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A pequena

O Baile das Sombras e o Refúgio nos Braços de Mommy

A noite em National City havia caído com uma elegância fria, típica das metrópoles de vidro e aço. No ático da L-Corp, as luzes da cidade cintilavam através das janelas panorâmicas como diamantes esquecidos, mas para Lena Luthor, aquele brilho parecia distante e hostil. Ela estava sentada no meio do tapete felpudo da sala de estar, cercada por blocos de montar coloridos e giz de cera, mas suas mãos pequenas — pequenas em espírito e gesto — tremiam levemente.

Lena estava em uma regressão profunda, um estado onde o peso do sobrenome Luthor e as pressões da diretoria da empresa desapareciam, dando lugar à "Little Lee", a criança vulnerável que nunca teve permissão para existir no passado. Naquela noite, porém, as sombras nos cantos da sala pareciam mais longas, e o silêncio do apartamento era interrompido pelo vento que uivava entre os arranha-céus.

— Mommy? — a voz de Lena saiu pequena, quase um sussurro, enquanto ela apertava o Sr. Puffy contra o peito.

Kara Danvers, que estava na cozinha preparando uma mamadeira de leite morno com um toque de mel, apareceu instantaneamente no portal da sala. Ela não precisava de superaudição para detectar o tom de angústia na voz de sua baby; seu coração estava sintonizado na frequência exata das necessidades de Lena.

— Estou aqui, meu anjo — disse Kara, aproximando-se com passos suaves e um sorriso que era o sol particular de Lena. — O que foi? O Sr. Puffy contou algum segredo assustador?

Lena negou com a cabeça, os olhos verdes marejados escondendo-se atrás das orelhas gastas do urso de pelúcia.

— As sombras... elas estão dançando, Mommy. Elas fazem formas feias na parede.

Kara sentou-se no tapete ao lado dela, ignorando a elegância de seu próprio traje casual e focando apenas na figura trêmula à sua frente. Ela envolveu Lena em um abraço lateral, trazendo-a para o calor de seu corpo.

— Oh, pequena, são apenas as luzes dos carros lá embaixo que fazem as sombras se mexerem. — Kara apontou para a janela. — Viu? Elas não são monstros. São apenas reflexos tentando encontrar o caminho de casa.

Lena fungou, apoiando a cabeça no ombro de Kara. A proximidade com a super-heroína sempre trazia uma sensação de invulnerabilidade. Para o mundo, Kara era a Supergirl, a mulher de aço; para Lena, ela era simplesmente "Mommy", a pessoa que transformava o medo em segurança com um simples toque.

— Você promete que elas não vão me pegar quando a luz apagar? — perguntou Lena, olhando para cima com uma inocência que partia o coração de Kara.

— Eu prometo com todo o meu coração — afirmou Kara, beijando o topo da cabeça de Lena. — E sabe de uma coisa? Se alguma sombra tentar ser atrevida, eu vou usar meu sopro gelado para transformá-la em um picolé.

Lena soltou uma risadinha abafada, o primeiro sinal de que o medo estava perdendo terreno.

— Sombras não viram picolé, Mommy! Você é bobinha.

— Talvez eu seja um pouco — brincou Kara, fazendo cócegas de leve na barriga de Lena, o que resultou em uma gargalhada cristalina. — Mas sou uma Mommy que sabe que está na hora do leitinho e de ir para o ninho.

Kara pegou Lena no colo, levantando-a com uma facilidade sobre-humana que Lena já aceitava como parte do pacote de cuidados. Elas foram para o quarto, um santuário decorado com luzes de LED suaves em formato de estrelas e uma cama repleta de travesseiros macios. Lena foi depositada com cuidado entre os lençóis de seda, mas suas mãos não soltaram a gola da camisa de Kara.

— Mommy, fica? — pediu ela, os olhos começando a pesar. — Conta a história da menina que morava em uma estrela?

