A Ovelha Perdida e a Loba de Batina
O Altar da Carne e o Som do Jazz
A perna de Gabriele estava devidamente elevada sobre uma pilha de travesseiros bordados. O tornozelo, embora menos inchado graças às compressas de gelo milagrosas de Hylda, ainda latejava com uma batida surda que acompanhava o ritmo da música que vinha do andar de baixo. Os Flowers haviam decidido que uma tempestade era o pretexto perfeito para uma festa improvisada, e o som de um jazz frenético misturado a risadas estridentes subia pelas frestas do assoalho de madeira.
Gabriele vestia uma camisola de seda branca, longa e casta, mas que, sob a luz âmbar do abajur, tornava-se levemente translúcida, delineando a silhueta esguia que ela tanto tentava esconder. Ela estava emburrada, segurando um livro de poesias que não conseguia ler, sentindo-se uma prisioneira enquanto o mundo lá fora — ou melhor, no andar de baixo — parecia girar sem ela.
A porta rangeu e Hylda entrou, trazendo consigo o cheiro de gim, tabaco e aquela energia caótica que parecia precedê-la. Ela usava sua indefectível regata branca e as calças de sarja largas, mas seu rosto estava mais corado que o normal.
— Você não faz ideia do que está perdendo lá embaixo, ovelhinha — disse Hylda, chutando a porta para fechar e sentando-se na beirada da cama com um suspiro pesado. — A Deborah convidou uma tal de Sarah, uma escultora que acabou de chegar de Londres. Jesus amado... a mulher é um monumento. Pernas que não terminam nunca e um par de olhos que parecem que vão te devorar viva.
Gabriele sentiu uma pontada de irritação que não soube identificar. Apertou o livro contra o peito.
— Que bom para a senhora, Hylda. Espero que tenha aproveitado a vista.
— Ah, eu aproveitei. E tinha também aquela vizinha, a ruiva, como é o nome dela? — Hylda estalou os dedos, tentando lembrar. — Enfim, não importa. Ela estava usando um vestido que era praticamente um insulto à decência. Uma delícia. O tipo de mulher que sabe exatamente o que fazer com as mãos, entende?
— Eu não preciso ouvir esses seus comentários vulgares — rebateu Gabriele, desviando o olhar, mas o bico em seus lábios denunciava sua frustração. — Sou uma mulher de princípios, não uma... uma dessas suas conquistas de bar.
Hylda finalmente parou de falar e olhou para Gabriele. Realmente olhou. A luz suave do quarto caía sobre os ombros da moça, e o contraste entre a camisola virginal e a expressão de raiva contida no rosto de Gabriele fez o coração da "Padre" dar um solavanco inesperado. Hylda ficou em silêncio por um longo momento, deslumbrada pela beleza que parecia brilhar com mais força agora que Gabriele estava sem suas armaduras de lã cinza.
— Você está magnífica desse jeito, sabia? — A voz de Hylda mudou, perdendo o tom de deboche e assumindo uma gravidade rouca. — Fica ainda mais bonita quando está com raiva. Parece que tem um incêndio por baixo dessa seda toda.
Gabriele sentiu o rosto queimar. Ela puxou o lençol para cima das pernas, sentindo-se exposta sob o olhar analítico de Hylda.
— Não diga essas coisas. É impróprio.
— Impróprio é você ficar se escondendo atrás de dogmas que nem você mesma acredita mais — Hylda se inclinou um pouco mais, apoiando os cotovelos nos joelhos. — Me diga uma coisa, Gabriele... Você já teve algum momento de prazer real? Sem ser aquela coisa platônica com a Madre Superiora? Alguma vez alguém já te tocou de um jeito que fez você esquecer o próprio nome?
Gabriele engoliu em seco. O silêncio que se seguiu foi a resposta mais clara que ela poderia dar.
— Eu fiz votos, Hylda. Eu dediquei minha vida ao espírito.
— O espírito é uma invenção para quem tem medo do corpo — Hylda retrucou, a voz baixa. — Você nunca... você sabe. Nunca esteve com ninguém?
