Voltar ao resumo

A transmissão

O Triunfo do Sangue e o Caos da Matilha

Nove meses haviam se passado desde que o mundo descobriu que o "plebeu" da Academia Colosso era, na verdade, o herdeiro mais letal dos Baskerville. Mas se a revelação da identidade de Vikir foi um terremoto, o que estava prestes a acontecer na mansão principal do clã seria o fim dos tempos.

Vikir van Baskerville caminhava pelos portões de ferro da propriedade da família com a expressão de um homem que sobreviveu a dez guerras mundiais, mas que estava prestes a perder para a fadiga. Ao seu lado, ou melhor, apoiadas nele, estavam suas duas noivas.

Dolores, a Santa, caminhava com dificuldade, o ventre imenso sob o vestido de seda branca indicando que o momento estava próximo. Ela segurava o braço esquerdo de Vikir com uma força surpreendente para alguém tão doce. Do outro lado, Camus de Morg, a herdeira do fogo, exalava uma aura de irritação que fazia a grama ao redor secar. Ela segurava o braço direito dele, bufando a cada passo.

— Vikir, você está andando rápido demais! — reclamou Camus, parando abruptamente. — Você quer que seus filhos nasçam aqui mesmo no jardim, entre as estátuas de lobo?

— Eu estou andando na velocidade de uma cágado, Camus — respondeu Vikir, sua voz mantendo a neutralidade gélida, embora houvesse uma olheira profunda sob seus olhos vermelhos.

— Não fale assim com ela, Vikir! — Dolores interveio, os olhos marejados de repente. — Ela só está preocupada... e eu também estou. Você não nos ama mais? É por isso que está andando na frente?

Vikir suspirou, fechando os olhos por um segundo.

— Eu amo vocês. Eu não estou andando na frente. Eu sou o eixo que mantém vocês duas em pé.

No topo da escadaria da mansão, Hugo van Baskerville, o temido Patriarca de Ferro, aguardava a chegada do filho. Ele esperava um relatório de missão ou talvez uma discussão política. O que ele viu foi o seu filho "executor" carregando as duas mulheres mais influentes do continente, ambas em estado avançado de gestação.

Hugo estacou. Seus olhos se arregalaram, e pela primeira vez em décadas, a aura de pressão absoluta que ele emanava vacilou. Ele cambaleou para trás, a mão buscando o batente da porta para não cair.

— Pai? — Vikir chamou, aproximando-se.

— Vikir... — a voz de Hugo saiu rouca, quase um sussurro de descrença. — O que... o que é isso?

— São seus netos, pai — respondeu Vikir de forma direta. — Dois deles.

Osiris, que vinha logo atrás do pai, soltou o pergaminho que carregava. Ele olhou para o ventre de Dolores, depois para o de Camus, e finalmente para o rosto exausto do irmão. Ele se sentou nos degraus da escada, as pernas subitamente sem força.

— Por todos os deuses... — murmurou Osiris, cobrindo o rosto com as mãos antes de soltar uma risada histérica. — O Cão de Caça não apenas caçou, ele povoou um ecossistema inteiro!

A notícia se espalhou pela mansão como um incêndio. Peri, que agora tinha cinco anos e exalava uma aura de pequena predadora, correu pelo corredor com Pomeria, que aos dez anos já demonstrava a elegância e a frieza de uma verdadeira Baskerville.

— Eu vou ser irmã mais velha! — gritou Peri, saltando no pescoço de Vikir, que a segurou com um braço enquanto equilibrava as duas grávidas com o corpo. — Eu vou ensinar eles a morderem as canelas dos inimigos!

— E eu vou ter primas! — Pomeria exclamou, os olhos brilhando. — Vou dar a elas as minhas melhores adagas de treino!

Hugo, recuperando-se do choque inicial, subitamente mudou de postura. O homem que era conhecido por decapitar inimigos sem piscar transformou-se em um segundo.

— Guardas! — Hugo rugiu, sua voz ecoando por toda a propriedade. — Preparem as alas leste e oeste! Tragam os melhores médicos do império! Se um único degrau estiver escorregadio, eu mandarei demolir esta mansão e construir uma nova de veludo!

— Pai, não exagere — tentou dizer Vikir, mas foi ignorado.

— Exagerar? — Hugo virou-se para o filho, os olhos brilhando com uma intensidade maníaca. — Vikir, você trouxe a Santa e a herdeira Morg para a linhagem Baskerville ao mesmo tempo. Você acaba de garantir a supremacia deste clã por mais quinhentos anos!

Os dias seguintes foram um teste de resistência para Vikir que nem mesmo o treinamento nas profundezas do abismo o preparara. Com o retorno à mansão, as personalidades das noivas atingiram níveis extremos.

Dolores tornou-se a personificação da carência. Ela seguia Vikir por todos os cantos, chorando se ele ficasse mais de cinco minutos em silêncio.

— Vikir... onde você vai? — perguntou ela, agarrando a barra de sua camisa enquanto ele tentava sair para uma reunião estratégica com os generais do clã.

— Eu preciso ir à sala de guerra, Dolores. É sobre as fronteiras — explicou ele, tentando ser gentil.

— As fronteiras podem esperar! — ela soluçou. — Seus filhos estão sentindo sua falta aqui dentro! Você prefere mapas de papel a nós?

