A verdade
Sombras e Sentimentos à Porta
O céu de Magnostadt já havia assumido um tom de azul profundo, quase negro, quando Giovanna finalmente atravessou as portas pesadas da delegacia. O cansaço pesava em seus ombros como uma armadura de chumbo, mas sua mente continuava trabalhando a mil por hora, repassando cada palavra da reunião com o promotor. Ao seu lado, Larissa, sua colega de confiança, mantinha o passo firme, embora seus olhos também denunciassem a exaustão de um dia longo.
— Você sabe que eles não vão desistir, Gio — comentou Larissa, ajustando o coldre na cintura enquanto caminhavam em direção ao estacionamento. — O Ministério Público quer sangue, e o Christopher é um alvo grande demais para eles deixarem escapar por falta de testemunho presencial.
Giovanna parou ao lado do seu carro, soltando um suspiro pesado que se transformou em uma pequena nuvem de vapor no ar frio da noite.
— Eu sei, Lari. Mas eu não vou deixar que usem a Maya como escudo ou como munição. Ela está em um momento vulnerável. A gravidez, o processo de divórcio... tudo isso já é estresse suficiente. Se eu permitir que aquele desgraçado a encare num tribunal agora, eu não estarei apenas falhando como policial, mas como a mulher que prometeu protegê-la.
Larissa colocou a mão no ombro da amiga, oferecendo um aperto encorajador.
— Nós vamos dar um jeito. Você não está sozinha nessa.
Antes que Giovanna pudesse responder, o som de passos apressados sobre o cascalho chamou a atenção das duas. Uma silhueta familiar emergiu da penumbra das luzes do estacionamento. Era Ana Clara. Ela parecia levemente ofegante, com o rosto marcado pela preocupação.
— Giovanna! — exclamou Ana Clara, aproximando-se. — Graças a Deus ainda te encontrei aqui. Eu sinto muito, muito mesmo por não ter conseguido ir ao seu encontro mais cedo na delegacia. O hospital estava um caos, e eu tive um procedimento de emergência que durou horas.
Giovanna suavizou a expressão, fazendo um gesto de descaso com a mão.
— Não se preocupe com isso, Ana. Eu entendo perfeitamente. O importante é que você está aqui agora.
— O capitão me ligou — disse Ana Clara, a voz baixando de tom. — Ele me adiantou o que está acontecendo. Eles querem que eu deponha também, não é?
Giovanna assentiu com gravidade.
— Querem vocês duas. Christopher está tentando transformar o julgamento em um espetáculo midiático para invalidar as provas técnicas. Ele quer atacar a credibilidade de quem está ao redor dele.
Larissa olhou para as duas e percebeu que aquele era um assunto que precisava de mais privacidade do que um estacionamento público podia oferecer.
— Gio, eu vou indo. Amanhã cedo revisamos os relatórios de novo. Ana, boa sorte.
— Obrigada, Lari — respondeu Giovanna, vendo a colega se afastar antes de se virar novamente para a amiga de Maya. — Vamos para a minha casa, Ana. A Maya deve estar nos esperando, e eu prefiro que conversemos sobre os detalhes técnicos lá, onde é seguro.
O trajeto até o apartamento de Giovanna foi feito em relativo silêncio. A tensão pairava no ar, uma mistura de medo pelo que o futuro reservava e a determinação de manter Maya a salvo de todo aquele lodo jurídico.
Quando entraram no apartamento, o cheiro de comida caseira e a luz quente dos abajures trouxeram um alívio imediato. Maya estava sentada no sofá, com um livro no colo, mas seus olhos brilharam ao ver a namorada e a melhor amiga entrarem.
— Finalmente! — Maya se levantou devagar, o sorriso iluminando o rosto. — Eu já estava começando a achar que a delegacia tinha engolido vocês duas.
Giovanna caminhou até ela, envolvendo-a em um abraço protetor e depositando um beijo demorado em sua testa.
— Desculpe a demora, amor. O dia foi mais longo do que o esperado.