Kara acomodou-se ao lado dela, puxando o edredom para cobrir os ombros de Lena. Ela começou a narrar, com uma voz melódica e baixa, a história de uma pequena princesa de um planeta distante que encontrou uma amiga na Terra, alguém que prometeu protegê-la de todas as tempestades. Era a história delas, camuflada em metáforas infantis.

Enquanto Kara falava, Lena bebia seu leite devagar, seus olhos fixos nos de Kara. Naquele momento, não havia Lex, não havia Lillian, não havia a traição de segredos ou a dor do passado. Havia apenas o agora.

— Mommy? — interrompeu Lena, a voz arrastada pelo sono. — Por que você me ama tanto? Mesmo quando eu sou difícil e choro por causa das sombras?

Kara sentiu uma pontada de tristeza ao perceber que, mesmo em regressão, as cicatrizes da desvalorização de Lena ainda tentavam emergir. Ela acariciou o rosto de Lena, limpando uma gota de leite do canto de sua boca.

— Eu não te amo "apesar" de você ser difícil, Lee. Eu te amo por tudo o que você é. E cuidar de você, ver você se sentir segura o suficiente para ser essa menininha doce... é o maior presente que você me dá. Você é o meu porto seguro tanto quanto eu sou o seu.

Lena sorriu, um sorriso genuíno e calmo, antes de fechar os olhos. A mamadeira foi deixada de lado, e ela se aninhou no peito de Kara, ouvindo o batimento rítmico e poderoso do coração da kryptoniana. Era o som mais seguro do universo.

No entanto, o silêncio da noite foi subitamente quebrado pelo toque estridente do celular de Kara, que havia ficado sobre a cômoda. Lena deu um sobressalto, os olhos abrindo-se em pânico instantâneo.

— Não! — exclamou a morena, agarrando-se a Kara. — É o telefone do trabalho! Eles vão te levar! A tia Alex vai te chamar para voar!

Kara amaldiçoou mentalmente o momento da ligação. Ela usou sua supervelocidade para pegar o aparelho e silenciá-lo antes do segundo toque. Era, de fato, o DEO. Ela viu a mensagem de Alex na tela: "Problemas no porto. Precisamos de reforço aéreo agora."

Kara olhou para a tela e depois para a mulher trêmula em seus braços. Lena estava começando a hiperventilar, uma reação comum quando sentia que seria abandonada.

— Shh, pequena, respire comigo — pediu Kara, segurando o rosto de Lena entre as mãos. — Olhe para mim. Eu não vou a lugar nenhum.

— Mas eles precisam da Supergirl — soluçou Lena, as lágrimas escorrendo livremente agora. — Você sempre vai quando o céu chama. A Lee fica sozinha... a Lee é sempre deixada para trás.

— Não hoje — disse Kara com uma determinação inabalável. — Hoje a Supergirl está de folga. Hoje eu sou apenas a sua Mommy.

Kara digitou uma resposta rápida para Alex: "Indisponível. Chame o J'onn ou o Brainy. Emergência pessoal." Ela sabia que Alex entenderia, ou pelo menos aceitaria, que o bem-estar de Lena era, naquele momento, uma crise tão importante quanto qualquer ataque alienígena.

— Viu? — Kara mostrou o celular desligado para Lena. — Eu desliguei o mundo lá fora. Ele pode esperar até amanhã. Nada é mais importante do que você.

Lena parou de chorar aos poucos, processando o fato de que, pela primeira vez na vida, alguém a escolhera acima de tudo o mais. Ela limpou os olhos nas costas das mãos e abraçou Kara com força.

— De verdade? Você escolheu a Lee?

— De verdade verdadeira — garantiu Kara. — Agora, que tal se fizermos um trato? Eu fico aqui abraçada com você, e nós vamos imaginar que estamos em uma bolha mágica onde as sombras não entram e o telefone não toca.

— Uma bolha de Marshmallow? — sugeriu Lena, recuperando um pouco de sua ludicidade.

