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A Ovelha Perdida e a Loba de Batina

O Altar do Horizonte e o Fim das Sombras

A luz da manhã de despedida era de um dourado quase cruel, filtrando-se pelas persianas do quarto azul e desenhando listras de calor sobre o lençol bagunçado. O casarão dos Flowers estava mergulhado naquele silêncio tenso que precede as grandes partidas. Malas esperavam no corredor, e o cheiro de café fresco subia da cozinha, mas, ali em cima, o tempo parecia ter decidido esticar-se por mais alguns minutos.

Hylda ainda dormia profundamente, um ronco leve e rítmico escapando de seus lábios, o rosto marcado pelos anos parecendo estranhamente suavizado pelo repouso. Ela não sentiu quando Gabriele escorregou da própria cama e, com a leveza de quem passou anos caminhando em assoalhos de convento, aproximou-se da cama da mais velha.

Gabriele não hesitou. Com um movimento fluido e uma audácia que ela mesma desconhecia possuir há uma semana, ela subiu na cama e sentou-se sobre os quadris de Hylda. O peso súbito fez a "Padre" despertar de um salto, os olhos grisalhos arregalados por um segundo antes de focarem na figura radiante à sua frente.

— Por todos os santos e demônios... — murmurou Hylda, a voz rouca de sono, mas já carregada de um brilho de desejo. Suas mãos, grandes e calejadas, subiram instintivamente para as coxas de Gabriele, apertando a pele macia por cima do tecido fino da camisola. — Você poderia me acordar todos os dias assim, ovelhinha. Eu não acharia nada ruim. Na verdade, acho que eu nunca mais reclamaria de acordar cedo na vida.

Gabriele sorriu, inclinando-se para frente até que seus cabelos castanhos fizessem cócegas no rosto de Hylda.

— Acorde, Hylda. Temos um longo caminho hoje. E eu não quero que você saia daqui com essa cara de preguiça.

Hylda deslizou as mãos para cima, sentindo o calor do corpo de Gabriele, e puxou-a para um beijo lento, com gosto de promessa e de começo. Quando se afastaram, Hylda tateou a mesa de cabeceira em busca de seu maço de tabaco e do cachimbo, um gesto mecânico de décadas.

— Nem pense nisso — disse Gabriele, segurando o pulso de Hylda com firmeza.

— O quê? É o meu primeiro do dia, Gabriele. Meu sistema precisa de nicotina para processar a realidade — resmungou Hylda, embora não tenha lutado contra o aperto da moça.

— Hylda, olhe para mim — Gabriele suavizou a expressão, seus olhos castanhos transbordando uma seriedade doce. — Eu me preocupo com você. Com seus pulmões, com seu coração... com quanto tempo você ainda vai estar por aqui para me irritar. Eu quero que você pare. Por mim. Por nós.

Hylda parou o movimento. Ela olhou para o cachimbo, aquele velho companheiro de solidão e de fugas, e depois para Gabriele. Ninguém nunca havia pedido que ela parasse por preocupação genuína; geralmente eram ordens médicas ou reclamações sobre o cheiro. Mas o olhar de Gabriele era diferente. Era um olhar que via futuro.

— Você é uma chantagista emocional de primeira categoria, sabia? — Hylda soltou o maço de tabaco, que caiu com um baque surdo no chão. — Está bem. Eu vou tentar. Mas você vai ter que me dar algo para colocar no lugar desse vício.

— Eu posso pensar em várias coisas — sussurrou Gabriele.

Hylda não esperou. Ela puxou Gabriele para baixo, escondendo o rosto na curva do pescoço da moça, espalhando beijos úmidos e frenéticos pela pele arrepiada.

— Eu não sei o que você fez comigo, sua garota atrevida — murmurou Hylda entre os beijos, a voz vibrando contra a pele de Gabriele. — Eu passei sessenta anos fugindo de qualquer coisa que parecesse com raízes. E agora, eu sinto que se você der um passo para longe, eu desmorono.

Gabriele acariciou os cabelos grisalhos de Hylda, sentindo o peso daquela entrega.

— Eu não vou a lugar nenhum que você não possa alcançar, Hylda.

Hylda parou os beijos e levantou o rosto, os olhos úmidos de uma forma que ela raramente permitia que alguém visse. O sarcasmo que era sua armadura caiu por terra, deixando apenas a mulher nua e crua diante de sua redenção.

— Eu te amo, Gabriele — disse Hylda. As palavras saíram baixas, quase como se ela estivesse aprendendo a pronunciá-las pela primeira vez. — Eu te amo de um jeito que me assusta, de um jeito que eu achei que não era mais capaz de sentir.

