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A outra mulher

O Sangue e a Soberania

A terça-feira no Setor 45 sempre fora diferente de qualquer outro dia da semana. Era o dia em que o Comandante Warner, em um raro gesto de delegação de poder que confundia seus subordinados, entregava o controle logístico e administrativo da base para sua esposa. Aaron dizia que era para mantê-la envolvida, para que ela entendesse a complexidade do seu mundo; mas Clara sabia que, no fundo, era porque ela era a única pessoa capaz de organizar o caos burocrático do Restabelecimento com uma eficiência que não dependia do medo.

Entretanto, esta terça-feira tinha um peso diferente. O ar estava carregado com a eletricidade da presença de Juliette Ferrars, que agora circulava com mais liberdade pela base, sempre sob a vigilância — ou companhia — de Aaron.

Clara caminhava pelo corredor central em direção à sala de reuniões táticas. Ela usava um vestido de corte impecável, em um tom de verde tão escuro que parecia preto, realçando a palidez de sua pele e a suavidade de suas formas. Ela não tentava mais se esconder. Seus passos ecoavam com autoridade, e os soldados que antes sussurravam, agora abriam caminho com uma pressa respeitosa. O incidente com o Sargento Miller havia se espalhado; todos sabiam que o Comandante quase matara um homem por desrespeitá-la, mas também sabiam que Clara não voltara para os aposentos dele.

Ela era uma rainha em um exílio que ela mesma decretara dentro de seu próprio castelo.

Ao entrar na sala de reuniões, encontrou os chefes de seção já posicionados. Delalieu estava à cabeceira, parecendo aliviado ao vê-la. Aaron estava encostado na parede ao fundo, os braços cruzados, a expressão ilegível. Ao lado dele, quase como uma sombra frágil e perigosa, estava Juliette.

Clara não desviou o olhar. Ela caminhou até a cadeira principal e sentou-se.

— Bom dia a todos — disse ela, sua voz calma cortando o murmúrio da sala. — Temos muito o que cobrir. Os relatórios de distribuição de mantimentos do Setor 4 estão atrasados e a eficiência energética das alas externas caiu 12%. Vamos começar.

Durante as duas horas seguintes, Clara foi implacável. Ela dava ordens com uma precisão cirúrgica, corrigindo orçamentos e redirecionando recursos com uma inteligência que deixava os oficiais mais experientes sem resposta. Ela não olhou para Aaron nenhuma vez, embora sentisse o peso do olhar dele sobre ela — um olhar que não era mais de indiferença, mas de uma fome contida.

Juliette, por outro lado, observava Clara com uma mistura de fascinação e culpa. A garota de porcelana parecia pequena diante da presença magnética de Clara, que comandava a sala sem precisar levantar a voz ou demonstrar qualquer poder sobrenatural.

— Senhora Warner — interrompeu um dos oficiais, um homem ríspido chamado Major Halloway —, com todo o respeito, o redirecionamento de fundos para a ala civil parece desnecessário. O Comandante Warner sempre priorizou o armamento.

Clara inclinou-se para a frente, apoiando os cotovelos na mesa de metal.

— O Comandante Warner prioriza a vitória, Major. E você não ganha uma guerra com soldados cujas famílias estão passando fome nas alas civis. A lealdade é comprada com estabilidade, não apenas com balas. O senhor tem alguma objeção técnica ou é apenas falta de visão estratégica?

Halloway engoliu em seco, recuando diante do olhar firme de Clara. No fundo da sala, Aaron descruzou os braços, um brilho de orgulho atravessando seus olhos verdes, rapidamente substituído pela dor da distância.

— Continuando — disse Clara, pegando uma pilha de documentos impressos em papel sintético de bordas afiadas. — O inventário médico precisa de uma revisão imediata.

Foi nesse momento que aconteceu. Ao puxar uma das folhas com mais rapidez, a borda do papel, rígida e cortante como uma lâmina, deslizou contra a lateral de seu dedo indicador.

