A Obsessão do alfa mafioso
O Despertar na Toca do Lobo
O silêncio na mansão de Victor era absoluto, interrompido apenas pelo som rítmico do monitor cardíaco que ele havia mandado instalar no quarto principal. Elisa estava deitada no centro da imensa cama king-size, parecendo ainda menor e mais frágil sob os edredons de seda cinza-chumbo. A bandagem branca em sua têmpora contrastava com o fogo vibrante de seus cabelos ruivos, que se espalhavam pelo travesseiro como pétalas de uma flor exótica e ferida.
Victor não saiu do lado dela. Ele estava sentado em uma poltrona de couro escuro, as pernas longas estendidas, observando cada respiração da mulher que o destino — ou a maldição de seu sangue — havia escolhido para ser sua. Seus olhos azuis, agora desprovidos do brilho dourado da fera, estavam carregados de uma possessividade sombria. Ele ainda sentia o gosto do sangue do lobo desgarrado em sua boca, a adrenalina da luta ainda correndo em suas veias.
O cheiro dela, aquele mix inebriante de baunilha, chocolate e o medo doce que agora se dissipava no sono induzido pelo trauma, agia como uma droga em seus sentidos. O lobo dentro dele, a fera negra de olhos dourados, andava de um lado para o outro em sua mente, arranhando as paredes de sua consciência, exigindo que ele a tocasse, que a marcasse, que garantisse que nenhum outro macho — humano ou animal — jamais ousasse olhar para ela novamente.
Um gemido baixo escapou dos lábios de Elisa. Suas pálpebras tremeram, as longas pestanas projetando sombras sobre a pele morena clara.
Victor inclinou-se para frente, a tensão emanando de seus ombros largos e musculosos. Ele observou quando os olhos verdes, da cor das esmeraldas mais puras, se abriram lentamente, nublados pela confusão e pela dor.
— Onde... — A voz dela era um sussurro rouco, quase inaudível.
— Você está segura. — A voz de Victor preencheu o quarto, profunda e possessiva. — Eu trouxe você de volta.
Elisa piscou várias vezes, tentando focar a imagem à sua frente. As memórias da noite começaram a voltar em flashes violentos: a janela do banheiro, a corrida desesperada pela floresta, a dor no tornozelo, os dentes do lobo cinzento e, depois... a fera negra. O monstro imenso com olhos de ouro que parecia ter saído de um pesadelo gótico.
Ela tentou se sentar bruscamente, mas a dor na cabeça a fez soltar um suspiro de agonia, e ela caiu de volta nos travesseiros.
— Não se mova — ordenou Victor, levantando-se e aproximando-se da cama. — Você bateu a cabeça com força. O médico da família já a examinou. Além da concussão leve e do tornozelo torcido, você ficará bem. Mas precisa de repouso.
Elisa olhou para ele, o medo voltando a brilhar em seus olhos verdes enquanto ela processava as palavras dele. A presença de Victor era esmagadora; ele parecia ocupar todo o espaço do quarto, sua aura de poder e perigo sufocando qualquer pensamento de fuga.
— Aquele lobo... — ela começou, a voz trêmula. — Tinha um lobo negro. Ele matou o outro. Ele... ele olhou para mim.
Victor sentiu um lampejo de satisfação. O reconhecimento da fera, mesmo que ela não soubesse que era ele, enviava uma onda de prazer primitivo pelo seu corpo.
— A floresta pode ser um lugar perigoso para uma garotinha desobediente, Elisa — disse ele, sentando-se na beirada da cama. A proximidade fez os pelos do braço dela se arrepiarem. — Você tentou fugir de mim. Isso foi um erro. Um erro que quase custou sua vida.
— Você me sequestrou! — Ela tentou elevar a voz, mas a fraqueza a traiu. — Você não pode me manter aqui. Eu não sou sua propriedade!
Victor soltou um riso baixo, seco, que não chegou aos seus olhos azuis glaciais. Ele estendeu a mão, e Elisa encolheu-se, mas ele foi implacável. Seus dedos longos e fortes acariciaram a bochecha dela, descendo pelo contorno da mandíbula até prender uma mecha de cabelo ruivo entre os dedos.
— Você ainda não entende, não é? — Ele se inclinou, o rosto a centímetros do dela. Elisa podia sentir o calor que emanava dele, um calor que parecia sobrenatural. — Desde o momento em que senti seu cheiro naquela rua escura, a ordem do mundo mudou. Você não é apenas uma mulher que eu escolhi. Você é a minha companheira. E no meu mundo, Elisa, o que é meu, eu protejo. E o que eu protejo, ninguém toca.
— Companheira? — Ela franziu a testa, a confusão lutando com o terror. — Do que você está falando? Você é um criminoso, um líder da máfia... você é louco!
— Sou muitas coisas, minha Chapeuzinho — murmurou ele, a voz descendo para um tom perigosamente suave. — Mas louco não é uma delas. Eu sou o seu destino. E você vai aprender a amar suas correntes, porque elas são feitas de seda e da minha proteção.
