A Ovelha Perdida e a Loba de Batina
O Altar da Despedida e o Brilho do Prata
A manhã de domingo na residência dos Flowers tinha um sabor agridoce de final de festa. O sol, agora firme após os dias de tormenta, iluminava a poeira dançante nos corredores de madeira, mas o clima dentro da casa era de desmonte. Malas abertas, pilhas de livros sendo organizadas e o som constante de fita adesiva lacrando caixas de papelão ecoavam pelo casarão.
Gabriele estava no jardim, sentada em um banco de pedra sob a mesma macieira que quase a fizera quebrar o tornozelo dias antes. Ao seu lado, Gabriel folheava um catálogo de universidades, apontando entusiasmado para a grade curricular de Biblioteconomia.
— Veja só, Gabi! — disse Gabriel, aproximando a página do rosto dela. — Tem uma disciplina sobre restauração de manuscritos antigos. É a sua cara. Imagine você, com aquelas luvas brancas, cuidando de livros que têm centenas de anos. Você vai ser a bibliotecária mais elegante do país.
Gabriele sorriu, um brilho suave nos olhos castanhos.
— Eu realmente gosto da ideia do silêncio das bibliotecas, Gabriel. É um tipo de paz diferente da do convento. É uma paz que guarda histórias, não apenas regras.
— E o melhor de tudo — continuou Gabriel, baixando a voz e tocando levemente o ombro dela — é que você estará no mundo real. Livre. Eu fico tão feliz que você tenha decidido não voltar para lá. Aquele lugar estava apagando a sua luz.
De longe, na varanda, Hylda observava a cena. Ela segurava uma caneca de café preto, mas seus olhos estavam fixos na mão de Gabriel, que permanecia no ombro de Gabriele um segundo a mais do que o necessário para um "simples amigo". Hylda sentiu uma pontada de irritação que não tinha nada a ver com a cafeína. Ela apertou a cerâmica da caneca, sentindo o calor queimar suas palmas.
— Olha só para eles — resmungou Hylda para si mesma. — O par perfeito. Ovelha e carneiro, prontos para pastar na universidade.
Ela desceu os degraus da varanda com passos pesados, fazendo as tábuas de madeira rangerem. Ao se aproximar do banco, soltou uma nuvem de fumaça de seu cachimbo, interrompendo o momento idílico dos dois.
— Que cena tocante — disparou Hylda, a voz carregada de um sarcasmo ácido. — Parece uma propaganda de plano de saúde para jovens promissores. Já decidiram a cor das cortinas do apartamento que vocês vão dividir perto do campus?
Gabriele levantou o olhar, surpresa pela agressividade repentina.
— Hylda, estávamos apenas falando sobre as matérias do curso. O Gabriel está me ajudando com a inscrição.
— Ah, o Gabriel está sempre ajudando, não é? — Hylda deu uma volta ao redor do banco, como uma loba cercando o território. — Ele é tão prestativo, tão limpinho, tão... adequado. Quase sinto falta de um terço quando olho para vocês dois. Dá vontade de rezar para que a santidade de vocês não seja contagiosa.
Gabriel franziu o cenho, claramente desconfortável.
— Eu só quero o melhor para a Gabi, Hylda. Ela passou por muita coisa.
— "Gabi", é? — Hylda arqueou uma sobrancelha, os olhos faiscando. — Pois saiba, meu caro carneirinho, que a "Gabi" aprendeu lições nesta última semana que não estão em nenhum desses seus catálogos de universidade. Ela não precisa de um monitor de estudos. Ela precisa de alguém que aguente o fogo dela, e eu duvido que você saiba sequer riscar um fósforo sem pedir permissão.
— Hylda, chega! — Gabriele levantou-se, o rosto corado de indignação. — Você está sendo grosseira sem motivo. O Gabriel é meu amigo.
— Amigo, sei — Hylda bufou, virando as costas. — Aproveitem o catálogo. Eu tenho malas de verdade para fazer, já que nem todos aqui vivem de brisa e sonhos de bibliotecária.
Hylda marchou de volta para a casa, deixando um silêncio constrangedor para trás. Gabriele sentiu um aperto no peito. Ela conhecia as inseguranças de Hylda, mas aquela explosão de ciúme parecia desproporcional.
Uma hora depois, Gabriele subiu para o quarto azul para terminar de empacotar suas poucas roupas. Ela encontrou Hylda sentada na cama, cercada por papéis. O rosto da mais velha estava tenso, mas a raiva parecia ter dado lugar a uma preocupação profunda.
— Recebi uma mensagem — disse Hylda, sem olhar para cima. — A faculdade onde eu lecionava ética. Eles querem que eu volte. Parece que o substituto era um idiota completo e os alunos estão em pé de guerra.
Gabriele parou diante dela, esquecendo a irritação de antes.
— Isso é maravilhoso, Hylda! Você sempre disse que sentia falta das salas de aula. É a sua chance de voltar à vida que você amava.
