A prima Malfoy
O Enigma do Príncipe e a Redenção das Sombras
O verão após a batalha no Departamento de Mistérios foi o mais frio de que Charlotte se lembrava, apesar do sol escaldante que castigava o Chalé das Gardênias. A prisão de Lucius Malfoy e o reconhecimento oficial do retorno de Voldemort mudaram tudo. A casa de Charles Malfoy, antes um refúgio discreto, tornara-se agora um centro de inteligência silencioso. Charles usava suas conexões no mundo trouxa para monitorar desaparecimentos que o Ministério da Magia ignorava, enquanto Sarah mantinha contato com Molly Weasley através de cartas encantadas.
Charlotte passava os dias treinando feitiços não-verbais no jardim, mas sua mente estava em outro lugar: na Mansão Malfoy. Ela sabia que, com Lucius em Azkaban, o Lorde das Trevas não deixaria a falha do patriarca sem punição. E o alvo óbvio dessa punição era Draco.
No final de agosto, uma batida frenética na porta de carvalho do chalé interrompeu o jantar. Charles levantou-se, a mão instintivamente buscando a pistola trouxa que mantinha escondida sob a mesa — uma precaução que ele considerava mais rápida do que qualquer varinha contra um intruso inesperado. Charlotte, porém, sentiu a magia antes mesmo de abrir a porta. Era uma magia familiar, mas fragmentada e carregada de pânico.
Ao abrir a porta, Charlotte deparou-se com Narcisa Malfoy. A tia, sempre a imagem da elegância imperturbável, estava com as vestes sujas de cinzas e os olhos vermelhos. Atrás dela, Draco parecia um fantasma, a pele tão pálida que era quase translúcida, os olhos fixos no chão.
— Charles, por favor — sussurrou Narcisa, a voz falhando. — Eu não tenho mais a quem recorrer. Bellatrix está na Mansão... *Ele* deu uma tarefa a Draco. Uma tarefa que é uma sentença de morte.
Charles guardou a arma e abriu passagem, o rosto endurecendo em uma expressão de solene recepção.
— Entrem — disse ele com firmeza. — Sarah, prepare o chá. Charlotte, verifique as proteções de Lucius no perímetro.
— Ele me marcou, Charlotte — Draco sussurrou horas depois, quando estavam sozinhos no alpendre, enquanto os adultos conversavam em tons baixos na sala. Ele puxou a manga da túnica esquerda, revelando a Marca Negra, vívida e retorcida contra sua pele jovem. — O meu pai falhou, e agora eu sou o sacrifício. Se eu não fizer o que ele quer... ele vai matar a minha mãe. Ele vai matar todos nós.
Charlotte sentiu uma náusea profunda. Ela segurou o pulso de Draco, ignorando o tremor dele.
— O que ele pediu, Draco?
— Eu não posso dizer — ele desviou o olhar, as lágrimas finalmente transbordando. — É impossível. Dumbledore... o castelo... eu não sou um assassino, Charlotte. Eu não sou como o papai.
— Você nunca foi — afirmou ela, apertando a mão dele. — Escute-me. Este chalé está protegido pelo sangue dos Malfoy. Nem mesmo o Lorde das Trevas pode entrar aqui sem o convite do meu pai. Você e a tia Narcisa podem ficar.
— Não podemos — interrompeu Narcisa, surgindo na porta com os olhos secos, mas cheios de uma determinação feroz. — Se fugirmos agora, ele nos caçará até o fim do mundo. Draco deve voltar para Hogwarts. Ele deve fingir que está cumprindo a tarefa. Mas Charles... Charles prometeu que usará seus recursos para criar uma rota de fuga para nós quando o momento chegar.
O sexto ano em Hogwarts começou sob uma nuvem de desconfiança. Harry Potter estava convencido de que Draco era um Comensal da Morte, e Charlotte via-se em uma posição impossível: protegendo um primo que estava, de fato, tentando cometer um crime terrível, mas apenas para salvar a própria família.
O castelo estava diferente. Os aurores nos portões e a presença constante de Snape, agora professor de Defesa Contra as Artes das Trevas, criavam um ambiente de paranoia. Charlotte, como lufana, tentava manter a normalidade, mas seus olhos estavam sempre em Draco. Ela o via perder peso, via as olheiras escurecerem e o via desaparecer frequentemente no sétimo andar.
— Você está escondendo algo, Charlotte — disse Harry em uma noite na Sala Comunal da Grifinória, para onde ela ia ocasionalmente para estudar com Hermione. — Você é uma Malfoy, você sabe o que ele está tramando. Ele atacou a Katie Bell. Ele quase matou o Rony com aquele hidromel envenenado.
