Voltar ao resumo

A Noiva de Sleepy Hollow

O Banquete das Sombras Brancas

A névoa de Sleepy Hollow havia deixado de ser apenas um fenômeno meteorológico para se tornar uma presença viva, uma extensão dos desejos e medos que habitavam a mansão Van Tassel. Após a noite na estufa, o ar na vila parecia ter engrossado, carregado com o peso do sacrilégio e da promessa. Ichabod Crane, o homem que outrora confiava apenas no que podia medir e catalogar, agora vivia em um estado de transe perpétuo, um equilíbrio precário entre a exaltação do amor e o abismo da loucura.

O anúncio oficial do noivado de Katrina com Brom Van Brunt fora feito sob o brilho de candelabros de prata, mas para Ichabod, as palavras de Baltus Van Tassel soaram como uma sentença de morte proferida em uma língua morta. Ele permanecera ao fundo do salão, pálido como um espectro, sentindo o calor do segredo que carregava sob a pele. Ele sabia o que Brom não sabia. Ele possuía o que Brom jamais teria.

No entanto, o preço dessa posse estava sendo cobrado de formas que nem mesmo os grimórios escondidos de Katrina poderiam prever.

Naquela noite, o frio não vinha do vento que uivava pelas frestas das janelas, mas de dentro das próprias paredes. Ichabod estava em seu quarto, tentando concentrar-se em um relatório sobre as finanças da vila, mas as letras nos papéis pareciam serpentear como vermes. Seus dedos longos e finos batiam na mesa em um ritmo nervoso.

— Concentre-se, Crane — sussurrou para si mesmo, a voz falhando. — Lógica. Causa e efeito.

Mas a lógica não explicava o som que começou a ecoar pelo corredor. Não era o passo pesado de um servo, nem o ranger de madeira velha. Era um coro de sussurros femininos, uma polifonia de vozes suaves, etéreas, que chamavam seu nome com uma urgência melancólica.

— Ichabod... noivo... nosso noivo...

Ele se levantou, derrubando o tinteiro. A mancha negra se espalhou pelo papel como um presságio. Ao olhar para a janela, seu coração quase parou. No vidro embaçado pelo gelo, marcas de mãos pequenas e delicadas apareciam, como se dezenas de mulheres estivessem do lado de fora, flutuando no vazio da noite, tentando entrar.

— Isso é impossível — ele arquejou, recuando até bater na parede. — Uma alucinação febril. Um subproduto da exaustão.

Mas quando ele olhou para sua cama, o terror se tornou absoluto. Sobre os lençóis brancos, espalhadas como um rastro de um funeral nupcial, estavam pétalas de flores brancas — camélias e lírios que não floresciam naquela estação, exalando um perfume de doçura e decomposição.

As Willis. As noivas traídas, as mulheres que morreram antes do altar e que agora vagavam pela névoa em busca de um companheiro eterno. Elas sentiam o cheiro da promessa em Ichabod. Ele era um homem marcado pelo destino, um "prometido" que havia quebrado as leis dos homens para se unir a uma mulher de linhagem mística. Para as Willis, ele era a presa perfeita: um noivo que já pertencia às sombras.

A porta do quarto se abriu abruptamente. Ichabod soltou um grito curto, mas era Katrina. Ela entrou como uma lufada de vento, os cabelos dourados desgrenhados e os olhos brilhando com uma determinação feroz. Ela carregava uma bacia de bronze e um maço de ervas secas — arruda, salgueiro e freixo.

— Elas estão aqui, não estão? — perguntou ela, sem preâmbulos.

— Eu... eu escuto vozes, Katrina — ele confessou, caindo de joelhos. — Elas chamam por mim. Elas me querem.

Katrina olhou para as pétalas sobre a cama e para as marcas no vidro. Um lampejo de raiva e ciúme atravessou seu rosto angelical.

— Elas sentem o seu rastro, Ichabod. Você não é mais o forasteiro cético. Você se tornou parte do tecido sobrenatural desta terra quando se entregou a mim. Elas querem o que eu conquistei.

Ela se aproximou dele, segurando seu rosto entre as mãos. A pele de Ichabod estava gélida, e seus olhos escuros pareciam ver coisas que não pertenciam ao mundo material.

— Eu não vou deixar que elas o levem — declarou ela, a voz baixa e vibrante. — Você é meu. De corpo, alma e sangue.

— Katrina, eu sinto que estou desaparecendo — ele murmurou, a cabeça pendendo para o lado. — O frio... ele é tão convidativo. Elas prometem que a dor vai parar.

— A dor é o que prova que você está vivo! — ela o sacudiu. — Levante-se. Esta noite, você não dormirá sozinho. E não dormirá sem proteção.

