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A Rosa e o Dragão

O Renascer das Cinzas e o Juramento de Sangue

O balanço do *Vento de Verão* era a única coisa que mantinha Valarr Targaryen em um estado de consciência funcional. O navio cortava as águas da Baía da Água Negra com uma pressa quase sobrenatural, impulsionado por ventos que pareciam lamentar junto com o príncipe. No convés, o corpo de Lysaha Rowen repousava sobre um estandarte Targaryen limpo, seus traços agora pacíficos, desprovidos da agonia que marcara seus últimos momentos.

Valarr estava sentado ao lado dela, imóvel. Ele não havia limpado o sangue de Aldric Darkmoor de suas mãos ou de seu rosto. O contraste era aterrorizante: a beleza delicada e quase etérea do príncipe, com seus olhos de cores distintas, manchada pela brutalidade da vingança.

— Valarr — a voz de Baelor Quebra-Lança era um murmúrio grave ao seu lado. — Você precisa descansar. Suas feridas não são apenas na alma.

O príncipe não desviou o olhar do rosto de Lysaha.

— Ela morreu por mim, pai. Ela viveu uma mentira, foi torturada psicologicamente por aquele verme, e no fim, deu a única coisa que lhe restava para que eu pudesse respirar.

— Ela era uma guerreira — disse Baelor, colocando uma mão pesada sobre o ombro do filho. — E ela escolheu o lado dela. Ela escolheu você.

Valarr finalmente olhou para o pai. O azul e o marrom de seus olhos ardiam com uma intensidade que Baelor nunca vira antes.

— Eu não vou apenas enterrá-la, pai. Eu vou cumprir a promessa que fiz. Aldric mencionou as Terras da Tempestade. Ele tem a mãe e a irmã dela presas. Se eu falhar com elas, terei matado Lysaha uma segunda vez.

Baelor assentiu, respeitando a determinação fria do filho.

— O navio nos levará para Pedra do Dragão primeiro. Precisamos nos reagrupar. Seu tio Maekar e o Rei ainda estão nas mãos dos traidores, mas sem Aldric, a estrutura de poder dele em Porto Real vai ruir como vidro. Os mercenários não lutam por um cadáver desfigurado.

— Que ruga — disse Valarr, levantando-se com uma elegância que agora parecia predatória. — Que sintam o calor do fogo antes de serem consumidos pelo gelo da morte.

***

Enquanto o navio se afastava, nas sombras do convés inferior, dois passageiros clandestinos observavam a cena. Dunk, o cavaleiro errante, mantinha Egg atrás de si. Eles haviam conseguido subir a bordo no último segundo, ajudados pela confusão no porto.

— Aquele é o Príncipe Valarr? — sussurrou Egg, seus olhos violetas arregalados. — Ele parece... diferente das histórias.

— Ele passou pelo inferno esta noite, garoto — respondeu Dunk em voz baixa. — Vi o que ele fez no estábulo. Aquele não é apenas um príncipe. É um homem que perdeu tudo o que amava e descobriu que o sangue do dragão não serve apenas para ostentação.

— E a moça? — perguntou Egg, olhando para o vulto coberto no convés.

— Foi o preço da liberdade deles. Um preço alto demais, se me perguntar.

Dunk suspirou, sentindo o peso de sua própria espada. Ele sabia que o destino deles agora estava entrelaçado com o de Valarr. Um cavaleiro errante e um príncipe disfarçado, seguindo um herdeiro quebrado em uma guerra que mal havia começado.

***

Três dias depois, as torres de Pedra do Dragão emergiram da névoa como dentes de pedra de um monstro marinho. O castelo era austero, sombrio e carregado de história. Para Valarr, era o lugar perfeito para planejar o que viria a seguir.

Após o sepultamento de Lysaha — um rito silencioso nas criptas próximas ao mar, onde o som das ondas servia como elegia —, Valarr convocou os poucos leais que haviam conseguido escapar da capital.

Na mesa pintada, o mapa dos Sete Reinos parecia um convite à conquista. Baelor estava na cabeceira, mas os olhos de todos estavam em Valarr. Ele vestia novamente sua armadura negra, mas sem o elmo de dragão. Seu rosto estava limpo, mas a expressão permanecia endurecida.

— Aldric não agia sozinho — começou Valarr, sua voz cortando o silêncio da sala. — Ele tinha apoio financeiro de fontes que ainda não identificamos plenamente, provavelmente de Essos ou de casas descontentes da Campina. Mas o ponto fulcral de sua chantagem contra Lysaha eram as Terras da Tempestade.

— Castelo de Poleiro de Grifo — disse um dos batedores que chegara de manhã. — Há relatos de que um destacamento de mercenários Darkmoor se instalou lá sob o pretexto de reforçar as defesas contra piratas. Mas eles mantêm prisioneiros nas masmorras inferiores.

Valarr bateu com a mão na mesa, exatamente sobre o ponto que representava o castelo.

