A pequena
O Sussurro das Estrelas e o Mistério do Pote de Biscoitos
A noite em National City sempre trazia um brilho diferente para quem a observava do alto, mas para Lena, o mundo exterior não passava de um borrão de luzes distantes. O que importava era o calor do pijama de flanela com estampas de ursinhos e o som reconfortante do coração de Kara, que batia como um tambor constante e protetor sob seu ouvido. Elas estavam jogadas no tapete da biblioteca, um dos poucos cômodos onde a tecnologia da L-Corp não ousava entrar.
— Mommy, as estrelas lá fora são as mesmas que você via na sua casa de antes? — perguntou Lena, a voz pequena e carregada de uma curiosidade sonolenta.
Kara parou de acariciar os cabelos negros de sua baby e olhou para a janela panorâmica. Seus olhos azuis pareceram viajar por anos-luz em um segundo, antes de voltarem para o rosto suave e vulnerável de Lena.
— Algumas são parecidas, pequena — respondeu Kara, a voz vibrando com uma nostalgia doce —, mas em Krypton, o céu era tingido de um vermelho suave, como se o sol estivesse sempre indo dormir. Aqui, as estrelas parecem diamantes espalhados no veludo. Mas sabe de uma coisa? Nenhuma delas brilha tanto quanto você quando sorri.
Lena soltou uma risadinha abafada e escondeu o rosto no pescoço de Kara, sentindo as bochechas esquentarem. A regressão naquela noite estava profunda e tranquila, um refúgio necessário após um dia em que Lena tivera que demitir três executivos por má conduta. Naquelas horas frias da tarde, ela fora a herdeira implacável; agora, ela era apenas a menina que precisava de colo e de histórias sobre planetas distantes.
— A Lee queria voar até lá para pegar uma estrela para a Mommy — murmurou Lena, as mãos pequenas agarrando a camisa de Kara. — Para iluminar o seu quarto quando você ficar triste.
— Oh, meu amor — Kara apertou o abraço, deixando um beijo terno no topo da cabeça de Lena —, eu não preciso de estrelas de cristal. Eu tenho você. Mas agora, acho que o estômago de uma certa baby está fazendo barulhos muito suspeitos. Não está?
Lena se afastou apenas o suficiente para olhar para Kara com olhos arregalados e um biquinho pensativo. Ela inclinou a cabeça, como se estivesse ouvindo o próprio corpo.
— O monstrinho da barriga disse que quer... — ela fez uma pausa dramática, os olhos brilhando — ...biscoitos! Aqueles com gotas de chocolate que a senhora Danvers mandou!
Kara riu, levantando-se e levando Lena em seus braços com a facilidade de quem carrega uma pluma.
— Os biscoitos da vovó Eliza? — Kara arqueou uma sobrancelha, fingindo severidade. — Mas nós já jantamos, e eu me lembro de alguém dizendo que estava "cheia demais para comer até o brócolis".
— O brócolis ocupa um lugar diferente no estômago — explicou Lena com uma lógica infantil impecável. — O lugar do biscoito está vazio e muito triste, Mommy. Por favor? Só um?
— Tudo bem, tudo bem — cedeu Kara, rendendo-se àquela expressão que poderia desarmar exércitos. — Mas só dois. E depois, direto para a escovação de dentes e cama. Combinado?
— Combinado! — exclamou Lena, batendo palmas enquanto Kara a colocava sentada no balcão da cozinha.
Kara caminhou até a despensa, onde o pote de cerâmica decorado com flores estava guardado. No entanto, ao abrir a porta, ela franziu o cenho. O pote não estava no lugar de costume. Ela usou sua visão de raio-x por um segundo e soltou um suspiro divertido. O pote estava escondido atrás de uma caixa de cereais, e estava... suspeitamente leve.
