A reação
O Caderno de Couro e a Sentença Oculta
O Salão Comunal da Grifinória estava mergulhado em uma penumbra densa, quebrada apenas pelas brasas moribundas da lareira. O silêncio não era de paz, mas de uma vigília forçada. Ninguém conseguia dormir. A imagem da tela — o brilho frio nos olhos de Hermione, a resignação de Harry — pairava sobre eles como um fantasma que se recusava a partir.
Harry sentiu um movimento ao seu lado. Hermione não estava mais encostada em seu ombro; ela havia se inclinado para frente, puxando de dentro de suas vestes um pequeno caderno de couro negro, cujas páginas pareciam gastas pelo uso constante, embora Harry nunca o tivesse visto antes.
— O que é isso, Mione? — perguntou Rony, a voz falha pelo cansaço.
Hermione abriu o caderno em uma página específica. À luz das brasas, Harry pôde ver nomes escritos em uma caligrafia firme, mas apressada. Alguns nomes estavam circulados; outros tinham pequenas anotações ao lado, símbolos que ele não reconhecia imediatamente.
— A tela nos mostrou apenas um momento — sussurrou Hermione, os olhos fixos no papel. — Mas aquele Harry, aquela versão de nós... eles não chegaram àquela conclusão por causa de um único evento. Eles tinham uma lista.
Harry inclinou-se para ver. No topo da página, escrito com uma tinta que parecia brilhar levemente, estava o nome: *Dolores Umbridge*. Abaixo dele, com uma letra ligeiramente mais tremida, estava: *Severus Snape*.
— Uma lista de alvos? — Harry sentiu um calafrio percorrer sua espinha. — Nós estamos planejando matar mais de uma pessoa?
— Não é sobre matar por prazer, Harry — disse Hermione, e a frieza em sua voz agora era idêntica à daquela projeção no Salão Principal. — É sobre contenção de danos. A Umbridge não é apenas uma burocrata irritante. Vocês viram o que ela está fazendo nas detenções. O sangue dos alunos... o uso de artefatos das Trevas contra crianças. Ela está preparando o terreno para que o Ministério se torne uma extensão do exército de Voldemort sem disparar um único feitiço.
— E Snape... — Rony hesitou, o nome parecendo queimar sua língua. — Ele é um Comensal da Morte. Sempre soubemos. Mas Dumbledore confia nele.
— Dumbledore confia na redenção — retrucou Harry, sentindo uma raiva súbita borbulhar em seu peito. — Mas a tela nos mostrou que a confiança dele pode ser o nosso fim. Se Snape é o arquiteto da purga, como eu disse na visão... se ele está entregando os nomes dos nascidos-trouxas diretamente para o Riddle... então a confiança de Dumbledore é um luxo que não podemos mais pagar.
Rony passou a mão pelo rosto, nervoso.
— Se fizermos isso, se seguirmos essa lista... não haverá mais volta para nós. O mundo vai nos ver como monstros. Mesmo se vencermos a guerra, seremos os vilões da nossa própria história.
— Prefiro ser um vilão vivo e cercado de amigos vivos do que um herói morto cujos amigos foram torturados em porões — disse Hermione, fechando o caderno com um estalo seco. — A tela nos deu a vantagem do tempo. Ela nos mostrou o fim do caminho. Agora, temos que decidir se vamos trilhá-lo ou se vamos mudar a direção. Mas, para mudar a direção, precisamos remover os obstáculos.
Enquanto isso, nas masmorras, o clima era igualmente gélido. Severus Snape estava em seu escritório, cercado por frascos de ingredientes que brilhavam sob a luz das velas. Ele não estava trabalhando em nenhuma poção. Suas mãos estavam apoiadas na mesa de carvalho, e ele encarava o nada.
As palavras do Potter da tela ecoavam em sua mente: *"Ele é o arquiteto da próxima purga"*.
Snape sabia que sua posição como agente duplo o colocava em uma linha tênue, mas ver a convicção assassina nos olhos do filho de Lílian o abalara mais do que ele estava disposto a admitir. Ele sempre esperou que Potter fosse arrogante, imprudente ou até mesmo heróico de forma irritante. Mas ele nunca esperou ver Potter se tornar... ele mesmo. Um homem disposto a sujar as mãos nas sombras para que outros pudessem caminhar na luz.
A porta do escritório se abriu sem bater. Dolores Umbridge entrou, seu casaco rosa parecendo uma mancha de sangue doce naquele ambiente sombrio. Seu rosto, geralmente mascarado por um sorriso condescendente, estava retorcido em uma carranca de puro ódio.
— Severus — disse ela, a voz aguda arranhando o silêncio. — Você viu o que aquelas crianças planejam. Você ouviu o que o Sr. Potter disse sobre mim. Sobre nós.
