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A seleção do desprezo

O Segredo sob o Avental

O outono em Illéa trouxe consigo uma brisa gelada que parecia se infiltrar pelas frestas das janelas de pedra do palácio, mas nada era mais frio do que o vazio no peito de Clara. Três meses haviam se passado desde que a Seleção começara, e o palácio agora orbitava inteiramente em torno de América Singer. Maxon não era mais o jovem que buscava refúgio na biblioteca; ele era um homem apaixonado, cujos olhos brilhavam com uma intensidade que Clara nunca fora capaz de despertar, por mais que ele tivesse jurado, um dia, que ela era seu porto seguro.

Clara ajustou o avental, sentindo uma pontada familiar de náusea. O tecido cinza, que já era justo, agora parecia sufocá-la. Ela não era mais apenas a "Seis gordinha" que os guardas ignoravam; ela carregava um segredo que crescia silenciosamente dentro de si, um segredo que tinha o sangue da realeza e o destino de uma casta inferior.

— Você está pálida de novo, Clara. — A voz era baixa e firme, vinda de trás de uma das colunas do corredor leste.

Clara se sobressaltou, levando a mão ao ventre de forma instintiva antes de disfarçar, fingindo ajeitar a bandeja de prata. Ela olhou para cima e encontrou os olhos preocupados de Kael, um soldado da guarda que, nas últimas semanas, se tornara sua única âncora de sanidade.

— É apenas o cansaço, Kael. O turno da manhã foi pesado — mentiu ela, forçando um sorriso que não chegava aos olhos.

Kael aproximou-se, ignorando o protocolo que exigia distância entre soldados e criadas. Ele era um Dois, mas não agia como tal. Ele via Clara. Não a Clara que servia chá, mas a mulher que tentava não desmoronar.

— Você não engana ninguém, pelo menos não a mim — sussurrou ele, estendendo a mão para estabilizar a bandeja dela quando percebeu que seus dedos tremiam. — Você precisa comer algo substancial, não apenas as sobras da cozinha. E precisa descansar.

— Eu não posso. Se eu falhar, eles me mandam de volta para casa, ou pior — respondeu ela, a voz embargada. — E agora... agora eu não posso me dar ao luxo de ser mandada embora.

Kael olhou ao redor, garantindo que nenhum outro guarda ou selecionada estivesse por perto. Ele colocou a mão sobre o ombro de Clara, um gesto de proteção que a fez querer chorar.

— Eu sei, Clara. Eu desconfio do que está acontecendo. E eu vou proteger você. Se ele não vai assumir o que fez, eu não vou deixar você enfrentar isso sozinha.

Clara sentiu um nó na garganta. Kael sabia. Ele não precisava de palavras; ele tinha visto as mudanças sutis no corpo dela, o cansaço excessivo, o brilho de medo nos olhos. Ele era o único que não a tratava como um móvel ou como um erro.

Enquanto isso, no Salão Principal, o riso de América Singer ecoava, atraindo Maxon como um imã. Ele estava radiante. A Seleção estava chegando ao fim, e todos sabiam quem seria a escolhida. O príncipe estava tão imerso em seu conto de fadas que o mundo real — o mundo das engrenagens que faziam o palácio funcionar — havia deixado de existir para ele.

Naquela tarde, Clara foi chamada para servir o lanche no jardim privado. Maxon e América estavam sentados em um banco de pedra, as mãos entrelaçadas. O sol poente banhava o casal em uma luz dourada, fazendo-os parecer uma pintura de perfeição.

— Com licença, Vossa Alteza. Senhorita Singer — disse Clara, aproximando-se com a cabeça baixa.

O cheiro dos bolinhos de canela, os favoritos de Maxon, atingiu o estômago de Clara como um soco. Ela sentiu o mundo girar. O suor frio brotou em sua testa e a bandeja pareceu pesar cem quilos.

— Oh, Clara, obrigada! — disse América, com sua habitual gentileza. — Você parece exausta, quer sentar um pouco?

Maxon finalmente desviou o olhar de América para Clara. Por um microssegundo, a expressão de adoração desapareceu, substituída por uma irritação impaciente.

— América, ela é uma funcionária, tem seus deveres — disse Maxon, o tom de voz cortante, como se a sugestão de América fosse um insulto à etiqueta. — Pode deixar a bandeja sobre a mesa, Clara. Pode ir.