— Eu sou virgem, se é isso que sua curiosidade mórbida quer saber — disparou Gabriele, os olhos marejados. — E pretendo continuar assim. Eu nunca farei sexo. Nem saberia como fazer, para começar. É algo... confuso. Sujo.
Hylda soltou uma risada curta, mas não era de escárnio. Era uma risada de quem via uma criança tentando explicar física quântica.
— Sujo? Gabriele, o sexo é a única oração que realmente funciona. É onde a gente se encontra com o divino sem precisar de intermediários. E não é confuso. É instinto. É ritmo.
— Para você é fácil falar — disse Gabriele, a voz trêmula. — Você viveu no mundo. Eu vivi entre paredes de pedra e silêncio. Eu não saberia nem por onde começar. Eu provavelmente seria um desastre.
Hylda arqueou uma sobrancelha, um brilho travesso surgindo em seus olhos grisalhos.
— Bom, como sua "Padre" residente, eu acho que é meu dever teológico te dar algumas luzes. Teoricamente falando, é claro.
— O quê? — Gabriele arregalou os olhos.
— Relaxe, ovelhinha. Não vou te atacar — Hylda sorriu, mas havia uma tensão elétrica no ar. — Digamos que o ponto de partida não é o que você faz, mas o que você sente. Imagine que o seu corpo é um instrumento. Você não começa tocando uma sinfonia. Você começa sentindo a vibração das cordas.
Hylda estendeu a mão, mas não tocou em Gabriele. Ela apenas moveu os dedos no ar, perto do braço da moça.
— Começa no pescoço — continuou Hylda, a voz descendo uma oitava. — Um toque leve, como se fosse um segredo soprado. Depois, o peso das mãos. O sexo não é sobre o que entra ou sai, Gabriele. É sobre a entrega. É sobre permitir que outra pessoa veja o que você esconde de si mesma.
Gabriele estava hipnotizada. Ela observava os lábios de Hylda se movendo, ouvindo a descrição de um mundo que ela sempre considerou proibido, mas que agora parecia estranhamente convidativo.
— E depois? — sussurrou ela, quase sem perceber.
— Depois... — Hylda sorriu de canto — você descobre que o seu corpo tem um mapa próprio. Lugares que, quando tocados, fazem a sua mente silenciar. E, acredite em mim, para alguém que pensa tanto quanto você, esse silêncio é a maior bênção que existe.
A música lá embaixo mudou para um jazz ainda mais alto, e o som de passos pesados começou a subir as escadas. O momento de intimidade foi brutalmente interrompido quando a porta do quarto se escancarou.
Dois homens, visivelmente bêbados e segurando garrafas de vinho barato, tropeçaram para dentro do quarto, rindo alto. Eram amigos de Maurice, artistas de meia-tigela que claramente não conheciam limites.
— Ora, ora! O que temos aqui? — um deles exclamou, olhando para Gabriele na cama. — A freirinha e a caminhoneira num momento íntimo?
Gabriele encolheu-se, puxando a coberta até o queixo, o pânico brilhando em seus olhos. A vulnerabilidade de sua camisola de seda tornou-se uma fonte de vergonha instantânea.
Hylda, no entanto, levantou-se em um salto. A transformação foi imediata. A mulher que falava com ternura sobre o corpo desapareceu, dando lugar à "velha caminhoneira" que não levava desaforo para casa. Ela se colocou entre a cama e os intrusos, os ombros largos bloqueando a visão deles.
— Fora daqui. Agora — a voz de Hylda era como um trovão, baixa e perigosa.
— Qual é, Hylda? Não seja egoísta — o outro homem disse, tentando se aproximar. — A gente só quer ver se a santinha é tão bonita de perto quanto parece.
Hylda não deu aviso. Ela agarrou o homem pelo colarinho da camisa com uma força que ninguém esperaria de alguém de sua idade e o empurrou contra o batente da porta com um baque seco.