— Eu vou para lá.

— Valarr, é perigoso — interveio Baelor. — Precisamos marchar sobre Porto Real enquanto o caos reina.

— Se não salvarmos a família dela, pai, a vitória não terá sabor — rebateu Valarr. — Eu levarei um grupo pequeno. Dunk e o garoto virão comigo.

Dunk, que estava encostado na parede ao fundo, desencostou-se abruptamente.

— Eu, senhor?

Valarr olhou para o cavaleiro gigante. Ele vira a coragem do homem no porto.

— Vi como você protegeu o garoto e como se moveu nas sombras. Preciso de homens que não sejam reconhecidos como soldados Targaryen. Um cavaleiro errante e seu escudeiro são a cobertura perfeita.

Egg, saindo de trás de Dunk, endireitou as costas.

— Nós iremos, senhor. Dunk é o melhor cavaleiro que eu conheço.

— Assim espero — disse Valarr, voltando-se para o mapa. — Pai, você assume o comando da frota. Bloqueie a Baía da Água Negra. Não deixe que nenhum suprimento chegue a Porto Real. Quando eu retornar com a família Rowen, nos encontraremos nas muralhas da capital.

***

A jornada para as Terras da Tempestade foi feita por terra, após um desembarque discreto na costa. Valarr cavalgava seu garanhão preto, envolto em um manto de viagem cinza que escondia sua armadura. Dunk e Egg o seguiam, a dinâmica entre os três sendo uma mistura de respeito e tensão silenciosa.

— Príncipe — disse Dunk certa noite, enquanto acampavam sob a copa de árvores antigas —, posso fazer uma pergunta?

— Você já está fazendo, Sor Duncan — respondeu Valarr, observando as chamas da fogueira.

— Por que ela? Por que se arriscar tanto por uma família que você nem conhece, por causa de uma mulher que... bem, que o traiu no início?

Valarr pegou um pequeno pingente que pertencera a Lysaha, um objeto simples de madeira que ela carregava escondido.

— Porque ela não me traiu, Dunk. Ela foi uma vítima de circunstâncias que nenhum de nós pode imaginar. Ela me amou o suficiente para morrer por mim. O mínimo que posso fazer é garantir que o sacrifício dela não seja em vão. O mundo pensa que os Targaryen são apenas fogo e fúria, ou loucura e grandeza. Eu quero mostrar que também somos lealdade.

— É uma visão nobre — comentou Egg, sentado de pernas cruzadas. — Meu pai costuma dizer que a lealdade é a moeda mais cara do reino.

Valarr olhou para o menino.

— Seu pai é um homem sábio, Egg. Pena que nem todos na nossa família compartilham dessa sabedoria.

***

Poleiro de Grifo erguia-se majestoso sobre as falésias, mas o ar ao redor do castelo parecia viciado. Eles chegaram ao entardecer, passando-se por viajantes em busca de abrigo antes da tempestade que se armava no horizonte.

O capitão dos mercenários, um homem gordo e com hálito de vinho chamado Vargo, recebeu-os no pátio com desdém.

— Um cavaleiro grande demais para o próprio cavalo, um pirralho e um... — ele parou, olhando para Valarr. — E você? Parece um pouco refinado demais para a estrada, rapaz.

— Sou apenas um escudeiro de uma casa falida em busca de serviço — mentiu Valarr, mantendo a cabeça baixa para que a mecha prateada ficasse escondida sob o capuz. — Meu senhor aqui é Sor Duncan. Ele busca ouro e glória.

Vargo riu, um som desagradável.

— Ouro temos pouco, e glória menos ainda. Mas se souberem manejar o aço, podem passar a noite e talvez tenhamos trabalho para vocês pela manhã.

Eles foram levados para o quartel, onde o cheiro de suor e metal era onipresente. Valarr manteve os sentidos alertas. Ele precisava localizar as masmorras.

No meio da noite, enquanto os mercenários dormiam em um estupor alcoólico, Valarr sinalizou para Dunk.

— Fique aqui e garanta que ninguém saia deste quarto — sussurrou o príncipe. — Egg, você é pequeno e rápido. Preciso que encontre as chaves no cinto do capitão.

— Pode deixar, senhor — disse o garoto, movendo-se com a agilidade de um gato.

Valarr deslizou pelas sombras dos corredores de pedra. Ele sentia a presença de Lysaha ao seu lado, um eco de sua agilidade e furtividade. Ele chegou às escadas que levavam ao subsolo, onde o som de choro baixo e o gotejar de água o guiaram.

Lá, em uma cela úmida, ele encontrou duas mulheres. Uma mais velha, com o rosto marcado pela dor, e uma jovem que era a imagem cuspida de Lysaha, apenas mais nova.

— Quem é você? — perguntou a mulher mais velha, abraçando a filha com força.

— Sou Valarr Targaryen — disse ele, aproximando-se das grades. — Lysaha me enviou.