— Eu vi uma projeção mágica de origem desconhecida, Dolores — respondeu Snape, sem se mover. — Não tire conclusões precipitadas.
— Conclusões? — Ela soltou uma risada histérica. — Eles falaram em veneno de basilisco! Eles falaram em assassinatos "limpos"! Aquilo não é imaginação juvenil. É uma ameaça direta à segurança do Ministério e à ordem de Hogwarts. Eu já enviei uma coruja para o Ministro. Quero o Potter, o Weasley e a Granger sob custódia imediata.
Snape finalmente levantou o olhar. Seus olhos negros eram poços de gelo.
— E você acha que Dumbledore vai permitir que você leve os alunos dele baseada em uma visão de um futuro incerto? Você só vai conseguir transformar Harry Potter em um mártir antes que a guerra sequer comece.
— Eu não me importo com o que Dumbledore permite! — gritou ela, batendo com o punho na mesa. — Se eles querem ser assassinos, eu os tratarei como tal. Vou usar o Veritaserum neles esta noite, com ou sem permissão. Vou descobrir o que mais eles planejam e quem mais está naquela "lista" implícita.
Snape sentiu um aperto no estômago. Se Umbridge forçasse a mão de Potter agora, o garoto reagiria. E o Harry Potter que ele viu na tela não era um garoto que lançaria um *Expelliarmus*. Era um garoto que cortaria gargantas.
— Saia, Dolores — disse Snape, sua voz baixando para um sussurro perigoso. — Antes que você cometa um erro do qual nem o Ministro poderá salvá-la.
Umbridge bufou, ajeitando o laço em seu cabelo, e saiu batendo a porta. Snape ficou sozinho novamente. Ele sabia que a lista existia. Ele podia sentir o peso dela no ar.
De volta à Torre da Grifinória, o Trio de Ouro subiu para o dormitório masculino. Eles não queriam ser vistos por mais ninguém. Harry sentou-se na beira da cama, observando o mapa do Maroto.
— Ela está vindo — disse Harry, apontando para o ponto rotulado como *Dolores Umbridge* que se movia rapidamente em direção à Grifinória. — Ela não vai esperar até amanhã.
— O que fazemos? — perguntou Rony, a mão alcançando instintivamente sua varinha. — Se ela tentar nos levar...
— Se ela tentar nos levar — interrompeu Hermione, tirando um pequeno frasco de seu bolso, o mesmo frasco que todos tinham visto na tela —, nós não vamos para Azkaban.
Rony arregalou os olhos.
— Você já tinha? Você já tinha a poção pronta, Hermione?
— Eu a preparei depois que vi o que ela fez com o Harry naquelas detenções — confessou ela, as lágrimas finalmente começando a descer, mas sua voz permanecendo firme. — Eu pensei que nunca teria coragem de usar. Eu pensei que era apenas um seguro. Mas a tela... a tela me mostrou que eu tenho a coragem. E que, talvez, eu tenha a obrigação.
Harry olhou para o frasco e depois para a porta. Ele podia ouvir os passos ecoando no corredor do lado de fora. Passos pesados, autoritários. O som do mundo tentando esmagá-los antes que eles pudessem crescer.
— Snape também está se movendo — observou Harry, vendo o ponto do professor saindo das masmorras. — Ele está vindo interceptá-la ou ajudá-la.
— Não importa — disse Harry, levantando-se. — Se eles querem nos tratar como os monstros que viram na tela, então é melhor darmos a eles o que esperam.
— Harry, espere — pediu Rony, colocando a mão no braço do amigo. — Se fizermos isso agora, aqui... não haverá floresta, não haverá meia-noite. Será um massacre no meio da escola.
— Ela vai usar Veritaserum, Rony — disse Hermione, limpando as lágrimas. — Se ela descobrir sobre a Ordem, sobre o que sabemos de Voldemort... todos morrem. Não somos só nós três. É a Sirius, é o Lupin, é a minha família.
A porta do dormitório explodiu.
Dolores Umbridge entrou, a varinha em punho, seguida por dois alunos da Brigada Inquisitorial que pareciam pálidos e incertos.
— Fora da cama! — gritou ela. — Agora! Vocês estão sob investigação por conspiração de assassinato contra oficiais do Ministério!
Harry não se moveu. Ele ficou parado, os braços cruzados, encarando a mulher com uma calma que parecia sobrenatural.
— A senhora acredita mesmo que pode nos levar, Professora? — perguntou Harry. Sua voz era baixa, quase um sussurro, mas carregava o peso de mil tempestades. — Depois do que toda a escola viu?
— Eu sou a Alta Inquisidora! — ela guinchou. — Eu sou a lei nesta escola!
