A reação
O Cálculo do Sangue e da Justiça
A luz da manhã seguinte em Hogwarts não trouxe o habitual conforto do café quente e das conversas triviais sobre quadribol ou deveres de Transfiguração. O Grande Salão estava carregado, um campo minado de olhares furtivos e sussurros que morriam assim que o Trio de Ouro passava pelas portas duplas. Eles não eram mais apenas os heróis da Grifinória; eram figuras de um presságio sombrio, os arquitetos de um destino que a escola inteira temia presenciar.
A tela no teto, embora agora estivesse opaca como uma névoa cinzenta, parecia pulsar com uma energia residual. De repente, sem aviso, a fenda prateada brilhou novamente. O burburinho cessou instantaneamente. Colheres ficaram suspensas no ar. Dumbledore, que mal tocara em seu desjejum, inclinou-se para frente com uma expressão de profunda apreensão.
Desta vez, a imagem não era uma cena de ação ou um encontro furtivo. Era algo muito mais metódico e, por isso, muito mais aterrorizante. A tela mostrava a mesa de madeira do dormitório de Harry, mas estava coberta de pergaminhos. No centro, um grande pergaminho estava dividido em duas colunas verticais.
No topo da primeira coluna, o nome de Severus Snape estava escrito em letras garrafais. Na segunda, o de Dolores Umbridge.
— Eles estão... eles estão fazendo uma lista? — a voz de Simas Finnigan quebrou o silêncio, soando mais como um guincho de pavor.
Na tela, a mão de Hermione, segurando uma pena de águia, começou a escrever sob o nome de Snape. O título da seção era: "Prós e Contras da Eliminação".
— Prós: Interrupção do fluxo de informações para o Lorde das Trevas — leu Hermione na tela, sua voz calma e analítica. — Fim do abuso sistemático contra alunos de casas rivais. Proteção imediata para os membros da Ordem que ele conhece.
— Contras — a voz de Harry interrompeu a leitura na projeção. Ele apareceu na imagem, debruçado sobre a mesa. — Perda do agente duplo de Dumbledore, se é que ele realmente ainda é um. Risco de retaliação imediata de Voldemort contra Hogwarts para preencher o vácuo de poder. E, claro... o fato de que ele pode ser a única ponte que nos resta para entender os planos do inimigo.
No Salão Principal, Snape permaneceu imóvel. Seus olhos negros estavam fixos na tela, lendo sua própria vida sendo pesada em uma balança de utilidade e perigo por três adolescentes. Ele sentiu uma pontada de algo que não sentia há anos: não era medo, era o reconhecimento de que o monstro que ele ajudara a criar — o Harry Potter endurecido pela dor — finalmente aprendera a pensar como um estrategista.
— Agora a Umbridge — disse o Rony da tela, apontando para a outra coluna.
Hermione escreveu rapidamente.
— Prós: Fim da tortura física institucionalizada. Recuperação da autonomia de Hogwarts. Impedir que o Ministério tome controle total da educação mágica. Salvar a sanidade mental de Harry.
— Contras — Hermione hesitou na tela, a pena pairando sobre o papel. — Guerra aberta com o Ministério da Magia. Se ela morrer sob custódia da escola, Fudge usará isso como pretexto para enviar os Aurores e ocupar o castelo permanentemente. Seríamos rotulados como terroristas antes mesmo de podermos lutar contra Voldemort.
— Mas se ela continuar viva — o Harry da tela rebateu, sua voz soando como o estalo de um chicote —, ela vai nos quebrar um por um. Ela não quer apenas nos ensinar; ela quer nos domesticar. Ela é um câncer, Mione. E cânceres não se negociam, se extirpam.
Umbridge, na mesa dos professores, soltou um som sufocado de indignação. Seu rosto estava de um roxo doentio.
— Albus! — ela gritou, sua voz falhando. — Isso é... isso é uma confissão! Eles estão pesando as consequências políticas do meu assassinato! Isso é traição de Estado!
