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A prima Malfoy

O Brilho das Estrelas e o Gelo da Mansão

O salão comunal da Lufa-Lufa era, sem dúvida, o lugar mais aconchegante de Hogwarts, mas Charlotte sabia que o calor das lareiras de cerâmica e o cheiro de terra úmida e flores não a acompanhariam até as férias de inverno. Enquanto a neve caía pesada sobre as torres do castelo, transformando o Lago Negro em um espelho cinzento e estático, a menina terminava de fechar seu malão. No topo de suas vestes, ela colocou cuidadosamente o cachecol amarelo e preto.

A reação de seu pai à notícia de sua seleção fora o combustível que ela precisava para enfrentar os olhares tortos. Charles Malfoy enviara não apenas aquela primeira carta, mas várias outras, repletas de conselhos jurídicos adaptados à vida escolar e encorajamentos que a faziam sentir-se invencível. Sarah, sua mãe, enviara caixas de doces trouxas que fizeram Charlotte se tornar instantaneamente popular entre os nascidos-trouxas e mestiços de sua casa.

— Você tem certeza de que vai ficar bem, Charlie? — perguntou Susan Bones, observando a amiga. — Quero dizer... é a Mansão Malfoy. Meu tio diz que aquele lugar é... bem, ele diz que é frio.

— Meu pai estará lá — respondeu Charlotte com um sorriso confiante, embora sentisse um frio no estômago que não tinha nada a ver com o clima escocês. — E meu avô Abraxas também. Ele não sai muito dos seus aposentos ultimamente, mas papai disse que ele fez questão de que todos estivéssemos juntos este ano.

A viagem no Expresso de Hogwarts foi marcada por uma tensão silenciosa. Draco a encontrara no corredor, flanqueado por Crabbe e Goyle. O primo parecia dividido entre a irritação e uma curiosidade relutante.

— Meu pai não está nada feliz, Charlotte — murmurou Draco, olhando para os lados para garantir que ninguém importante ouvia. — Ele disse que a Lufa-Lufa é para... bem, você sabe o que dizem. Sobras.

— Se somos as sobras, Draco, então somos a parte mais farta do banquete — retrucou Charlotte, sem perder a compostura. — Diga ao tio Lucius que estou ansiosa para discutir minhas notas em Poções com ele. Ouvi dizer que o Professor Snape é muito exigente, mas eu consegui um 'Ótimo' no último ensaio.

Draco bufou, mas não encontrou uma resposta à altura. No fundo, ele sentia uma ponta de inveja da tranquilidade com que a prima carregava um emblema que, para ele, seria o fim do mundo.

Quando desembarcaram na plataforma 9 ¾, o ar gélido de Londres os atingiu. Charles e Sarah estavam lá, destacando-se na multidão. Charles usava um sobretudo de lã azul-marinho de corte impecável, e Sarah parecia radiante em um casaco de pele sintética verde-esmeralda. Ao lado deles, a carruagem negra dos Malfoy esperava, com Lucius e Narcisa parados como estátuas de gelo sob a garoa fina.

— Charles — cumprimentou Lucius, a voz tão cortante quanto o vento. — Vejo que sua filha decidiu abraçar a... mediocridade com entusiasmo.

— Vejo que você continua confundindo gentileza com fraqueza, Lucius — respondeu Charles, apertando a mão do irmão com uma força que o bruxo não esperava. — Charlotte é uma das melhores da turma. Isso é o que importa para um Malfoy, não é? Excelência?

O trajeto até a Mansão Malfoy foi feito em um silêncio pesado dentro da carruagem, quebrantado apenas pelas perguntas animadas de Sarah sobre as aulas de Herbologia. Quando os portões de ferro forjado se abriram, a imponência da propriedade se revelou. A neve cobria os pavões brancos, que pareciam estátuas de mármore nos jardins perfeitamente podados.

