a vampira e o gorgona
O Troféu de Veludo e Veneno
O ar em Nunca Mais estava carregado com o cheiro de grama cortada, suor e a eletricidade residual de uma vitória épica. O torneio inter-espécies anual — uma competição brutal que misturava força física e habilidades sobrenaturais — havia chegado ao fim, e o resultado fora histórico. Ajax Petropolus, o górgona que muitos subestimavam por seu jeito avoado e sua timidez crônica, fora o herói improvável. No último segundo, ele conseguiu desviar de um ataque sônico de um dos sereios e marcou o ponto decisivo, garantindo o troféu para o time dos "Excluídos".
A multidão rugia. Lobisomens uivavam, vampiros batiam palmas rítmicas e até mesmo alguns professores pareciam impressionados. Ajax estava no centro do campo, ofegante, com a touca levemente torta e o rosto sujo de lama, mas com um brilho nos olhos que raramente se via. Ele procurou por ela na arquibancada.
[S/N] não estava gritando como Enid, nem pulando. Ela estava parada, uma figura de elegância sombria em meio ao caos, com um sorriso de canto que dizia tudo. Quando Ajax finalmente conseguiu se desvencilhar dos tapinhas nas costas de seus colegas de equipe, ela se aproximou.
— Você foi incrível, Ajax — disse ela, envolvendo o pescoço dele com os braços frios, ignorando a sujeira no uniforme dele.
— Eu... eu achei que ia cair no meio do caminho — ele confessou, a voz ainda trêmula pela adrenalina, mas as mãos encontrando a cintura dela com uma possessividade nova.
[S/N] o beijou ali mesmo, na frente de todos, um beijo que começou como uma celebração e terminou com uma promessa silenciosa. Ela se afastou apenas o suficiente para que seus lábios roçassem a orelha dele, e sua voz desceu para um sussurro que fez os pelos da nuca de Ajax se arrepiarem.
— O troféu da escola já é seu, mas eu tenho o seu prêmio pessoal. Me encontre no meu dormitório às sete em ponto. Não se atrase.
Enquanto ela se afastava, desaparecendo entre as sombras dos corredores, Ajax sentiu um tipo diferente de pressão no peito. O coração, que já batia rápido pelo esforço físico, agora martelava por pura antecipação.
À medida que o sol começava a se pôr, pintando o céu de Nunca Mais com tons de roxo e laranja, a escola se transformava. Uma festa enorme estava sendo montada no pátio central, com música alta e barris de ponche.
— Ei, Ajax! Vamos, cara! — chamou um dos lobisomens do time. — A festa vai ser épica! Você é o convidado de honra!
Ajax forçou uma careta de dor, levando a mão ao ombro.
— Ah, cara, eu adoraria... mas acho que aquele sereio deslocou meu ombro no último lance. Preciso de um banho quente e deitar, ou não acordo amanhã.
— Que azar, campeão! — o colega lamentou, acreditando piamente na desculpa esfarrapada. — A gente bebe por você!
Livre das obrigações sociais, Ajax correu para o seu quarto. Ele tomou o banho mais meticuloso de sua vida, usando os sabonetes que Enid uma vez disse que tinham um cheiro "irresistível". Ele aparou a nuca, escolheu sua melhor touca de seda preta — para garantir que nenhuma serpente ficasse rebelde no momento errado — e vestiu roupas limpas, embora simples, pois sabia que elas não durariam muito tempo no corpo.
Enquanto isso, no dormitório individual da ala leste, [S/N] preparava o cenário. O quarto, que normalmente já era um santuário gótico, fora transformado. Os lençóis de algodão comuns foram substituídos por seda preta, tão lisa que parecia líquida sob a luz das velas que ela espalhou estrategicamente pelos cantos. As cortinas de veludo cor de vinho estavam fechadas, bloqueando qualquer resquício de luz lunar, criando uma atmosfera de clausura e intimidade. O ar estava saturado com seu perfume de baunilha negra e sândalo.
Ela se olhou no espelho. A camisola de renda preta era curta, moldando-se às suas curvas de forma provocante, com um decote que deixava pouco para a imaginação. Para uma vampira, a sedução era uma arte milenar, e naquela noite, ela era a mestre.
Exatamente às 19:00, uma batida suave e hesitante soou à porta.
[S/N] caminhou lentamente e abriu a porta. Ajax estava parado ali, parecendo um pouco nervoso, mas seus olhos se arregalaram e escureceram assim que pousaram nela.
— Oi — ele sussurrou, a voz subitamente rouca.