— Dolores, por favor, sente-se — disse Dumbledore, sua voz carregando um peso de autoridade que raramente usava. — O que estamos vendo é uma deliberação desesperada. Seus métodos, infelizmente, levaram esses jovens a um beco sem saída moral.
— Beco sem saída? — gritou Fudge, que aparecera no salão através da lareira momentos antes. — Eles estão discutindo se matam um funcionário do Ministério com a mesma frieza com que discutem o clima! Eu exijo que eles sejam levados para o interrogatório agora!
No entanto, ninguém se moveu para obedecer. Os alunos da Grifinória, da Corvinal e até alguns da Lufa-Lufa cercaram Harry, Rony e Hermione em um gesto instintivo de proteção. A tensão era palpável.
Na tela, a discussão continuava.
— Precisamos de um catalisador — disse Hermione na imagem. — Não podemos agir por impulso. Se Snape entregar a localização da sede esta semana, a balança pende para a morte. Se Umbridge implementar o Decreto Educacional número vinte e cinco, o risco político de mantê-la viva se torna maior do que o risco de eliminá-la.
— E quanto a nós? — perguntou o Rony da tela, olhando para os amigos. — O que isso faz com a gente?
— Nós já morremos, Rony — respondeu Harry na projeção, olhando diretamente para a "câmera" mágica, como se pudesse ver todos no Salão Principal. — Morremos no momento em que Diggory caiu no cemitério e o mundo decidiu que era mais fácil nos chamar de mentirosos do que lutar. O que sobrar de nós depois disso... é bônus.
A tela se apagou bruscamente, deixando o salão em um vácuo de som.
Harry, o Harry real, levantou-se lentamente da mesa da Grifinória. Ele sentia o peso de cada olhar. Ele olhou para a mesa dos professores, ignorando os gritos de Umbridge e as ameaças de Fudge. Seus olhos encontraram os de Snape.
— O senhor viu a lista — disse Harry, sua voz ecoando com uma clareza assustadora. — O senhor viu os prós e os contras.
Snape sustentou o olhar, uma sobrancelha levemente erguida.
— De fato, Potter. Sua técnica de análise é rudimentar, mas os pontos levantados sobre a retaliação do Lorde das Trevas foram... sensatos.
— Isso não é um jogo, Severus! — gritou McGonagall, levantando-se com as mãos tremendo. — Harry, meu querido, você não pode... vocês não pensariam realmente nisso...
— Professora — disse Hermione, levantando-se ao lado de Harry, sua voz firme apesar da palidez —, a pergunta não é se pensamos nisso. A pergunta é por que a senhora está tão surpresa. Nós fomos ensinados a nos defender. Fomos ensinados que o mal deve ser combatido. A tela apenas nos mostrou que, às vezes, o mal usa um distintivo do Ministério ou uma capa de professor.
— Isso é rebelião! — berrou Fudge, sacando a varinha. — Pela autoridade do Ministério da Magia, eu ordeno...
— Você não ordena nada aqui, Cornélio — a voz de Dumbledore trovejou, e pela primeira vez, o poder do Diretor encheu o salão como uma tempestade física. — Estes alunos estão sob a proteção de Hogwarts. O que vimos foi uma visão de um futuro que ainda não aconteceu. Se você deseja impedir que esse futuro se torne realidade, sugiro que comece a agir como um Ministro que protege seu povo, em vez de um burocrata que persegue crianças.
Fudge recuou, intimidado. Umbridge, percebendo que perdera o controle da narrativa, tentou uma última cartada.
— E o veneno? — ela sibilou. — A Srta. Granger admitiu que sabe a fórmula. Ela admitiu que tem o material!
— Todos os alunos do sexto ano em diante sabem a fórmula de venenos letais, Dolores — rebateu Snape, sua voz arrastada e cortante. — É parte do currículo de Poções Avançadas. Se saber como matar fosse crime, este castelo estaria vazio.
