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A seleção do desprezo

O Sangue e a Sombra

O tempo no palácio de Illéa parecia correr de forma diferente para aqueles que viviam nos seus extremos. Para Maxon, os meses que se seguiram à partida de Clara foram um borrão de vestidos de gala, debates políticos e o perfume de jasmim que sempre acompanhava América Singer. No entanto, por trás da fachada do príncipe perfeito que finalmente encontrara sua escolhida, havia um homem consumido pela paranoia. Ele não expulsara Clara das terras do palácio como ameaçara; em vez disso, ele a realocara para uma pequena propriedade nos limites da província de Angeles, sob o pretexto de "serviços especiais". Na realidade, era uma gaiola dourada vigiada por guardas de sua total confiança.

Maxon bebia seu café no escritório, os olhos fixos em um relatório que não tinha nada a ver com o Estado. Era o relatório semanal do General Leger sobre a "Propriedade 42".

— Ela deu à luz ontem à noite, senhor — disse o General, entrando na sala sem precisar ser anunciado.

Maxon sentiu o coração falhar uma batida. Ele largou a caneta, as mãos subitamente úmidas.

— E como ela está? — A voz de Maxon saiu mais rouca do que ele pretendia.

— Clara está bem. O parto foi difícil, mas ela é forte. O soldado Kael não saiu do lado dela nem por um segundo.

Maxon apertou o maxilar ao ouvir o nome do guarda. A menção a Kael ainda agia como ácido em suas veias.

— E a criança? — perguntou Maxon, levantando-se e caminhando até a janela que dava para os jardins onde América costumava caminhar.

— É um menino, Alteza. E, com todo respeito... o senhor precisa vê-lo. Não há como negar.

Duas horas depois, Maxon estava em uma carruagem descaracterizada, cruzando as estradas de terra. Quando chegou à pequena casa de campo, o silêncio do lugar o atingiu. Não havia trombetas, não havia criados correndo. Apenas o som do vento nas árvores.

Ele entrou na casa sem bater. No quarto pequeno, banhado pela luz suave da tarde, Clara estava sentada na cama, encostada em travesseiros simples. Ela parecia mais magra, mas havia uma dignidade em seu rosto que Maxon nunca vira antes. Nos braços dela, um embrulho de mantas azuis.

Kael estava em um canto da sala, a mão no punho da espada, os olhos desafiadores. Maxon o ignorou e caminhou até a beira da cama.

— Clara — sussurrou ele.

— Vossa Alteza — respondeu ela, a voz fria como o gelo de um inverno rigoroso. Ela não fez menção de se curvar. Ela não era mais uma criada; ela era uma mãe protegendo sua cria.

Maxon olhou para baixo e sentiu o ar fugir de seus pulmões. O bebê dormia profundamente. O cabelo era de um loiro acinzentado idêntico ao dele. O formato do nariz, a linha do maxilar, até a pequena covinha no queixo... era como olhar para uma miniatura de si mesmo em uma pintura antiga da família real. Não era apenas um filho; era o seu reflexo.

— Ele é... ele é exatamente como eu — murmurou Maxon, estendendo a mão trêmula para tocar a bochecha do bebê.

Clara desviou o corpo levemente, impedindo o toque.

— Ele tem o seu rosto, Maxon — disse ela, usando o nome dele sem títulos pela primeira vez em público —, mas eu farei de tudo para que ele não tenha o seu coração. Eu farei dele um homem que cumpre promessas.

— Eu posso dar tudo a ele, Clara. Posso legitimá-lo, posso dar títulos, educação...

— O senhor já deu a ele o que ele precisava: a distância — interrompeu ela. — Ele tem um pai, Maxon. Kael o recebeu antes mesmo de ele nascer. O senhor é apenas o homem que assina os cheques da nossa sobrevivência forçada.

Maxon recuou, sentindo o peso da coroa esmagar sua alma. Ele olhou para Kael, que mantinha uma expressão de triunfo silencioso. O príncipe herdeiro de Illéa tinha tudo, mas naquele quarto, ele era o homem mais pobre do reino.