A menção do nome fez a mulher começar a tremer.

— Onde está minha filha? Onde está Alyssane?

Valarr hesitou por um segundo. A verdade era uma lâmina, mas ele não podia mentir.

— Ela está com os deuses. Ela salvou minha vida e a do meu pai. Ela morreu como uma heroína.

O grito mudo da mãe de Lysaha foi mais doloroso para Valarr do que qualquer ferida de batalha. Mas não havia tempo para o luto.

— Eu prometi a ela que tiraria vocês daqui. Estamos saindo agora.

Egg apareceu nas sombras, balançando um molho de chaves com um sorriso triunfante.

— Consegui, senhor! O capitão nem se mexeu.

Valarr abriu a cela.

— Venham. Não façam barulho.

A fuga pelo castelo foi um exercício de tensão. Eles estavam quase no portão lateral quando um guarda, saindo para aliviar-se, os avistou.

— Intrusos! — gritou o homem, antes que Valarr pudesse alcançá-lo.

O sino de alerta começou a badalar, um som metálico que rasgava a noite.

— Dunk! — gritou Valarr.

O cavaleiro gigante surgiu no pátio, já empunhando sua espada.

— Vão para o portão! Eu seguro eles!

— Não sozinho — disse Valarr, sacando sua própria lâmina. — Egg, leve-as para os cavalos. Estão escondidos na mata além da ponte.

— Mas senhor... — começou Egg.

— Vá! — ordenou Valarr.

O príncipe e o cavaleiro errante ficaram lado a lado enquanto os mercenários saíam dos quartéis, ainda desorientados, mas armados.

— Parece que vamos ter nossa cota de glória afinal, Sor Duncan — disse Valarr, um sorriso frio surgindo em seus lábios.

— Eu preferia o ouro, príncipe — respondeu Dunk, mas sua postura era firme como uma rocha.

A luta foi curta e brutal. Valarr movia-se com uma elegância letal, sua espada traçando arcos de prata na escuridão. Ele não era apenas um esgrimista; ele era uma força da natureza, impulsionado pela promessa feita a uma morta. Dunk, por sua vez, era um moinho de destruição, usando sua força imensa para derrubar qualquer um que se aproximasse.

Eles abriram caminho até o portão, deixando para trás uma trilha de homens caídos. Quando alcançaram a mata, Egg já tinha os cavalos prontos.

— Elas estão seguras? — perguntou Valarr, ofegante.

— Sim, senhor. Já estão montadas — respondeu o garoto.

Valarr olhou para trás, para o Castelo de Poleiro de Grifo. Ele sentiu uma pontada de satisfação. Uma parte de sua promessa fora cumprida.

— Vamos — disse ele. — Temos um reino para retomar.

***

O retorno para Pedra do Dragão foi marcado por um silêncio solene. Luieny e Cassye Rowen foram instaladas nos melhores aposentos, tratadas com a honra que a família de uma salvadora merecia.

Baelor Quebra-Lança recebeu o filho no cais.

— Você conseguiu — disse o pai, olhando para as mulheres que desembarcavam.

— Eu cumpri minha palavra, pai. Agora, Porto Real.

— A frota está pronta. Maekar enviou uma mensagem secreta. Os mercenários estão desertando em massa. O nome Darkmoor agora é sinônimo de maldição.

Valarr olhou para o mar, onde seus navios balançavam, prontos para a guerra.

— Aldric morreu como um cão, mas as ideias que ele plantou ainda estão lá. Eu não quero apenas o trono de volta, pai. Eu quero que o povo saiba que o dragão protege os seus.

Naquela noite, Valarr subiu ao ponto mais alto de Pedra do Dragão. Ele olhou para o pingente de madeira em sua mão e depois para as estrelas.

— Eu as salvei, Lysie — sussurrou ele para o vento. — Sua irmã e sua mãe estão seguras.

Ele sentiu uma brisa leve tocar seu rosto, quase como um beijo.

— Agora — continuou ele, seus olhos brilhando com a determinação de um futuro rei —, eu vou queimar o que restou daquela traição. E vou construir um reino onde ninguém precise mentir para sobreviver.

Ele se virou e desceu as escadas. O Príncipe Valarr Targaryen, o jovem promissor e ousado, estava pronto para assumir seu destino. Ele não era mais apenas o herdeiro de Baelor; ele era o homem que aprendera o valor do sacrifício e o peso da lealdade.

A guerra pelo Trono de Ferro estava chegando ao fim, mas a lenda de Valarr e da guerreira que o salvou estava apenas começando. Nos livros de história, ele seria lembrado como o Príncipe Bicolor, aquele que via o mundo de duas formas: com a justiça do azul e a paixão do marrom. E ao seu lado, mesmo invisível, estaria sempre a sombra de uma guerreira morena com um sorriso fácil, lembrando-o de que, às vezes, o amor é a única armadura que realmente importa.