— Eu vou dizer apenas mais uma vez — disse ela, o rosto a centímetros do dele, os olhos faiscando com uma fúria fria. — Se vocês derem mais um passo em direção a essa cama, eu vou garantir que nenhum de vocês consiga segurar um pincel ou uma garrafa pelo resto do ano. E eu conheço anatomia o suficiente para saber onde dói mais.
Os homens, percebendo que a ameaça era real e que a "Padre" estava pronta para a guerra, recuaram, resmungando palavrões e tropeçando de volta para o corredor. Hylda fechou a porta com força e passou a tranca, algo que elas deveriam ter feito desde o início.
O silêncio que retornou ao quarto era pesado, pontuado apenas pela respiração ofegante de Hylda e pelo soluço contido de Gabriele.
Hylda voltou-se para a cama. Sua expressão suavizou-se ao ver Gabriele tremendo, as mãos agarradas ao lençol.
— Eles se foram, Gabriele. Está tudo bem.
Hylda sentou-se novamente na beirada da cama, mas desta vez manteve uma distância maior, respeitando o choque da outra.
— Eu odeio este lugar — sussurrou Gabriele, as lágrimas finalmente caindo. — Eu odeio como as pessoas olham, como elas acham que têm direito sobre mim. No convento... pelo menos eu estava segura.
— Você estava escondida, não segura — Hylda corrigiu gentilmente. — Há uma diferença. Aqui fora, o mundo é barulhento e cheio de idiotas, mas você tem a mim. Ninguém vai encostar um dedo em você sem que eu permita. Entendeu?
Gabriele olhou para Hylda através das lágrimas. A segurança que sentia não vinha de paredes de pedra, mas daquela mulher grisalha e tatuada que parecia disposta a enfrentar o mundo por ela.
— Por que você faz isso? — perguntou Gabriele. — Você me chama de fútil, de ovelha... você me provoca o tempo todo.
Hylda deu um meio sorriso triste, passando a mão pelos cabelos grisalhos curtos.
— Porque você me lembra de como eu era antes da heroína levar tudo. Toda essa pureza, essa seriedade... é irritante porque é precioso. E eu sou uma velha safada, Gabriele, mas eu ainda sei reconhecer algo que vale a pena proteger.
A música lá embaixo finalmente começou a baixar de volume, transformando-se em um murmúrio distante. A tempestade lá fora também havia cedido, restando apenas o som rítmico das gotas batendo no vidro.
— Tente dormir — disse Hylda, preparando-se para levantar e ir para o seu lado da cama. — Eu vou ficar aqui.
— Hylda? — Gabriele chamou, sua voz pequena no escuro.
— Hum?
— Aquilo que você disse... sobre o silêncio. Sobre o corpo ser um instrumento.
Hylda parou, olhando para ela por cima do ombro.
— É verdade? — perguntou Gabriele. — Pode ser... bonito?
Hylda olhou para a jovem mulher, vendo a curiosidade começando a vencer o medo, a semente da descoberta plantada no meio da dor.
— É a coisa mais bonita que existe, Gabriele. — Hylda deitou-se por cima das cobertas, mantendo o espaço entre elas. — E um dia, quando você estiver pronta, você vai descobrir que não precisa de ninguém para te ensinar a tocar sua própria música. Mas, se precisar de um guia... eu conheço bem o caminho.
Gabriele fechou os olhos, sentindo o calor da presença de Hylda ao seu lado. O tornozelo ainda doía, e o mundo lá fora ainda era assustador, mas, pela primeira vez em muito tempo, ela não se sentiu sozinha em sua cela. Ela sentiu que, talvez, o exílio do paraíso não fosse o fim da história, mas apenas o começo de uma jornada muito mais interessante.
— Boa noite, Padre — sussurrou Gabriele, com um toque de ironia carinhosa.
— Boa noite, ovelhinha. Tente não roncar.
E no silêncio do quarto azul, entre o cheiro de tabaco e a suavidade da seda, as duas adormeceram, unidas por uma proteção que nenhum voto jamais poderia oferecer.