— Entre, campeão — ela disse, puxando-o para dentro e trancando a porta com um clique definitivo.
O silêncio do quarto era profundo, quebrado apenas pelo estalar das chamas das velas. Ajax parecia hipnotizado. Ele nunca a vira assim, tão exposta, tão... dele.
— O quarto... está diferente — ele comentou, tentando manter a compostura enquanto ela se aproximava, o cheiro dela invadindo seus sentidos.
— Eu queria que fosse especial. Você merece mais do que um beijo rápido nos corredores.
Ela colocou as mãos sobre o peito dele, sentindo o ritmo acelerado do coração de Ajax sob a camisa. Ela subiu as mãos lentamente, contornando seus ombros, até que seus dedos se entrelaçaram na base da touca dele.
— Você ainda está nervoso comigo, Ajax? — ela perguntou, a voz carregada de uma doçura perigosa.
— Sempre fico um pouco — ele admitiu, as mãos dele finalmente encontrando a cintura dela, sentindo a textura da renda e a pele quente por baixo. — Você é... perfeita demais. Às vezes eu acho que vou acordar e descobrir que ainda estou sonhando na aula de Botânica.
— Então deixe-me provar que isso é bem real.
Ela o puxou para um beijo, mas não como os outros. Este era faminto, profundo, uma exploração de línguas e desejos contidos por semanas de encontros escondidos. Ajax soltou um gemido baixo na garganta, a timidez sendo consumida pelo fogo que ela acendia nele. Ele a empurrou gentilmente em direção à cama, e quando ela se sentou na seda preta, ele se ajoelhou entre as pernas dela.
— [S/N]... — ele murmurou contra a pele do pescoço dela, deixando beijos úmidos que a faziam arquear as costas. — Eu quero você. Tanto que chega a doer.
— Então não pare — ela respondeu, os dedos cravando-se nos ombros dele. — A noite é nossa, Ajax. Ninguém vai nos interromper.
Ele subiu as mãos pelas coxas dela, sentindo a maciez da pele de vampira, que parecia brilhar sob a luz das velas. Cada toque dele era reverente, mas carregado de uma urgência crescente. Ele removeu a camisa com uma pressa desajeitada, revelando o físico que o torneio ajudara a definir, e [S/N] não pôde evitar passar as unhas levemente pelo peito dele, deixando trilhas vermelhas que sumiriam em instantes.
Ajax a deitou sobre a seda, o contraste da pele alva dela contra o preto do tecido era uma visão que ele guardaria para sempre. Ele a beijou novamente, descendo para o decote da camisola, explorando cada centímetro com uma lentidão torturante que a fazia implorar por mais.
— Ajax, por favor... — ela suspirou, as mãos puxando-o para mais perto, querendo sentir o peso do corpo dele contra o seu.
Ele se elevou um pouco, olhando-a nos olhos. O olhar de Ajax não era mais o do garoto inseguro; era o de um homem que sabia exatamente o que queria e quem amava.
— Eu te amo — ele sussurrou, as palavras sendo o selo final de sua entrega.
— Eu também te amo — ela respondeu, puxando-o para baixo para que suas peles se encontrassem finalmente sem barreiras.
O que se seguiu foi uma dança de sombras e sussurros, onde o tempo parecia não existir. No conforto do quarto secreto, longe dos olhos de Nunca Mais e do barulho da festa, eles celebraram não apenas uma vitória no campo, mas a conexão profunda que haviam construído. Cada toque, cada gemido abafado pelo travesseiro, era uma nota em uma sinfonia que pertencia apenas aos dois.
Horas depois, quando as velas já estavam reduzidas a pequenas poças de cera e o perfume de sândalo se misturava ao cheiro de ambos, eles ficaram deitados, entrelaçados nos lençóis de seda. Ajax fazia círculos preguiçosos nas costas dela, enquanto [S/N] descansava a cabeça em seu peito, ouvindo o coração dele que, finalmente, havia voltado ao ritmo normal.
— Acho que esse foi o melhor prêmio que eu poderia ganhar — Ajax disse baixinho, beijando o topo da cabeça dela.
— E eu acho — ela respondeu, fechando os olhos com um sorriso satisfeito — que você vai ter que ganhar muitos outros torneios se quiser repetir a dose.
Ajax riu, um som leve e feliz.
— Por você, eu venceria até o exército da Rainha de Copas.
E ali, no silêncio seguro do dormitório, eles souberam que, não importava o quanto o mundo lá fora fosse estranho ou perigoso, eles haviam encontrado seu lugar um no outro. A vampira gótica e o górgona desajeitado eram, agora, uma força inabalável.