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A outra mulher

Ecos de um Trono Vazio

O Setor 45 era uma máquina feita de engrenagens, concreto e medo. Mas, como qualquer máquina, ele produzia calor — e o calor daquele lugar era o mexerico. Clara Warner sempre soube disso, mas nunca imaginou que o ruído das línguas afiadas se tornaria o ruído de fundo de sua própria existência.

A mudança para a ala leste, perto da biblioteca, fora um ato de autopreservação. O quarto era menor, cheirava a papel velho e poeira, mas era dela. Pela primeira vez em anos, o espaço que ela ocupava não era uma extensão da vontade de Aaron.

Três dias haviam se passado desde que ela deixara os aposentos principais. Três dias em que Aaron tentara, sem sucesso, interceptá-la nos corredores. Clara tornara-se um fantasma, movendo-se pelas sombras da base com uma agilidade que sua silhueta curvilínea, segundo os padrões cruéis do Restabelecimento, não deveria possuir.

Naquela manhã, porém, a fome a obrigou a ir ao refeitório central mais cedo do que o habitual. Ela usava um casaco militar cinza, ajustado na cintura, que realçava a linha de seus quadris e o busto farto. Ela não estava mais tentando se esconder sob roupas largas. Se Aaron não a queria, o mundo ainda teria que vê-la.

Ao dobrar a esquina que levava ao pátio de treinamento interno, Clara parou abruptamente ao ouvir vozes vindas de um nicho de manutenção. Eram soldados do alto escalão, homens que ela reconhecia pelas insígnias de sargento.

— ... você viu? A mala dela saiu do quarto dele na terça — disse uma voz rouca, carregada de um entusiasmo malicioso. — O boato é que o Comandante finalmente deu o chute final.

— Chute nada, dizem que ela é quem saiu — rebateu outro, soltando uma risada curta. — Mas que diferença faz? O caminho está livre agora. O Comandante está tão vidrado na garota nova, na tal Ferrars, que nem vai notar se alguém ocupar o lugar que ele deixou vago.

Clara sentiu o sangue fugir do rosto, mas permaneceu imóvel, as costas coladas à parede fria.

— Você está louco, Miller? — O terceiro soldado interveio, embora o tom fosse mais de advertência do que de moralismo. — Se o Warner descobrir que você tocou no que era dele, ele mata você antes mesmo de você conseguir desabotoar a calça. Ele é possessivo, mesmo quando não quer mais o brinquedo.

— Possessivo? O homem nem olha na cara dela há semanas! — Miller insistiu, e Clara pôde quase sentir o desejo na voz dele. — Ele que não aproveitou. Uma mulher daquelas... Linda, educada e, sejamos sinceros, gostosa demais para aquele uniforme apertado. Eu nunca trocaria uma mulher como a Clara por causa de uma obsessão besta por uma garota que parece que vai quebrar se você soprar.

— Eu sempre tive uma queda por ela — confessou o segundo soldado, a voz agora mais baixa, quase reverente. — Especialmente quando o Comandante a deixava ditar as ordens de logística. Aquela voz calma, o jeito que ela olha para a gente... Oh, mulherzinha sexy. Ela tem curvas que fazem a Ferrars parecer um palito seco. Se ela me desse meia chance, eu mostrava para ela o que é um homem que não precisa de superpoderes para ser feliz.

Clara fechou os olhos, o coração martelando contra as costelas. Era uma mistura tóxica de sentimentos: a humilhação de ser objeto de conversa de caserna e, ao mesmo tempo, uma faísca perversa de satisfação. Eles a viam. Eles a desejavam. O mundo não terminava nos olhos verdes de Aaron Warner.

O que nenhum deles sabia — e nem Clara — era que, a poucos metros dali, escondido pela penumbra de um pilar de sustentação, Aaron Warner ouvia cada palavra.

Ele estava a caminho de uma sessão de testes com Juliette, mas o som do nome de sua esposa o fizera parar. Inicialmente, a fúria fora sua única reação. Ele queria entrar ali e arrancar as línguas daqueles homens com as próprias mãos. Como ousavam falar das curvas dela? Como ousavam cobiçar o que era sagrado para ele?

Mas então, as palavras de Miller o atingiram como um tiro de fuzil.

*“Ele que não aproveitou.”*

*“Obsessão besta.”*

Aaron sentiu o ar escapar de seus pulmões. Seus dedos, cobertos pelas luvas de couro pretas, fecharam-se em punhos tão apertados que as costuras rangeram. Ele olhou para a direção onde Clara estava escondida, percebendo a ponta do casaco dela aparecendo na curva do corredor. Ela estava ouvindo.

