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A pequena

O Labirinto de Lençóis e o Pequeno Desastre com a Tinta

A luz da manhã de segunda-feira era uma intrusa indesejada. Para a maioria dos cidadãos de National City, aquele era o início de mais uma jornada de trabalho, mas dentro da cobertura de Lena Luthor, o tempo ainda parecia dobrar-se sob a vontade de Kara Danvers. Lena estava em um estado de regressão profunda desde a tarde anterior, e a transição para a "Lena CEO" estava sendo mais lenta e delicada do que o habitual.

Kara estava na cozinha, fritando bacon e preparando torradas, quando ouviu um som de algo caindo na sala de estar. Em um borrão azul e vermelho, ela atravessou o corredor, parando na entrada da sala.

Lena estava sentada no meio do seu "forte de almofadas", mas o forte agora parecia um campo de batalha. Um frasco de tinta guache roxa — que deveria estar bem fechado na caixa de artes — havia tombado sobre o tapete de lã branca, e Lena estava com as mãos completamente mergulhadas na substância viscosa.

— Ah, não... — murmurou Kara, tentando conter o riso diante da expressão de choque puro no rosto de Lena.

Lena olhou para as próprias mãos, depois para a mancha roxa que se espalhava pelo tapete caríssimo, e seus lábios começaram a tremer. Seus olhos verdes se encheram de lágrimas instantaneamente.

— Mommy... a Lee quebrou o chão! — soluçou ela, escondendo o rosto nas mãos sujas, o que só resultou em pintar suas bochechas de roxo também. — A Lee é uma baby estragada!

Kara correu até ela, ajoelhando-se no limite da mancha para não sujar seu próprio pijama.

— Ei, ei, olha para mim, pequena — disse Kara com a voz mais doce que conseguiu projetar. — Ninguém está estragado. É só um pouco de tinta. O chão não quebrou, ele só ganhou uma cor nova.

— Mas a Lee fez bagunça — choramingou Lena, os soluços sacudindo seus ombros pequenos. — As pessoas de terno vão brigar com a Lee. A Mommy vai ficar triste e ir embora.

Kara sentiu o coração apertar. Era impressionante como, mesmo em seu estado mais vulnerável, o medo de ser descartada por seus erros ainda assombrava Lena. Ela pegou as mãos roxas de Lena com cuidado, ignorando o fato de que agora também estava manchada.

— Escuta bem, Lena Luthor — começou Kara, usando um tom firme, mas carinhoso. — Não existe bagunça no mundo que faça a Mommy ir embora. Nem se você pintasse a cidade inteira de roxo. Entendeu?

Lena fungou, olhando para as mãos entrelaçadas com as de Kara.

— Promete?

— Prometo pela minha super-força. Agora, vamos resolver isso. Primeiro, precisamos de um banho de emergência para a Pequena Monstrinha Roxa.

Kara a pegou no colo, carregando-a para o banheiro principal. Enquanto a água morna corria, Lena permanecia quietinha, observando Kara esfregar suavemente o sabão em seus dedos. O silêncio era apenas quebrado pelo som da água e pelos suspiros ocasionais de Lena.

— Mommy? — chamou ela baixinho, enquanto Kara limpava uma mancha roxa perto de sua orelha.

— Sim, meu anjo?

— Por que a Lee é tão desastrada? A Lena da TV nunca derruba nada. Ela é perfeita e usa saltos altos que fazem barulho de "clack-clack".

Kara parou o movimento e olhou profundamente nos olhos de Lena.

— A Lena da TV é uma armadura, pequena. Ela é feita de metal e vidro. Mas a minha Lena, a que está aqui comigo, é feita de sentimentos. E pessoas de verdade às vezes derrubam coisas. É por isso que eu estou aqui, para ajudar a limpar e para te segurar quando você tropeçar.

Lena sorriu timidamente, esticando um dedo limpo para tocar o nariz de Kara.

— Você tem um pouco de roxo no nariz, Mommy.

— Oh, eu tenho? — Kara fez uma careta engraçada e começou a espirrar água de leve em Lena, transformando o momento de culpa em uma guerra de espumas.

Após o banho e de devidamente vestida com um macacão de flanela com desenhos de patinhos, Lena parecia mais calma, embora ainda estivesse muito "pequena". Kara sabia que precisava começar a trazê-la de volta à realidade aos poucos, pois havia uma reunião importante via videoconferência ao meio-dia que nem mesmo a Supergirl poderia cancelar sem causar um colapso nas ações da empresa.

— Pequena, a Mommy precisa te contar uma coisa — disse Kara, sentando Lena no balcão da cozinha enquanto servia o café da manhã. — Daqui a pouco, o relógio vai marcar a hora em que a Lena Grande precisa aparecer por um pouquinho.

