A pequena
O Reino das Almofadas e o Segredo do Urso Puffy
A manhã de domingo nasceu com um céu de um azul tão límpido que parecia ter sido lavado pela tempestade da noite anterior. Dentro da cobertura, o silêncio era absoluto, interrompido apenas pelo zumbido suave do purificador de ar e pelo som rítmico da respiração de Kara. A super-heroína estava sentada no pé da cama, observando Lena dormir. A morena estava atravessada no colchão, abraçada a um travesseiro extra, com um dos pés descalços saindo por baixo do edredom.
Kara sentiu aquele calor familiar no peito. Ver Lena assim, desarmada de todas as suas defesas tecnológicas e intelectuais, era o maior privilégio de sua vida. Ela sabia que, em poucas horas, os e-mails da L-Corp começariam a inundar o celular de Lena e a pressão de ser a salvadora da economia de National City voltaria. Mas, por enquanto, o tempo pertencia a elas.
Com um movimento suave, Kara se aproximou e começou a fazer cócegas leves na planta do pé de Lena.
— Acorda, dorminhoca. O sol já está chamando a baby para brincar.
Lena resmungou, encolhendo a perna e se enterrando ainda mais nos travesseiros.
— Não... — a voz dela saiu abafada e manhosa. — O sol é muito barulhento. Manda ele baixar o volume, Mommy.
Kara riu, uma gargalhada cristalina que fez Lena abrir um dos olhos verdes, ainda pesados de sono.
— O sol não faz barulho, pequena. Mas o seu estômago vai fazer se você não levantar para o café especial que eu prometi. Lembra? Domingo é dia de...
— Panquecas de chocolate com granulado colorido! — Lena sentou-se num salto, a regressão estalando instantaneamente em sua mente. Ela esfregou os olhos com as mãos fechadinhas em punhos, parecendo muito mais jovem do que seus trinta e poucos anos. — A Lee lembrou!
— Isso mesmo! — Kara a pegou no colo, levantando-a como se ela não pesasse nada. — Mas primeiro, precisamos de um banho de espuma para tirar esse soninho dos olhos.
O momento do banho era sempre uma transição importante. Para Lena, a água morna e as bolhas de sabão eram terapêuticas, ajudando-a a se desconectar completamente da persona de CEO. Kara havia comprado sais de banho com cheiro de lavanda e camomila, específicos para acalmar a mente hiperativa de sua baby.
Enquanto a banheira se enchia, Lena sentou-se no balcão de mármore, balançando as pernas. Ela observava Kara com uma fascinação que nunca diminuía.
— Mommy, você usa sua super-força para fazer as bolhas ficarem maiores? — perguntou ela, inclinando a cabeça com curiosidade.
— Talvez um pouquinho — confessou Kara, piscando um olho. — Mas o segredo é o amor que eu coloco nelas.
— O Sr. Puffy pode tomar banho também? — Lena ergueu o urso de pelúcia desgastado, cujas orelhas já tinham visto dias melhores.
— Ah, o Sr. Puffy prefere um banho de sol na janela, lembra? — Kara respondeu com voz doce, pegando o urso gentilmente. — Se ele se molhar, vai demorar muito para secar e ele não vai poder te abraçar na hora da soneca.
Lena fez um biquinho, mas aceitou a lógica.
— Tá bom. Ele vai ser o salva-vidas então.
Depois de um banho demorado, onde Kara lavou os cabelos negros de Lena com cuidado infinito, elas se dirigiram para a cozinha. Lena estava vestida com um romper de algodão rosa pálido e meias com antiderrapantes de patinhas de gato. Ela se sentou à mesa, desenhando com gizes de cera enquanto Kara operava o fogão com a destreza de quem já havia feito aquilo centenas de vezes.
— Mommy? — chamou Lena, sem desviar os olhos do desenho de uma casa torta com um sol gigante.
— Diga, meu amor.
— Por que a Alex não gosta quando eu sou a baby? — A pergunta saiu pequena, carregada de uma insegurança que Lena normalmente escondia sob sete chaves.
Kara parou de virar a panqueca, sentindo o peso daquela dúvida. Ela sabia que Alex Danvers tinha uma relação complexa com Lena, baseada em anos de desconfiança mútua por causa do sobrenome Luthor, embora as coisas tivessem melhorado muito.
— A Alex gosta de você, Lee — disse Kara, aproximando-se e colocando a mão sobre a de Lena. — Mas ela é uma protetora, assim como eu. Ela só se preocupa que você se machuque se abaixar a guarda demais. Ela não entende o quanto isso faz bem para o seu coração.
— Ela olha para mim com olhos de "agente" — murmurou Lena, fazendo uma careta. — Eu prefiro quando ela olha com olhos de irmã. Mas eu só quero os seus olhos de Mommy.
— E você sempre terá, pequena. A opinião do resto do mundo fica do lado de fora daquela porta. Aqui dentro, você é só a minha Lena, e isso é a coisa mais perfeita que existe.
