A Noiva de Sleepy Hollow
O Altar da Obsessão Branca
A mansão Van Tassel, sob o véu de um inverno que se recusava a partir, tornara-se um labirinto de sombras onde o tempo parecia ter estagnado. Para Ichabod Crane, os dias haviam perdido a nitidez das bordas. A lógica, antes sua bússola inabalável, agora era uma ferramenta enferrujada, esquecida em algum canto escuro de sua mente febril. Ele não era mais o homem que buscava a verdade nos fatos; ele era o homem que buscava a paz nos braços de Katrina.
E a paz tinha um sabor específico: o sabor do leite e do segredo.
Nas semanas que se seguiram àquela noite de revelação física e mística, Ichabod desenvolvera uma necessidade que beirava o patológico. Não era apenas desejo carnal — embora o corpo de Katrina fosse o seu único mapa de prazer —, era algo mais profundo, mais arcaico. Quando estava longe dela, os pesadelos de sua infância, a imagem da mãe sendo trancada na dama de ferro, os rostos sem olhos das vítimas do Cavaleiro, tudo retornava com uma violência redobrada. O mundo exterior era um lugar de morte e decomposição, mas o quarto de Katrina era um santuário de vida distorcida.
Ele passara a vagar pelos corredores nas madrugadas, uma silhueta pálida e esguia que se fundia às tapeçarias. Ele não conseguia mais dormir em sua própria cama. O silêncio do seu quarto era opressor, povoado por vozes que questionavam sua sanidade. Somente quando sentia o calor da pele de Katrina e o aroma de lavanda que emanava de seus cabelos, é que o ruído em sua cabeça cessava.
Certa noite, quando a geada desenhava padrões de garras nos vidros das janelas, Katrina acordou com a sensação de ser observada. A lareira estava reduzida a brasas moribundas, projetando um brilho avermelhado e infernal pelo aposento. Ichabod estava sentado em uma poltrona ao lado da cama, imóvel como uma gárgula.
Seus olhos estavam encovados, as olheiras tão profundas que pareciam hematomas. Ele segurava um de seus instrumentos de medição, mas suas mãos tremiam tanto que o metal batia ritmicamente contra a madeira, um tique-taque nervoso que ecoava o batimento de um coração assustado.
— Ichabod? — sussurrou ela, sentando-se e puxando as cobertas contra o peito. — Há quanto tempo você está aí?
Ele não respondeu de imediato. Seus olhos percorreram o contorno do corpo dela sob o lençol com uma intensidade faminta, quase predatória, mas imensamente triste.
— As sombras estão mais longas esta noite, Katrina — disse ele, a voz rouca, como se não a usasse há séculos. — Elas sussurram nomes que eu já havia esquecido. Elas dizem que eu sou um impostor. Que eu não pertenço à luz.
— Venha para cá — pediu ela, estendendo a mão. — Você está gelado.
Ele aproximou-se com passos hesitantes, despojando-se do casaco escuro. Quando se deitou ao lado dela, não buscou o beijo ou o abraço tradicional. Ele buscou o conforto que se tornara seu vício. Com uma familiaridade que assustava a ambos, ele desfez os laços da camisola dela.
Katrina sentiu a pontada de dor familiar em seus seios, a plenitude que desafiava a biologia. Desde que Ichabod começara a aliviar sua congestão, o fenômeno não cessara; pelo contrário, parecia alimentar-se da presença dele. Era como se o corpo dela estivesse respondendo à fome emocional de Ichabod, produzindo aquele sustento fantasmagórico para manter o homem da ciência preso à sua órbita.
— Você está se tornando dependente disso, meu querido — murmurou ela, sentindo os lábios dele encontrarem sua pele.
Ichabod parou por um segundo, a testa encostada no peito dela.
— Eu sinto como se algo dentro de mim estivesse apodrecendo, Katrina — confessou ele, um soluço seco escapando de sua garganta. — Quando estou longe de você, a lógica me diz que sou um monstro. Mas aqui... aqui o mundo faz sentido. O calor... o gosto... é a única coisa real em Sleepy Hollow.
Ele bebeu com uma urgência que não era de um amante, mas de um náufrago. Para Ichabod, aquele ato era uma transfusão de alma. Ele sentia a escuridão dentro de si retroceder a cada gole, as memórias da mãe torturada sendo substituídas pela imagem de Katrina como uma madona sombria, uma figura santa e profana que o mantinha longe do abismo.
Katrina passava os dedos pelos cabelos dele, sentindo a tensão nos ombros de Ichabod diminuir gradualmente. Ela estava dividida. Uma parte dela, a linhagem mística que herdara da mãe, sentia um poder inebriante em ser a fonte de sanidade daquele homem. Ela o possuía de uma forma que Brom Van Brunt jamais compreenderia. Ichabod não era apenas seu noivo secreto; ele era sua criação, um ser que ela moldava através da necessidade.