Clara tentou se inclinar para colocar a bandeja, mas a tontura foi mais forte. Seus joelhos fraquejaram e ela cambaleou. Antes que a bandeja caísse, uma mão firme segurou seu braço, evitando o desastre.

Era Kael. Ele estava de guarda por perto e agira antes que Maxon sequer se levantasse da cadeira.

— Eu cuido disso, Alteza — disse Kael, a voz carregada de um desdém que ele mal conseguia esconder. — A senhorita parece estar passando mal devido ao calor.

Maxon levantou-se, o cenho franzido. Ele olhou para a mão de Kael segurando o braço de Clara, e algo primitivo e irracional brilhou em seus olhos. Ele não amava mais Clara, ele a havia descartado, mas a visão de um soldado tocando-a com tanta familiaridade e cuidado despertou uma posse que ele não sabia que ainda sentia.

— Soldado, seu posto é na entrada do jardim, não servindo mesas — disse Maxon, a voz subindo de tom. — Solte-a.

— Com todo o respeito, senhor — rebateu Kael, mantendo-se firme e ajudando Clara a se endireitar —, a integridade dos funcionários também faz parte da segurança do palácio. Ela vai desmaiar se não for levada para a enfermaria agora.

Clara sentiu o olhar de Maxon queimar sobre ela. Ele não olhava com preocupação; ele olhava com julgamento. Ele notou, pela primeira vez em semanas, como o avental de Clara estava esticado sobre seu abdômen. Ele notou como ela buscava apoio no braço de Kael.

— Vá para o seu dormitório, Clara — ordenou Maxon, ignorando América, que observava a cena com confusão. — Agora. E você, soldado, apresente-se ao seu capitão por insubordinação.

— Maxon! — exclamou América, chocada com a rispidez dele. — Ele só estava ajudando!

Clara não esperou. Com as poucas forças que lhe restavam, ela se soltou de Kael e caminhou rapidamente para longe, as lágrimas finalmente escapando e escorrendo pelo rosto. Ela não foi para o dormitório; ela foi para as cozinhas, tentando desaparecer na rotina exaustiva, mas a raiva de Maxon não havia se dissipado.

Horas depois, quando o palácio estava mergulhado no silêncio da madrugada, Clara estava terminando de limpar o refeitório dos funcionários quando a porta se abriu com um estrondo. Maxon entrou, o rosto vermelho de fúria. Ele não parecia o príncipe gentil que América conhecia; ele parecia o rei Clarkson em seus piores dias.

— O que foi aquilo no jardim? — perguntou ele, caminhando em direção a ela. — Desde quando você se tornou tão íntima da guarda, Clara? Uma Seis deitando-se com soldados... que clichê deplorável.

Clara parou de esfregar a mesa. A humilhação ardeu em suas veias, transformando-se em uma coragem fria.

— O senhor não tem o direito de questionar minha conduta, Alteza — disse ela, mantendo a voz baixa, mas firme. — O senhor deixou bem claro que eu sou apenas uma empregada. O que eu faço no meu tempo livre não é de sua conta.

Maxon soltou uma risada amarga, aproximando-se até que ela pudesse sentir o cheiro de vinho em seu hálito.

— Não é da minha conta? Você trabalha no meu palácio! Você era... — Ele hesitou, a palavra "minha" morrendo em sua garganta. — Você era alguém em quem eu confiava. E agora vejo você se jogando nos braços de um Dois qualquer para chamar atenção? É por isso que engordou tanto? Para tentar seduzir os guardas já que não consegue mais me segurar?

O tapa ecoou pelo refeitório vazio antes que Clara pudesse processar o que havia feito. Sua mão ardia, e o rosto de Maxon estava virado para o lado, a marca de seus dedos começando a aparecer na pele clara.

— Como ousa? — sibilou ele, os olhos injetados de sangue.

— Como o senhor ousa? — rebateu ela, a voz trêmula de ódio. — O senhor me usou enquanto era conveniente! O senhor me descartou no momento em que uma garota de casta superior e rosto bonito apareceu! O senhor fala de caráter, de justiça, mas não consegue ver o que está bem diante do seu nariz porque está ocupado demais sendo adorado pela América!

Maxon avançou, segurando os pulsos dela com força.

