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A pequena

O Jardim Secreto e a Melodia do Coração

A manhã de quarta-feira em National City parecia ter sido pintada com tons de aquarela. O céu estava de um azul tão pálido que quase se fundia com o branco das nuvens preguiçosas que flutuavam sobre a baía. Dentro da cobertura, o ar estava impregnado com o cheiro de lavanda e o aroma reconfortante de torradas com canela. Kara estava sentada no tapete da sala, cercada por uma frota de aviões de papel que ela mesma dobrara, enquanto observava Lena tentar, com uma concentração adorável, fazer o seu próprio avião voar.

Lena estava em uma regressão profunda naquela manhã. Ela vestia um macacão de algodão azul-celeste com um pequeno bordado de coelho no peito, e seus cabelos escuros estavam presos em duas chiquinhas desgrenhadas que balançavam a cada movimento brusco. O Sr. Puffy estava devidamente sentado em uma "torre de controle" feita de livros de física quântica, observando as operações aéreas com seu olhar de vidro imperturbável.

— Mommy, o meu avião está com sono — murmurou Lena, fazendo um biquinho enquanto o papel caía sem cerimônia a poucos centímetros de seus pés. — Ele não quer ir para o céu. Acho que ele quer um beijinho de motor.

Kara soltou uma risadinha e se aproximou, ajoelhando-se ao lado de sua baby. Ela pegou o pequeno avião de papel e depositou um beijo sonoro na ponta dele, antes de entregá-lo de volta.

— Aqui está, pequena. Beijinho de motor super-carregado. Tente agora, mas lembre-se de lançar com o coração, não só com a mão.

Lena respirou fundo, fechou os olhos por um segundo e lançou o papel. Com um sopro quase imperceptível da super-respiração de Kara, o avião planou graciosamente pela sala, fazendo uma curva perfeita antes de pousar suavemente sobre o sofá.

— Eu consegui! — exclamou Lena, batendo palmas e pulando no lugar. — Mommy, você viu? Ele voou como você!

— Ele voou lindo, Lee! — Kara a puxou para um abraço rápido, sentindo o calor e a pureza que emanavam de Lena naquele estado. — Você é uma piloto excelente.

O momento de alegria, porém, foi levemente sombreado quando o estômago de Lena soltou um ronco audível. Ela parou de pular e olhou para a própria barriga com uma expressão de traição.

— O monstrinho da barriga está com fome de novo — disse ela, cruzando os braços. — Ele é muito ganancioso, Mommy. Ele quer coisas verdes.

— Coisas verdes? — Kara arqueou uma sobrancelha, surpresa. Geralmente, a "Lena baby" fugia de qualquer coisa que lembrasse vegetais. — Você quer dizer brócolis?

— Não — Lena fez uma careta. — Coisas verdes de jardim. Aquelas que a gente planta na terra e elas crescem até o sol. Podemos ir no jardim, Mommy? O jardim secreto que tem as flores que cantam?

Kara sorriu, entendendo imediatamente. Lena estava se referindo à estufa particular no terraço da cobertura, um lugar que Kara havia ajudado a transformar em um santuário botânico, longe da poluição e do barulho da cidade.

— Claro que podemos, meu anjo. Mas primeiro, precisamos colocar seus sapatos de exploradora. Não queremos que as fadinhas do jardim vejam seus pés descalços, não é?

— As fadinhas são tímidas — concordou Lena, sentando-se no chão e esticando os pés para que Kara colocasse suas meias antiderrapantes e seus sapatinhos de pano.

Enquanto subiam para o terraço, Kara carregava Lena no colo, sentindo a confiança absoluta que a morena depositava nela. Ao abrirem as portas de vidro da estufa, o ar ficou subitamente mais úmido e perfumado. Era um verdadeiro labirinto de samambaias, orquídeas raras e pequenas árvores frutíferas que Lena cultivava como um hobby terapêutico.

Lena correu para um pequeno canteiro de morangos silvestres, agachando-se para procurar os frutos mais vermelhos.

— Olha, Mommy! Este aqui parece um coração — disse ela, colhendo um morango minúsculo e oferecendo-o a Kara. — É para você, porque você cuida de mim.

— Obrigada, pequena — Kara aceitou o presente, sentindo o peito transbordar de ternura. — É o morango mais doce do mundo.

Elas passaram a hora seguinte cuidando das plantas. Kara usava sua super-força para mover vasos pesados, enquanto Lena, com um regador de plástico em formato de elefante, batizava cada flor com nomes fantasiosos. Havia a "Dona Margarida", o "Sr. Espinhoso" e a "Rosa Bailarina". Para Lena, aquele não era apenas um jardim; era um mundo onde ela não precisava ser a última herdeira de uma linhagem manchada de sangue. Ali, ela era apenas a jardineira de Kara.

No entanto, a tranquilidade foi interrompida pelo som vibrante de um telefone. Não era o celular de Kara, nem o tablet de Lena, mas o interfone de segurança da estufa. Kara suspirou, sentindo a irritação crescer. Ela sabia que apenas uma pessoa tinha o código para interromper aquele santuário.

— Kara? Você está aí? — A voz de Alex Danvers saiu metálica pelo alto-falante. — Eu sei que é o seu dia de folga com a Lena, mas temos um problema no DEO que precisa da sua visão de raio-x. É urgente.

Lena, que estava rindo enquanto tentava conversar com uma borboleta, parou instantaneamente. Seus ombros subiram até as orelhas e ela largou o regador, que caiu na terra com um som surdo.

— A Alex quer levar a Mommy — sussurrou Lena, os olhos começando a marejar. — Ela sempre quer levar a Mommy para o lugar dos soldados.

Kara caminhou rapidamente até Lena, ajoelhando-se e pegando suas mãos sujas de terra.