Kara serviu o café da manhã, e por um tempo, o único som era o das garfadas e dos elogios entusiasmados de Lena sobre a quantidade de granulado. No entanto, o clima mudou quando o interfone do prédio tocou.
Lena congelou, o garfo a caminho da boca. Seus olhos se arregalaram e ela instintivamente procurou a mão de Kara.
— Não atende. É um homem de terno. Eu sei que é.
— Calma, baby. A Mommy vai ver quem é. Ninguém entra aqui sem a minha permissão, lembra?
Kara caminhou até o monitor. Era Jess, a secretária de Lena, com uma expressão de urgência que atravessava a tela digital. Kara suspirou. Ela sabia que Jess era uma das poucas pessoas que tinha acesso direto em casos de crise, mas odiava que o mundo exterior estivesse batendo à porta tão cedo.
— É a Jess, Lee. Ela parece preocupada.
— Não! — Lena se levantou da cadeira, a voz subindo um tom, beirando o pânico. — A Jess significa papéis. Papéis significam assinaturas. Assinaturas significam que eu tenho que ser a Lena Luthor. Eu não quero ser ela agora! Eu sou a baby!
Kara correu para o lado dela, envolvendo-a em um abraço de urso que silenciou os protestos.
— Respire, pequena. Respire comigo. Um... dois... três...
Lena soluçou contra o peito de Kara, as mãos agarrando a camisa da loira com força.
— Eu vou falar com ela pela porta, tudo bem? Eu vou pegar o que ela trouxe e ela vai embora. Você pode ir para o seu forte de almofadas com o Sr. Puffy. Eu não vou deixar ninguém te ver assim e ninguém vai te obrigar a trabalhar hoje. Eu prometo.
Lena assentiu com a cabeça, fungando. Ela correu para a sala, mergulhando na estrutura de lençóis que haviam construído no dia anterior, desaparecendo entre as sombras e as luzes de LED.
Kara foi até a porta. Ela a abriu apenas o suficiente para ver Jess, que segurava uma pasta preta com o selo de urgência da L-Corp.
— Kara, sinto muito vir até aqui no domingo — disse Jess, parecendo genuinamente exausta. — Mas o conselho administrativo está exigindo uma resposta sobre a fusão em Metrópolis. Eles não conseguem falar com a Lena e estão começando a entrar em pânico.
— Jess — Kara usou seu tom mais firme, aquele que ela reservava para negociar com vilões ou com a imprensa — A Lena não está disponível. Ela teve uma semana exaustiva e eu estou cuidando para que ela descanse. Diga ao conselho que, se eles continuarem a pressionar, a Lena pode decidir que a fusão não vale o estresse dela. Ela entrará em contato amanhã às nove da manhã. Nem um minuto antes.
Jess piscou, surpresa com a autoridade na voz da jornalista. Ela olhou para a porta fechada e depois para Kara.
— Entendido. Vou acalmá-los. Diga a ela que... diga a ela para descansar bem.
Assim que Jess se afastou, Kara fechou a porta e trancou-a. Ela soltou um suspiro longo, sentindo a raiva protetora diminuir. Ela voltou para a sala e se ajoelhou na entrada do forte de almofadas.
— Ela já foi, meu amor. O monstro dos papéis foi derrotado.
Um par de olhos verdes espiou por trás de uma almofada azul.
— De verdade?
— De verdade verdadeira. Agora, o que você acha de terminarmos aquele desenho e depois assistirmos ao filme do leãozinho?
Lena saiu de seu esconderijo, arrastando-se até o colo de Kara. Ela parecia pequena, mas a tensão havia deixado seu rosto.
— Mommy, você é muito brava com as pessoas chatas. Eu gosto disso.
— Eu só protejo o que é meu — respondeu Kara, beijando a ponta do nariz de Lena.
O resto da manhã fluiu com uma doçura que parecia suspensa no tempo. Elas brincaram de esconde-esconde pela cobertura imensa, com Kara fingindo que não conseguia ouvir o risinho abafado de Lena atrás das cortinas de veludo. Elas construíram uma torre de blocos de montar que Lena derrubou com um grito de alegria, declarando-se a "rainha da destruição".
Por volta do meio-dia, o ciúme de Lena fez uma reaparição inesperada. Kara estava verificando rapidamente suas mensagens no celular — apenas para garantir que National City não estava pegando fogo — quando Lena se aproximou e puxou o aparelho da mão dela.
— Sem telefone. A Mommy está olhando para a tela, não para a Lee.
— Só estava vendo se o James precisava de algo na CatCo, pequena.
— O James tem a Lucy. Ele não precisa da minha Mommy — decretou Lena, cruzando os braços e fazendo um biquinho impenetrável. — Você é minha.
Kara sentiu o coração derreter. Ela puxou Lena para um abraço apertado, rolando com ela no tapete felpudo.
— Eu sou toda sua. Ninguém mais tem o direito de ter a minha atenção quando eu estou com você. O que eu posso fazer para ganhar o seu perdão, Vossa Majestade da Fofura?
Lena pareceu considerar o pedido seriamente, colocando um dedo no queixo.
