A pequena
O Despertar das Cores e o Café da Manhã de Princesa
O sol da manhã em National City tinha uma suavidade que parecia respeitar o silêncio do quarto de Lena. Os raios de luz atravessavam as cortinas de linho fino, criando padrões rendados sobre o edredom de seda. Kara já estava acordada há algum tempo, mas não se atrevia a se mover. Seus sentidos aguçados captavam o ritmo perfeito do coração de Lena, um som que, para ela, era mais melodioso do que qualquer sinfonia.
Lena ainda estava profundamente imersa em seu mundo de sonhos, com o rosto pressionado contra o peito de Kara e uma das mãos segurando firmemente a gola do pijama da loira. O Sr. Puffy, o urso de pelúcia, estava espremido entre as duas, parecendo um guardião silencioso daquela paz.
Kara sorriu, afastando uma mecha de cabelo escuro que caía sobre o rosto de Lena. Ela sabia que, em algum momento, a CEO implacável voltaria, mas, por enquanto, ela queria prolongar aquele estado de pureza o máximo possível. Com um movimento quase imperceptível, Kara usou sua supervelocidade para preparar o ambiente. Em um segundo, ela saiu da cama, arrumou a cozinha, preparou o café e voltou para a mesma posição, tudo sem que Lena sequer percebesse o deslocamento de ar.
— Hmm... Mommy? — O murmúrio saiu abafado, acompanhado por um movimento preguiçoso sob as cobertas.
— Bom dia, minha pequena — sussurrou Kara, deixando um beijo carinhoso na têmpora de Lena. — Dormiu bem?
Lena abriu os olhos devagar, as íris verdes ainda nubladas pelo sono e pela regressão que permanecia forte naquela manhã de sábado. Ela não soltou a camisa de Kara; em vez disso, apertou-a mais e se escondeu na curva do pescoço da loira, soltando um suspiro satisfeito.
— A Mommy é quentinha — disse Lena, a voz arrastada e doce. — O sol tá muito brilhante. Manda ele ir embora?
Kara soltou uma risadinha baixa, o som vibrando contra o corpo de Lena.
— O sol quer ver a princesa mais linda da cidade, Lee. Mas se você quiser, a Mommy fecha as cortinas um pouquinho mais.
— Não precisa — decidiu Lena, finalmente levantando o rosto e olhando para Kara com um biquinho pensativo. — A Lee tá com fominha. O estômago fez barulho de monstro.
— Um monstro? Oh, não! Temos que alimentar esse monstro agora mesmo — brincou Kara, sentando-se na cama e trazendo Lena para o seu colo. — O que a minha baby quer comer? Panquecas com carinhas tristes ou carinhas felizes?
— Felizes! — exclamou Lena, batendo palmas suavemente, o entusiasmo infantil brilhando em seus olhos. — E com muito morango. E... e calda de chocolate?
Kara fingiu pensar por um momento, fazendo uma careta engraçada que fez Lena rir.
— Calda de chocolate no café da manhã? Bom, como hoje é um dia especial de mimos, acho que a Mommy pode abrir uma exceção. Mas primeiro, precisamos trocar essa fraldinha e colocar uma roupa bem confortável para o dia de brincadeiras.
Lena assentiu, deixando-se levar. Para qualquer outra pessoa, a ideia de Lena Luthor, a mente por trás de inovações tecnológicas globais, sendo cuidada dessa forma seria impensável. Mas ali, sob o olhar cheio de adoração de Kara, era a única coisa que fazia sentido. Era o único lugar onde ela não precisava estar no controle, onde a vulnerabilidade não era uma fraqueza, mas um elo de ligação.
Após os cuidados matinais, Kara carregou Lena até a cozinha. A morena agora vestia um macacão de algodão macio com estampas de estrelas, e seus cabelos estavam presos em duas pequenas chiquinhas laterais, o que acentuava sua aparência juvenil e delicada. Ela foi colocada em uma cadeira alta estilizada que Kara havia providenciado, sentindo-se protegida e no centro das atenções.