— É — disse Hylda, finalmente levantando os olhos. Havia um medo cru ali que Gabriele nunca tinha visto. — Mas a faculdade fica a três horas de distância da cidade onde você vai morar para estudar. E eu... eu pensei que, agora que a tempestade passou, você ia olhar para o Gabriel, olhar para a sua Biblioteconomia e decidir que uma velha ex-viciada foi apenas um desvio de percurso. Uma aventura de chuva.
Gabriele sentiu as lágrimas pinçarem seus olhos. Ela caminhou até Hylda e ajoelhou-se entre as pernas dela, segurando suas mãos calejadas.
— Você acha mesmo que eu sou tão pequena assim? Que o que aconteceu entre nós foi apenas por causa da inundação?
— Eu não sei, ovelhinha — Hylda desviou o olhar, a voz embargada. — Eu vi você com ele no jardim. Ele é o seu futuro lógico. Eu sou o seu passado confuso. Eu tive medo de você acordar hoje e decidir que o convento era seguro demais para ser abandonado por alguém como eu.
— Eu não vou voltar para o convento, Hylda — afirmou Gabriele, com uma firmeza que fez a outra estremecer. — E eu não quero o Gabriel. Ele é um irmão para mim. O que eu quero... o que eu descobri que preciso... é de alguém que me desafie a ser eu mesma, mesmo que essa pessoa seja teimosa, ciumenta e use um cachimbo fedorento.
Hylda soltou um suspiro longo, encostando a testa na de Gabriele.
— Desculpe pelo show lá embaixo. Eu sou uma idiota quando me sinto ameaçada.
— Você é uma idiota adorável — corrigiu Gabriele, sorrindo entre as lágrimas. — Mas não ouse duvidar de mim novamente. Eu escolhi você, Hylda. Com todos os seus defeitos e todas as suas tatuagens.
Hylda sorriu, um sorriso genuíno que iluminou seu rosto grisalho. Ela se afastou um pouco e enfiou a mão no bolso da calça de sarja, retirando um pequeno objeto embrulhado em um lenço de seda velha.
— Eu não sou de fazer as coisas do jeito tradicional — começou Hylda, a voz voltando a ter aquele timbre de autoridade, mas agora carregada de uma ternura infinita. — Eu sempre vivi solta, sem dar satisfação a ninguém. Achei que morreria assim, sendo a "Padre" de lugar nenhum. Mas aí você apareceu, com esse seu jeito de santa que esconde um incêndio, e bagunçou toda a minha teologia.
Ela abriu o lenço. Dentro dele, havia um anel de prata antigo, com um desenho de ramagens entrelaçadas. Não era uma joia cara, mas tinha o peso da história.
— Era da minha avó — disse Hylda. — Ela dizia que a prata escurece com o tempo, mas volta a brilhar se for cuidada. Eu não estou te pedindo para ser minha propriedade, Gabriele. Eu estou te pedindo para ser minha parceira. No mundo real. Com a distância, com o trabalho, com os estudos... com tudo.
Gabriele olhou para o anel, o coração batendo tão forte que parecia que ia saltar do peito.
— Hylda... você está...?
— Estou te pedindo em namoro, sua ovelha tonta — Hylda riu, embora suas mãos estivessem tremendo. — Quero que o mundo saiba que você tem dona, e que essa dona sou eu. Mesmo que eu tenha que dirigir três horas todo final de semana para te ver entre uma prateleira de livros e outra. Você aceita ser a namorada dessa velha caminhoneira safada?
Gabriele não respondeu com palavras. Ela se lançou nos braços de Hylda, derrubando as duas sobre a cama, rindo e chorando ao mesmo tempo.
— Aceito — sussurrou ela contra o pescoço de Hylda. — Mil vezes aceito.
Hylda deslizou o anel no dedo de Gabriele. Ficou um pouco largo, mas parecia perfeito. Ela segurou a mão da moça, admirando o brilho da prata contra a pele jovem.
— Agora — disse Hylda, recuperando o tom malicioso — vamos terminar de arrumar essas malas. Temos uma vida inteira para começar lá fora, e eu pretendo aproveitar cada segundo antes de te deixar naquela universidade cheia de garotos que eu vou ter que ameaçar constantemente.
— Você não vai ameaçar ninguém, Hylda! — Gabriele riu, puxando-a para um beijo.
— Veremos, ovelhinha. Veremos — murmurou Hylda, selando o compromisso com a paixão de quem finalmente encontrara sua verdadeira fé.
Naquela tarde, quando os dois carros partiram da residência dos Flowers em direções opostas, Gabriele olhou pelo retrovisor. Ela viu o anel de prata brilhando em seu dedo e soube que, embora o caminho à frente fosse novo e incerto, ela nunca mais estaria perdida. Ela tinha sua mestre, sua amante e sua parceira. A tempestade passara, mas o incêndio que Hylda começara em sua alma estava apenas começando a queimar com a força do sol de domingo.