Harry deu um passo à frente, saindo do círculo de seus colegas. Ele caminhou até o centro do corredor entre as mesas.
— A tela nos mostrou uma escolha — disse Harry, dirigindo-se a toda a escola. — Ela mostrou que, em algum lugar, em algum tempo, nós três decidimos que o sacrifício da nossa inocência valia a pena para parar o que estava acontecendo. Eu não quero ser um assassino. Rony não quer. Hermione não quer.
Ele fez uma pausa, olhando para Umbridge e depois para Fudge.
— Mas se vocês continuarem a nos caçar, se continuarem a permitir que o mal cresça enquanto tentam nos silenciar... então a lista que vocês viram não será mais um plano de futuro. Ela será um cronograma.
Um silêncio sepulcral caiu sobre o Salão Principal. A ameaça não era vazia; estava fundamentada na visão que todos tinham acabado de compartilhar. O "Trio de Ouro" não era mais um grupo de crianças travessas. Eles eram uma força de resistência que acabara de descobrir sua própria letalidade.
— Harry, sente-se — pediu Dumbledore, embora não houvesse severidade em sua voz, apenas uma tristeza profunda.
— Ainda não, Diretor — disse Harry. Ele virou-se para Snape. — Professor, o senhor disse na visão que a confiança de Dumbledore era um luxo. Eu gostaria de saber... se o senhor estivesse no nosso lugar, olhando para a sua própria lista... o que o senhor faria?
Snape manteve o silêncio por um longo tempo. O salão inteiro parecia prender a respiração.
— Eu faria o que sempre fiz, Potter — respondeu Snape, a voz baixa e perigosa. — Eu sobreviveria. E eu garantiria que aqueles que são úteis para a causa permaneçam vivos, enquanto aqueles que são apenas ruído... sejam silenciados.
— Úteis para a causa — repetiu Harry, processando a informação. — Entendo.
Harry voltou para o seu lugar ao lado de Rony e Hermione. A tensão não desapareceu, mas transformou-se em algo novo: um entendimento tácito. O equilíbrio de poder em Hogwarts havia mudado.
— Eles não vão nos tocar hoje — sussurrou Rony, olhando para Fudge e Umbridge, que discutiam furiosamente em um canto, longe de Dumbledore.
— Hoje não — concordou Hermione, abrindo seu caderno novamente. — Mas a tela nos mostrou que o tempo está acabando. Harry, a lista de prós e contras... eu esqueci de adicionar um item importante na coluna do Snape.
— Qual? — perguntou Harry.
Hermione escreveu rapidamente no caderno, para que apenas os dois pudessem ler.
— "Ele sabe que estamos planejando."
Harry olhou para a mesa dos professores e viu Snape observando-os. O professor de Poções não parecia zangado. Ele parecia estar... esperando.
— Ele não está surpreso — murmurou Harry. — Ele está nos avaliando. Ele quer ver se temos a coragem de seguir até o fim se a balança pender.
— E nós temos? — perguntou Rony, a voz tremendo levemente.
Harry olhou para suas próprias mãos. Ele ainda podia sentir a textura imaginária do frasco de veneno. Ele pensou em Cedrico, pensou na cicatriz em sua mão que Umbridge o forçara a gravar, e pensou na escuridão que vinha do leste.
— Se o mundo se tornar o que a tela mostrou — disse Harry —, nós não teremos escolha.
Lá fora, as nuvens se fecharam sobre o castelo, e o primeiro trovão da estação ecoou pelas montanhas. A aula de Poções daquela tarde seria a mais silenciosa da história de Hogwarts, pois cada aluno estaria pesando sua própria lista, e cada professor estaria se perguntando se seu nome seria o próximo a ser escrito em um pergaminho de prós e contras.
A guerra não estava mais batendo à porta. Ela já estava sentada à mesa, tomando café com eles, e tinha o rosto de três jovens que tinham aprendido, cedo demais, que a justiça às vezes precisa de um veneno que não deixa rastro.