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A prima Malfoy

O Convite de Sangue e Cinzas

A primavera em Londres trouxe consigo uma chuva fina e persistente, mas dentro da casa de Charles Malfoy, o clima era de uma agitação contida. Sobre a mesa de mogno da sala de jantar, um envelope de pergaminho amarelado, um pouco gasto nas bordas e selado com cera comum, parecia emitir um calor próprio.

Sarah Malfoy observava a caligrafia arredondada e familiar com uma mistura de nostalgia e temor. Havia anos que ela não recebia nada daquela parte de sua árvore genealógica. Como uma "abortada", ela fora gentilmente, mas firmemente, empurrada para fora do círculo da família Weasley, considerada uma triste anomalia em uma linhagem tão orgulhosamente mágica, ainda que pobre.

— É dele, não é? — perguntou Charles, entrando na sala enquanto ajustava as abotoaduras de prata de sua camisa. Ele se aproximou da esposa e pousou a mão em seu ombro. — De Arthur?

— Sim — Sarah suspirou, abrindo o envelope. — Ele soube por algum primo distante que Charlotte entrou em Hogwarts. E que... bem, que ela não foi para a Sonserina. Parece que a notícia de uma Malfoy na Lufa-Lufa atravessou o Ministério como um rastro de pólvora.

Charles soltou um riso seco, sentando-se à mesa.

— Imagino a cara do Lucius toda vez que alguém menciona isso no Departamento de Execução das Leis Mágicas. Mas o que diz o convite, querida?

Sarah leu em voz alta, a voz levemente trêmula:

— "Querida Sarah, faz muito tempo. Soubemos da pequena Charlotte e ficamos imensamente felizes. Molly e eu gostaríamos de convidá-los para um chá de Páscoa na Toca. Nossos filhos mais novos, Ron e Ginny, adorariam conhecer a prima. Por favor, venham. O sangue é mais espesso que a água, e o tempo cura velhas feridas."

Houve um silêncio prolongado. Charlotte, que acabara de descer as escadas com um livro de Herbologia debaixo do braço, parou na soleira da porta, os olhos brilhando.

— A Toca? — perguntou a menina, a voz cheia de curiosidade. — É a casa que o papai disse que parece ser segurada por feitiços de adesão porque tem andares demais?

— Exatamente essa, Charlotte — respondeu Charles, olhando para a filha. — É o oposto da Mansão Malfoy em todos os sentidos imagináveis.

— Nós deveríamos ir? — Sarah olhou para o marido, buscando uma âncora. — Charles, eles foram gentis, mas... eu sou uma abortada. Você é um Malfoy renegado. Não sei se Molly vai realmente me aceitar na cozinha dela.

— Sarah, você é uma das mulheres mais inteligentes que eu conheço — Charles disse com firmeza. — E Charlotte é uma bruxa. Se eles querem construir uma ponte, eu digo que devemos atravessá-la. Além disso, seria bom para Charlotte conhecer o outro lado da família. O lado que não mede o valor de uma pessoa pelo brilho do ouro no cofre de Gringotes.

***

O domingo de Páscoa amanheceu com um sol pálido. A família Malfoy não viajou por Flu ou Aparatação. Charles insistiu em dirigir seu Jaguar azul-escuro até as proximidades de Ottery St. Catchpole, deixando o carro escondido por um feitiço de desilusão simples que Charlotte praticara durante toda a semana.

Caminhar em direção à Toca foi como entrar em um quadro impressionista. A casa se erguia de forma precária, com chaminés tortas e galinhas gordas ciscando no quintal. Charlotte sentiu uma onda de calor no peito. Não havia a frieza de mármore da casa do tio Lucius; havia vida, barulho e o cheiro inconfundível de pão de especiarias assando.

— Sarah! — Um homem de cabelos ruivos ralos e vestes de bruxo um tanto gastas saiu correndo pela porta dos fundos. Arthur Weasley abriu um sorriso largo, os olhos brilhando atrás dos óculos. — Oh, minha nossa, olhe para você! Você não mudou nada!

— Olá, Arthur — Sarah sorriu, permitindo-se ser envolvida em um abraço desajeitado.

Arthur então se virou para Charles, estendendo a mão com uma curiosidade quase científica.