— Lena Kieran Luthor... — Kara voltou para a cozinha, cruzando os braços e tentando manter uma expressão séria, apesar do brilho brincalhão nos olhos. — Você por acaso visitou a despensa enquanto a Mommy estava no banho?
Lena congelou. Seus olhos verdes percorreram a cozinha em busca de uma rota de fuga inexistente, antes de se fixarem nas próprias mãos.
— A Lee... a Lee só foi ver se eles estavam com frio — sussurrou ela, o biquinho voltando com força total. — Eles pareciam muito sozinhos no escuro, Mommy.
— E você decidiu que o melhor lugar para eles ficarem quentinhos era dentro da sua barriga? — Kara aproximou-se, apoiando as mãos no balcão, cercando Lena com seu calor.
— Só um pouquinho — admitiu Lena, estendendo os dedinhos para mostrar uma quantidade mínima. — O Sr. Puffy disse que estava com fome também. Eu tive que dividir com ele!
Kara olhou para o urso de pelúcia que estava sentado em uma das cadeiras da sala. O Sr. Puffy, de fato, tinha uma pequena migalha de chocolate presa em sua orelha de pano.
— Entendi — disse Kara, fingindo ponderar o caso. — Então foi um crime compartilhado. O Sr. Puffy é um cúmplice muito guloso. O que eu deveria fazer com duas pequenas criaturinhas que pegam biscoitos sem pedir?
Lena olhou para cima, seus olhos começando a brilhar com uma mistura de travessura e uma leve ansiedade típica de quem sabe que ultrapassou um limite, mesmo que pequeno.
— Cócegas? — sugeriu ela timidamente.
— Exatamente! — Kara avançou, as mãos ágeis encontrando os lados da barriga de Lena e as axilas.
A cozinha foi preenchida pelo som mais puro do mundo: a gargalhada de Lena. Ela se contorcia no balcão, tentando escapar das mãos de aço da Supergirl, que eram incrivelmente gentis.
— Não! Mommy! Para! A Lee pede desculpa! — gritava ela entre risos, as pernas balançando no ar.
— Biscoitos sem permissão? No meu turno? — brincou Kara, intensificando o ataque por um momento antes de parar e envolver Lena em um abraço protetor. — Você sabe que não precisa esconder nada de mim, pequena. Se você quer um biscoito, é só pedir. A Mommy quase nunca diz não para você, sabia?
Lena relaxou contra o peito de Kara, recuperando o fôlego. O momento de brincadeira ajudara a dissipar qualquer resquício de tensão que ela trouxera do escritório.
— A Lee sabe — murmurou ela, passando os braços pelo pescoço de Kara. — É que... às vezes eu acho que se eu pedir demais, você vai cansar. Em casa, o Lex e a Lillian diziam que querer coisas era sinal de fraqueza.
Kara sentiu aquela pontada de raiva fria que sempre surgia quando pensava na família biológica de Lena, mas ela a transformou em carinho. Ela afastou Lena apenas o suficiente para que seus olhos se encontrassem.
— Escuta bem — disse Kara, a voz suave como uma promessa —: nesta casa, querer coisas não é fraqueza. Ter fome, ter medo, querer um abraço ou um biscoito... isso é ser humana. E eu amo cada parte da sua humanidade. Você nunca, jamais, vai ser "demais" para mim. Entendeu?
Lena assentiu, as lágrimas de alegria e alívio ameaçando transbordar. Ela limpou o rosto na manga do pijama e sorriu.
— Entendi, Mommy. Mas... eu ainda ganho os dois biscoitos do trato?
Kara soltou uma gargalhada genuína, balançando a cabeça diante da persistência de sua baby.
— Você não existe, Lena. Sim, você ganha os biscoitos. Mas depois, é hora da rotina de sono. Sem desculpas.
Após o lanche noturno e a devida higiene, o quarto de Lena tornou-se o centro do universo. A iluminação estava baixa, apenas um abajur de sal rosa emitindo um brilho âmbar calmante. Kara ajudou Lena a se acomodar sob os lençóis de fios egípcios, mas a morena parecia inquieta.