Dentro da mansão, o clima era de uma opulência antiga. Grandes tapeçarias narravam glórias passadas, e o fogo nas lareiras monumentais não parecia ser suficiente para aquecer a alma da casa. No entanto, no centro do grande salão, sentado em uma poltrona de couro desgastado que parecia deslocada entre tanto luxo, estava Abraxas Malfoy.

O patriarca estava velho, a pele fina como pergaminho, mas os olhos cinzentos ainda retinham o brilho de uma inteligência afiada e impiedosa.

— Venham aqui — comandou o velho, a voz rouca.

Lucius deu um passo à frente, empurrando Draco.

— Pai, aqui está Draco. Como eu lhe escrevi, ele está se saindo muito bem na Sonserina. É o favorito de Severus.

Abraxas mal olhou para o neto mais velho. Seus olhos estavam fixos na pequena figura de cachecol amarelo que tentava se esconder atrás de Charles.

— E a menina? A filha do meu filho sem magia? — Abraxas gesticulou com uma mão trêmula. — Aproxime-se, Charlotte.

A menina caminhou com passos firmes. Ela sentia o olhar de censura de Lucius e a preocupação de sua mãe, mas manteve a cabeça erguida.

— Olá, vovô — disse ela, fazendo uma reverência perfeita.

— Lufa-Lufa, hein? — Abraxas soltou uma risada que terminou em uma tosse seca. — Lucius quase teve um colapso quando soube. Mandou-me três corujas lamentando a "mancha" na linhagem.

— Eu não considero uma mancha, senhor — disse Charlotte, olhando diretamente nos olhos do avô. — Helga Hufflepuff valorizava o trabalho árduo e a lealdade. Meu pai me ensinou que nada de valor é conquistado sem esforço. Eu estudo o dobro para provar que a magia que herdei não é um erro.

Um silêncio absoluto caiu sobre a sala. Lucius abriu a boca para intervir, mas Abraxas levantou a mão, silenciando o filho primogênito.

— Trabalho árduo — repetiu Abraxas, saboreando as palavras. — Sabe, Lucius, você sempre foi muito bom em herdar coisas. Títulos, dinheiro, influências. Mas Charles... Charles teve que construir um império no mundo dos sem-varinha apenas com o intelecto. Ele é mais Malfoy do que você imagina.

— Pai, por favor — sibilou Lucius, o rosto pálido de humilhação. — Estamos falando de uma casa para aqueles que não têm aptidão para nada mais.

— Bobagem! — trovejou o velho. — A Lufa-Lufa produziu bruxos que não se dobram sob pressão. E esta menina... ela tem o fogo que você trocou por política e aparências.

Charles deu um passo à frente, colocando a mão no ombro da filha.

— Charlotte tem se destacado em Feitiços, pai. E ela é a primeira Malfoy em gerações a se interessar pela história das leis bruxas comparadas às leis trouxas.

— Excelente — murmurou Abraxas. — Precisamos de alguém que entenda como o mundo está mudando, não apenas alguém que tente parar o tempo.

O jantar de Natal foi uma experiência surreal. A mesa estava posta com prataria de prata de lei e iguarias que Charlotte mal conseguia identificar. Narcisa tentava manter uma conversa educada com Sarah sobre ópera, embora fosse evidente que as duas viviam em universos paralelos. Draco comia em silêncio, lançando olhares furtivos para a prima, como se tentasse entender o que o avô vira nela.

— Então, Charlotte — começou Lucius, mexendo em seu vinho com elegância — suponho que, agora que está em Hogwarts, percebeu a importância de se associar às pessoas certas. Imagino que tenha se afastado daquela... Granger e do menino Longbottom.

Charlotte pousou o garfo.

— Pelo contrário, tio Lucius. Hermione Granger é a bruxa mais brilhante do nosso ano. Ela me ajuda com a teoria de Transfiguração, e eu a ajudo a entender as nuances das tradições puro-sangue que ela não conhece. É uma troca justa.

— Uma sangue-ruim ajudando uma Malfoy? — Draco não conseguiu se conter. — Isso é patético!