Clara soltou um suspiro curto, uma pequena exclamação de surpresa que mal chegou a ser um grito. Ela soltou o papel e olhou para a mão.

Uma linha fina e vermelha surgiu instantaneamente. Uma gota de sangue, brilhante e vívida, brotou da pele macia e começou a escorrer pelo seu dedo.

O efeito na sala foi imediato, mas o efeito em Aaron foi catastrófico.

Antes que Delalieu pudesse oferecer um lenço, ou que Clara pudesse levar o dedo à boca, Aaron atravessou a sala. Ele não caminhou; ele pareceu se materializar ao lado dela. Sua mão envolveu o pulso de Clara com uma urgência que beirava o pânico.

— Você está sangrando — disse ele, a voz rouca, carregada de uma intensidade que fez os oficiais na mesa se encolherem.

— É apenas um corte de papel, Aaron — respondeu Clara, tentando puxar o pulso, mas ele a segurava com firmeza, seus olhos fixos na pequena gota de sangue.

Para Aaron, aquele sangue era um sacrilégio. Clara era a única coisa pura em sua vida, a única coisa que ele jurara proteger do mundo violento que ele mesmo ajudara a criar. Ver o líquido vermelho manchando a pele dela era um lembrete insuportável de que ela era mortal, de que ela podia ser ferida — e de que, ultimamente, ele era quem mais a machucava.

Sem se importar com a plateia de oficiais ou com Juliette, que observava a cena com os olhos arregalados, Aaron levou a mão de Clara até os lábios. Ele não beijou o corte; ele simplesmente envolveu o dedo dela com a mão enluvada, como se tentasse estancar a vida que escapava dali.

— Tragam um kit médico. Agora! — ele rugiu para a sala.

— Aaron, pare com isso — pediu Clara, sua voz baixa e carregada de advertência. — Você está fazendo uma cena por nada.

— Nada? — Ele se inclinou, o rosto a centímetros do dela, a máscara de Comandante Supremo completamente estilhaçada. — Você está ferida.

— Eu estou ferida há semanas, Aaron — sussurrou ela, para que apenas ele ouvisse. — Mas você só parece notar o sangue que pode ver.

As palavras dela foram como um tapa. Aaron recuou um milímetro, mas não soltou a mão dela. O silêncio na sala era tão denso que se podia ouvir a respiração descompassada de Juliette ao fundo.

Delalieu aproximou-se cautelosamente com um pequeno curativo adesivo. Aaron o arrancou da mão do velho e, com uma delicadeza que contrastava com sua explosão anterior, limpou a gota de sangue e aplicou o curativo sobre o corte. Seus dedos tremiam levemente, um detalhe que Clara não deixou de notar.

— A reunião acabou — declarou Aaron, sem desviar os olhos de Clara.

— Aaron, eu ainda não terminei... — começou ela.

— Acabou — repetiu ele, virando-se para os oficiais com um olhar que prometia morte a qualquer um que desobedecesse. — Saiam. Todos vocês.

Os oficiais não esperaram por uma terceira ordem. Eles se retiraram em segundos. Juliette hesitou na porta, olhando para Aaron e depois para Clara. Havia uma tristeza profunda no olhar da garota, uma compreensão súbita de que, por mais que Aaron estivesse fascinado por ela, ele pertencia irremediavelmente à mulher sentada naquela cadeira. Ela saiu silenciosamente, fechando a porta atrás de si.

Clara e Aaron ficaram sozinhos na sala vasta e fria. Ela se levantou, tentando manter sua dignidade, mas Aaron bloqueou seu caminho, colocando as mãos na mesa, uma de cada lado do corpo dela, cercando-a.

— Por que você foi para a ala leste? — ele perguntou, a voz baixa e perigosa.

— Porque o ar lá é mais respirável — respondeu ela, sustentando o olhar dele. — Porque eu prefiro a poeira dos livros ao gelo do seu silêncio.

