A prima Malfoy
O Crepúsculo da Ordem e o Refúgio de Prata
A mansão em Chelsea, antes o epicentro da vida cosmopolita de Charles Malfoy, parecia subitamente vulnerável. Com o retorno de Lorde Voldemort confirmado — ainda que negado veementemente pelo Ministério — e a morte de Cedrico Diggory pairando sobre o mundo bruxo, o ar em Londres tornara-se denso, carregado de uma estática que fazia as luzes da rua piscarem de forma irregular.
— Não é mais seguro aqui, Charlotte — disse Charles, fechando as cortinas pesadas de seu escritório enquanto observava um corvo negro pousado no poste de luz do outro lado da rua. — Os feitiços de proteção que coloquei são eficazes contra bruxos comuns, mas não contra o que está por vir.
— Para onde vamos, papai? — perguntou Charlotte, apertando o cabo de sua varinha dentro do bolso do casaco. — Não podemos simplesmente desaparecer. Eu tenho Hogwarts, você tem o escritório...
— Não vamos desaparecer — respondeu Charles, virando-se para ela com um olhar que misturava cansaço e determinação. — Vamos para a propriedade de Wiltshire. Não a Mansão de Lucius, mas o Chalé das Gardênias. Era o refúgio de minha mãe, Druella. Ela e Abraxas garantiram que a propriedade fosse passada para mim em um testamento de sangue, protegida por magias que nem mesmo o Ministério pode rastrear.
A mudança ocorreu na calada da noite. O Chalé das Gardênias não era um chalé no sentido comum; era uma construção de pedra antiga, oculta por um feitiço de desilusão permanente em um vale isolado, cercado por carvalhos centenários. Ao cruzarem o limiar, Charlotte sentiu uma onda de calor mágico envolvê-la. Era uma casa que pulsava com uma energia ancestral, muito diferente da frieza aristocrática da Mansão Malfoy.
Três dias após a mudança, o silêncio do vale foi quebrado pelo som seco de uma aparatação. Charlotte, que estava no jardim lendo um exemplar avançado de *Teoria da Defesa Mágica*, levantou-se de um salto, a varinha em punho.
— Abaixe isso, menina — disse uma voz arrastada e inconfundível.
Lucius Malfoy emergiu das sombras das árvores. Ele não vestia as túnicas de gala do Ministério, mas roupas de viagem escuras, e seu rosto parecia mais pálido do que o habitual, com olheiras profundas marcando seus olhos cinzentos.
— Tio Lucius? — Charlotte não abaixou a varinha. — Como encontrou este lugar?
— Eu sou um Malfoy, Charlotte. O sangue sempre reconhece o seu próprio solo — Lucius caminhou em direção à varanda, onde Charles já o esperava, parado com os braços cruzados.
— Lucius — cumprimentou Charles, a voz desprovida de qualquer calor. — Veio para nos entregar ao seu mestre ou para tentar nos convencer a nos ajoelhar?
Lucius parou diante do irmão. Por um momento, o silêncio entre os dois foi preenchido apenas pelo uivo do vento nos galhos.
— Eu vim — começou Lucius, sua voz baixando para um sussurro perigoso — para garantir que vocês fiquem vivos. O Lorde das Trevas está... impaciente. Ele sabe da sua existência, Charles. Ele sabe que um Malfoy vive entre os trouxas e que sua filha é amiga de Potter.
— E você veio cumprir o dever de um bom servo e nos eliminar? — provocou Charles, dando um passo à frente.
— Eu vim reforçar as proteções desta casa — sibilou Lucius, e Charlotte viu, pela primeira vez na vida, um lampejo de algo que se assemelhava a desespero nos olhos do tio. — Se o Lorde das Trevas descobrir que eu estive aqui, minha vida não valerá um sicle. Mas você é meu irmão, Charles. Um erro da natureza, um aborto, uma vergonha para o nosso nome... mas é o meu sangue. E eu não permitirei que ele manche as mãos de outros.
Charles arqueou as sobrancelhas, surpreso.
— Você vai nos proteger? Pelas costas dele?
— Não se engane — Lucius recuperou sua postura altiva, ajeitando o castão de cobra de sua bengala. — Eu não concordo com nada do que você representa. Eu desprezo sua vida medíocre e sua filha lufana. Mas a linhagem Malfoy é sagrada. Se vocês morrerem de forma indigna, isso reflete em mim.
Sem esperar por uma resposta, Lucius começou a caminhar ao redor do perímetro da casa. Ele murmurava encantamentos em latim arcaico, traçando símbolos no ar com sua varinha de teixo. Charlotte observava, fascinada e horrorizada, enquanto camadas de magia negra e defensiva eram tecidas sobre as proteções já existentes de seu pai. Era uma barreira de gelo e ferro, projetada para repelir qualquer um que não carregasse o DNA dos Malfoy.
