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A Ovelha Perdida e a Loba de Batina

O Peso do Corpo e a Leveza do Pecado

A manhã na residência dos Flowers não trouxe o sol pleno, mas sim uma névoa densa que se agarrava às árvores como um véu úmido. O cheiro de terra molhada e grama cortada invadia as janelas abertas da cozinha, onde o caos habitual da família se desenrolava. Deborah discutia fervorosamente sobre a composição de um novo quadro, enquanto Maurice tentava, sem sucesso, consertar uma torradeira que parecia ter saído da era vitoriana.

Gabriele observava tudo em silêncio, sentada à mesa com as costas perfeitamente retas. Ela usava um cardigã de cashmere bege e uma saia plissada, parecendo uma pintura de ordem em meio ao desarranjo da casa. No entanto, seus olhos fugiam constantemente para a figura de Hylda, que estava encostada no balcão, devorando uma torrada com geleia de amora enquanto gesticulava com uma faca de manteiga.

— Você está muito quieta hoje, Gabi — comentou Gabriel, sentando-se ao lado dela com um sorriso radiante. — A Hylda não te deixou dormir com as histórias de "padre" dela?

— Pelo contrário, Gabriel — Gabriele respondeu, sentindo o rosto esquentar levemente ao lembrar da conversa da noite anterior. — Eu descansei o necessário.

— Ela só está processando o choque cultural — Hylda interveio, limpando o canto da boca com as costas da mão tatuada. — Passar de uma cela de convento para um quarto com uma "velha caminhoneira" é um salto e tanto para a ovelhinha.

— Eu não sou uma ovelha — Gabriele murmurou, mas sem a acidez de antes.

Após o café, o grupo saiu para o jardim vasto e levemente selvagem dos Flowers. Gabriel tentava convencer Gabriele a se soltar mais, apontando para as macieiras carregadas no fundo do terreno.

— Aquelas ali são as melhores — disse Gabriel, apontando para uma árvore particularmente alta e robusta. — Mas os galhos baixos já foram saqueados pelos pássaros. Só sobraram as bonitas lá no topo.

Gabriele olhou para cima. Havia algo de desafiador naquela árvore. Talvez fosse a necessidade de provar a Hylda que ela não era apenas uma boneca de porcelana, ou talvez fosse apenas o desejo de sentir o vento no rosto, longe das restrições que ela mesma se impunha.

— Eu consigo pegar — declarou Gabriele, para a surpresa de todos.

— Você? De saia e tudo? — Hylda soltou uma risada rouca, cruzando os braços sobre a camisa de flanela. — Quero só ver essa técnica de escalada sagrada.

— Observe — rebateu Gabriele, aproximando-se do tronco.

Com uma agilidade que ninguém esperava, Gabriele usou as raízes expostas como degraus. Ela subiu o primeiro metro com facilidade, mas, ao tentar alcançar um galho mais alto, sua saia prendeu-se em um nó da madeira e seu pé escorregou levemente no musgo úmido.

— Opa! Cuidado aí, paraíso — exclamou Hylda, movendo-se com uma rapidez surpreendente para alguém da sua idade.

Antes que Gabriele pudesse protestar, Hylda já estava logo atrás dela. Ela se posicionou de forma a dar suporte, suas mãos grandes e calejadas espalmando-se firmemente nas coxas de Gabriele para impulsioná-la para cima.

— Hylda! O que está fazendo? — Gabriele soltou um arquejo, o rosto tornando-se instantaneamente escarlate.

— Estou garantindo que você não quebre esse pescoço delicado — Hylda respondeu, a voz vibrando perto das pernas de Gabriele. — Agora suba, use meu ombro se precisar.

A sensação das mãos de Hylda — quentes, seguras e deliberadamente firmes — enviou um choque elétrico pela espinha de Gabriele. Não era o toque suave e místico da Madre Mestra; era algo terreno, pesado e inegavelmente real. Hylda deslizou as mãos um pouco mais para cima, ajustando o equilíbrio de Gabriele, e por um segundo, os dedos da ex-professora roçaram a pele exposta acima da meia calça.

— Pronto, pegue a maçã e desça logo antes que eu mude de ideia sobre ser seu degrau humano — disse Hylda, embora houvesse um brilho de divertimento e algo mais profundo em seus olhos.

Gabriele colheu a fruta mecanicamente, o coração martelando contra as costelas como um pássaro enjaulado. Quando desceu, com a ajuda de Gabriel que estendeu a mão no trecho final, ela não conseguia olhar para Hylda.

— Você está bem, Gabi? Está vermelha — perguntou Gabriel, genuinamente preocupado.

— É o esforço físico — mentiu ela, apertando a maçã contra o peito.

— Sei... o esforço — Hylda murmurou, acendendo seu cachimbo com um sorriso de canto de boca que dizia que ela sabia exatamente o que Gabriele estava sentindo.

