A verdade
Point off view Maya Manoela Garcia colins Acordei devagar, ainda com o corpo pesado e a memória viva de tudo o que tínhamos feito na noite anterior. Estiquei os braços para o lado, procurando o calor do corpo dela, e para minha surpresa, Giovanna já não estava mais na cama. Sentei-me apoiada no travesseiro, olhando ao redor e franzi a testa. — Ué… ela nem me chamou — murmurei para mim mesma, achando estranho. Não era do feitio dela sair sem deixar um recado ou pelo menos me dar um bom dia antes de ir. Levantei-me com calma, sentindo ainda um pouco de cansaço, e fui fazer minha higiene matinal. Tomei um banho demorado, deixando a água morna relaxar os músculos, e quando terminei, me vesti com uma roupa leve e confortável. Hoje não tinha expediente no hospital, então podia aproveitar o dia sem pressa nenhuma. Desci as escadas devagar, e assim que cheguei à cozinha, parei surpresa: ela já tinha deixado tudo pronto. A mesa estava arrumada, havia café passado, suco de frutas, pães, bolos integrais e até as opções veganas que eu gostava, separadas com cuidado. Em um cantinho, sobre o prato, havia um bilhete escrito com a letra firme e conhecida dela: “Tive que ir à delegacia resolver um assunto urgente, não quis te acordar porque você merecia descansar. Coma tudo, viu? Mais tarde volto correndo para ficar com você. Te amo.” Sorri sozinha e levei o bilhete até os lábios, dando um beijo rápido no papel antes de colocá-lo sobre a bancada. — Eu também te amo, sua doida... — murmurei, rindo baixinho. Sentei-me à mesa e comecei a tomar café da manhã. Enquanto comia, meu celular vibrou sobre a madeira, iluminando a tela com o nome que sempre fazia meu peito aquecer. Giovanna ❤️ Sorri automaticamente e atendi na mesma hora, equilibrando o aparelho entre o ombro e a orelha enquanto passava geleia na torrada. Ligação on — Bom dia, dorminhoca — a voz dela veio do outro lado, rouca, mas carregada daquela autoridade gentil que ela só usava comigo. — Bom dia... Você saiu sem me acordar. — Eu tentei resistir, mas você estava toda encolhidinha, abraçada no travesseiro. Fiquei com pena. Precisava resolver uma coisa urgente na delegacia e achei melhor deixar você descansar. — Eu acordei procurando você... — confessei, sentindo um leve aperto de saudade. Do outro lado da ligação, ela soltou uma risada baixa, aquele som vibrante que eu conseguia sentir até através das ondas de rádio. — Sério? — Aham. A cama ficou enorme sem você. — Que saudade já... — Faz nem uma hora que você saiu, Gio! — E daí? Posso sentir saudade em cinco minutos se eu quiser. Balancei a cabeça, rindo da intensidade dela. — Boba. — Já tomou café? Olhei para a mesa farta, sentindo o cheiro do café recém-passado. — Tô tomando agora. Você deixou tudo preparado, até as opções veganas. — Sabia que você ia descer morrendo de fome. E quero que coma direitinho. — Sim, senhora — respondi em tom de brincadeira. — Promete? — Prometo. Ela ficou em silêncio por alguns segundos, e o tom da conversa mudou sutilmente. Senti uma nota de tensão na respiração dela. — Maya... — Hum? — Se eu demorar um pouco, não fica preocupada, tá? É só burocracia. Assim que terminar, vou direto para casa. Meu sorriso diminuiu um pouco. O instinto de médica — e de mulher — me dizia que havia algo mais pesado por trás daquela "burocracia". — Tá tudo bem mesmo? — Tá. É um assunto de trabalho. Nada que você precise se preocupar. Respirei aliviada, tentando afastar os pensamentos ruins. — Então tá... Mas volta logo. — Vou voltar. Quero passar o resto do dia agarrada com a minha namorada. Meu coração acelerou com a palavra. "Namorada". Ainda soava como música. — Também quero. — Agora termina esse café. Depois me manda uma foto para eu ver se você realmente comeu. — Você não existe, Giovanna! — Sou uma namorada muito fiscalizadora. Caí na risada, sentindo a leveza voltar. — Vai trabalhar, Giovanna. — Sim, doutora. Te amo. — Eu também te amo. Se cuida. — Você também. Ligação off A ligação terminou, mas o sorriso continuou no meu rosto. Peguei mais um pedaço de bolo e continuei o café da manhã, sentindo que, mesmo longe, Giovanna conseguia fazer a casa inteira parecer cheia da presença dela. (...) Point off view Narradora Do outro lado da linha, o sorriso de Giovanna desapareceu no exato momento em que ela guardou o celular no bolso. O