Ela o conduziu até a cama, varrendo as pétalas das Willis para o chão com um gesto de desprezo. Katrina começou a espalhar as ervas ao redor do leito, criando um círculo de proteção. Ela acendeu pequenos ramos de sálvia, e a fumaça acre começou a preencher o quarto, combatendo o perfume adocicado das flores fantasmagóricas.

— Deite-se — ordenou ela.

Ichabod obedeceu, sentindo-se como uma criança perdida em uma tempestade. Katrina deitou-se ao lado dele, mas não para o descanso. Ela trazia consigo amuletos de prata e símbolos de proteção antigos, que dispôs sobre o peito de Ichabod. Ela entrelaçou seus dedos nos dele, apertando com tanta força que os nós de suas mãos ficaram brancos.

— Feche os olhos, Ichabod. Não importa o que ouça, não responda. Não importa quem veja na névoa, não olhe. Elas tentarão imitá-la. Elas tentarão imitar a mim.

— Como saberei quem é você? — perguntou ele, a voz trêmula.

— Pelo calor — ela sussurrou, encostando os lábios no ouvido dele. — Os mortos são frios, Ichabod. O amor que sinto por você queima. Sinta o meu fogo e ignore o gelo delas.

A noite avançou como um pesadelo em câmera lenta. Ichabod mergulhou em um sono febril, mas a consciência não o abandonou totalmente. Ele sentia as presenças ao redor da cama. O círculo de ervas de Katrina brilhava com uma luz pálida, uma barreira que as Willis não conseguiam transpor, mas elas não desistiam.

Ele as via em seus sonhos: mulheres de vestidos de noiva rasgados, com véus que pareciam feitos de teia de aranha e névoa. Elas dançavam ao redor do quarto, seus pés não tocando o chão. Seus rostos eram belos e terríveis, com órbitas vazias que choravam orvalho.

— Venha, Ichabod... — sussurravam elas. — Brom terá a carne dela. Nós teremos o seu espírito. Seremos suas esposas na floresta de vidro.

Ele sentiu uma mão gelada roçar seu tornozelo, um frio que subia por suas pernas como veneno. Ele tentou gritar, mas sua voz estava presa. Foi então que sentiu o aperto de Katrina. O calor da mão dela era como um ferro em brasa, ancorando-o à realidade.

— Eu estou aqui — a voz de Katrina ecoou em sua mente, sobrepondo-se ao coro das Willis. — Eu sou a sua única noiva.

Ichabod lutou contra a atração do abismo. Ele se lembrou da estufa, do gosto da pele de Katrina, da maneira como ela se revelara a ele sob a luz das velas. Ele se agarrou a essas memórias carnais, usando o desejo como uma arma contra a pureza estéril da morte.

— Eu não sou delas — ele rugiu internamente. — Eu sou dela!

Um grito agudo, como o de um pássaro ferido, rasgou o silêncio do quarto. As Willis recuaram, suas formas se desfazendo em fumaça branca enquanto o círculo de proteção de Katrina pulsava com uma energia renovada. As marcas de mãos no vidro desapareceram, e o perfume de lírios foi substituído pelo cheiro de terra e vida.

Quando a primeira luz cinzenta do amanhecer começou a filtrar-se pelas cortinas, Ichabod acordou. Ele estava ensopado de suor, o coração martelando contra as costelas, mas a mente estava clara. Katrina ainda estava ao seu lado, segurando sua mão com uma firmeza inquebrável. Ela parecia exausta, com sombras sob os olhos, mas quando o viu acordado, um sorriso de triunfo iluminou seu rosto.

— Elas se foram — disse ela, a voz rouca. — Por agora.

Ichabod sentou-se na cama, olhando para as ervas queimadas e para os amuletos espalhados. Ele olhou para Katrina e sentiu uma onda de gratidão e terror.

— Você me salvou de novo.

— Eu estou apenas protegendo o que é meu, Ichabod — ela respondeu, subindo no colo dele e abraçando-o pelo pescoço. — Você acha que eu permitiria que aquelas sombras o levassem depois de tudo o que sacrifiquei?

Ele a puxou para mais perto, escondendo o rosto na curva de seu pescoço.

— Elas disseram que Brom teria sua carne.

Katrina afastou-se um pouco, olhando-o nos olhos com uma seriedade mortal.

— Brom não terá nada. O anúncio do noivado foi apenas um movimento no tabuleiro. Meu pai acredita que pode dispor de mim, mas ele esquece que o sangue Van Tassel carrega mais do que ouro e terras. Ele carrega o poder de escolher quem vive e quem morre em nossos corações.

Ela começou a desfazer os botões da camisa de Ichabod, seus dedos movendo-se com uma urgência que não era apenas desejo, mas uma necessidade de reafirmar a vida após uma noite cercada pela morte.

— Ichabod, olhe para mim — pediu ela.