O rosto de Lena caiu imediatamente. Ela agarrou o Sr. Puffy contra o peito.

— Não... a Lee quer ficar aqui. Com a Mommy e os patinhos.

— Eu sei, eu sei. E a Mommy vai estar bem aqui, sentada no chão, embaixo da sua mesa, onde ninguém pode me ver. Eu vou segurar a sua mão o tempo todo. Vai ser como um segredo nosso. A CEO poderosa do lado de cima, e a baby segura com a Mommy do lado de baixo. O que você acha?

Lena inclinou a cabeça, processando a ideia. A ideia de um "segredo" parecia apelar para o seu lado lúdico.

— Você vai ficar quietinha? Sem voar e sem fazer barulho de Supergirl?

— Vou ser mais silenciosa que um ratinho — prometeu Kara, cruzando o coração.

A preparação para a reunião foi um processo meticuloso. Kara ajudou Lena a se vestir — não com o terno completo, mas com uma blusa de seda elegante que, na câmera, parecia profissional o suficiente, enquanto por baixo ela ainda usava a calça do pijama de patinhos. Era um contraste que fazia Kara sorrir secretamente.

Quando o computador foi ligado, Lena assumiu uma postura mais ereta. Seus olhos ainda tinham a suavidade da regressão, mas ela respirou fundo, buscando a força que Kara lhe dava. Kara, fiel à sua palavra, deslizou para o espaço sob a mesa de carvalho maciço, acomodando-se nos pés de Lena.

Assim que a chamada de vídeo começou, a voz de um dos diretores da L-Corp preencheu a sala.

— Srta. Luthor, obrigado por nos atender. Sabemos que o seu fim de semana foi... privado.

Lena hesitou por um segundo. Por baixo da mesa, ela sentiu a mão quente de Kara envolver seu tornozelo, um aperto firme e encorajador.

— Sim, Sr. Miller — disse Lena, sua voz saindo firme, embora um pouco mais suave do que o normal. — Estou a par dos relatórios. Podemos prosseguir com os dados de produção de energia.

A reunião durou quarenta minutos. Para o mundo corporativo, Lena Luthor estava sendo eficiente e concisa. Para Kara, que estava observando os pés de Lena balançarem levemente sob a mesa — um sinal de que ela ainda estava lutando para manter a fachada —, cada segundo era uma prova de coragem.

Em certo momento, o Sr. Miller disse algo ríspido sobre um atraso em um laboratório, e Kara sentiu a perna de Lena tremer. Imediatamente, Kara começou a traçar círculos calmantes na pele de Lena, subindo um pouco para massagear o joelho dela por baixo do pijama. Lena fechou os olhos por um breve segundo, inspirando o perfume de Kara que subia do chão, e retomou o controle.

— Os atrasos são aceitáveis, Sr. Miller, desde que a segurança não seja comprometida. Não sacrificamos vidas por prazos. Próximo assunto.

Quando a tela finalmente ficou preta, Lena desabou na cadeira. Ela não esperou nem dois segundos para deslizar para fora do assento e cair diretamente nos braços de Kara, que já estava saindo de baixo da mesa.

— Eu fiz? Eu fui a Lena Grande? — perguntou ela, a voz voltando ao tom infantil e agudo.

— Você foi incrível, meu amor! A rainha mais corajosa de todas — Kara a encheu de beijos, fazendo Lena gargalhar. — E agora, como recompensa, o que a minha baby quer fazer?

— Parque! — exclamou Lena, os olhos brilhando. — Mas não o parque com muitas pessoas. O parque que tem as flores amarelas e o balanço que a Mommy empurra bem alto.

Kara hesitou por um momento. Ir ao parque significava expor Lena ao mundo, e mesmo que elas fossem para um local isolado, sempre havia o risco. Mas, olhando para a esperança no rosto de Lena, ela não conseguiu dizer não.

— Tudo bem. Mas vamos usar o "disfarce de passeio", certo?

O disfarce consistia em um chapéu de abas largas para Lena e óculos escuros grandes. Kara a levou voando, mantendo-se baixa entre os prédios para evitar radares, até um pequeno parque nos arredores da cidade que raramente era frequentado durante a semana.

Lena correu para a grama assim que seus pés tocaram o chão. Ela girou, rindo para o céu, sentindo a liberdade que só o estado de baby lhe proporcionava. Ali, ela não era uma Luthor amaldiçoada; ela era apenas uma menina descobrindo o mundo.

— Mommy, olha! Uma borboleta! — Lena começou a perseguir um pequeno inseto azul, pulando de forma desajeitada e adorável.

Kara a seguia de perto, o olhar atento a qualquer sinal de perigo ou de alguém se aproximando. Ela se sentou em um banco de madeira enquanto observava Lena colher um punhado de dentes-de-leão.