— Eu voltarei — disse Maxon, tentando recuperar um pouco de sua autoridade perdida. — Ele é um Schreave. O sangue dele pertence ao trono.

— O sangue pode ser seu — disse Clara, os olhos brilhando com uma fúria contida —, mas a alma dele é minha. Agora saia. A senhorita Singer deve estar sentindo sua falta.

Maxon saiu da casa sentindo-se sufocado. O ódio por si mesmo e a inveja de Kael formavam uma mistura tóxica em seu peito. Ao retornar ao palácio, ele não procurou o conforto de América. Em vez disso, ele foi direto para a sala de monitoramento das câmeras de segurança, um lugar que ele vinha frequentando com uma frequência doentia.

Ele começou a revisar as gravações dos corredores, das áreas comuns, de tudo. Ele precisava descontar sua frustração em algo. Se ele não podia ter a pureza do amor que Clara e Kael compartilhavam, ele precisava garantir que o seu próprio "conto de fadas" com América fosse impecável.

Mas o que ele encontrou destruiu o último pilar de sua sanidade.

Nas sombras de um corredor pouco frequentado, perto da ala dos guardas, a câmera captou dois vultos. Maxon deu zoom, o coração batendo contra as costelas. Era América. Ela estava falando com um guarda. Um guarda que Maxon conhecia bem: Aspen Leger.

— Eu não posso continuar fazendo isso, Aspen — dizia a voz de América, captada pelo microfone de alta sensibilidade que Maxon mandara instalar secretamente.

— Você o ama? — perguntou Aspen, a voz carregada de uma dor que Maxon reconheceu instantaneamente. Era a mesma dor que ele sentia ao olhar para Clara.

— Eu... eu sinto algo por ele, mas não é como nós. Nunca será como nós — respondeu América, e então, para o horror absoluto de Maxon, ela se inclinou e beijou o guarda. Não foi um beijo de despedida casual. Foi um beijo de quem pertencia a outro lugar, a outra pessoa.

Maxon sentiu o mundo girar. Ele se apoiou na mesa, as unhas cravando na madeira.

— Então é isso — sibilou ele para a tela vazia, enquanto as lágrimas de raiva começavam a cair. — Todos eles. Todos eles me usam.

Ele pensou em Clara, na pequena casa de campo, cuidando de um filho que tinha o seu rosto, mas que nunca o chamaria de pai. Pensou em como ela fora leal, em como ela o amara quando ele não era nada além de um príncipe assustado. Ela nunca o traíra. Ela suportara o desprezo, a gordofobia das outras garotas e a sua própria indiferença, tudo para proteger o que eles tinham.

E ele a trocara por América. Uma garota que trazia o seu antigo amante para dentro das paredes do palácio, que o beijava nas sombras enquanto aceitava as joias da coroa à luz do dia.

— Alteza? — A voz de um dos técnicos de segurança o assustou. — O senhor está bem?

Maxon limpou o rosto rapidamente, a máscara de frieza voltando ao lugar, mas agora com uma rachadura permanente e sombria.

— Estou perfeitamente bem — disse ele, a voz desprovida de qualquer emoção. — Prepare uma escolta. Vou visitar a Propriedade 42 novamente amanhã. E mande prender o soldado Aspen Leger por traição. Quanto à senhorita Singer... não diga nada a ela. Quero que ela continue sorrindo para as câmeras.

Maxon saiu da sala com passos firmes. Ele percebeu que o amor era uma fraqueza que ele não podia mais se dar ao luxo de ter. Clara tinha razão: ele era um covarde. Mas ele não seria mais o covarde que perdia.

Naquela noite, ele não dormiu. Ele ficou sentado em seu trono no salão escuro, imaginando o rosto do seu filho. O bebê era idêntico a ele. Era a sua única verdade em um mar de mentiras. Se o mundo de Illéa queria um rei, ele daria um rei. Mas se o mundo queria o Maxon que um dia amou uma criada gordinha e inteligente na biblioteca, esse homem estava morto, enterrado sob o peso de traições que ele mesmo ajudara a construir.