— Eu não consigo pensar quando você não está lá — confessou ele, a testa encostada na dela por um breve momento. — O quarto parece uma tumba. Eu deito naquela cama e sinto que estou desaparecendo.

— Então você sabe como eu me senti nos últimos meses. Invisível. Descartável.

Aaron soltou um som que era metade suspiro, metade rosnado. Ele desceu as mãos da mesa para a cintura dela, puxando-a para mais perto, forçando-a a sentir o calor de seu corpo através das camadas de tecido.

— Você nunca foi invisível, Clara. Eu fui um tolo. Eu estava... eu estava tentando encontrar uma forma de garantir que este mundo nunca pudesse tocá-la. Eu pensei que, se eu focasse na arma, se eu focasse na Ferrars, eu poderia construir um muro tão alto ao nosso redor que nada a alcançaria.

— E no processo, você me trancou do lado de fora do muro — disse ela, as mãos repousando contra o peito dele, sentindo o coração de Aaron batendo freneticamente. — Você não entende, Aaron? Eu não quero que você me proteja do mundo. Eu quero que você me deixe viver nele com você. Eu sou sua esposa, não sua prisioneira ou sua peça de porcelana.

Aaron fechou os olhos, sentindo o perfume de jasmim dela, o cheiro que ele associara à paz por toda a sua vida adulta.

— Quando vi o seu sangue hoje... — ele sussurrou — ... senti como se o mundo estivesse desmoronando. Eu não suporto a ideia de você sentir dor.

— Então pare de causá-la — disse Clara, afastando-se o suficiente para olhá-lo nos olhos. — O corte no meu dedo vai curar em dois dias. Mas o que você fez com o nosso casamento... isso vai levar muito mais tempo. E não vai se resolver com você dando ordens ou expulsando pessoas de salas.

Aaron estendeu a mão, tocando o rosto dela com as pontas dos dedos, traçando a linha de sua mandíbula com uma adoração que ele não conseguia mais esconder.

— O que eu preciso fazer? — perguntou ele, a voz quebrada. — Diga-me, Clara. Eu farei qualquer coisa. Eu queimarei este setor inteiro se você me pedir.

Clara deu um meio sorriso, um toque de sua antiga doçura misturado com uma nova e endurecida força.

— Não queime nada, Aaron. Apenas comece a me ver. Não como o seu porto seguro, não como a sua "esposa gordinha" que precisa ser escondida para não ser um ponto fraco, mas como a mulher que governa este lugar às terças-feiras e que poderia governá-lo todos os outros dias se quisesse.

Ela se soltou do abraço dele e caminhou até a porta. Antes de sair, ela parou e olhou por cima do ombro.

— E Aaron?

— Sim?

— Se você voltar a me ignorar por causa da Juliette ou de qualquer outra "arma", não será apenas um quarto que você encontrará vazio. Será a sua vida.

Ela saiu, deixando o Comandante Supremo do Setor 45 sozinho com o silêncio que ele tanto temia. Aaron olhou para a mesa, para a folha de papel manchada com a pequena gota de sangue de Clara. Ele a pegou, dobrando-a cuidadosamente e guardando-a no bolso interno de seu uniforme, perto do coração.

Ele sabia que a batalha por Juliette Ferrars e pelo destino do mundo ainda estava rugindo lá fora. Mas ele também sabia que, se perdesse a mulher que acabara de sair por aquela porta, ele já teria perdido a guerra, não importa quem saísse vitorioso no campo de batalha.

Clara caminhou pelos corredores, sentindo a pulsação leve no dedo cortado. A dor era real, mas, pela primeira vez em muito tempo, ela se sentia viva. Ela não era mais a sombra de Warner. Ela era o sangue que corria nas veias do Setor 45, e agora, finalmente, Aaron sabia que, sem ela, ele sangraria até a morte.