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A outra mulher

O Peso do Silêncio e o Calor da Inocência

A manhã no Setor 45 nasceu tingida por um cinza metálico, a cor padrão de um mundo que havia esquecido como o azul do céu costumava ser. Dentro dos aposentos de Aaron Warner, o ar estava parado, pesado com o resíduo da discussão da noite anterior. Clara acordou sozinha. O lado da cama que pertencia a Aaron estava impecável, frio, como se nunca tivesse sido ocupado.

Ela se levantou com uma lentidão deliberada. Não havia pressa para encarar o dia, não quando o dia prometia apenas mais olhares de soslaio e o vazio da ausência de Aaron. Ao se olhar no espelho, Clara não procurou pelos defeitos que as soldadas mencionaram no corredor; em vez disso, ela procurou por si mesma. Lavou o rosto, vestiu um vestido de lã escura que abraçava suas curvas de forma confortável e prendeu o cabelo em um coque firme. Se Aaron queria distância, ela lhe daria um oceano.

A indiferença, descobriu Clara, era uma armadura muito mais pesada que a tristeza, mas muito mais eficaz.

Ao sair dos aposentos, ela cruzou com dois guardas que faziam a ronda. Eles pararam, batendo os calcanhares em saudação, mas Clara notou a troca de olhares rápida entre eles. Um sorriso de canto de boca, um sussurro abafado assim que ela passou. Antigamente, isso a faria murchar. Hoje, ela apenas endireitou os ombros. Se ela era a "piada" do Setor 45, ela seria uma piada de granito.

Ela não foi ao refeitório. Não queria encontrar Delalieu e sua simpatia piedosa, e muito menos queria arriscar ver Aaron e Juliette juntos novamente. Em vez disso, seus pés a levaram para um setor mais afastado da base, um lugar que Aaron a levara meses atrás, quando ainda parecia desesperado para que ela fizesse parte de cada fragmento de sua vida.

A ala habitacional dos civis de baixo escalão e órfãos do exército era um lugar austero, mas havia uma porta específica que exalava algo diferente.

Clara bateu suavemente.

— Já vai, já vai! — Uma voz infantil e enérgica gritou do outro lado.

A porta se abriu com um solavanco, revelando um menino de cabelos claros e olhos que carregavam uma sabedoria precoce e dolorosa. James. Ao ver Clara, o rosto do menino se iluminou de uma forma que Aaron não permitia que o seu brilho fizesse há semanas.

— Tia Clara! — James exclamou, avançando para um abraço impetuoso que quase a desequilibrou.

Clara sentiu um nó na garganta se desfazendo. Ela retribuiu o abraço, afundando o rosto nos cabelos do menino. James era o segredo mais bem guardado de Aaron, o irmão que ele protegia com uma ferocidade silenciosa, e Clara fora a única pessoa a quem Aaron confiara esse segredo.

— Olá, pequeno soldado — disse ela, forçando um sorriso que, pela primeira vez no dia, chegou aos olhos. — Como você está? Adam está por perto?

— Adam saiu para buscar provisões extras — James explicou, puxando-a para dentro do quarto pequeno, mas organizado. — Ele diz que as coisas estão ficando "tensas" na base principal. Mas eu não me importo, desde que você tenha trazido aqueles biscoitos que prometeu da última vez.

Clara riu, buscando no bolso do casaco um pequeno embrulho de papel pardo. Eram sobras da cozinha que ela conseguira contrabandear, doces que eram raridades naquele mundo de rações sintéticas.

— Você tem sorte de eu ter boa memória, James.

Eles se sentaram no chão, o tapete gasto sendo o único luxo do ambiente. Por alguns instantes, Clara conseguiu esquecer Juliette Ferrars. Esqueceu o modo como Aaron olhava para a garota de porcelana e o modo como as pessoas riam do seu corpo nos corredores. Ali, com James, ela não era a "esposa secreta" ou a "mulher gordinha do Comandante". Ela era apenas a Tia Clara.