Enquanto Kara terminava de montar o prato de panquecas, o som de uma notificação no tablet de Lena, deixado sobre o balcão na noite anterior, ecoou pelo ambiente. Era um alerta de notícias da L-Corp. Por um breve segundo, o olhar de Lena mudou; uma sombra de seriedade cruzou seu rosto, e ela esticou a mão em direção ao dispositivo.
— Lee? — chamou Kara suavemente, colocando o prato de panquecas à frente dela.
Lena parou, sua mão pairando a poucos centímetros do tablet. Ela olhou para o aparelho e depois para Kara, que mantinha um sorriso encorajador, mas firme.
— O trabalho pode esperar, pequena. Hoje o mundo não precisa da CEO. Hoje o mundo só precisa que você seja feliz.
Lena recolheu a mão, escondendo-a sob a mesa como se tivesse sido pega fazendo algo errado.
— A Lee esqueceu — murmurou ela, os olhos baixos. — Os homens de terno mandam muitas mensagens. Eles ficam bravos se a Lee não responde.
Kara contornou o balcão e ajoelhou-se ao lado da cadeira de Lena, pegando suas mãos pequenas nas suas.
— Ninguém vai ficar bravo. A Mommy já avisou que você está em uma "conferência de alta prioridade". E se alguém reclamar, eles vão ter que se ver com a Supergirl. E ninguém quer deixar a Supergirl zangada, quer?
Lena soltou uma risadinha, a tensão deixando seus ombros.
— Eles teriam medo do seu sopro de gelo — disse ela, pegando um pedaço de morango com os dedos e oferecendo a Kara. — Toma, Mommy. Pra você ficar forte.
— Obrigada, meu amor — Kara aceitou a fruta, sentindo o peito aquecer.
O café da manhã seguiu entre risadas e pequenas brincadeiras. Kara alimentava Lena com calma, contando histórias sobre os animais que via quando voava sobre as florestas distantes. Lena ouvia tudo com os olhos arregalados, ocasionalmente fazendo perguntas curiosas sobre se os pássaros tinham medo de altura ou se as nuvens tinham gosto de algodão doce.
No entanto, a tranquilidade foi levemente abalada quando um barulho alto de trovão ressoou lá fora, seguido por uma chuva repentina que começou a fustigar as janelas de vidro. Lena estremeceu, largando o garfo de plástico e agarrando a borda da mesa.
— Barulho feio — sussurrou ela, os lábios tremendo.
— É só a chuva, pequena. As flores precisam de água para crescer — explicou Kara, percebendo o início de uma crise de ansiedade.
— Não gosta — insistiu Lena, os olhos começando a marejar. — Parece o barulho das explosões... daquela vez...
Kara soube imediatamente que Lena estava se referindo a um dos ataques sofridos pela L-Corp meses atrás. O trauma era como um fantasma que rondava os cantos da mente de Lena, esperando um momento de fraqueza para atacar. Sem hesitar, Kara a tirou da cadeira e a envolveu em um abraço apertado, usando sua própria capa — que ela havia deixado sobre o sofá — para cobrir os ombros de Lena.
— Shh, eu estou aqui. Nada vai te machucar. A Mommy é de aço, lembra? Eu sou seu escudo. O barulho não pode entrar aqui.
Lena enterrou o rosto no ombro de Kara, soluçando baixinho.
— Promete?
— Prometo com todo o meu coração. Quer ir para o nosso "forte de almofadas"? Podemos ler mais histórias e ignorar a chuva.
Lena assentiu com a cabeça, ainda agarrada a Kara como se sua vida dependesse disso. Kara a levou para a sala de estar, onde, com alguns movimentos rápidos e o uso estratégico de lençóis e almofadas extras, construiu uma cabana improvisada no meio da sala. Lá dentro, o ambiente era quente, iluminado por pequenas luzes de LED que Kara instalara para simular estrelas.
Sentadas dentro do forte, o mundo exterior desapareceu. O som da chuva tornou-se apenas um ruído de fundo, incapaz de romper a barreira de segurança que Kara criara. Lena começou a se acalmar, seu corpo relaxando contra o de Kara enquanto elas se acomodavam entre os travesseiros.
