a vampira e o gorgona
Sussurros de Veludo e Segredos de Vidro
A manhã seguinte em Nunca Mais surgiu envolta em uma névoa densa, típica das florestas da Nova Inglaterra, mas para Ajax e [S/N], o mundo parecia ter cores muito mais vibrantes do que o habitual tom de cinza. O despertar no dormitório individual foi lento. O sol tentava, sem sucesso, atravessar as cortinas de veludo pesado, e o silêncio só era quebrado pela respiração ritmada de Ajax, que ainda dormia com o rosto enterrado na curvatura do pescoço de [S/N].
Ela o observou por alguns instantes. Sem a touca, os cabelos de serpente estavam em um estado de dormência relaxada, movendo-se apenas levemente como se estivessem em um sonho profundo. [S/N] sentiu uma onda de proteção. Ela sabia o quanto ele se esforçava para esconder aquela parte de si, o medo constante de um descuido que pudesse petrificar quem ele amava. Mas ali, entre aqueles lençóis, não havia medo. Havia apenas a entrega total de dois "excluídos" que se encontraram no escuro.
— Ajax... — ela sussurrou, passando as unhas de leve pela nuca dele. — Você precisa ir antes que a Enid decida que é uma boa ideia vir te procurar aqui para comentar sobre a festa de ontem.
O górgona resmungou, apertando-a mais contra si, o calor de seu corpo contrastando com a temperatura naturalmente mais baixa da pele da vampira.
— Só mais cinco minutos... — ele pediu com a voz rouca de sono. — A cama da Enid é confortável, mas o seu quarto tem cheiro de paraíso e mistério. Eu não quero sair nunca mais.
[S/N] soltou uma risada abafada, sentindo as vibrações do peito dele contra o seu.
— Se você for pego saindo da ala leste às oito da manhã, o seu status de "herói do torneio" vai virar "alvo da Diretora" em menos de dez segundos.
Ajax finalmente abriu os olhos, piscando para afastar a sonolência. Ele se inclinou e deu um beijo casto, porém demorado, nos lábios dela.
— Tudo bem, você venceu. Mas eu quero um encontro de verdade hoje. Sem sombras, sem esconderijos. Lembra do que eu prometi?
— Eu lembro — ela sorriu, ajudando-o a encontrar a touca que havia caído atrás da cabeceira. — Onde você tem em mente?
— O Catavento — disse ele, sentando-se e começando a se vestir com a rapidez de quem já estava acostumado a fugas estratégicas. — Vamos tomar aquele café horrível que os normais gostam e ocupar a mesa do fundo. Quero que todo mundo em Jericho veja que eu estou com a garota mais incrível de Nunca Mais.
— Você está ficando muito corajoso, Petropolus — comentou ela, observando-o ajeitar o moletom.
— Eu ganhei um torneio e o coração de uma vampira gótica em menos de vinte e quatro horas — ele piscou, recuperando aquele brilho confiante que descobrira na noite anterior. — Eu me sinto capaz de encarar até o Joseph Crackstone agora.
Depois de uma despedida rápida e cheia de promessas, Ajax esgueirou-se pelo corredor. [S/N] ficou para trás, arrumando o quarto que ainda guardava o calor dele. Ela sentia que algo havia mudado permanentemente. O isolamento que ela tanto prezava antes agora parecia vazio sem a presença desajeitada do górgona.
Horas mais tarde, o encontro no Catavento estava em pleno vapor. O estabelecimento estava lotado de alunos de Nunca Mais e moradores locais de Jericho. O barulho das máquinas de café e o falatório incessante formavam o pano de fundo perfeito para a bolha particular que Ajax e [S/N] criaram na mesa de canto.
Eles estavam de mãos dadas sobre a mesa de madeira desgastada. Ajax não soltava a mão dela por nada, nem mesmo para beber seu chocolate quente. Ele parecia estar em um estado de êxtase constante, ocasionalmente lançando olhares para a porta para ver se alguém conhecido entrava e notava os dois.
— Sabe — começou Ajax, traçando círculos na palma da mão de [S/N] com o polegar —, eu sempre tive medo de que, se a gente ficasse junto de verdade, as coisas ficariam... complicadas. Por causa das nossas naturezas.