O coração de Gabriele deu um solavanco. Ela esperava por tudo, menos por aquela clareza tão súbita.

— Eu também te amo, Hylda. Mais do que eu achava que era permitido amar alguém fora das orações.

— Pois mude suas orações — disse Hylda, recuperando um pouco do seu brilho malicioso. — Porque eu pretendo te manter muito ocupada.

— Sobre isso... — Gabriele sentou-se mais ereta, ajeitando o cabelo. — Eu andei pensando. Eu não quero ficar a três horas de distância. Eu sei que você tem a faculdade, e eu tenho meus estudos, mas eu pretendo morar com você. Ou pelo menos bem perto. Não saí do convento para viver em outra cela de solidão, esperando por finais de semana.

Hylda arregalou os olhos, surpresa com a determinação da moça.

— Morar comigo? Gabriele, minha casa é um caos de livros, discos velhos e cheiro de... bom, de agora em diante, cheiro de nada, eu espero. Você é toda organizada, elegante...

— Eu sou o que eu quiser ser, Hylda. E eu quero estar onde você estiver.

Hylda soltou uma gargalhada de puro alívio e felicidade, puxando Gabriele para um abraço esmagador.

— Então está decidido. Vamos transformar aquele meu antro em um lar. Mas não me culpe se eu esquecer as meias no meio da sala.

Lá embaixo, na sala de estar, a família Flowers e Gabriel já estavam reunidos. Maurice tentava fechar uma mala com o pé, enquanto Deborah verificava se havia desligado o gás pela décima vez. Gabriel estava sentado em um canto, parecendo um pouco melancólico, segurando os documentos de inscrição de Gabriele.

Quando Hylda e Gabriele desceram as escadas, de mãos dadas e com uma aura de cumplicidade que era impossível de ignorar, o silêncio se instalou no recinto. Hylda, no entanto, não era mulher de meias palavras ou entradas discretas.

— Escutem aqui, bando de excêntricos — anunciou Hylda, sua voz projetando-se como se estivesse em um anfiteatro universitário. — Para que não haja fofocas ou mal-entendidos quando partirmos: eu e a ovelhinha aqui estamos namorando. Oficialmente. E antes que o Maurice pergunte, sim, o milagre aconteceu e eu estou aposentando o cinismo por tempo indeterminado.

Maurice deixou o pé escorregar da mala, que se abriu novamente. Deborah parou no meio do caminho, os olhos arregalados. Gabriel, embora já suspeitasse, empalideceu levemente, mas logo forçou um sorriso corajoso.

— Namorando? — Maurice piscou, confuso. — Mas Hylda... você sempre disse que relacionamentos eram como... como...

— Como prisões de luxo? É, eu disse — interrompeu Hylda, apertando a mão de Gabriele. — Mas acontece que eu encontrei uma carcereira que eu não me importo de obedecer.

Gabriele deu um passo à frente, olhando para Gabriel com carinho.

— Gabriel, obrigada por tudo. Por me trazer aqui, por me ajudar a ver que o mundo é vasto. Mas a Hylda... ela é o meu mundo agora.

Gabriel suspirou, levantando-se e caminhando até as duas. Ele olhou para Hylda, com um respeito renovado.

— Cuide bem dela, Hylda. Ou eu juro que volto para te dar um sermão que nem a sua "batina" vai aguentar.

— Pode deixar, carneirinho — disse Hylda, batendo no ombro dele com afeição bruta. — Eu pretendo cuidar dela melhor do que eu cuidei de mim mesma a vida toda.

As despedidas foram caóticas, como tudo naquela casa. Houve abraços apertados, promessas de visitas e algumas lágrimas de Deborah. Quando finalmente chegaram ao carro de Hylda, um modelo antigo que rugia como uma fera cansada, Gabriele olhou para trás, para a imensa construção que a acolhera durante a tempestade.

Hylda ligou o motor e olhou para Gabriele.

— Pronta para o resto da vida? — perguntou ela.

Gabriele olhou para a mão de Hylda no câmbio, agora sem o maço de tabaco por perto, e depois para o horizonte que se abria diante delas.

— Eu nunca estive tão pronta — respondeu Gabriele.

Enquanto o carro se afastava pela estrada de terra, levantando poeira sob o sol da manhã, a ex-noviça e a ex-viciada deixavam para trás os rótulos que o mundo lhes impusera. Não havia mais a ovelha fútil, nem a velha caminhoneira safada. Havia apenas duas mulheres que, no meio de uma inundação, haviam descoberto que o amor não era um altar de sacrifício, mas um caminho compartilhado, onde o sagrado e o profano finalmente se encontravam para tomar café e ver o pôr do sol, lado a lado, para sempre.