— Mommy? — chamou Lena, agora brincando com os botões da camisa de Kara.
— Sim, querida?
— Por que você é tão boazinha com a Lee? — A pergunta veio carregada de uma dúvida profunda, uma que Lena só conseguia expressar quando estava regredida. — Todo mundo quer alguma coisa da Lee. Querem dinheiro, querem armas, querem o nome... Mas você só quer me dar carinho.
Kara sentiu um nó na garganta. Ela segurou o queixo de Lena, forçando-a a olhar em seus olhos.
— Porque você é a pessoa mais incrível que eu já conheci, Lena. Não por causa do seu cérebro, ou do seu dinheiro, ou do seu nome. Eu te amo porque você tem o coração mais puro e corajoso do mundo. E todo mundo, até a pessoa mais forte, precisa de um lugar onde possa ser apenas cuidada. Você cuida do mundo o tempo todo. Deixe que eu cuide de você.
Lena sorriu, um sorriso verdadeiro que iluminou todo o seu rosto. Ela se inclinou e deu um beijo estalado na bochecha de Kara.
— Eu amo a minha Mommy.
— E eu amo a minha baby. Mais do que todas as estrelas do céu.
O resto da tarde foi passado em uma bolha de felicidade doméstica. Elas coloriram livros inteiros, com Kara propositalmente pintando fora das linhas para fazer Lena rir e corrigi-la. Elas assistiram a desenhos animados onde os animais falavam e os problemas eram resolvidos com canções. Kara até deixou que Lena tentasse "pentear" seu cabelo, resultando em um emaranhado de tranças tortas que Kara exibiu com orgulho como se fosse a última moda de Paris.
Conforme a noite se aproximava, o cansaço começou a tomar conta de Lena novamente. A regressão profunda exigia muito de sua energia mental. Ela começou a bocejar, esfregando os olhos com as costas das mãos.
— Alguém está ficando com os olhinhos pesados — observou Kara, acariciando as costas de Lena.
— Não quero dormir... — protestou Lena, embora sua cabeça já estivesse pendendo para o lado. — Se eu dormir, amanhã vai ser segunda-feira e a Lee vai ter que ir embora.
Kara sentiu uma pontada de tristeza, mas manteve a voz firme e doce.
— Amanhã ainda é domingo, meu amor. Temos mais um dia inteirinho só nosso. E mesmo quando você precisar ser a "grande Lena" de novo, eu ainda vou estar aqui. Vou te mandar mensagens escondidas, vou te buscar para o almoço e, à noite, vou estar te esperando para te colocar na cama. Eu nunca vou embora.
Lena pareceu processar a informação, seu medo sendo substituído pela segurança das palavras de Kara.
— Você vai me trazer donuts no almoço? — perguntou ela, com uma última centelha de esperança infantil.
— Os melhores da cidade — prometeu Kara.
Lena finalmente se entregou, fechando os olhos enquanto Kara começava a cantar uma canção de ninar kryptoniana, uma melodia antiga que falava de paz e de dois sóis que protegiam um mundo distante. A voz de Kara era suave, uma vibração que parecia envolver Lena em um cobertor invisível de amor.
Enquanto Lena dormia, Kara olhou para a janela. A chuva havia parado, e a lua começava a surgir entre as nuvens. Ela sabia que os desafios de ser uma Luthor e uma Supergirl nunca desapareceriam. O mundo sempre exigiria algo delas. Mas, enquanto tivessem aquele refúgio, enquanto pudessem se perder no papel de Mommy e baby, elas seriam invencíveis.
Kara ajeitou Lena em seus braços, beijando o topo de sua cabeça. National City estava calma, e no coração da cobertura, a paz era absoluta. Lena Luthor não era apenas uma aliada ou uma amiga; ela era o tesouro de Kara, e a loira passaria a eternidade garantindo que sua pequena nunca mais se sentisse sozinha, desprotegida ou sem um lugar para chamar de lar.