— Complicadas como? — perguntou ela, inclinando a cabeça, os cabelos pretos caindo sobre os ombros como uma cortina de seda.
— Ah, você sabe. Vampiros e Górgonas não são exatamente o casal padrão dos contos de fadas — ele deu de ombros, um pouco da velha insegurança voltando a aparecer. — Minha mãe sempre dizia para eu tomar cuidado com quem eu me envolvia, porque o nosso "dom" é uma maldição para quem não está preparado.
— Ajax, olhe para mim — pediu ela, esperando que ele erguesse os olhos. — Eu passo metade do meu tempo lendo sobre a morte e a outra metade vivendo em um castelo cheio de monstros. Você acha mesmo que algumas serpentes na cabeça me assustam? Eu sou uma criatura da noite. O perigo é o meu habitat natural.
Ele abriu um sorriso largo, aquele que fazia os olhos dele diminuírem e o rosto iluminar-se completamente.
— É por isso que eu te amo. Você faz tudo parecer menos assustador.
— Falando em assustador... — [S/N] mudou o tom de voz, seus olhos se fixando em algo atrás de Ajax.
Ele se virou e viu Wandinha Addams parada perto do balcão, observando-os com sua expressão habitual de desdém e indiferença gélida. Ao lado dela, Enid Sinclair acenava freneticamente, com um sorriso que poderia iluminar toda a cidade de Jericho.
— Ai, meu Deus! — Enid exclamou, correndo em direção à mesa deles antes que Wandinha pudesse protestar. — Eu sabia! Eu sabia que tinha algo acontecendo entre vocês dois! Ajax, você sumiu ontem à noite! Eu bati no seu quarto e o Xavier disse que você tinha "ido meditar na floresta". Meditar, Ajax? Sério?
Ajax ficou vermelho instantaneamente, a cor subindo pelo pescoço até as orelhas.
— Oi, Enid. Oi, Wandinha. É... a meditação foi... muito produtiva.
Wandinha aproximou-se lentamente, suas botas fazendo um som seco no piso de madeira. Ela olhou para as mãos entrelaçadas de Ajax e [S/N] como se estivesse examinando um espécime biológico curioso.
— A secreção de ocitocina neste ambiente está me dando náuseas — declarou Wandinha, sua voz monocórdica cortando a empolgação de Enid. — No entanto, devo admitir que a escolha de parceira do Petropolus é surpreendentemente aceitável. [S/N] tem um gosto impecável para poesia fúnebre. Seria um desperdício se ela fosse petrificada por um amador.
— Eu não vou petrificar ela, Wandinha! — protestou Ajax, embora sem muita agressividade.
— Certifique-se disso — continuou Wandinha, voltando seus olhos escuros para [S/N]. — Se ele causar algum dano permanente ao seu sistema nervoso, eu tenho um contato no necrotério local que pode fazer um trabalho decente de restauração. Mas eu preferiria não ter que usar meus favores com você.
— Obrigada pela preocupação, Wandinha — respondeu [S/N], mantendo a calma que só alguém que já lidara com o temperamento dos Addams poderia ter. — Mas acho que o Ajax e eu estamos nos entendendo muito bem.
— Bem até demais! — Enid interveio, batendo palminhas. — Queremos detalhes! Quando começou? Foi naquele dia na estufa? Ou foi na noite do filme? Eu senti um cheiro de romance no ar, mas achei que era só o perfume novo da Bianca.
— Enid, menos — pediu Ajax, embora estivesse sorrindo. — A gente só está... feliz. Oficialmente.
— Isso é tão fofo que eu quero vomitar arco-íris! — Enid sentou-se na cadeira vaga ao lado deles, puxando Wandinha pela manga, que resistiu com um suspiro pesado. — Precisamos planejar um encontro duplo! Imagina: eu e o Thing... quer dizer, eu e o meu próximo pretendente, e vocês dois!
— Eu prefiro ser enterrada viva a participar de um encontro duplo — murmurou Wandinha, mas acabou se sentando também, pegando um gole do café preto que o barista entregou sem que ela precisasse pedir.