— Está feito — disse Lucius, retornando à varanda, visivelmente exausto. — Ninguém entrará aqui sem o meu consentimento ou o seu, Charles. Nem mesmo *Ele*.
— Por que está fazendo isso de verdade, Lucius? — perguntou Charlotte, aproximando-se. — Não é apenas pelo sobrenome. Você está com medo do que ele vai pedir para você fazer, não está?
Lucius olhou para a sobrinha, e por um segundo, a máscara de puro-sangue caiu.
— O mundo que ele quer construir não tem espaço para fraquezas, Charlotte. E eu começo a perceber que, para ele, todos nós somos descartáveis. Mantenha Draco longe de problemas este ano. Ele... ele não tem a sua força.
E, com um estalo seco, ele desapareceu.
O retorno a Hogwarts para o quinto ano foi marcado por uma atmosfera de opressão. O Ministério enviara Dolores Umbridge, uma mulher que parecia uma mistura de chiclete de morango e veneno de basilisco, para assumir o cargo de Defesa Contra as Artes das Trevas.
No Salão Principal, Charlotte sentou-se à mesa da Lufa-Lufa, observando a nova professora com profundo desgosto.
— Ela parece uma sapa — sussurrou Susan Bones ao lado dela.
— Uma sapa perigosa — corrigiu Charlotte. — Meu pai me disse que o Ministério está tentando silenciar Dumbledore a qualquer custo. Ela é a arma deles.
A tensão na escola explodiu quando Umbridge começou a implementar seus Decretos Educacionais. Charlotte, fiel aos ensinamentos de seu pai sobre integridade e justiça, não demorou a entrar em conflito com a nova ordem. Quando Harry Potter anunciou a criação da Armada de Dumbledore, Charlotte foi uma das primeiras a se inscrever.
— Você tem certeza, Charlotte? — perguntou Hermione, enquanto assinavam o pergaminho no Cabeça de Javali. — Se o seu tio descobrir que você está treinando com o Harry...
— Meu tio já sabe que eu não sigo as regras dele, Hermione — respondeu Charlotte, assinando seu nome com uma caligrafia firme. — E meu pai ficaria decepcionado se eu não lutasse pelo que é certo. Além disso, se o Ministério não quer nos ensinar a nos defender, nós mesmos faremos isso.
As reuniões na Sala Precisa tornaram-se o único refúgio de Charlotte. Ela descobriu que tinha um talento natural para feitiços de proteção e contramaldições, algo que Harry frequentemente elogiava. No entanto, o peso de sua identidade Malfoy nunca a abandonava totalmente.
Em uma tarde nublada, ela encontrou Draco no corredor do sétimo andar. Ele agora fazia parte da Brigada Inquisitorial de Umbridge, exibindo um distintivo prateado com um orgulho que parecia forçado.
— Você está se metendo em enrascadas, prima — disse Draco, bloqueando o caminho dela. — Eu vejo você andando com a Granger e o Longbottom. A Umbridge está de olho em todos vocês.
— E você está agindo como o cachorrinho dela, Draco — Charlotte rebateu, olhando para o distintivo dele com desprezo. — O tio Lucius me visitou no verão. Ele me disse para cuidar de você.
Draco estacou, o rosto empalidecendo.
— Meu pai foi ver você? Naquela casa trouxa?
— Ele foi proteger a família dele — disse Charlotte, baixando a voz. — Ele reforçou as barreiras da nossa casa. Ele sabe que a guerra está chegando, Draco. Ele sabe que esse distintivo que você usa não vai significar nada quando as varinhas forem sacadas de verdade.
— Ele não me disse nada disso — murmurou Draco, a arrogância desaparecendo de seus olhos. — Ele só me diz para manter a cabeça erguida e honrar o nome.
— Porque ele quer poupar você do medo que ele sente — Charlotte tocou o ombro do primo, um gesto raro de afeto. — Mas você precisa abrir os olhos. A Umbridge não é nossa aliada. Ela é apenas uma burocrata que gosta de torturar crianças.
— Eu não tenho escolha, Charlotte! — Draco exclamou, afastando-se. — Eu não sou como você. Eu não tenho um pai que me ensinou a ser "livre". Eu tenho um pai que me ensinou que eu preciso ser o melhor, ou não serei nada.
Charlotte observou-o se afastar, sentindo uma pontada de tristeza. Ela sabia que a guerra que se aproximava dividiria sua família de forma irremediável.
Os meses passaram sob o regime de terror de Umbridge. Charlotte foi punida diversas vezes por "insubordinação", gravando as palavras *Eu devo respeitar a autoridade* em suas mãos com a pena de sangue da professora. Cada cicatriz apenas fortalecia sua determinação.
A crise final do ano letivo chegou com a visão de Harry sobre o Departamento de Mistérios. Quando Harry, Rony, Hermione, Neville, Luna e Gina decidiram ir para Londres resgatar Sirius, Charlotte não hesitou.