— Quero que você voe comigo. Mas não voar de verdade lá fora. Quero que você voe comigo aqui dentro, bem baixinho, como se fôssemos aviões.
Kara sorriu. Ela se levantou, pegou Lena nos braços em posição de "ninho" e começou a flutuar a poucos centímetros do chão. Ela circulou a sala, fazendo sons de motor de avião, enquanto Lena abria os braços e soltava gritinhos de deleite. Para Lena, a sensação de falta de gravidade combinada com a segurança dos braços de Kara era a definição de paraíso.
Quando finalmente pousaram no sofá, ambas estavam ofegantes de tanto rir. Lena se aninhou no pescoço de Kara, brincando com os fios loiros da outra.
— Mommy? — a voz dela estava ficando arrastada novamente, o sinal claro de que a energia estava acabando.
— Sim, meu anjo?
— Por que o Sr. Puffy tem uma cicatriz no braço? — Ela apontou para um remendo grosseiro na pelúcia do urso, que Kara mesma tinha costurado meses atrás.
— Ah, isso é uma marca de bravura — explicou Kara, acariciando o urso. — O Sr. Puffy protegeu você de um pesadelo muito feio uma vez. Ele lutou contra o pesadelo e ganhou, mas acabou se machucando um pouquinho. Por isso ele é tão especial. Ele carrega as marcas de quanto ele te ama.
Lena olhou para o urso com novos olhos, apertando-o contra o peito.
— Eu também tenho marcas, Mommy?
A pergunta atingiu Kara como um soco. Ela sabia que Lena não falava de marcas físicas, mas das cicatrizes invisíveis deixadas por Lillian, Lionel e Lex.
— Você tem as marcas mais bonitas do mundo, Lee. Elas mostram que, não importa o que aconteceu, você ainda sabe amar. E essas marcas não te fazem menos baby, nem menos forte. Elas só fazem de você a minha Lena.
Lena soltou um suspiro trêmulo e fechou os olhos.
— Eu gosto de ser a sua Lena.
O almoço foi uma bagunça divertida de nuggets de frango em formato de dinossauro e suco de maçã. Lena insistiu em dar nomes a cada dinossauro antes de comê-los, criando toda uma mitologia sobre o "Reino do Nugget" que Kara acompanhou com entusiasmo.
À tarde, a regressão de Lena atingiu seu ponto mais profundo. Ela mal falava, comunicando-se apenas através de gestos e sons suaves. Kara reconheceu os sinais e preparou uma mamadeira com leite morno e um toque de mel. Ela sentou-se na poltrona de balanço que ficava no canto do quarto, um móvel que Lena comprara especificamente para aqueles momentos.
Enquanto balançava devagar, Kara observava Lena beber a mamadeira, os olhos fixos nos de Kara com uma confiança absoluta. Naquele momento, não havia Luthor, não havia Supergirl, não havia kryptonita ou segredos de estado. Havia apenas a necessidade básica de cuidado e a oferta incondicional de proteção.
— Você é tão perfeita — sussurrou Kara, a voz falhando levemente.
Lena soltou a mamadeira, um traço de leite no canto da boca que Kara limpou com o polegar.
— Mommy... canta? — pediu Lena, quase em um suspiro.
Kara começou a cantar uma música que costumava ouvir em Argo City, uma melodia que falava sobre a luz das estrelas guiando os viajantes de volta para casa. Enquanto cantava, ela percebeu que Lena estava finalmente relaxando por completo, seus músculos soltos, sua mente em paz.
Quando Lena finalmente adormeceu, Kara não a colocou na cama imediatamente. Ela ficou ali, balançando-a por mais uma hora, aproveitando o peso reconfortante da mulher em seu colo. Ela pensou em como o mundo via Lena Luthor: fria, calculista, brilhante, perigosa. E depois olhou para a mulher em seus braços: doce, vulnerável, carente de afeto, infinitamente preciosa.
Kara sabia que a segunda-feira chegaria com seus desafios. Lena teria que vestir seu terno de armadura, assumir o controle da L-Corp e enfrentar o escrutínio do público. Kara teria que vestir sua capa e voar para salvar o mundo de ameaças que nunca cessavam.
Mas, enquanto a noite de domingo caía sobre National City, cobrindo a cobertura com um manto de sombras suaves, Kara fez uma promessa silenciosa. Ela sempre seria o porto seguro de Lena. Ela sempre teria as panquecas prontas, o Sr. Puffy por perto e os braços abertos para quando o mundo se tornasse pesado demais.
Porque para Lena Luthor, o maior superpoder de Kara Danvers não era a força física ou a visão de calor. Era a capacidade de criar um espaço onde ela pudesse, finalmente, ser apenas uma criança amada, protegida do legado de seu nome e livre para sonhar com um mundo onde o amor era a única lei.
— Durma bem, minha baby — sussurrou Kara, depositando um beijo final na testa de Lena. — Amanhã, seremos heroínas. Mas hoje, somos apenas nós.
E no silêncio da noite, a resposta veio em um pequeno sorriso inconsciente nos lábios de Lena, o sinal de que, naquele porto seguro, ela estava finalmente em casa.