— O Aaron veio ver você ultimamente? — perguntou James, com a boca cheia de farelos.

O nome atingiu Clara como uma pontada física.

— Ele está muito ocupado, James. Você sabe como é o trabalho dele.

James parou de mastigar e a observou com aqueles olhos grandes e analíticos. Ele era um Warner, afinal. A genética não mentia.

— Você está triste — afirmou o menino. — Ele fez alguma coisa? Eu posso chutar a canela dele na próxima vez que ele vier. Adam diz que ele merece de vez em quando.

Clara soltou uma risada curta, mas triste.

— Não acho que chutar a canela do Comandante Supremo seja uma boa estratégia militar, James. Mas obrigada pela oferta.

— É por causa da garota nova, não é? — James perguntou, baixando a voz. — Eu ouvi o Adam falando no rádio. Ele disse que o Aaron encontrou uma arma que fala.

Clara sentiu o peso da indiferença que tentara construir começar a rachar.

— Ela não é só uma arma, James. Ela é... extraordinária.

— Você também é — rebateu o menino, com a simplicidade absoluta da infância. — O Aaron me disse uma vez que você era a única pessoa que conseguia fazer o barulho na cabeça dele parar. Ele disse que você era como música.

As palavras de James foram como um punhal de dois gumes. Saber que Aaron a vira assim um dia tornava a negligência atual ainda mais insuportável.

— Talvez ele tenha encontrado uma música nova, James. Uma mais potente.

— Mas eu não gosto de música barulhenta — James insistiu, aproximando-se e encostando a cabeça no ombro de Clara. — Eu gosto da sua música.

Clara ficou ali por horas, ajudando James com algumas lições de leitura e ouvindo suas histórias sobre os jogos que inventava para passar o tempo. James era o lembrete de que Aaron tinha um coração, mesmo que esse coração estivesse, no momento, trancado atrás de uma porta para a qual ela não tinha mais a chave.

Quando finalmente se despediu e começou a longa caminhada de volta para os setores centrais, a armadura de indiferença de Clara estava de volta, mas agora estava mais fria.

Ao entrar no corredor principal que levava aos aposentos do comando, ela avistou a figura inconfundível de Aaron. Ele estava parado perto de uma das janelas de vidro, conversando com Delalieu. Ao ver Clara se aproximar, Aaron interrompeu o que dizia. Seus olhos verdes a percorreram, buscando algo — talvez a vulnerabilidade da noite anterior.

Clara não lhe deu esse prazer. Ela continuou caminhando, o passo firme, o olhar fixo à frente.

— Clara — chamou Aaron. A voz dele era autoritária, mas havia uma nota de estranheza, como se ele não estivesse acostumado a ser ignorado por ela.

Ela parou, mas não se virou completamente.

— Sim, Comandante?

Aaron franziu a testa visivelmente. O uso do título oficial entre eles, mesmo em público, era raro e cortante. Delalieu, percebendo a tensão, murmurou uma desculpa e se retirou apressadamente.

— Onde você estava? — perguntou Aaron, aproximando-se. — Procurei você no almoço. Mandei um soldado aos nossos aposentos e você não estava lá.

— Fui visitar o James — respondeu ela, a voz desprovida de qualquer emoção. — Ele sente sua falta. Embora eu tenha dito a ele que você está ocupado demais com suas... novas prioridades.

Aaron estreitou os olhos. Ele deu um passo para dentro do espaço pessoal dela, um movimento que costumava fazer Clara suspirar. Agora, ela apenas sentiu um leve incômodo.

— Você não deveria sair sem escolta, Clara. As coisas estão instáveis.

— Ah, eu duvido que alguém queira me sequestrar, Aaron — disse ela, com um sorriso gélido que não mostrava os dentes. — De acordo com os seus soldados, eu sou apenas o "peso morto" que você mantém por hábito. Ninguém gasta munição com o que não tem valor.