— A lei — disse Hermione, dando um passo à frente, o frasco de veneno escondido na palma da mão — costuma proteger as pessoas. A senhora só protege a si mesma e a um regime que tem medo de crianças.
— Cale-se, sangue-ruim! — Umbridge apontou a varinha para Hermione.
O ar na sala pareceu congelar. Harry sentiu o poder latejar em suas veias de uma forma que ele nunca sentira antes. Não era apenas magia; era a intenção. A intenção pura de proteger e de destruir.
— Nunca — disse Harry, sua voz vibrando com um poder antigo — chame ela assim novamente.
Antes que Umbridge pudesse reagir, a porta se abriu novamente e Severus Snape entrou. Ele avaliou a cena rapidamente: a fúria de Umbridge, o desespero controlado de Rony, a determinação letal de Hermione e o poder bruto emanando de Harry.
— Dolores — disse Snape, sua voz soando como um aviso de morte —, abaixe a varinha.
— Eles estão resistindo à prisão, Severus! — ela gritou, sem desviar os olhos de Harry. — Eu tenho o direito de usar a força!
— Você não tem direito a nada — retrucou Snape, caminhando para o centro da sala e ficando entre a Inquisidora e os alunos. — Você está agindo fora da jurisdição do conselho de Hogwarts. E, mais importante, você está agindo como uma tola.
Snape virou-se ligeiramente para olhar para Harry. Por um breve segundo, não houve ódio entre o professor e o aluno. Houve apenas um reconhecimento mútuo. Snape viu no garoto a mesma escuridão que ele carregava. E Harry viu no homem o peso de uma lista que nunca terminava.
— Sr. Potter — disse Snape, as palavras saindo devagar —, o que vimos no Salão Principal foi um aviso para todos. Incluindo para aqueles que você considera seus inimigos. Não dê a ela o que ela quer. Não se torne o que a tela mostrou... ainda não.
Harry olhou para Snape, depois para Hermione. Ela ainda segurava o frasco. Se eles agissem agora, Umbridge morreria. Snape talvez morresse também. Eles seriam livres, mas seriam fugitivos.
— Por que deveríamos ouvi-lo? — perguntou Harry. — Na tela, você era o próximo da lista.
Snape não vacilou.
— Porque na tela, Potter, eu não estava lá para impedir que você perdesse sua alma. Se você vai matar, que seja para salvar o mundo, não para satisfazer o rancor contra uma mulher medíocre que o tempo se encarregará de esquecer.
Umbridge tentou protestar, mas Snape a silenciou com um olhar tão carregado de malícia que ela deu um passo atrás.
— Vá embora, Dolores — ordenou Snape. — Antes que eu decida que a visão de Potter sobre o seu destino foi, na verdade, uma sugestão muito inspiradora.
Umbridge, tremendo de raiva e medo, sinalizou para seus guardas e saiu do dormitório. O silêncio que se seguiu foi pesado.
Snape permaneceu parado por um momento, as vestes negras fundindo-se com as sombras do quarto. Ele olhou para Hermione e, por um instante, seus olhos pousaram no frasco em sua mão.
— A Essência de Beladona precisa ser destilada a frio, Srta. Granger — disse ele, a voz desprovida de qualquer emoção. — Se você usar calor, o rastro mágico permanece por semanas. Se vai fazer algo, faça com a perfeição que o ato exige.
Sem dizer mais nada, Snape virou-se e saiu, deixando o Trio de Ouro sozinho com suas escolhas.
Harry sentou-se novamente na cama, sentindo o corpo tremer agora que a adrenalina estava baixando.
— Ele nos ajudou — disse Rony, incrédulo. — Snape nos ajudou.
— Ele não nos ajudou, Rony — disse Hermione, guardando o frasco e o caderno de couro. — Ele apenas confirmou que a lista é real. Ele sabe que está nela. E ele sabe que, de agora em diante, ninguém em Hogwarts está seguro.
Harry olhou para a janela, onde a lua brilhava sobre a Floresta Proibida. A tela havia mostrado o futuro, mas a realidade estava se tornando algo muito mais complexo e perigoso. Eles não eram mais apenas estudantes.
— A lista continua — sussurrou Harry.
— Sim — respondeu Hermione, sentando-se ao lado dele. — Mas agora sabemos que até os nossos inimigos têm medo do que podemos nos tornar.
Naquela noite, o Trio de Ouro não dormiu. Eles ficaram acordados, planejando não apenas como sobreviver, mas como garantir que, quando chegasse a meia-noite, eles fossem os únicos a sair da sombra. A guerra havia chegado a Hogwarts, mas não com exércitos e gigantes. Ela havia chegado no brilho de um frasco de veneno e no silêncio de um pacto de sangue.