A calmaria, porém, durou pouco. Como é comum no interior da Inglaterra, o tempo virou em questão de minutos. O céu escureceu e uma garoa fina, mas persistente, começou a cair, tornando a grama e as pedras do caminho extremamente escorregadias.

— Melhor voltarmos! — gritou Deborah da varanda.

Gabriele, ainda atordoada pelo contato anterior, apressou o passo. Ao tentar atravessar um pequeno declive de pedra perto do estúdio de Maurice, seu sapato de sola lisa traiu sua confiança. Ela escorregou, o corpo pendendo para o lado com um grito sufocado. O som de um estalo seco foi abafado pelo trovão que ecoou ao longe.

— Droga! — Hylda foi a primeira a chegar, jogando o cachimbo de lado.

Gabriele estava caída, o rosto pálido e os olhos cheios de lágrimas de dor. Ela segurava o tornozelo direito, que já começava a inchar de forma alarmante.

— Eu disse que você ia se quebrar! — Hylda ralhou, embora sua voz estivesse carregada de uma ansiedade que ela raramente demonstrava. — Por que essa pressa toda, sua ovelha teimosa?

— Eu... eu só queria entrar — soluçou Gabriele, a dor latejante obscurecendo sua compostura.

— Saiam da frente! — Hylda ordenou a Gabriel e Maurice, que se aproximavam. — Eu levo ela. Gabriel, pegue as coisas dela.

Hylda pegou Gabriele nos braços com uma facilidade impressionante. O contraste era gritante: a delicadeza de Gabriele, envolta em lã e seda, contra a força bruta e o cheiro de tabaco de Hylda. No caminho para dentro, Gabriele escondeu o rosto no pescoço de Hylda, sentindo o calor da pele da outra mulher contra sua bochecha.

Já dentro de casa, Hylda a colocou no sofá da sala e começou a remover o sapato de Gabriele com uma delicadeza que ninguém atribuiria a uma "caminhoneira".

— Vai doer um pouco — avisou Hylda, examinando o inchaço.

— Por que você está sendo tão... — Gabriele começou, mas a dor a interrompeu.

— Tão o quê? Humana? — Hylda olhou para cima, as sobrancelhas grisalhas franzidas. — Só porque eu falo palavrão e não rezo o terço, não significa que eu não me importe com quem está sob minha responsabilidade. E, tecnicamente, você é minha colega de quarto agora.

Deborah e Gabriel observavam da porta, trocando olhares confusos. A dinâmica entre as duas havia mudado. Não havia mais apenas a implicância; havia uma gravidade nova, uma tensão que beirava a intimidade.

— Quer que eu chame um médico, Hylda? — perguntou Gabriel, sentindo-se estranhamente excluído.

— Não precisa. É só uma entorse feia. Eu já cuidei de coisa muito pior em becos que você nem imagina que existem — Hylda respondeu sem desviar os olhos de Gabriele. — Traga gelo e uma faixa. Agora!

Quando Gabriel saiu, o silêncio caiu sobre as duas, quebrado apenas pelo som da chuva que agora castigava as janelas novamente. Gabriele deixou uma lágrima escapar, não apenas pela dor física, mas pela exaustão emocional de tudo o que estava vivendo desde que deixara o convento.

Hylda suspirou. Ela se sentou na beirada do sofá, pegou a mão trêmula de Gabriele e, em um gesto de ternura que pareceu uma bênção silenciosa, levou-a aos lábios, depositando um beijo suave nos nós dos dedos da moça.

— Pare de chorar, Gabriele. Você sobreviveu à Madre Mestra, vai sobreviver a um tornozelo torcido.

Gabriele olhou para ela, surpresa. Antes que pudesse reagir, Hylda se inclinou e beijou sua bochecha, um toque rápido, mas carregado de um significado que nenhuma das duas ousava nomear em voz alta.

— Você é muito mais forte do que pensa — sussurrou Hylda contra sua pele. — Só precisa parar de tentar ser santa o tempo todo. Santos são chatos. Eu prefiro as mulheres que caem das árvores.

Gabriele sentiu um calor diferente se espalhar pelo corpo, uma sensação de pertencimento que não vinha de regras ou batinas, mas da aceitação de suas próprias falhas. Ela olhou para Hylda e, pela primeira vez, viu não uma "velha safada", mas um porto seguro em meio à tempestade.

— Obrigada, Hylda — murmurou ela, fechando os olhos enquanto a outra voltava a cuidar de seu pé.

Lá fora, o mundo dos Flowers continuava seu caos habitual, mas ali, no sofá da sala, entre o gelo e as confissões implícitas, uma nova religião estava sendo escrita — uma que não precisava de conventos, apenas de duas almas dispostas a se enxergar de verdade.