Elisa sentiu uma lágrima quente escorrer pelo rosto. Ela se sentia como um pássaro em uma gaiola de ouro, com o predador mais perigoso da selva guardando a porta.
— Por que eu? — perguntou ela, a voz quebrada. — Eu não sou ninguém. Sou uma órfã, não tenho nada, não sou ninguém importante.
Victor sorriu, e desta vez havia algo de genuinamente predatório em sua expressão. Ele aproximou o rosto do pescoço dela, inalando profundamente o aroma da pele dela, bem onde a pulsação batia frenética.
— Você é tudo — disse ele contra a pele dela, fazendo-a estremecer. — Você é a pureza que eu nunca tive. O cheiro de baunilha e chocolate que acalma a fera dentro de mim. Você é virgem, Elisa. Intocada. E o pensamento de que eu serei o primeiro e o único a possuir você... isso me faz querer queimar o mundo inteiro apenas para ver você brilhar.
Ele se afastou um pouco, olhando-a nos olhos.
— Durma agora. Seus remédios têm um sedativo leve. Amanhã começaremos sua nova vida. Não tente fugir novamente. A próxima vez que eu tiver que buscá-la na floresta, não serei tão gentil.
— Eu odeio você — ela sussurrou, as pálpebras começando a pesar novamente sob o efeito da medicação que ele havia colocado no soro.
— Ódio é apenas o outro lado da paixão, querida. — Victor levantou-se e caminhou até a porta. — E eu tenho toda a eternidade para transformar esse seu ódio em algo muito mais... interessante.
Ele saiu do quarto, trancando a porta com um clique metálico que ecoou no coração de Elisa.
No corredor, Victor encontrou seu braço direito, um homem alto e de expressão severa chamado Marcus, que também carregava o sangue lupino, embora fosse de uma linhagem inferior à de Victor.
— Senhor — disse Marcus, inclinando a cabeça em sinal de respeito. — Os homens que permitiram que ela escapasse já foram punidos. A segurança foi triplicada.
— Certifique-se de que isso não se repita — rosnou Victor, seus olhos brilhando brevemente em dourado. — Se ela sofrer um arranhão sequer por negligência de vocês, eu mesmo arrancarei suas gargantas.
— Sim, Alfa. E sobre o lobo solitário na floresta?
— Ele está morto — afirmou Victor com frieza. — Ninguém ataca o que é meu e vive para contar a história. Limpem o rastro. Não quero que a polícia ou qualquer outro clã se aproxime destas terras.
Victor caminhou até seu escritório, mas não conseguiu se concentrar nos relatórios da máfia ou nos negócios de carregamento que exigiam sua atenção. Sua mente estava no quarto ao lado. O lobo dentro dele estava inquieto, uivando por ela. A transformação na floresta havia sido necessária, mas perigosa. Elisa ainda não estava pronta para a verdade. Ela era humana, frágil, criada em um mundo de lógica e luz. Como ela reagiria ao saber que o homem que a mantinha prisioneira era, na verdade, um monstro de lendas?
Ele se serviu de um copo de uísque puro, observando a lua cheia através da janela de vidro blindado. O brilho prateado iluminava as cicatrizes em suas mãos e as tatuagens que contavam a história de um homem que subiu ao topo através do sangue e da violência.
— Você vai aprender, Elisa — murmurou ele, girando o líquido no copo. — Vai aprender que o lobo não é o vilão da sua história. Ele é o seu dono.
***
Horas depois, na calada da madrugada, Elisa acordou assustada. O efeito do sedativo havia passado, deixando apenas uma névoa de dor e uma sede intensa. O quarto estava mergulhado em sombras, iluminado apenas pela luz da lua que filtrava pelas cortinas entreabertas.
Ela olhou para o lado e seu coração quase parou.
Victor não estava lá, mas algo estava.
Perto da janela, uma silhueta imensa estava sentada sobre as patas traseiras. A respiração era pesada, um som rítmico que parecia vibrar nas paredes. Dois globos dourados brilhavam na escuridão, fixos nela com uma intensidade que a impedia de gritar.
— Você... — ela arfou, o corpo tremendo sob os lençóis.
Era o lobo negro. O mesmo que a salvara. Mas como ele havia entrado? O quarto estava trancado. As janelas eram altas e fechadas.
O lobo levantou-se, movendo-se com uma graça silenciosa que era impossível para um animal daquele tamanho. Ele se aproximou da cama, o focinho úmido e preto farejando o ar. Elisa ficou paralisada, o terror absoluto travando seus músculos. A fera era imensa; sua cabeça chegava à altura do peito dela, mesmo com ela sentada na cama.
O lobo soltou um ganido baixo, quase um lamento, e inclinou a cabeça, encostando o focinho frio na mão trêmula de Elisa que estava sobre o cobertor.
Ela deveria gritar. Deveria lutar. Mas, por algum motivo, a aura que emanava daquele animal não era de agressão. Era de... adoração. Uma proteção feroz e primitiva que ela não conseguia explicar.