— Você está demitida, Clara. Vou garantir que você e seu soldado sejam jogados nas ruas de Angeles antes do amanhecer.

— Então jogue! — gritou ela, as lágrimas caindo livremente agora. — Me jogue nas ruas! Mas saiba que, quando o fizer, estará condenando seu próprio filho à miséria!

O silêncio que se seguiu foi ensurdecedor. Maxon congelou. Seus dedos afrouxaram o aperto nos pulsos de Clara, e ele recuou um passo, como se tivesse levado um tiro. Ele olhou para o ventre dela, depois para o rosto banhado em lágrimas, e a compreensão começou a se infiltrar em sua mente como um veneno.

— O quê? — sussurrou ele, a voz subitamente rouca.

— Eu tentei te contar — disse ela, soluçando, abraçando o próprio corpo. — Naquela noite no seu escritório, eu ia dizer. Mas você só falava da América. Você só falava do quanto ela era "especial" e "autêntica". Você me tratou como se eu fosse lixo, Maxon. Como se as noites que passamos juntos nunca tivessem existido.

— Não... — Maxon balançou a cabeça, o pânico substituindo a raiva. — Não pode ser meu. Você e aquele soldado...

— Kael é o único que me tratou como um ser humano nestes últimos meses! — gritou Clara. — Ele me ajudou quando eu não conseguia parar de vomitar, ele me trouxe comida quando eu estava fraca demais para andar, enquanto você passava por mim nos corredores e nem lembrava o meu nome! Ele é mais pai para essa criança do que você jamais teria coragem de ser, porque você é um covarde, Maxon! Você tem medo do seu pai, tem medo do que a América vai pensar, tem medo de tudo o que não está no seu roteiro de príncipe perfeito!

Maxon sentiu o mundo desabar. A imagem que ele construíra de si mesmo — o homem justo, o futuro rei benevolente — estilhaçou-se. Ele olhou para Clara e, pela primeira vez em muito tempo, não viu a "Seis gordinha" ou a "criada invisível". Ele viu a mulher que ele tinha amado em segredo, a mulher que agora o olhava com um desprezo que ele sabia que merecia.

— Clara, eu não sabia... eu... — Ele tentou se aproximar, mas ela recuou, encostando-se na parede.

— Não toque em mim. Nunca mais toque em mim.

A porta do refeitório se abriu novamente, e Kael entrou. Ele não hesitou ao ver o príncipe; ele caminhou direto para o lado de Clara, colocando um braço protetor ao redor dela.

— O senhor já causou dano suficiente por uma noite, Alteza — disse Kael, sua voz era uma lâmina de gelo.

Maxon sentiu uma onda de ciúmes e raiva borbulhar novamente, mas desta vez, estava misturada com uma culpa sufocante.

— Ela está grávida, soldado — disse Maxon, tentando recuperar alguma autoridade, embora sua voz tremesse. — Ela carrega um herdeiro de Illéa. Você não tem lugar aqui.

— Eu tenho o lugar que o senhor abandonou — respondeu Kael, olhando Maxon nos olhos, desafiando a coroa que ele usava. — Eu a amo. E eu vou cuidar dela e desse bebê, seja neste palácio ou na sarjeta. O senhor tem a sua Seleção, tem a sua América e tem o seu trono. Deixe Clara em paz.

Maxon abriu a boca para ordenar a prisão de Kael, para exigir que Clara ficasse, para reivindicar o que era "seu". Mas ele olhou para a forma como Clara se aninhava no abraço do soldado, buscando um conforto que ele, o príncipe, nunca soubera dar de verdade. Ele percebeu que, no momento em que escolhera a opinião de América e o brilho das câmeras sobre a lealdade silenciosa de Clara, ele a perdera para sempre.

— Saiam — disse Maxon, a voz quase inaudível, dando as costas para eles. — Saiam antes que eu mude de ideia.

Clara não olhou para trás. Com o apoio de Kael, ela caminhou em direção à escuridão do corredor, deixando para trás o príncipe e seu palácio de ilusões. Ela ainda era uma Seis, ainda estava grávida e o futuro era incerto e perigoso. Mas, enquanto sentia a mão firme de Kael na sua, ela soube que, pela primeira vez, não era mais invisível. Ela era Clara, e ela sobreviveria, longe da sombra de uma coroa que nunca foi feita para ela.