— Se eu fosse o Comandante — continuou Miller, ignorando o perigo iminente —, eu passaria o dia inteiro enterrado naquelas curvas. Aquela mulher é um porto seguro, cara. E ele está trocando isso por um vulcão que pode explodir na cara dele a qualquer momento. Idiota. Um gênio tático, mas um completo idiota no que importa.

Aaron não aguentou mais. Ele saiu da sombra, seus passos fazendo um eco metálico e mortal no chão de concreto.

Os soldados congelaram. O riso morreu instantaneamente, substituído por uma palidez cadavérica. Miller, que estava encostado na parede, quase caiu ao tentar se colocar em posição de sentido.

— Comandante! — gritaram em uníssono, as mãos subindo em saudação trêmula.

Aaron caminhou até eles com a elegância de um predador que não tem pressa porque sabe que a presa não tem para onde ir. Ele parou a poucos centímetros de Miller, seus olhos verdes brilhando com uma luz fria e maníaca.

— Sargento Miller — disse Aaron, a voz tão baixa que era quase um sussurro, o que a tornava mil vezes mais aterrorizante. — Eu não sabia que suas ambições de carreira incluíam a análise da minha vida privada. Ou da anatomia da minha esposa.

— Senhor... eu... foi apenas uma conversa... — Miller gaguejou, o suor brotando em sua testa.

Aaron estendeu a mão e ajustou o colarinho do soldado com uma delicadeza sinistra.

— Você tem razão em uma coisa, Miller. Eu sou um idiota. Mas você está errado em outra. A "meia chance" que você mencionou? Ela nunca existirá. Porque, se eu vir você, ou qualquer um de vocês, olhando para ela com qualquer coisa que não seja o mais absoluto e casto respeito, eu farei com que desejem nunca terem nascido neste mundo devastado. Fui claro?

— Sim, senhor! — responderam os três, as vozes falhando.

— Saiam da minha frente. Agora. Antes que eu decida que o refeitório precisa de novas decorações feitas com os seus intestinos.

Os soldados bateram em retirada como se estivessem fugindo de um bombardeio. Aaron permaneceu ali, o peito subindo e descendo com uma respiração pesada. Ele se virou para o corredor onde Clara estava.

Ela não havia fugido. Estava parada ali, os braços cruzados sobre o peito, observando-o com uma expressão que ele não conseguia decifrar. Não havia medo. Havia apenas uma distância imensa.

— Clara — disse ele, dando um passo em direção a ela.

— Você ouviu o que eles disseram, Aaron? — Ela perguntou, a voz clara e firme.

— Eu vou puni-los. Eles serão transferidos para o Setor 4, na fronteira congelada. Ninguém fala de você dessa forma.

Clara soltou uma risada curta e sem humor, dando um passo à frente, entrando na luz.

— Ah, Aaron... Você ainda não entendeu, não é? O que eles disseram foi a coisa mais honesta que ouvi nesta base em meses. Eles me veem. Eles me desejam. Eles acham que você é um idiota por me deixar ir. E, pela primeira vez, eu concordo com eles.

— Eu não deixei você ir! — ele exclamou, a máscara de frieza desmoronando. — Você saiu! Você me deixou naquele quarto sozinho!

— Eu saí porque não havia mais espaço para mim lá, Aaron. O quarto estava cheio demais com a sua obsessão pela Juliette. Estava cheio demais com a sua necessidade de ser o Comandante Supremo e vazio demais do homem que costumava me dizer que minhas curvas eram o seu mapa para casa.

Aaron tentou tocá-la, mas ela recuou. O movimento o feriu mais do que qualquer golpe físico.

— Eu cometi um erro — admitiu ele, as palavras saindo com dificuldade, como se estivessem presas em sua garganta. — A Juliette... ela é um quebra-cabeça que eu senti que precisava resolver. Mas você... você é a solução, Clara. Você sempre foi.

— Engraçado — disse ela, inclinando a cabeça. — Sargento Miller pareceu achar que eu sou muito mais do que um "porto seguro" ou uma "solução". Ele me chamou de sexy. Ele me chamou de linda. E ele não precisou de um microscópio ou de uma análise de poder para ver isso. Ele só precisou olhar para mim.

— Ele é um animal, Clara! — Aaron rosnou. — Ele olhou para você com luxúria, não com amor!

— E você, Aaron? Você olha para mim com o quê? Ultimamente, você olha para mim como se eu fosse um móvel antigo que você não tem coragem de jogar fora, mas que não combina mais com a decoração nova e moderna do seu escritório.

— Isso não é verdade — ele sussurrou, a voz quebrada.

— Prove — desafiou ela. — Porque, enquanto você está aqui tentando decidir se eu sou "útil" para a sua nova era, o resto da base está começando a perceber que a mulher do Comandante é muito mais do que uma sombra. E eu estou começando a perceber que não preciso ser a sombra de ninguém. Nem mesmo a sua.