Mas outra parte dela sentia medo. Medo do olhar vazio que ele exibia durante o dia, da maneira como ele evitava o sol e de como ele parecia estar definhando fisicamente enquanto sua obsessão crescia.
— Ichabod, olhe para mim — disse ela, forçando-o a erguer o rosto.
Ele obedeceu. Havia uma gota branca no canto de sua boca, e seus olhos estavam dilatados, brilhando com uma lucidez febril.
— Você precisa dormir — continuou ela. — Dormir de verdade. Sem o peso do que estamos fazendo.
— Eu não consigo — respondeu ele, as mãos agarrando os lençóis com força. — Se eu fechar os olhos sem você, eu vejo o sangue. Eu vejo a árvore dos mortos. Eu vejo o vazio que me espera em Nova York. Você é a minha única barreira contra a loucura, Katrina. Se você me tirar isso... eu deixarei de existir.
— Isso não é amor, Ichabod — disse ela, a voz carregada de uma tristeza gótica. — É uma possessão.
— Então me deixe ser possuído! — exclamou ele, subitamente voltando a ser o homem impetuoso. — O que é a razão diante da paz? Eu passei minha vida inteira buscando explicações para o inexplicável, mas agora que encontrei o conforto, você quer que eu o analise como se fosse um inseto sob uma lente?
Ele se afastou dela, levantando-se da cama e começando a andar de um lado para o outro no quarto, como um animal enjaulado.
— Eu vejo o jeito que as pessoas me olham na vila — continuou ele, gesticulando freneticamente. — Eles veem um estranho, um excêntrico. Brom me vê como um obstáculo insignificante. Mas eles não sabem... eles não sabem que eu bebo da fonte da vida desta terra. Eles não sabem que eu sou o único que realmente conhece você.
— Você está doente, Ichabod — disse Katrina, levantando-se também. A luz da lua agora entrava pela janela, banhando-a em prata. Ela parecia uma aparição, etérea e perigosa. — Esse "leite" não deveria existir. Ele é fruto do nosso pecado, ou talvez da magia que corre nestas florestas. Ele está mudando você.
— Ele está me salvando! — gritou ele, antes de baixar a voz ao lembrar-se dos servos nos quartos vizinhos. — Ele é a única coisa que silencia as vozes.
Ele aproximou-se dela novamente, sua expressão mudando de raiva para uma súplica devastadora. Ele caiu de joelhos, abraçando a cintura de Katrina, escondendo o rosto em seu ventre.
— Por favor... não me negue. Eu farei qualquer coisa. Eu matarei Brom se você pedir. Eu queimarei esta vila até as cinzas. Mas não me deixe sozinho com meus pensamentos.
Katrina sentiu um calafrio percorrer sua espinha. A dependência dele havia ultrapassado o limite do carinho. Era uma simbiose sombria. Ela percebeu que, ao tentar salvá-lo da solidão e de si mesma, ela criara um monstro de devoção. E, no entanto, ela não conseguia afastá-lo. Havia uma volúpia melancólica em ser necessária daquela forma, em ver o grande intelecto de Nova York reduzido a uma criança faminta aos seus pés.
— Shhh — sussurrou ela, acariciando o pescoço dele. — Eu não vou deixá-lo. Mas você precisa entender que este caminho nos levará à ruína.
— Já estamos arruinados, Katrina — disse ele, olhando para cima com um sorriso triste. — Desde o momento em que nossos olhos se cruzaram na festa de outono. Nós somos os espectros de Sleepy Hollow. O Cavaleiro busca cabeças; eu busco a alma que me foi roubada na infância. E eu a encontrei em você.
Naquela noite, Ichabod finalmente dormiu, mas foi um sono inquieto. Ele murmurava fórmulas matemáticas e orações em latim enquanto sua mão permanecia firmemente entrelaçada na de Katrina. Ela ficou acordada, observando a neve cair e sentindo o peso do corpo dele contra o seu.
A mansão parecia respirar com eles. Rangidos nas vigas soavam como suspiros, e o vento nas chaminés parecia repetir o nome de Ichabod. Katrina sentia que o leite em seu peito estava mudando de consistência; tornava-se mais espesso, carregado com a amargura da obsessão dele. Era como se ela estivesse destilando a própria sanidade para entregá-la a ele em pequenas doses noturnas.
Nos dias seguintes, a fachada de Ichabod começou a ruir. Durante os jantares com Baltus e Brom, ele permanecia em silêncio absoluto, seus olhos fixos em Katrina com uma intensidade que fazia Brom apertar o cabo de sua faca de carne.
— O investigador parece ter visto um fantasma — comentou Brom certa noite, rindo com escárnio. — Ou talvez tenha passado tempo demais em seus livros e esquecido como os homens de verdade se comportam.