— E você deve ser o famoso Charles. O Malfoy que domina as leis dos trouxas! Eu tenho tantas perguntas... o que exatamente é um "imposto de renda"? E como vocês fazem para que as luzes não apaguem quando chove sem usar o feitiço Impervius?

Charles apertou a mão de Arthur com um sorriso genuíno.

— É um prazer, Arthur. E eu terei todo o prazer em explicar o sistema tributário britânico, embora avise que ele é mais complexo do que a maioria das maldições de nível N.I.E.M.

— E esta é a Charlotte — disse Sarah, puxando a filha para frente.

Arthur olhou para a menina, notando o cabelo loiro-platinado e os olhos cinzentos que eram a marca registrada dos Malfoy, mas viu também o broche de texugo de ouro preso orgulhosamente em sua gola.

— Uma lufana! — Arthur exclamou, encantado. — Maravilhoso! Venham, entrem. Molly está terminando o almoço. Os meninos estão lá atrás tentando tirar gnomos do jardim.

A cozinha da Toca era o coração pulsante da casa. Molly Weasley, uma mulher baixa e fofinha com uma expressão que oscilava entre a bondade absoluta e a autoridade inquestionável, parou o que estava fazendo ao vê-los entrar.

Houve um momento de tensão. Molly olhou para Sarah, lembrando-se da menina ruiva que não conseguia acender uma vela com a varinha aos onze anos. Depois olhou para Charles, o irmão do homem que seu marido tanto desprezava no Ministério.

— Bem — disse Molly, limpando as mãos no avental —, não fiquem aí parados como se fossem visitas formais. Sentem-se. Sarah, você está muito magra, precisa de uma torta de rins. E você, Sr. Malfoy...

— Charles, por favor, Sra. Weasley — interrompeu Charles educadamente.

— Charles, então. Espero que seu paladar não seja refinado demais para a comida de uma casa de campo.

— Eu cresci comendo o que meu irmão chamava de "lixo trouxa", Sra. Weasley — Charles respondeu, sentando-se no banco de madeira. — Garanto que este cheiro é a coisa mais divina que senti em anos.

A tensão quebrou. Molly sorriu e serviu canecas de cerveja amanteigada caseira. Charlotte, sentindo-se um pouco deslocada, saiu para o jardim a convite de Arthur.

Lá, ela encontrou um menino de cabelos ruivos muito compridos e sardas por todo o rosto, que parecia estar em meio a uma batalha com uma criatura pequena e feia que tentava morder seus tornozelos.

— Você deve ser a Charlotte — disse o menino, arremessando o gnomo por cima da cerca. — Eu sou o Ron. Sou do mesmo ano que você, mas estou na Grifinória.

— Eu sei — Charlotte sorriu. — Eu vejo você no Salão Principal. Você está sempre com o Harry Potter.

Ron ficou levemente vermelho.

— É, o Harry é legal. Mas... você é mesmo uma Malfoy? Digo, você não parece... — Ele hesitou, olhando para as roupas práticas de Charlotte. — Você não parece o Draco.

— Draco acha que o sobrenome dele é uma coroa — Charlotte disse, aproximando-se da cerca. — Eu acho que é apenas um nome. E meu pai diz que nomes são como rótulos em garrafas; o que importa é o que está dentro.

— Gostei disso — disse uma voz feminina. Uma menina mais nova, também ruiva e com olhos muito vivos, apareceu atrás de Ron. — Sou a Ginny. Você mora em Londres, né? Com os trouxas?

— Sim, em um bairro chamado Chelsea.

— Eles realmente usam caixas que mostram imagens em movimento sem magia? — Ginny perguntou, fascinada.

— Televisão? Sim — Charlotte riu. — É bem divertido, embora às vezes eu prefira os livros de Hogwarts.

Enquanto as crianças conversavam, na cozinha, o clima era mais profundo. Sarah e Molly estavam sentadas lado a lado, descascando batatas de forma manual — um gesto de solidariedade que Molly impusera para que Sarah não se sentisse excluída por não usar magia.

— Eu sinto muito, Molly — disse Sarah em voz baixa. — Por todos esses anos de silêncio. Eu achava que vocês tinham vergonha de mim.

Molly parou com a faca no ar e olhou para a prima.

— Vergonha? Sarah, nós ficamos tristes. Naquela época, as coisas eram diferentes. Arthur e eu estávamos começando, a guerra estava em toda parte... nós achamos que você queria distância do mundo bruxo para ter uma vida normal. Nunca foi vergonha. Foi medo de machucar você lembrando-a do que você não podia fazer.