— Harry, eu juro que não sei o plano dele — Charlotte respondeu, sentindo o peso da mentira parcial. — Mas eu sei que ele está agindo por desespero. Se você o encurralar, ele vai explodir. Por favor, deixe que eu tente chegar até ele.
— Ele é um Comensal da Morte, Charlotte! — Harry exclamou, frustrado. — Não há mais "chegar até ele".
— Há sempre uma escolha — rebateu ela, levantando-se. — Meu pai provou isso. Eu provei isso. Draco só precisa de uma saída que não termine em um necrotério.
A tensão atingiu o ápice na primavera. Charlotte seguiu Draco até o banheiro dos rapazes no sexto andar após vê-lo sair apressado do Salão Principal. Ela ouviu os soluços dele antes mesmo de entrar. Draco estava debruçado sobre uma pia, falando com a Murta Que Geme.
— Eu não consigo... não funciona... ele vai me matar...
— Draco — chamou Charlotte suavemente.
Ele girou, a varinha em punho, o rosto manchado de lágrimas.
— Vá embora, Charlotte! Você não entende! Você tem o seu pai perfeito e a sua casa segura! Eu não tenho nada!
— Você tem a mim — disse ela, dando um passo à frente, ignorando a varinha apontada para seu peito. — Meu pai já preparou tudo. Um navio trouxa em Dover, identidades novas, proteção da Ordem. Você só precisa parar, Draco. Agora.
Antes que ele pudesse responder, a porta do banheiro se escancarou. Harry estava lá, o rosto transfigurado pela raiva. O duelo que se seguiu foi rápido e brutal. Charlotte tentou intervir, mas um feitiço ricocheteou, jogando-a contra a parede. Ela viu, como em câmera lenta, Harry gritar o feitiço que encontrara no livro do Príncipe Mestiço.
— *Sectumsempra!*
O sangue jorrou do peito e do rosto de Draco como se ele tivesse sido atingido por espadas invisíveis. Charlotte gritou, rastejando até o primo enquanto Harry assistia, horrorizado com o que fizera. Snape apareceu instantes depois, curando as feridas de Draco com um canto melódico e sombrio, mas o estrago estava feito. A inocência de Draco, se é que restava alguma, fora drenada naquele chão de mármore.
Nas semanas seguintes, o castelo parecia prender a respiração. Charlotte não saía do lado de Draco na ala hospitalar, apesar dos olhares de reprovação de muitos.
— Por que você ainda está aqui? — perguntou Draco em uma tarde chuvosa, a voz fraca.
— Porque eu sou uma Malfoy da Lufa-Lufa — respondeu ela, descascando uma laranja para ele. — Nós não abandonamos os nossos quando as coisas ficam feias. Somos leais até o fim, lembra?
— Eu vou terminar o que comecei hoje à noite — sussurrou ele, os olhos fixos no teto. — O Armário Sumidouro está consertado. Eles estão vindo.
Charlotte sentiu o sangue congelar.
— Draco, não faça isso.
— Eu tenho que fazer. Se eu não abrir a porta, Bellatrix matará minha mãe antes do amanhecer.
Naquela noite, a Torre de Astronomia tornou-se o palco do ato final. Charlotte correu para a torre, mas foi impedida por um feitiço de barreira colocado pelos Comensais da Morte que já haviam infiltrado o castelo. Ela viu, através das frestas, a cena que mudaria o curso da história: Dumbledore, enfraquecido e desarmado, e Draco, com a varinha trêmula, incapaz de proferir a maldição fatal.
— Draco — a voz de Dumbledore era um sussurro benevolente —, você não é um assassino. Venha para o lado certo. Podemos esconder você e sua mãe. Charles já me falou sobre o chalé.
— O senhor não entende! — gritou Draco, soluçando. — Eu tenho que fazer isso!
Mas ele não fez. Snape surgiu das sombras e cumpriu a tarefa, lançando o *Avada Kedavra* que derrubou o maior bruxo de todos os tempos da torre.
No caos que se seguiu, com os Comensais da Morte fugindo pelos terrenos, Charlotte encontrou Draco perto da orla da floresta. Ele estava sendo arrastado por Snape.
— Draco! — gritou ela.
Snape parou por um segundo, seus olhos negros encontrando os de Charlotte. Havia uma mensagem silenciosa ali, um reconhecimento do papel que ela desempenhava.
— Vá para casa, Srta. Malfoy — disse Snape, a voz desprovida de emoção. — Diga a seu pai que a dívida de sangue foi paga hoje.
Draco olhou para ela uma última vez, o rosto uma máscara de puro terror e pesar, antes de desaparecer na escuridão da noite.