— O Sr. Crane tem tido dificuldades com o clima de nossa vila — interveio Baltus, tentando manter a polidez. — Sleepy Hollow não é para os fracos de espírito.
Ichabod ergueu o olhar. Por um breve segundo, a névoa de sua obsessão dissipou-se, revelando uma frieza cortante.
— O que você chama de fraqueza, Sr. Van Brunt — disse Ichabod, sua voz soando como o estalar de gelo —, eu chamo de sensibilidade. Há coisas operando nesta terra que sua mente bruta jamais poderia conceber. Há mistérios que exigem mais do que força física para serem... consumidos.
O silêncio que se seguiu foi tenso. Katrina sentiu o leite subir em seu peito, uma resposta física imediata à agressividade de Ichabod. Ela sabia que ele estava chegando a um ponto de ruptura.
Naquela madrugada, a tempestade atingiu seu ápice. Relâmpagos iluminavam o quarto de Katrina em flashes de um branco ofuscante, seguidos por trovões que faziam as janelas vibrarem. Ichabod entrou no quarto sem bater, sem se esconder. Ele estava encharcado, a camisa branca colada ao corpo, os cabelos negros grudados ao rosto pálido.
— Eu o vi — disse ele, a voz trêmula de terror e exaltação.
— O Cavaleiro? — perguntou Katrina, levantando-se rapidamente.
— Não. Eu me vi — respondeu ele, aproximando-se dela com passos erráticos. — Eu me vi no reflexo da água da chuva. Eu não reconheci o homem que olhava de volta. Ele tinha os olhos de minha mãe no momento em que ela morreu. Ele tinha os olhos de alguém que desistiu da luz.
Ele caiu nos braços dela, soluçando violentamente.
— Eu estou perdendo a mim mesmo, Katrina! Eu não consigo mais pensar em ciência! Eu só consigo pensar no calor da sua pele! Eu só consigo pensar no momento em que a noite cai e eu posso... eu posso ser alimentado por você!
— Ichabod, pare! — ela o segurou pelos ombros, sacudindo-o. — Você é Ichabod Crane! O homem que usa a razão como escudo!
— A razão é uma mentira! — gritou ele contra o peito dela. — A única verdade é esta dor e o alívio que você me dá! Por favor... eu imploro... cure-me novamente. Só mais esta noite. Prometo que amanhã eu serei o homem que você quer que eu seja.
Mas Katrina sabia que era uma promessa vazia. Ela o conduziu para a cama, sentindo o desespero dele como uma força física. Enquanto o relâmpago cortava o céu, ela se entregou novamente ao seu papel de nutriz sombria.
Desta vez, porém, algo foi diferente. Enquanto Ichabod buscava seu conforto, Katrina sentiu uma conexão psíquica avassaladora. Ela viu as memórias dele: a dama de ferro se fechando, o sangue correndo pelo chão de pedra, o cheiro de incenso e medo. E viu a si mesma, não como uma mulher, mas como uma árvore gigante de flores brancas, cujas raízes se enrolavam no coração de Ichabod, sufocando-o enquanto o mantinham vivo.
Ela percebeu que sua própria essência estava sendo drenada. Ela estava se tornando tão dependente de ser a salvadora dele quanto ele era de ser salvo. Era um círculo vicioso de devoção gótica, um altar de carne e sombras onde ambos eram sacerdotes e sacrifícios.
— Quando estou longe de você... parece que algo dentro de mim apodrece — murmurou Ichabod, sua voz agora um sussurro de exaustão absoluta, enquanto ele se aninhava nela.
— E quando você está perto — respondeu Katrina, olhando para o teto onde as sombras pareciam dançar uma valsa macabra —, eu sinto que estamos ambos apodrecendo juntos. Mas de uma forma tão doce, Ichabod... tão terrivelmente doce.
Ela o abraçou com força, aceitando seu destino. Se Sleepy Hollow exigia lendas de terror e sangue, eles criariam sua própria lenda de obsessão e leite. Eles seriam o segredo sussurrado entre os sussurros, o casal que encontrou no proibido a única forma de suportar a existência.
Naquela noite, as velas não se apagaram apenas pelo vento; elas pareciam ter sido sopradas por uma presença invisível que aprovava a união daquelas duas almas quebradas. E enquanto Ichabod Crane dormia o sono dos viciados, com o rosto encostado no altar branco de sua obsessão, Katrina Van Tassel olhava para a escuridão e sorria. Ela sabia que Brom nunca a teria. Ninguém nunca a teria. Pois ela agora pertencia ao homem que ela havia destruído com amor, e ele pertencia a ela através de uma fome que nem a morte poderia saciar.
O segredo de Sleepy Hollow não estava apenas nas florestas ou no cavaleiro sem cabeça. Estava ali, naquele quarto, onde o leite e a sombra se misturavam para criar uma nova forma de eternidade.