— Ei, olha para mim, Lee. A Alex só está chamando. Isso não significa que eu vou embora agora.

— Mas ela é a chefe — soluçou Lena, uma lágrima solitária escorrendo por sua bochecha. — Se a chefe manda, a Supergirl tem que voar. E a Lee fica aqui sozinha com as flores. As flores não sabem contar histórias, Mommy.

Kara sentiu uma pontada de culpa. O equilíbrio entre ser a salvadora do mundo e o porto seguro de Lena era uma corda bamba constante. Ela olhou para o interfone e depois para a mulher vulnerável à sua frente.

— Alex! — Kara falou em direção ao microfone, sua voz firme. — Eu não posso ir agora. A menos que o mundo esteja literalmente acabando em vinte minutos, você vai ter que resolver isso com o Brainy. Eu tenho uma prioridade maior aqui.

Houve um silêncio do outro lado. Kara quase podia ver Alex revirando os olhos no centro de comando, mas também sabia que sua irmã entendia a importância daquele tempo para a estabilidade mental de Lena.

— Tudo bem, Kara — respondeu Alex, o tom agora mais suave. — O Brainy diz que pode conter a situação por mais algumas horas. Mas me ligue assim que puder. E... dê um abraço na Lena por mim.

Kara desligou o interfone e voltou sua atenção total para Lena, que ainda parecia assustada, como se esperasse que Kara desaparecesse em um borrão de velocidade a qualquer momento.

— Viu só? A Mommy não vai a lugar nenhum. Eu escolhi ficar aqui com a minha baby.

Lena fungou, limpando o nariz na manga do macacão.

— Você preferiu a Lee? Mesmo que o lugar dos soldados precise de você?

— Eu sempre prefiro você, pequena. O mundo tem muitos heróis, mas eu só tenho uma Lena. E essa Lena precisa de mim agora para terminar de regar as orquídeas.

Lena abriu um sorriso trêmulo e se jogou nos braços de Kara, apertando-a com uma força surpreendente.

— A Lee ama a Mommy mais que todos os morangos.

— E a Mommy ama a Lee mais que todos os planetas do sistema solar.

Depois de terminarem as tarefas no jardim, o cansaço começou a pesar sobre Lena. O sol morno da estufa e a descarga emocional do susto com Alex a deixaram letárgica. Kara a levou de volta para dentro, mas em vez de irem para o quarto, elas se acomodaram em uma grande poltrona de balanço que ficava perto da lareira apagada.

— Mommy, canta a música das estrelas? — pediu Lena, já fechando os olhos enquanto se aninhava no pescoço de Kara. — Aquela que faz o medo ir embora para debaixo da cama?

Kara começou a cantarolar uma melodia suave, uma canção de ninar que sua mãe, Alura, costumava cantar em Argo City. Não havia palavras em inglês que pudessem traduzir a doçura daquela língua antiga, mas a vibração da voz de Kara era o suficiente para acalmar qualquer tempestade na alma de Lena.

Enquanto cantava, Kara observava os detalhes do rosto de Lena. Ela notou como os cílios de Lena eram longos e como ela tinha uma pequena sarda perto da orelha que quase ninguém via. Era nesses momentos de regressão que Kara sentia que conhecia a verdadeira Lena — não a gênia que construía portais interdimensionais, mas a alma gentil que só queria ser aceita e protegida.

— Mommy... — murmurou Lena, quase em um sonho. — Você promete que nunca vai me deixar ser uma Luthor sozinha de novo?

A pergunta partiu o coração de Kara. O trauma de anos de isolamento e abuso emocional por parte de Lillian e Lionel ainda ecoava, mesmo nos momentos mais felizes.

— Eu prometo, meu amor. Você nunca mais estará sozinha. Nós somos uma família agora. Eu, você, o Sr. Puffy e até a Alex, mesmo que ela seja um pouco mandona às vezes.

Lena soltou um risinho sonolento.

— A Alex é a tia brava. Mas ela traz donuts. Eu perdoo ela.

— É um bom acordo — concordou Kara, beijando o topo da cabeça de Lena.

O silêncio caiu sobre a cobertura, interrompido apenas pelo estalar ocasional da estrutura do prédio e pelo som rítmico da respiração de Lena. Ela havia adormecido profundamente, seu corpo relaxado e entregue ao cuidado de Kara.

Kara permaneceu ali, balançando suavemente, por o que pareceram horas. Ela sabia que, em algum momento, Lena voltaria ao seu estado adulto. Ela voltaria a usar ternos caros, a tomar decisões que afetariam milhares de pessoas e a erguer as barreiras que o mundo a obrigara a construir. Mas Kara também sabia que, toda vez que o peso daquela armadura se tornasse insuportável, ela estaria ali para ajudar Lena a tirá-la.

Ela olhou para o desenho que Lena fizera mais cedo, o avião de papel que ainda descansava no sofá. Ele representava algo muito maior do que um simples brinquedo; era a prova de que, com o apoio certo, até a alma mais sobrecarregada poderia aprender a voar de novo.

— Durma bem, minha pequena jardineira — sussurrou Kara, enquanto a luz do entardecer começava a tingir a sala de laranja e violeta. — O jardim está seguro, e o seu coração também.

Naquela noite, não houve chamados de emergência que pudessem tirar Kara de perto de Lena. O DEO sobreviveu, a cidade continuou em paz, e no topo daquele arranha-céu de vidro e aço, o amor provou ser a força mais poderosa da natureza. Lena Luthor sonhou com fadinhas que colhiam morangos em formato de coração, e em cada um desses sonhos, Kara estava lá, segurando sua mão e garantindo que o amanhã seria sempre um lugar seguro para ser pequena.