— O que é patético, Draco — disse Charles, com uma voz calma que silenciou a mesa —, é acreditar que o conhecimento tem menos valor por causa da origem de quem o possui. Eu ganho casos contra advogados de linhagens nobres porque eu estudo mais do que eles. Charlotte está fazendo o mesmo.

— Charles tem razão — interveio Sarah, sorrindo para o marido. — O mundo não é mais dividido apenas entre quem tem magia e quem não tem. É dividido entre quem sabe usar a mente e quem apenas segue ordens.

Lucius parecia prestes a explodir, mas a presença de Abraxas no topo da mesa agia como um selo de contenção. O velho Malfoy parecia estar se divertindo mais do que em décadas.

— Lucius, meu filho — disse Abraxas, limpando os lábios com um guardanapo de linho —, você está tão preocupado com a pureza do sangue que esqueceu da pureza da ambição. Charles pode não ter magia, mas ele conquistou Londres. Charlotte está na Lufa-Lufa, mas ela já conquistou o respeito deste velho rabugento. E você? O que conquistou ultimamente além de mais poeira neste casarão?

O resto da noite seguiu com uma trégua armada. Após o jantar, enquanto os adultos tomavam conhaque na biblioteca, Charlotte e Draco ficaram sozinhos na sala de música.

— Você realmente gosta de lá? — perguntou Draco, chutando o pé de uma mesa de mármore. — Daquela casa amarela?

— Gosto, Draco. As pessoas são reais. Elas não ficam tentando medir quem é mais importante o tempo todo. Nós apenas... vivemos.

— Meu pai diz que você vai acabar trabalhando no Ministério em algum cargo insignificante — disse ele, embora sem a malícia habitual.

— E meu pai diz que eu posso ser o que eu quiser — respondeu Charlotte, aproximando-se do primo. — Inclusive a pessoa que vai tirar você de alguma enrascada um dia. Porque lufanos são leais, Draco. Mesmo com primos chatos.

Draco soltou um riso curto, quase imperceptível.

— Talvez. Mas não espere que eu admita isso na frente do Crabbe.

Na manhã seguinte, antes de partirem, Abraxas chamou Charlotte em particular. Ele entregou a ela um pequeno broche de ouro em formato de texugo, mas com olhos de diamante cinzento.

— Use isso — disse o avô. — Não é uma joia de família oficial, eu mandei fazer ontem à noite por um elfo doméstico habilidoso. É para lembrar a você que ser uma Malfoy não é sobre a casa onde você dorme em Hogwarts, mas sobre a inteligência com que você lida com aqueles que duvidam de você.

— Obrigada, vovô.

— E diga ao seu pai... — Abraxas hesitou, olhando para a janela onde a neve caía. — Diga a ele que ele foi o filho que mais me surpreendeu. Ele transformou o que eu achava ser uma maldição em um triunfo.

Ao entrarem no carro trouxa de Charles para retornarem a Londres, Charlotte olhou para trás. Lucius e Narcisa estavam na escadaria, a imagem da perfeição aristocrática, mas pareciam estranhamente pequenos diante da vastidão da mansão.

— Foi um bom Natal, não foi? — perguntou Sarah, segurando a mão de Charles.

— Foi um Natal necessário — respondeu Charles, olhando pelo retrovisor para a filha. — Você foi incrível, Charlotte. Defendeu sua posição com a elegância de uma rainha e a lógica de uma advogada.

— Eu só disse a verdade, papai.

Charlotte tocou o broche de ouro em seu bolso. Ela sabia que o caminho em Hogwarts ainda seria difícil. Haveria preconceito por ser uma Malfoy entre os lufanos e preconceito por ser uma lufana entre os Malfoy. Mas, enquanto via as torres da mansão desaparecerem na neblina, ela sentiu que tinha algo que Lucius jamais teria: a liberdade de definir seu próprio valor.

A magia, afinal, não estava apenas nas varinhas ou nos nomes antigos. Estava na coragem de ser o ponto de luz em uma linhagem de sombras, e Charlotte Malfoy estava apenas começando a brilhar.