O funeral de Dumbledore foi um evento de silêncio absoluto e tristeza insuportável. Charles e Sarah Malfoy estavam presentes, parados ao lado da família Weasley. Charles mantinha a mão no ombro de Charlotte, que não parava de chorar.
— O que acontece agora, papai? — perguntou ela, enquanto as chamas brancas consumiam o túmulo do diretor.
— Agora a guerra deixa de ser nas sombras, Charlotte — Charles respondeu, a voz grave. — O Ministério cairá em breve. A Mansão Malfoy será o quartel-general dele. E nós... nós seremos o único lugar no país onde o nome Malfoy ainda significará honra.
— Draco não o matou — sussurrou ela. — Ele não conseguiu.
— Eu sei. Snape me enviou um patrono antes de fugir. Draco escolheu a hesitação, e na guerra, a hesitação é a primeira forma de redenção.
O retorno para o Chalé das Gardênias naquele verão não foi um alívio, mas uma preparação para o cerco. Charles começou a transformar o porão da casa em um refúgio para nascidos-trouxas e membros da Ordem em fuga. Sarah usava suas habilidades de organização para estocar suprimentos médicos e comida.
Certa noite, enquanto Charlotte polia sua varinha na sala de estar, a lareira brilhou com chamas verdes. Narcisa Malfoy apareceu, mas desta vez ela não estava acompanhada de Draco. Ela entregou a Charles um pequeno frasco de cristal contendo uma memória e um pedaço de pergaminho.
— Ele está salvo, por enquanto — disse Narcisa, a voz desprovida de qualquer esperança. — Ele está na Mansão, vivendo um inferno diário. Mas ele me pediu para entregar isso a Charlotte.
Charlotte pegou o pergaminho. Nele, havia apenas uma frase escrita com a caligrafia elegante e trêmula de Draco: *"Obrigado por me lembrar que eu tinha uma escolha, mesmo quando eu não tive coragem de fazê-la. Proteja o chalé. É a única coisa limpa que resta no nosso nome."*
— Charles — disse Narcisa, olhando para o irmão que ela um dia desprezara como um aborto —, o Lorde das Trevas está procurando por você. Ele não entende como um Malfoy sem magia pode ser uma ameaça. Ele acha que você é uma curiosidade.
— Deixe que ele pense assim — Charles respondeu, endireitando a gravata. — A curiosidade dele será a sua queda. Eu tenho mais aliados no mundo trouxa do que ele jamais terá no mundo bruxo. Se ele tocar nesta casa, ele descobrirá que o aço e a pólvora não se importam com a pureza do sangue.
Narcisa assentiu e retornou às chamas, voltando para a sua prisão de ouro em Wiltshire.
Charlotte caminhou até a janela do chalé, observando as gardênias que brilhavam sob a luz da lua. Ela sabia que o próximo ano seria o mais sombrio de todos. Hogwarts estaria sob o controle dos Carrows, Harry estaria em fuga e Draco estaria no coração do mal.
Mas ela também sentia uma força nova crescendo dentro de si. Ela não era apenas uma Malfoy, ou uma lufana, ou a filha de um aborto. Ela era a guardiã de um legado que Lucius tentara destruir e que Charles salvara das cinzas.
— Papai — chamou ela, sem desviar os olhos da escuridão lá fora.
— Sim, Charlie?
— Eu vou voltar para Hogwarts em setembro. Neville e Gina vão precisar de ajuda para manter a resistência lá dentro. Se o Draco estiver lá... eu preciso ser a ponte dele de novo.
Charles caminhou até a filha e abraçou-a pelos ombros.
— Eu esperava que você dissesse isso. Uma Malfoy nunca foge de uma luta, especialmente quando a luta é pela alma da própria família.
— Nós vamos vencer, não vamos?
Charles olhou para o horizonte, onde as luzes de Londres piscavam, alheias à tempestade mágica que se aproximava.
— A justiça demora, Charlotte, e o preço é sempre alto. Mas enquanto houver um lugar como este chalé, onde a lealdade é mais forte que o medo, o mal nunca terá uma vitória completa.
Charlotte apertou o pergaminho de Draco contra o peito. O sexto ano terminara em sangue e cinzas, e o enigma do príncipe fora revelado em traição, mas no Chalé das Gardênias, a luz dos Malfoy de Londres permanecia acesa. A guerra estava à porta, mas Charlotte Malfoy estava pronta. Ela era o texugo com dentes de prata, a herdeira da integridade, e ela não permitiria que a sombra de Voldemort apagasse o brilho das estrelas que seu pai a ensinara a amar.