ambiente da delegacia estava gélido, o ar condicionado zumbindo enquanto o cheiro de café queimado e papel velho preenchia o corredor. Ela entrou na sala de reuniões e jogou a pasta sobre a mesa de metal. O capitão estava lá, junto com um representante do Ministério Público. — O que temos? — perguntou Giovanna, a voz agora cortante como uma lâmina de gelo. — O juiz assinou a audiência de custódia e instrução — disse o capitão, apontando para os documentos. — Christopher vai a julgamento preliminar na próxima semana. Giovanna sentiu um gosto amargo na boca. Christopher. O nome era como uma cicatriz que insistia em doer. — E o que isso tem a ver com a urgência de me chamar aqui às sete da manhã? — questionou ela, cruzando os braços. — O promotor quer o depoimento completo das vítimas diretas e indiretas — o capitão hesitou, olhando para Giovanna com cautela. — Eles querem a Maya. E querem a Ana Clara . O silêncio que se seguiu à fala do capitão foi tão denso que Giovanna podia jurar que conseguia ouvi-lo. Ela descruzou os braços lentamente, as unhas cravando na palma das mãos. O nome de Christopher ecoava em sua mente como um sino fúnebre, mas a menção a Maya e Ana Clara transformou o incômodo em um alerta de perigo iminente. — Vocês perderam o juízo? — Giovanna disparou, a voz baixa, mas carregada de uma fúria contida. — Colocar a Maya diante daquele homem, agora? Vocês sabem exatamente o que está em jogo aqui. O representante do Ministério Público, um homem de terno cinza impecável e expressão burocrática, ajustou os óculos e pigarreou. — Inspetora, compreendemos o seu envolvimento pessoal, mas Christopher alega que as acusações de abuso e desvio de fundos mágicos são uma conspiração. Para o tribunal, o depoimento da esposa é crucial. E o de Ana Clara, como confidente e testemunha ocular de vários episódios, é indispensável para fechar o cerco. Giovanna soltou uma risada seca, desprovida de qualquer humor. — Esposa? Ele ainda usa esse título? Christopher é um manipulador. Se vocês levarem a Maya para aquele tribunal, ele não vai se defender das acusações de desviar verbas. Ele vai atacar a moral dela. O capitão suspirou, levantando-se e caminhando até a janela que dava para o pátio cinzento da delegacia. — O que você quer dizer com isso, Giovanna? — Eu quero dizer — ela deu um passo à frente, batendo com o indicador na mesa de metal — que a Maya está grávida. E Christopher sabe, Ele vai usar a gravidez para pintar a Maya como uma mulher adúltera que armou contra o marido para ficar com a amante policial. Ele vai transformar o julgamento de um criminoso em um circo sobre a vida íntima de uma médica respeitada. O promotor franziu o cenho, anotando algo rapidamente. — Uma gravidez fruto de uma relação extraconjugal... Isso complica a imagem da testemunha perante um júri mais conservador de Magnostadt, de fato. Mas e Ana Clara? Ela é solteira, não tem esses vínculos. — Ana Clara é o braço direito da Maya — Giovanna rebateu prontamente. — Se ele conseguir derrubar a credibilidade da Maya, ele derruba a da Ana também, rotulando-a como cúmplice de uma farsa por lealdade cega. Se vocês forçarem esse depoimento agora, estarão entregando a cabeça delas em uma bandeja de prata para os advogados dele. — Mas sem elas — o capitão interveio, virando-se para Giovanna —, o caso enfraquece. Christopher tem contatos poderosos no conselho. Se não tivermos o lado humano, as vítimas diretas falando sobre o terror que ele impunha, ele pode sair com uma pena alternativa ou até uma prisão domiciliar de luxo. Giovanna sentiu o estômago revirar. A ideia de Christopher livre, circulando pelas mesmas ruas que Maya, era um pesadelo que a perseguia desde que o caso começara. No entanto, expor Maya naquele estado, sob o estresse de um interrogatório agressivo e o risco de ter sua vida pessoal destroçada publicamente, era um preço que ela não estava disposta a pagar. — Eu preciso de tempo — disse Giovanna, num tom que não admitia discussões. — Não intimem ninguém ainda. Eu vou falar com a Ana Clara primeiro. Ela é mais racional nesse momento. A Maya... a Maya precisa de proteção, não de um holofote. (...) Point off view Maya Manoela Garcia colins Passei o resto da manhã e a tarde toda em casa, arrumando alguns detalhes e pensando em tudo. Mais tarde, peguei as chaves e saí para