de Elisa.

— Então eu passarei o resto da eternidade te caçando na escuridão, minha Chapeuzinho Vermelho. E você sabe que, no final, o lobo sempre alcança a sua presa.

Ele se afastou e saiu do quarto, trancando a porta atrás de si. Elisa ficou sozinha no silêncio da manhã que nascia, prisioneira de um homem que era metade deus, metade fera, e totalmente obcecado por ela. Ela olhou para as próprias mãos e percebeu que, embora estivesse em uma jaula, o coração do predador agora batia apenas por ela — e essa era a prisão mais perigosa de todas.