— Eu fiz uma vida boa — disse Sarah, olhando para Charles, que estava absorto em uma conversa com Arthur sobre "aviões". — Charles é um homem maravilhoso. Ele nunca me fez sentir menos por ser uma abortada.

— Ele não parece um Malfoy — comentou Molly, observando Charles. — Ele tem um olhar... honesto. Lucius sempre parece estar calculando quanto custa a sua alma.

— Charles é um Malfoy por fora, mas por dentro... ele é um construtor — explicou Sarah. — Ele construiu uma carreira, uma casa e uma família do zero, sem heranças ou varinhas.

O almoço de Páscoa foi a refeição mais barulhenta e alegre da vida de Charlotte. Diferente dos jantares silenciosos e cerimoniais na mansão de seu tio, ali todos falavam ao mesmo tempo. Fred e Jorge, os gêmeos mais velhos, tentaram vender a Charlotte um "Caramelo Incha-Língua", mas foram impedidos por um olhar severo de Molly.

— Então, Charlotte — disse Percy, o irmão mais velho que parecia levar tudo muito a sério —, como é ser uma Malfoy na Lufa-Lufa? Imagino que o preconceito seja bilateral.

— No começo foi difícil — admitiu Charlotte, servindo-se de mais batatas assadas. — Os sonserinos acham que eu sou uma traidora do sangue, e alguns alunos de outras casas achavam que eu era uma espiã. Mas os lufanos são... bem, eles são leais. Eles me deram uma chance. E agora eu sou apenas a Charlotte que é boa em Herbologia e que sempre tem um estoque de canetas trouxas que escrevem melhor que penas.

— Canetas? — Arthur interrompeu, os olhos brilhando. — Você trouxe alguma?

Charlotte mergulhou a mão no bolso e entregou uma caneta esferográfica azul para o tio. Arthur a segurou como se fosse uma relíquia sagrada, clicando no botão do topo repetidamente com uma expressão de puro êxtase.

— Genial! — ele exclamou. — Olhe só, Molly! O mecanismo de mola é independente! Sem necessidade de encantamentos de recarga de tinta!

Todos riram, e por um momento, as barreiras entre o mundo bruxo e o mundo trouxa, entre os Malfoy e os Weasley, pareceram desaparecer completamente.

No final da tarde, enquanto o sol se punha tingindo o céu de laranja e violeta, a família se preparava para partir. Sarah e Molly se abraçaram desta vez com força, uma promessa silenciosa de que o contato não seria perdido novamente.

— Charles — disse Arthur, segurando a mão do outro homem —, obrigado por vir. Eu sei que não deve ser fácil, dado o seu... histórico familiar.

— O histórico familiar é apenas o ponto de partida, Arthur — respondeu Charles. — O que fazemos com a jornada é o que nos define. Espero vê-los em Londres em breve. Sarah adoraria levá-los para jantar em um restaurante trouxa.

— Eu adoraria! — Arthur exclamou. — Desde que eu possa levar a minha caneta!

Charlotte se despediu de Ron e Ginny, prometendo mandar corujas (e algumas revistas trouxas para Ginny). Enquanto caminhavam de volta para o carro, a menina sentia-se leve.

— Você está bem, querida? — perguntou Sarah, passando o braço pela cintura da filha.

— Estou ótima, mamãe. Eu estava pensando... o vovô Abraxas disse que o papai transformou uma maldição em triunfo. Acho que hoje nós fizemos a mesma coisa.

Charles abriu a porta do carro para elas, olhando uma última vez para a silhueta torta da Toca contra o horizonte.

— Sabe — disse Charles enquanto ligava o motor —, Lucius teria um ataque cardíaco se visse como nós passamos o dia.

— E é exatamente por isso — Charlotte sorriu, afivelando o cinto — que este foi o melhor dia de todos.

O Jaguar azul deslizou pela estrada de terra, deixando para trás o mundo da magia pura e retornando para a mistura vibrante que era a vida deles. Charlotte olhou pela janela, o broche de texugo brilhando sob a luz da lua. Ela era uma Malfoy, tinha o sangue dos Weasley, vivia como trouxa e estudava como bruxa. E, pela primeira vez, ela percebeu que não precisava escolher um lado. Ela era a ponte entre todos eles.