— A maior bolha de Marshmallow do mundo — concordou Kara, rindo.

Elas se acomodaram novamente. O quarto estava mergulhado em uma penumbra azulada, mas o medo havia se dissipado, substituído por uma atmosfera de aceitação e carinho incondicional. Lena começou a brincar com os dedos de Kara, traçando as linhas na palma da mão da loira.

— Mommy, você tem mãos de herói — murmurou ela. — Mas elas são tão macias quando fazem carinho em mim.

— Elas foram feitas para proteger o que é precioso, Lee. E você é a coisa mais preciosa que eu já encontrei neste planeta.

O tempo pareceu parar. Para Kara, aqueles momentos de cuidado eram uma forma de meditação. Ver Lena baixar a guarda, permitir-se ser pequena e amada, era uma cura para ambas. Kara sabia que amanhã Lena acordaria como a CEO poderosa, a mulher que enfrentava o mundo com um olhar de aço e uma mente brilhante. Mas o vínculo que criavam naquelas noites de regressão era o alicerce que permitia a Lena ser tão forte durante o dia.

— Mommy... canta aquela música? — pediu Lena, sua voz quase sumindo enquanto o sono finalmente a vencia. — A música da sua mãe... aquela que parece um abraço.

Kara começou a cantarolar uma melodia kryptoniana antiga, uma canção de ninar de Argo City que falava sobre o sol vermelho se pondo atrás das montanhas de cristal. Não precisava de tradução; a emoção na voz de Kara e a vibração em seu peito eram suficientes.

Lentamente, a respiração de Lena tornou-se profunda e rítmica. Sua mão, que antes agarrava a camisa de Kara com força, relaxou sobre o edredom. Ela estava finalmente em paz, protegida pela mulher que pararia o tempo se fosse necessário para garantir seu sorriso.

Kara permaneceu acordada por mais algum tempo, apenas observando Lena dormir. Ela pensou em como a vida era irônica: a herdeira dos Luthor e a última filha de Krypton, encontrando refúgio uma na outra de uma forma que ninguém mais entenderia. O mundo via poder e rivalidade; elas viviam carinho e vulnerabilidade.

— Eu sempre vou te escolher, Lena — sussurrou Kara, depositando um beijo final na testa da morena. — Não importa quantas sombras dancem na parede, eu sempre serei a sua luz.

Lá fora, a cidade continuava seu caos habitual. Sirenes soavam ao longe, e o porto de National City provavelmente estava em polvorosa. Mas dentro daquela suíte, em cima do mundo, o silêncio era sagrado. Kara fechou os olhos, permitindo-se também descansar na segurança daquele vínculo.

Naquela noite, as sombras não dançaram. Elas recuaram diante do calor de um amor que não pedia nada em troca, exceto o direito de cuidar. E nos sonhos de Lena, ela não era mais a menina solitária em uma mansão fria; ela era a baby amada em uma bolha de marshmallow, voando alto acima das nuvens, sempre segura nos braços de sua Mommy.

Quando o sol começou a dar os primeiros sinais de vida no horizonte, pintando o céu de tons rosados e laranjas, Kara despertou suavemente. Lena ainda dormia, um pequeno rastro de baba no canto da boca e o Sr. Puffy firmemente preso sob o braço. Kara sorriu, sentindo uma onda de gratidão. Ela sabia que os desafios de ser Supergirl e os dramas da L-Corp voltariam com força total em poucas horas, mas por enquanto, o mundo ainda era pequeno, doce e seguro.

Ela se levantou com cuidado, usando sua agilidade para não balançar o colchão. Ela foi até a cozinha e começou a preparar o café da manhã — panquecas em formato de coração e suco de laranja — sabendo que, quando Lena acordasse, ela poderia precisar de mais alguns minutos de "Little Lee" antes de enfrentar o mundo novamente.

Afinal, ser o porto seguro de alguém era a missão mais importante que Kara Danvers já aceitara. E ela pretendia cumpri-la por toda a eternidade.