— Você me salvou — sussurrou ela, as lágrimas voltando aos olhos.
Sem saber o que estava fazendo, movida por um instinto que desafiava a razão, Elisa estendeu os dedos e tocou o pelo negro atrás das orelhas do lobo. Era macio, denso e quente. O lobo fechou os olhos dourados, soltando um suspiro profundo que pareceu um ronronar vibrante.
Por um momento, o medo desapareceu. Havia uma conexão ali, algo antigo e sombrio que ligava a alma daquela órfã solitária à fera indomável.
— Quem é você? — perguntou ela em um sussurro.
O lobo abriu os olhos, encarando-a com uma inteligência humana que a fez estremecer. Ele deu um passo para trás, soltou um último uivo baixo e, com uma agilidade sobrenatural, saltou em direção às sombras do canto do quarto, desaparecendo como se nunca tivesse existido.
Elisa piscou, esfregando os olhos. O quarto estava vazio. A porta continuava trancada.
— Foi um sonho — disse ela para si mesma, embora o calor do pelo negro ainda parecesse queimar em seus dedos. — Só pode ter sido um sonho.
Mas, no fundo de sua mente, uma voz pequena e aterrorizada dizia que o pesadelo estava apenas começando. E que o lobo e o homem que a mantinha presa eram duas faces da mesma moeda de escuridão.
Na manhã seguinte, Victor entrou no quarto carregando uma bandeja com café da manhã fresco: frutas, pães e suco. Ele parecia impecável em seu terno sob medida, mas Elisa notou algo diferente. Havia um brilho de satisfação em seus olhos azuis, e ele parecia mais relaxado, como se um peso tivesse sido tirado de seus ombros.
— Dormiu bem, Elisa? — perguntou ele, colocando a bandeja sobre o colo dela.
Ela o observou, procurando por qualquer sinal da fera da noite anterior.
— Eu tive um sonho — disse ela, observando a reação dele. — Um lobo negro estava aqui. Ele me deixou tocá-lo.
Victor parou por um segundo, um sorriso enigmático brincando nos cantos de seus lábios. Ele se inclinou e beijou a testa dela, um gesto de carinho que parecia deslocado em um sequestrador.
— Talvez não tenha sido um sonho — disse ele, a voz carregada de segredos. — Talvez o lobo apenas quisesse que sua companheira soubesse que ele está sempre vigiando.
Elisa sentiu um calafrio percorrer sua espinha. Ela olhou para as mãos de Victor — mãos grandes, fortes, tatuadas. Mãos que podiam tanto matar quanto acariciar.
— O que você vai fazer comigo, Victor? — perguntou ela, a voz cheia de uma resignação que a assustava.
Victor pegou uma mecha de seu cabelo ruivo e levou aos lábios, inalando o cheiro de baunilha que ele tanto amava.
— Vou fazer de você a rainha do meu império, Elisa. Vou dar a você tudo o que o orfanato nunca deu. Riquezas, proteção, amor... — Ele fez uma pausa, os olhos azuis tornando-se subitamente intensos. — Mas em troca, você pertencerá a mim. Corpo, alma e coração. Você nunca mais sairá deste lugar sem a minha permissão. Você é a minha obsessão, e eu não compartilho o que é meu.
— Isso não é amor — disse ela, tentando manter a dignidade. — Isso é posse.
— Para um homem como eu, e para uma fera como a que vive em mim, não há diferença — respondeu ele, levantando-se. — Coma. Hoje à noite teremos um jantar formal. Quero que você use o vestido que deixei no closet. E Elisa... — Ele parou na porta, olhando-a por cima do ombro. — Não tente a janela de novo. Eu mandei colocar grades de ferro forjado. Não porque eu queira mantê-la presa, mas porque não posso arriscar que você se machuque novamente.
Quando ele saiu, Elisa arrastou-se até o closet. Pendurado lá, estava um vestido de seda verde esmeralda, da cor exata de seus olhos. Ao lado, um colar de diamantes que brilhava como estrelas frias.
Ela tocou o tecido fino, sentindo-se como a Chapeuzinho Vermelho que, em vez de ser devorada, havia sido levada para a toca do Lobo Mau para ser sua noiva. A liberdade parecia uma lembrança distante, e a floresta lá fora, embora vasta, não era mais seu refúgio.
Seu refúgio, e sua prisão, agora tinham o nome de Victor.
Ela olhou para o próprio reflexo no espelho: os cachos ruivos desgrenhados, os olhos verdes cheios de uma incerteza selvagem. Ela ainda era virgem, ainda era pura, mas sentia que a escuridão de Victor estava começando a manchar as bordas de sua alma.
E o pior de tudo, o que mais a aterrorizava, era que parte dela — a parte que sentiu o calor do lobo na noite anterior — não queria mais fugir.
O lobo havia vencido. A caçada havia terminado. E agora, começava a vida na sombra da fera.