— Eu vou com vocês — afirmou ela, enquanto se preparavam para montar nos Testrálios.
— É perigoso demais, Charlotte — disse Harry. — Seu tio estará lá. Os Comensais da Morte estarão lá.
— Exatamente por isso eu preciso ir — respondeu ela, montando na criatura esquelética. — Eu sou uma Malfoy. Eu conheço a mente deles. E se o meu tio estiver lá, talvez eu seja a única pessoa que ele hesite em amaldiçoar.
A batalha no Departamento de Mistérios foi um borrão de luzes coloridas e gritos. Charlotte encontrou-se lutando lado a lado com Neville, repelindo feitiços de Comensais da Morte mascarados. O ar estava saturado de magia negra, e o som de profecias quebrando ecoava como vidro sob os pés.
No centro da Sala do Véu, a batalha atingiu seu ápice. Os membros da Ordem da Fênix aparataram para ajudar, e o caos se intensificou. Charlotte viu Lucius Malfoy, a máscara de prata brilhando sob a luz feérica, avançando em direção a Harry para pegar a profecia.
— Tio Lucius! — gritou Charlotte, colocando-se entre ele e Harry.
Lucius parou bruscamente. Ele levantou a varinha, mas sua mão tremeu visivelmente.
— Saia da frente, Charlotte! — sibilou ele. — Isso não é um jogo de escola! Ele vai matar todos vocês!
— Então que ele comece por mim! — desafiou ela. — O senhor protegeu a nossa casa no verão. Proteja-nos agora também! Não deixe que isso aconteça!
— Eu não posso... — Lucius parecia dividido entre a lealdade ao seu mestre e o instinto primordial de proteger seu sangue.
Nesse momento, Sirius Black interveio, atacando Lucius e forçando-o a recuar. A batalha continuou, culminando na trágica morte de Sirius e na aparição do próprio Lorde Voldemort.
Quando o Ministério finalmente chegou e Voldemort fugiu, Lucius Malfoy foi um dos capturados. Charlotte viu seu tio ser levado pelos aurores, algemado e humilhado, mas antes de ser levado, ele olhou para ela. Não havia raiva, apenas uma resignação sombria. Ele cumprira sua promessa de sangue; ele atraíra a atenção para si para que ela pudesse escapar.
Dias depois, Charlotte estava de volta ao Chalé das Gardênias. Charles a recebeu com um abraço silencioso, ciente de tudo o que ocorrera. O Profeta Diário anunciava em letras garrafais: *AQUELE-QUE-NÃO-DEVE-SER-NOMEADO RETORNOU*.
— Lucius está em Azkaban — disse Charles, enquanto caminhavam pelo jardim. — O Ministério confiscou parte dos bens dele, mas a Mansão continua sob o nome de Narcisa.
— Ele nos protegeu lá, papai — murmurou Charlotte, olhando para as cicatrizes em sua mão. — Do jeito dele, ele nos protegeu.
— Eu sei — Charles suspirou. — No fundo, Lucius sempre amou mais o conceito de família do que a ideologia que ele serve. Mas agora, com ele na prisão, o Lorde das Trevas vai cobrar a dívida de Draco.
— Eu não vou deixar que ele o leve, papai — afirmou Charlotte. — Eu sou uma lufana, e a lealdade é o meu maior poder. Se Draco precisar de um refúgio, esta casa estará aberta.
Charles olhou para a filha, vendo nela a síntese perfeita de dois mundos. Ela tinha a astúcia dos Malfoy, a coragem dos Grifinórios que treinara, mas, acima de tudo, a bondade inabalável da Lufa-Lufa.
— O mundo bruxo está em guerra, Charlie — disse Charles, colocando a mão no ombro dela. — E nós somos a ponte. O Chalé das Gardênias não é apenas uma casa agora; é um posto avançado da resistência. Lucius nos deu a proteção física, mas você, minha filha, nos deu a proteção moral.
Enquanto o sol se punha sobre o vale, Charlotte sentiu que o quinto ano fora o fim de sua infância. Ela não era mais apenas uma estudante ou uma sobrinha rebelde. Ela era uma combatente. E enquanto as sombras se tornavam mais longas sobre a Inglaterra bruxa, a luz que emanava do Chalé das Gardênias — um lugar onde um Malfoy sem magia e uma Malfoy de coração dourado viviam — brilhava como um farol de esperança, protegida pelo gelo de Lucius e aquecida pelo fogo da liberdade.
— Vamos entrar, papai — disse ela, guardando a varinha. — Temos muito o que planejar. O sexto ano está chegando, e eu sinto que Draco vai precisar de nós mais do que nunca.
Charles assentiu, e juntos eles entraram na casa, onde as gardênias floresciam apesar da escuridão, provando que nem mesmo a magia mais negra do mundo poderia impedir a vida de prosperar onde houvesse amor e lealdade.