— O que foi, pequena? O monstrinho do biscoito ainda está acordado? — perguntou Kara, sentando-se na beira da cama.
— Mommy, você pode me contar uma história? — pediu Lena, puxando o cobertor até o queixo. — Mas não uma de livros. Uma de verdade. Sobre quando você era pequena e se sentia como eu.
Kara sorriu, uma expressão de compreensão cruzando seu rosto. Ela se ajeitou, encostando as costas na cabeceira e convidando Lena a se deitar em seu colo.
— Quando eu cheguei na Terra — começou Kara, a voz baixa e melódica —, tudo era barulhento demais. Eu conseguia ouvir o batimento cardíaco de todos na cidade, o som das lâmpadas acesas, o vento soprando a quilômetros daqui. Eu me sentia muito, muito pequena e muito assustada. Eu queria me esconder em um buraco e nunca mais sair.
Lena ouvia atentamente, os dedos brincando com a mão de Kara.
— E o que você fez? — perguntou ela.
— A Alex e a Eliza me ensinaram que eu não precisava carregar o mundo inteiro nos meus ouvidos — continuou Kara. — Elas me deram um lugar onde o silêncio era seguro. Elas me deixavam ser apenas uma menina que gostava de sorvete e que tinha medo de trovões, mesmo que eu pudesse voar acima deles. Elas me deram o que eu estou te dando agora, Lee: um porto seguro.
— Eu sou o seu porto seguro também? — Lena olhou para cima, a vulnerabilidade exposta em seu olhar.
— Sempre — afirmou Kara. — Quando eu estou lá fora, lutando contra monstros ou salvando aviões, o que me mantém focada é saber que eu tenho você para voltar. Você é a minha casa, Lena.
Lena soltou um suspiro longo e satisfeito. A ansiedade que às vezes a acompanhava, mesmo nos momentos de regressão, parecia ter evaporado. Ela se aconchegou mais, o sono finalmente vencendo a batalha.
— Mommy? — a voz era agora apenas um fio de som.
— Sim, querida?
— Você é a melhor Mommy de todos os planetas. Até de Krypton.
Kara sentiu uma lágrima solitária de felicidade escorrer por seu rosto. Ela limpou-a rapidamente e inclinou-se para beijar a testa de Lena.
— E você é a baby mais preciosa de todas as galáxias. Durma bem, meu anjo.
Kara permaneceu ali por muito tempo, mesmo depois que a respiração de Lena se tornou lenta e profunda. Ela observava o rosto pacífico da mulher que, para o mundo, era um titã da indústria, mas que ali, em seus braços, era apenas uma alma que encontrara a paz.
O silêncio da cobertura era preenchido apenas pelo som do vento lá fora, mas dentro daquele quarto, havia uma barreira invisível que nenhum mal poderia cruzar. Kara sabia que amanhã os desafios voltariam. Haveria reuniões, crises, vilões e a pressão constante de ser quem o mundo esperava que elas fossem.
Mas, enquanto observava Lena segurando o Sr. Puffy mesmo durante o sono, Kara sentia-se invencível. Ela ajustou o cobertor ao redor dos ombros de Lena e sussurrou uma última vez, uma promessa que o universo inteiro parecia testemunhar:
— Eu sempre estarei aqui para limpar a tinta, para espantar os cachorros e para te dar todos os biscoitos do mundo, minha pequena. Sempre.
Com um movimento suave, Kara desligou o abajur. A escuridão não era assustadora; era apenas o pano de fundo para o brilho constante do amor que as unia. National City podia dormir tranquila, pois sua protetora estava em casa, cuidando do coração mais importante da cidade. E Lena, em seus sonhos, provavelmente voava entre estrelas feitas de açúcar, sempre de mãos dadas com sua Mommy.