A tarde seguiu de uma forma que [S/N] nunca imaginou. Ali estava ela, a vampira solitária que preferia o silêncio das bibliotecas, sentada no meio do caos social de Nunca Mais, com o braço de Ajax passado por seus ombros e a presença caótica de Enid e Wandinha à mesa. Pela primeira vez, o sentimento de pertencer a algum lugar não vinha do quarto vazio ou das sombras da Floresta Negra, mas do calor humano (e não tão humano) ao seu redor.
Quando finalmente voltaram para a escola, caminhando sob o luar que começava a surgir, Ajax parecia mais leve.
— Foi menos doloroso do que eu imaginei — ele confessou enquanto subiam a trilha para os portões de ferro. — Eu sempre achei que, quando a gente assumisse, todo mundo ia ficar nos observando como se fôssemos uma aberração.
— Ajax, nós estudamos em uma escola para "excluídos" — lembrou [S/N], entrelaçando seu braço ao dele. — A "aberração" aqui é quem é normal.
— É, você tem razão. Eu só... eu me importo com o que pensam de você. Não quero que pensem que você está comigo por pena ou algo assim.
[S/N] parou de caminhar e o forçou a parar também. Eles estavam diante da estátua de Nathaniel Faulkner, o fundador da escola. Ela segurou o rosto de Ajax com as duas mãos, obrigando-o a olhar diretamente em seus olhos.
— Escute bem, Ajax Petropolus. Eu sou uma vampira. Eu vi séculos de história através dos livros da minha família e vi muitas pessoas tentarem ser algo que não são. Eu escolhi você porque você é a pessoa mais genuína que eu já conheci. Você é gentil, você é leal e, sim, você é um pouco desastrado, o que eu acho adorável. Se alguém tiver algum problema com isso, eles que se entendam com as minhas presas. Entendido?
Ajax engoliu em seco, mas seu sorriso era de puro deleite.
— Entendido, capitã.
Eles continuaram o caminho, mas antes de se separarem para seus respectivos dormitórios, Ajax a puxou para um canto escuro perto da entrada da biblioteca.
— Eu tenho uma coisa para você — disse ele, mexendo na mochila.
Ele tirou um pequeno caderno de capa de couro desgastada, com detalhes em metal que pareciam antigos.
— Eu vi isso em uma loja de antiguidades em Jericho e pensei em você. É um diário de observações botânicas de um naturalista que viveu aqui no século XIX. Ele descreve plantas que só crescem à luz da lua. Achei que você gostaria de ler... ou de escrever seus próprios poemas nele.
[S/N] pegou o caderno, sentindo a textura do couro. Era o presente perfeito. Não era algo caro ou extravagante, mas mostrava que ele a conhecia de verdade.
— É lindo, Ajax. Obrigada.
— De nada — ele se aproximou para um beijo de despedida, mas antes que seus lábios se tocassem, ele sussurrou: — E sobre ontem à noite... eu não quero que tenha sido apenas uma "comemoração de troféu". Eu quero que aquilo seja o nosso normal.
— O nosso normal nunca vai ser comum, Ajax — ela respondeu, selando o compromisso com um beijo que carregava toda a paixão e a promessa de um futuro compartilhado.
Enquanto cada um seguia para seu quarto, o silêncio de Nunca Mais parecia diferente. Não era mais um silêncio de solidão para [S/N], nem um silêncio de medo para Ajax. Era o silêncio de um segredo que floresceu à luz do dia, transformando-se em algo sólido como pedra e eterno como a noite.
No seu dormitório, [S/N] abriu o diário novo e, na primeira página, escreveu apenas uma frase com sua caligrafia elegante:
"Para cada sombra que eu carregava, encontrei um górgona disposto a segurar minha mão no escuro."
Longe dali, no dormitório masculino, Ajax deitava-se com um sorriso bobo no rosto, ignorando as perguntas incessantes de Xavier sobre para onde ele tinha ido. Ele não precisava mais se esconder nas salas de aula vazias ou na Floresta Negra para se sentir completo. Ele tinha encontrado seu lugar, e ele tinha o cheiro de baunilha negra, o toque da renda e a força de um amor que nem mesmo o olhar de um górgona poderia transformar em algo estático. Eles eram movimento, eles eram vida, e eles estavam apenas começando.