Clara deu as costas a ele e começou a caminhar em direção à biblioteca.

— Clara, espere! — chamou Aaron, mas ele não a seguiu. Ele não podia. Delalieu apareceu no final do corredor, indicando que a sessão com Juliette estava prestes a começar.

Aaron ficou dividido. O dever, a obsessão científica e o medo do que Juliette poderia fazer se não fosse controlada o puxavam em uma direção. Mas a imagem de Clara, caminhando com a cabeça erguida, consciente de sua própria beleza e do poder que exercia sobre os homens ao seu redor sem sequer tentar, o puxava em outra.

Ele olhou para as próprias mãos. Elas estavam vazias.

***

Naquela tarde, a biblioteca estava silenciosa. Clara estava sentada em uma das mesas do fundo, cercada por mapas antigos. Ela sentia uma estranha leveza. As palavras dos soldados, embora grosseiras, haviam removido a última camada de sua insegurança. Se homens que mal a conheciam podiam ver o seu valor, por que ela passara tanto tempo implorando para que Aaron fizesse o mesmo?

A porta da biblioteca se abriu. Ela não levantou a cabeça, esperando que fosse um dos arquivistas.

— O Sargento Miller foi enviado para as celas de detenção antes da transferência — disse uma voz.

Não era Aaron. Era Adam Kent.

Clara levantou o olhar. O soldado, que costumava ser o guarda pessoal de Aaron e agora parecia estar em um limbo de lealdades, aproximou-se com cautela.

— Aaron está fora de si — continuou Adam, sentando-se na cadeira oposta à dela. — Ele quase matou o sargento na frente de todo o esquadrão.

— Ele está tentando proteger o que ele acha que é sua propriedade — disse Clara, voltando a olhar para o mapa.

— Não acho que seja só isso, Clara — Adam disse suavemente. — Eu vi o jeito que ele olhou para você no corredor. Ele não estava com raiva de Miller por desejar você. Ele estava com raiva de Miller por ter tido a coragem de dizer em voz alta o que o Aaron esqueceu de dizer.

Clara parou a caneta sobre o papel.

— E o que você acha, Adam?

Adam hesitou por um segundo, olhando para a mulher à sua frente. Clara Warner era uma força da natureza que ninguém no Setor 45 havia aprendido a medir. Ela era suave onde o mundo era duro, quente onde tudo era frio.

— Eu acho que o Warner é um homem muito sortudo e um idiota monumental — Adam respondeu, com uma sinceridade que a fez sorrir. — E acho que ele vai descobrir, da maneira mais difícil, que você não é uma arma que ele pode guardar no coldre e usar só quando for conveniente.

— Eu não sou uma arma, Adam. Eu sou apenas Clara.

— Talvez — disse Adam, levantando-se. — Mas, neste lugar, ser "apenas Clara" é a coisa mais perigosa que alguém pode ser. Porque você é a única pessoa que pode destruir o Comandante Warner sem disparar um único tiro.

Quando Adam saiu, Clara ficou sozinha com seus pensamentos. Ela olhou para o reflexo de seu rosto em uma placa de metal polido na mesa. Ela não viu a garota insegura que chorara no quarto de Aaron. Viu uma mulher que estava aprendendo que o seu peso não era um fardo, mas uma presença. E que o seu amor não era um presente gratuito, mas um prêmio que Aaron Warner teria que aprender a conquistar novamente.

Lá fora, o vento uivava contra as paredes de vidro da base. Dentro do escritório de Aaron, o Comandante tentava se concentrar nos relatórios sobre o poder de Juliette, mas as palavras dos soldados continuavam ecoando em sua mente.

*“Oh, mulherzinha sexy.”*

*“Eu nunca trocaria ela.”*

Ele olhou para a aliança escondida em uma gaveta de sua mesa. Ele a tirara para que Juliette não a visse, para manter o "segredo" que ele dizia ser para a proteção de Clara. Mas agora, o segredo parecia uma mentira que ele contava a si mesmo.

Aaron Warner, o homem que pretendia governar o mundo, percebeu com um medo súbito que seu império não valia nada se a rainha decidisse que não queria mais o trono. E Clara, em sua biblioteca silenciosa, estava começando a gostar do som da sua própria liberdade.

A guerra pelo Setor 45 estava apenas começando, mas a guerra pelo coração de Clara Warner já tinha um vencedor inesperado: a própria Clara. E Aaron teria que decidir, muito em breve, se continuaria perseguindo o fogo de Juliette ou se imploraria para ser aquecido novamente pela lareira que ele, em sua arrogância, acreditou que nunca se apagaria.