— Para você, Mommy — disse Lena, aproximando-se e entregando as flores com uma reverência exagerada. — Elas são amarelas como o seu cabelo.

— São as flores mais lindas que eu já ganhei — Kara as colocou atrás da orelha, fazendo Lena bater palmas.

Elas passaram o resto da tarde no balanço. Kara a empurrava com suavidade, e a cada subida, Lena soltava um grito de alegria.

— Mais alto, Mommy! Eu quero tocar as nuvens!

— As nuvens estão um pouco longe hoje, pequena, mas podemos chegar perto.

No entanto, a bolha de felicidade foi levemente pressionada quando um cachorro de grande porte, que estava solto em outra parte do parque, começou a latir alto e correu na direção delas. O som era agressivo e repentino.

Lena parou de rir instantaneamente. Ela pulou do balanço e correu para trás de Kara, agarrando-se às suas pernas, tremendo visivelmente.

— Cachorro malvado! Mommy, ele vai morder a Lee!

Kara se colocou à frente de Lena, sua postura mudando instantaneamente para a de uma protetora. Ela não precisou usar seus poderes; apenas sua presença autoritária e um comando firme foram suficientes para fazer o cachorro parar e recuar, confuso.

— Ei, está tudo bem. Ele já foi — disse Kara, virando-se para pegar Lena no colo.

Lena estava chorando, o rosto escondido no pescoço de Kara. O susto a fizera regredir ainda mais, e ela agora soluçava de forma inconsolável.

— O barulho foi feio... a Lee ficou com medo...

— Shh, eu sei, meu amor. Eu sei. A Mommy está aqui. Eu nunca deixaria nada te morder. Vamos para casa? Vamos pegar o Sr. Puffy e tomar um chocolate quente?

Lena assentiu, seus soluços diminuindo para fungadas pesadas.

De volta à segurança da cobertura, o clima era de recolhimento. Kara preparou o chocolate quente em canecas de plástico com canudos coloridos. Elas se sentaram no sofá, cobertas pela manta de lã, enquanto o sol começava a se pôr, pintando a sala de laranja e roxo — a mesma cor da tinta que iniciara o dia.

— Mommy? — murmurou Lena, segurando a caneca com as duas mãos.

— Sim, pequena?

— Desculpa por chorar no parque. A Lena Grande não chora por causa de cachorros.

Kara suspirou, puxando Lena para mais perto.

— A Lena Grande perde muita coisa por não chorar, Lee. Chorar não é ser fraca. Chorar é apenas dizer que algo te assustou. E sabe de uma coisa? Até a Supergirl às vezes fica assustada.

Lena olhou para ela com incredulidade.

— Você? Mas você voa e quebra paredes!

— Sim, mas eu fico assustada quando penso que algo pode acontecer com você. Você é o meu maior tesouro, Lena. E cuidar de você, seja limpando tinta do tapete ou espantando cachorros, é o trabalho mais importante que eu já tive.

Lena encostou a cabeça no ombro de Kara, fechando os olhos.

— Eu gosto de ser o seu tesouro.

— E você sempre será.

O silêncio que se seguiu foi preenchido pelo som da TV ligada em um volume baixo, passando um documentário sobre o oceano. Lena estava quase dormindo quando Kara sentiu o celular vibrar no bolso. Era uma mensagem de Alex.

"Tudo calmo na L-Corp? Jess disse que a reunião foi um sucesso. Como ela está?"

Kara sorriu e respondeu rapidamente: "Ela é a pessoa mais forte que eu conheço. Estamos bem. Noite de descanso para a baby."

Kara guardou o telefone e olhou para Lena. A morena havia deixado a caneca de lado e agora dormia profundamente, com o polegar encostado levemente nos lábios, um hábito que ela só tinha quando estava completamente em paz.

Kara a pegou nos braços e a levou para o quarto. Ao deitá-la, ela percebeu que ainda havia um pequeno vestígio de tinta roxa sob a unha de Lena. Ela pegou um lenço umedecido e limpou com cuidado, sorrindo para a pequena marca de humanidade.

Naquela noite, Kara não voou por National City. Ela não patrulhou as ruas em busca de crimes. Ela ficou deitada ao lado de Lena, ouvindo o som de sua respiração. Ela sabia que o mundo lá fora sempre tentaria endurecer Lena, sempre tentaria lembrá-la de seu sobrenome e de suas responsabilidades.

Mas ali, sob a luz suave do abajur, Lena Luthor era apenas a baby de Kara. E Kara Danvers era apenas a Mommy de Lena. E para as duas, isso era mais do que suficiente para enfrentar qualquer segunda-feira, qualquer mancha de tinta ou qualquer latido no parque. Elas eram o porto seguro uma da outra, um reino de lençóis e carinho onde o amor era a única coisa que realmente importava.