Vikir olhou para a porta, onde os generais esperavam, e depois para Dolores. Ele suspirou e voltou para o sofá.

— Avisem que a reunião está cancelada — ordenou Vikir para um guarda encabulado. — A Santa decretou estado de emergência afetiva.

Enquanto isso, Camus era o oposto. Ela estava constantemente irritada, e qualquer coisa — desde a cor das cortinas até o som da respiração de Vikir — era motivo para uma explosão de mana flamejante.

— Vikir! — gritou ela do quarto.

Vikir entrou rapidamente, já esperando o pior.

— O que foi, Camus?

— Você me deu um beijo a menos hoje cedo! — acusou ela, apontando um dedo trêmulo para ele. — Eu contei! Foram três na Dolores e só dois em mim! Você está me negligenciando porque eu estou parecendo um vulcão prestes a explodir?

— Camus, eu beijei você quando acordei, quando saí para o banho e quando voltei — defendeu-se Vikir.

— O do banho não contou, foi rápido demais! — ela bufou, faíscas saindo de seus cabelos. — Senta aqui agora e me compensa!

Vikir sentou-se na cama, sendo imediatamente puxado por Camus, enquanto Dolores, sentindo a movimentação, apareceu e sentou-se no colo dele, rindo da situação e aproveitando para ganhar mais carinho.

No meio desse caos doméstico, Osiris recebeu uma notificação da Academia Colosso. Vikir e as noivas estavam com faltas excessivas, e a diretoria exigia uma explicação formal.

Osiris, sentindo-se o mestre das cerimônias do caos, decidiu resolver o problema à sua maneira. Ele montou o artefato de transmissão mágica no meio da sala de estar principal da mansão Baskerville.

— Atenção, gado acadêmico da Colosso! — a voz de Osiris ecoou pelos alto-falantes da escola, capturando a atenção de todos os alunos e professores. — Eu sei que vocês sentem falta do nosso "plebeu" favorito e de suas ilustres noivas.

A câmera mágica focou na sala. Ao fundo, no tapete de pele de urso, Hugo van Baskerville estava sentado no chão, completamente desarmado, brincando de "chá de bonecas" com Pomeria e Peri. O Patriarca de Ferro segurava uma xícara minúscula de porcelana com o dedo mindinho levantado, enquanto Peri tentava colocar um laço rosa em sua cabeça.

— Coma o biscoito, vovô Hugo! — ordenou Peri, enfiando um doce na boca do homem mais temido do império.

— Sim, pequena loba... está delicioso — murmurou Hugo, parecendo o homem mais feliz do mundo.

A câmera então virou para o sofá principal. Vikir estava sentado, parecendo exausto. Dolores estava sentada em seu colo, rindo e acariciando o rosto dele, enquanto Camus estava encostada em seu ombro, dando-lhe uma bronca audível.

— ...e se você esquecer de novo, eu vou queimar todas as suas capas pretas, Vikir! — dizia Camus, cruzando os braços sobre a barriga enorme. — Você ouviu?

Vikir apenas acenou com a cabeça, os olhos meio fechados, abraçando as duas com um braço para cada uma, protegendo seu tesouro.

Osiris voltou para a frente da câmera, rindo de orelha a orelha.

— Como podem ver, o Cão de Caça está ocupado com assuntos de "segurança nacional". A Santa e a herdeira Morg estão em repouso absoluto para garantir que a próxima geração de monstros Baskerville nasça com saúde!

Os alunos na academia assistiam à cena em um silêncio absoluto de choque. Ver Hugo van Baskerville brincando com crianças e Vikir sendo dominado por duas grávidas era algo que ninguém jamais imaginou.

— E para aqueles que duvidaram da eficiência do meu irmão... — Osiris aproximou-se da câmera, os olhos brilhando de alegria. — EU VOU SER TIO OUTRA VEZ, CARALHO! E EM DOSE DUPLA!

Ele encerrou a transmissão com uma gargalhada estrondosa que pôde ser ouvida em toda a mansão.

Vikir olhou para o irmão, depois para o pai brincando no chão, e finalmente para as duas mulheres em seus braços. Apesar do cansaço, apesar das mudanças de humor e apesar do caos que sua vida havia se tornado, ele sentiu uma estranha paz.

Ele havia passado a vida sendo uma ferramenta de morte, um cão de caça treinado para morder e rasgar. Mas ali, cercado pelo calor de sua família, ele percebeu que a verdadeira força de um Baskerville não estava apenas no ferro de sua espada, mas na ferocidade com que ele protegia o que era seu.

— Vikir? — Dolores chamou baixinho, encostando a cabeça em seu peito.

— Sim?

— Você está feliz? — perguntou ela, olhando-o com aqueles olhos puros que sempre pareciam ler sua alma.

Vikir olhou para a barriga dela, depois para a de Camus, e deu um beijo no topo da cabeça de cada uma.

— Eu nunca estive tão cansado em toda a minha vida — admitiu ele, a voz suavizando. — Mas sim. Eu estou exatamente onde deveria estar.

Hugo, do outro lado da sala, levantou a xícara de chá invisível em direção ao filho, um sorriso raro e genuíno cruzando seu rosto severo. O clã Baskerville estava mudando, e sob o comando do Cão de Caça de Ferro e suas rainhas, o futuro nunca pareceu tão brilhante — ou tão barulhento.