No dia seguinte, ao chegar novamente na casa de Clara, ele não pediu permissão para entrar. Ele entrou como o soberano que era. Clara estava amamentando, e Kael se colocou à frente dela imediatamente.

— Saia, soldado — ordenou Maxon. — Desta vez, não é um pedido. Se você não sair, seus pais e seus irmãos nas castas inferiores sofrerão as consequências antes do pôr do sol.

Kael empalideceu, olhando para Clara. Ela assentiu levemente, o medo brilhando em seus olhos pela primeira vez. Kael saiu, fechando a porta com força.

Maxon sentou-se na cadeira ao lado da cama. Ele olhou para o bebê, que agora estava acordado, revelando olhos castanhos que, embora não fossem azuis como os dele, tinham a mesma intensidade.

— Eu sei sobre a América — disse Maxon, sem preâmbulos.

Clara parou o movimento de ninar o filho. Ela olhou para ele, e por um momento, a frieza dela vacilou para dar lugar a uma nota de piedade.

— Eu sinto muito, Maxon. De verdade.

— Não sinta — rebateu ele. — Eu tive o que mereci. Eu busquei o brilho e ignorei a luz. Mas eu não vou deixá-la ganhar. Eu não vou ser o corno de Illéa enquanto você vive aqui com o seu soldado perfeito e o meu filho.

— O que você vai fazer? — perguntou ela, apertando o bebê contra o peito.

— Você vai voltar para o palácio. Não como criada. Eu vou criar um cargo para você, algo na administração, longe dos olhos do público, mas perto de mim. O bebê será criado na creche real. Ele terá o melhor de tudo.

— E Kael?

— Ele continuará sendo o guarda da sua ala. Eu não sou um monstro, Clara... ainda não. Eu preciso de algo real por perto, ou eu vou enlouquecer naquele ninho de cobras.

Clara olhou para o filho, depois para o homem destruído à sua frente. Ela viu a solidão de Maxon, uma solidão que ela mesma conhecia bem.

— Você quer que eu seja sua consciência de novo — disse ela, tristemente. — Você quer que eu te lembre de quem você era antes da Seleção.

— Eu quero que você seja a única pessoa que não mente para mim — confessou ele, a voz quebrada. — Mesmo que a verdade doa como um tapa no rosto.

Clara suspirou, as lágrimas caindo sobre a manta do bebê. Ela sabia que sua liberdade acabara ali. Ela voltaria para o palácio, para a sombra, para o serviço profissional que ela executava tão bem. Ela veria Maxon fingir amar América para o povo, enquanto nos bastidores, ele buscaria o conforto de sua presença e o rosto do filho que ele nunca poderia admitir publicamente ser seu.

— Eu volto — disse ela, finalmente. — Mas com uma condição.

— Qual?

— Nunca peça para eu te amar de novo. Esse homem que está aqui agora... eu não o conheço.

Maxon fechou os olhos, absorvendo o golpe.

— Aceito — disse ele.

Enquanto ele saía da casa, o sol de Illéa brilhava intensamente, mas para Maxon, o mundo estava mergulhado em um crepúsculo eterno. Ele tinha o seu herdeiro, tinha a sua "favorita" sob controle e tinha a única mulher que realmente o conhecia de volta ao seu alcance. Ele tinha tudo o que um rei poderia desejar, e no entanto, ao olhar para o próprio reflexo no vidro da carruagem, ele viu apenas um estranho usando uma coroa de espinhos invisíveis.

A Seleção continuaria. O casamento com América seria o evento do século. Mas nas entranhas do palácio, uma Seis gordinha e seu filho de sangue real seriam os verdadeiros guardiões do coração de pedra de um rei que aprendeu, tarde demais, que a opinião que mais importava era a da única pessoa que ele não podia mais ter por inteiro.