fazer umas compras, e aproveitei para dar uma passada na minha antiga mansão — o lugar que era meu, de verdade. Há tempos vinha pensando em voltar a morar lá. Sentia que precisava do meu espaço, das minhas coisas, daquela casa que eu tinha construído com tanto carinho. Sabia que ia ser difícil convencer a Giovanna, ela ia querer que eu ficasse onde ela pudesse cuidar de mim o tempo todo, mas eu sentia que era o momento certo. Abri o portão e entrei devagar. Tudo parecia quieto, como se estivesse esperando por mim. Mal cheguei à porta principal e ela se abriu de repente. — Dona Maya? — a voz conhecida de Lúcia, a nossa caseira, soou cheia de surpresa e alegria. Ela se aproximou depressa, parando diante de mim com os olhos brilhando. — Oi, Lúcia — respondi, sorrindo. — Quanto tempo... A senhora não veio mais aqui — disse ela, balançando a cabeça devagar, e logo depois seus olhos desviaram instintivamente para a minha barriga, onde a mudança já começava a aparecer, ainda bem discreta, mas perceptível para quem prestasse atenção. — Está bem? Fiz um carinho suave ali, sorrindo com calma. — Estou muito bem, obrigada por perguntar — falei baixo. — Só precisava dar uma olhadinha na minha casa. Sentia falta daqui. Ela assentiu, abrindo caminho com todo o respeito de sempre, mas sem conseguir esconder o brilho de satisfação em voltar a me ver por ali. — A casa está sempre arrumada, esperando a senhora — disse ela, com a voz doce. — Fica à vontade. Se quiser, já preparo o seu chá preferido. — Obrigada, Lúcia — respondi, entrando finalmente e sentindo o ar daquele lugar me envolver. — Vou aceitar sim. Caminhei devagar pela sala, passando a mão nos móveis que eu conhecia tão bem, e senti no peito: eu pertencia aqui. Agora só faltava mesmo convencer a Giovanna a vir comigo. Caminhei devagar pelo corredor, passando os dedos pelas molduras das fotos que ainda estavam nas paredes — registros de viagens, de formaturas, de momentos que pareciam ter acontecido em outra vida. Tudo estava exatamente como eu tinha deixado: o tapete persa na entrada, o vaso de orquídeas na janela, o cheiro de lavanda que Lúcia sempre usava para limpar. Fui até a sala de estar e me sentei no sofá grande, o mesmo onde eu passava horas lendo quando precisava de silêncio. Lúcia apareceu pouco depois com a bandeja, colocando sobre a mesa de centro com todo o cuidado. — Chá de camomila com mel, como a senhora gosta — disse ela, e ficou ali de pé por um instante, os olhos voltando a pousar devagar na minha barriga. — E o pequeno... vai ser muito bem vindo aqui, mesmo que seja filho do senhor Christopher. Franzi a testa e neguei com a cabeça logo em seguida, suavemente. — Não, Lúcia. O bebê não é filho dele. É da Giovanna. Ela arregalou os olhos de surpresa, e depois um sorriso enorme e aliviado tomou conta do seu rosto. — Ah, que alívio... nunca fui com a cara daquele homem, não senhora. Sempre achei ele frio, calculista, não fazia bem para a senhora. Fez uma pausa, deu uma risadinha baixa e continuou: — Então... eu sempre soube que a senhorinha ia dar um jeito de ficar com a agente Torres. Não sabia nem negar que ficava toda doida pela policial, sempre que ela aparecia por aqui. — Lúcia! — chamei, sentindo o rosto queimar de vergonha. — Desculpa, senhora! — pediu ela, rindo mais forte, sem nenhum arrependimento nos olhos. — Mas é a verdade! Dava para ver de longe o brilho no seu olhar. Fico tão feliz que deu certo no final. Sorri, abaixando o olhar para as minhas mãos que ainda seguravam a xícara quente, sentindo o rosto ainda corado de vergonha, mas também um calor gostoso invadir o peito. — É… deu certo — confessei baixo, sorrindo de verdade. — Demorou bastante, teve muita confusão, muita coisa errada acontecendo… mas finalmente deu certo. Levantei o olhar para ela de novo, passando a mão devagar sobre a barriga, onde a vida crescia quieta. — E esse lugar todo… vai ficar muito mais cheio agora. Espero que você não se importe com a bagunça, com as risadas altas, com tudo o que uma família traz — brinquei. Lúcia bateu palmas levemente, os olhos brilhando de emoção. — Importo nada, dona Maya! Essa casa viveu tempo demais vazia e calada. Merece ouvir o choro do bebê, a risada da agente Torres e a senhora por todos os cantos. Vou cuidar de tudo com o maior carinho do mundo, pode ter certeza. (...)