O rosto de Aaron empalideceu por um microssegundo antes de se tornar uma máscara de fúria contida.

— Quem disse isso? Diga-me os nomes. Agora.

— Para quê? Para você puni-los e provar que eles estão certos? Que você precisa me proteger porque eu sou incapaz? — Clara finalmente o encarou nos olhos. — Não se dê ao trabalho. A opinião deles não me fere mais do que o seu silêncio.

— Clara, eu já expliquei... a Juliette é...

— Eu não quero ouvir o nome dela — interrompeu ela, a voz subindo apenas um tom, mas carregada de uma autoridade que o fez calar. — Eu não me importo se ela pode derrubar paredes com o pensamento ou se ela é a chave para o seu domínio mundial. O que me machuca, Aaron, não é o que ela é. É o que você deixou de ser quando ela chegou.

— Eu sou o mesmo homem! — ele sibilou, agarrando o braço dela, não com força, mas com uma urgência desesperada.

Clara olhou para a mão enluvada dele em seu braço. Um toque que antes era fogo, agora parecia apenas couro frio.

— Não, você não é. O homem por quem eu me apaixonei não teria me deixado dormir chorando enquanto ia para o escritório "pensar". O homem que eu amo não me faria sentir vergonha do meu próprio corpo só porque encontrou uma mulher que se encaixa nos padrões de perfeição deste mundo doente.

— Eu nunca disse que tinha vergonha de você! — Aaron exclamou, a voz ecoando pelo corredor vazio.

— Você não precisa dizer, Aaron. Você age.

Ela se soltou do aperto dele com uma facilidade que pareceu surpreendê-lo.

— Vou para o quarto. Por favor, não me procure hoje. James me disse que eu sou "música", e eu decidi que não quero ser tocada por alguém que está ficando surdo.

Clara voltou a caminhar, deixando Aaron Warner parado no meio do corredor. Pela primeira vez em sua vida, o Comandante do Setor 45 parecia pequeno diante da imensidão do vazio que ele mesmo criara.

Ao entrar em seus aposentos, Clara trancou a porta. Ela caminhou até o guarda-roupa e tirou de lá uma mala pequena. Não ia fugir — não havia para onde ir naquele mundo devastado — mas ia mudar de quarto. Havia uma pequena ala de hóspedes perto da biblioteca que raramente era usada.

Ela se recusava a ser o porto seguro de um homem que só voltava para o cais quando não tinha mais o sol para admirar.

Enquanto dobrava suas roupas, Clara sentiu uma lágrima solitária escorrer, mas a limpou rapidamente. A insegurança ainda estava lá, um monstro sussurrante em seu ouvido dizendo que ela nunca seria tão magra, tão poderosa ou tão fascinante quanto Juliette Ferrars. Mas, pela primeira vez, Clara tinha uma resposta para o monstro.

— Eu posso não ser um incêndio — sussurrou ela, lembrando-se das palavras cruéis das gêmeas curandeiras. — Mas até o fogo mais brilhante morre se não tiver uma base sólida para queimar.

Naquela noite, Aaron Warner não dormiu no escritório. Ele voltou para os aposentos reais, pronto para pedir desculpas, pronto para usar suas palavras de prata para trazê-la de volta. Mas quando abriu a porta, encontrou apenas o perfume de jasmim dela e uma cama perfeitamente arrumada.

Vazia.

Pela primeira vez em muito tempo, o silêncio nos aposentos de Aaron não era barulhento. Era absoluto. E, no silêncio, ele finalmente começou a ouvir o que havia perdido.

Enquanto isso, em um quarto pequeno e empoeirado do outro lado da base, Clara Warner fechava os olhos. Ela estava sozinha, estava triste e seu coração parecia um vidro estilhaçado. Mas, pela primeira vez em semanas, ela não estava esperando por ele.

E esse era o início do seu verdadeiro poder.