Ele obedeceu, fascinado pela visão dela. Katrina desfez a parte superior de seu vestido, deixando que a seda caísse e revelasse seus ombros e a curva de seus seios à luz pálida da manhã. Naquela claridade fria, ela não parecia uma santa, mas uma divindade pagã, uma força da natureza que reivindicava seu território.

— Sinta — disse ela, guiando a mão dele até seu coração. — Isso é real. Isso é o que as impede de entrar.

— Elas voltarão — sussurrou Ichabod, seus dedos explorando a maciez da pele dela com uma reverência renovada.

— Que voltem — desafiou Katrina. — Cada vez que tentarem levá-lo, eu o trarei de volta com mais força. Elas não podem competir com o que temos. Elas são feitas de arrependimento; nós somos feitos de vontade.

Ichabod sentiu a obsessão por ela queimar ainda mais forte. Ele percebeu que Katrina não era apenas sua amante ou sua salvadora; ela era sua carcereira e sua liberdade. Ele estava preso a ela por laços que iam além do físico. Se as Willis o queriam como noivo eterno, Katrina já o havia transformado em algo muito mais profundo: seu servo, seu consorte, seu igual nas sombras.

— Eu farei o que for preciso — disse ele, a voz ganhando uma firmeza que surpreendeu a ambos. — Se tivermos que viver na névoa para ficarmos juntos, que assim seja. Eu não temo mais os mortos, Katrina. Eu temo apenas a vida sem você.

Ela o beijou, um beijo que selou o pacto feito no escuro. Naquele momento, Ichabod Crane abandonou qualquer vestígio de seu antigo eu. O investigador de Nova York, o homem da ciência e da razão, morrera naquela noite. No seu lugar, nascera algo novo, algo forjado no fogo da sedução de Katrina e no frio das Willis.

— Temos que nos preparar — disse Katrina, separando-se dele enquanto começava a se vestir. — O casamento com Brom está marcado para a véspera de Todos os Santos. É o momento em que o véu entre os mundos é mais fino.

— O que você vai fazer? — perguntou ele, observando-a com fascínio.

— Vou transformar o altar de meu pai em um túmulo para as ambições de Brom — respondeu ela, seus olhos brilhando com uma astúcia sobrenatural. — E você, Ichabod, será o meu triunfo.

Ela saiu do quarto tão silenciosamente quanto entrara, deixando Ichabod sozinho com seus pensamentos. Ele olhou para o vidro da janela. Não havia mais marcas de mãos, mas ele sabia que elas ainda estavam lá fora, esperando. No entanto, ele não sentia mais medo.

Ele se levantou e caminhou até o espelho. Ao olhar para seu reflexo, viu que seus olhos pareciam mais profundos, e que havia uma palidez em sua pele que não era de doença, mas de uma nova natureza. Ele tocou o peito, onde os amuletos de Katrina haviam deixado marcas avermelhadas na pele.

— Brom Van Brunt busca uma esposa — murmurou Ichabod para o próprio reflexo. — Mas ele não sabe que está tentando desposar a rainha das sombras. E que o seu rei já foi coroado.

Ele começou a se vestir, seus movimentos precisos e elegantes. Ele tinha um papel a desempenhar. Ele seria o investigador diligente, o convidado educado, o homem que evitava problemas. Mas por baixo da seda preta e do linho branco, ele era o homem que havia sobrevivido ao banquete das Willis e que se alimentava do mistério de Katrina.

Sleepy Hollow continuava mergulhada em suas tradições, mas uma nova tradição estava sendo escrita no escuro dos corredores da mansão Van Tassel. Uma tradição de sangue, leite e segredos, onde o amor verdadeiro não era uma salvação, mas uma transformação radical.

Enquanto Ichabod descia para o desjejum, ele cruzou com Brom no corredor. O homem mais jovem e forte soltou uma risada ruidosa e deu um tapa pesado no ombro de Ichabod.

— Dormiu bem, Crane? Parece que viu um fantasma.

Ichabod sorriu, um sorriso fino e enigmático que não chegou aos seus olhos.

— Vi muitos, Sr. Van Brunt. Mas descobri que os fantasmas são fáceis de lidar quando se tem a proteção adequada.

Brom franziu a testa, confuso pela resposta, mas Ichabod apenas continuou seu caminho. Ele sentia o perfume de Katrina impregnado em sua pele, um escudo invisível contra o mundo. O jogo estava apenas começando, e as Willis, em sua sabedoria eterna e triste, sabiam o que Brom ainda não suspeitava: em Sleepy Hollow, o noivo já havia sido escolhido, e o altar seria o palco de uma revelação que mudaria a vila para sempre.

A névoa lá fora parecia recuar diante de Ichabod, como se reconhecesse um de seus próprios. Ele caminhou em direção ao futuro, consciente de que cada passo o afastava mais da luz dos homens e o levava mais fundo para o abraço eterno de Katrina Van Tassel. E ele não queria estar em nenhum outro lugar.