— Oi, Maya — cumprimentou Ana Clara, forçando um sorriso. — Viemos para conversar um pouco.
Maya percebeu imediatamente o clima pesado que as duas carregavam. Ela conhecia Giovanna e Ana Clara bem demais para ser enganada por sorrisos cansados.
— É sobre o Christopher, não é? — perguntou Maya, direta, enquanto se sentavam ao redor da mesa da sala de jantar.
Giovanna suspirou, pegando as mãos de Maya entre as suas.
— Sim. O julgamento preliminar foi marcado. O promotor quer o depoimento de vocês duas. Ele acredita que a narrativa de vocês é o que vai garantir que ele não saia em liberdade condicional.
Ana Clara interveio, tentando ser a voz da razão.
— Maya, o problema é que os advogados dele vão tentar usar tudo contra você. A nossa relação, a sua gravidez... eles vão tentar pintar uma imagem distorcida para o júri.
— Eles podem tentar o que quiserem — disse Maya, a voz firme, embora seus dedos tremessem levemente. — Eu não tenho medo da verdade. E eu não vou deixar que ele continue impune só porque tenho medo de um escândalo.
Giovanna ia começar a explicar a estratégia de defesa que pretendia sugerir quando o som estridente da campainha ecoou pelo apartamento, cortando a conversa como uma navalha.
As três se entreolharam. Não esperavam ninguém àquela hora. Giovanna, instintivamente, colocou a mão sobre a arma que ainda carregava no coldre sob a jaqueta, um reflexo de anos de serviço.
— Fiquem aqui — ordenou Giovanna em voz baixa.
Ela caminhou até a porta e olhou pelo olho mágico. Relaxou visivelmente ao reconhecer a figura do outro lado, embora uma ponta de irritação tenha surgido em seu rosto. Ela abriu a porta apenas o suficiente para ver a mulher parada no corredor.
Era Júlia, uma vizinha do andar de baixo que, nos últimos meses, parecia ter desenvolvido uma estranha dependência da "ajuda" de Giovanna para qualquer pequeno problema doméstico.
— Oi, agente Torres... — disse Júlia, com um sorriso tímido e um tanto ensaiado, mexendo no cabelo. — Desculpe incomodar tão tarde, mas é que... bom, será que você pode me ajudar com meu carro de novo? Ele deu um problema estranho no motor agora que cheguei, e eu não sei o que fazer. Você foi tão eficiente da última vez.
Giovanna suspirou, passando a mão pelo rosto.
— Júlia, agora é realmente um momento ruim. Eu estou no meio de uma reunião importante.
— Ah, por favor, é rapidinho! — insistiu a mulher, dando um passo à frente, tentando espiar para dentro do apartamento. — Eu morro de medo de deixar o carro ali fora fazendo aquele barulho. Você não se importa, não é? Somos amigas, afinal.
Lá de dentro, Maya ouviu a voz. Uma voz que ela conhecia, mas que não conseguia associar imediatamente àquele lugar. O tom, a cadência... era familiar demais. Curiosa, Maya se aproximou da porta, parando logo atrás de Giovanna.
— Júlia? — a voz de Maya saiu carregada de uma surpresa gélida.
A vizinha congelou ao ver a médica. O sorriso ensaiado desapareceu, substituído por uma expressão de choque puro.
— Maya? — Júlia gaguejou, os olhos arregalados. — O que... o que você está fazendo aqui?
Maya olhou de Júlia para Giovanna, a confusão estampada em seu rosto, misturada com uma ponta de ciúme e desconfiança que ela não conseguiu conter.
— O que essa mulher está fazendo aqui, Giovanna? — perguntou Maya, a voz subindo um tom.
Júlia, recuperando-se do choque inicial, olhou para a mão de Giovanna que, momentos antes, estava apoiada no batente da porta de forma protetora.
— Amor, quem é? — perguntou Maya, a palavra "amor" saindo de seus lábios com uma possessividade clara, marcando território diante da intrusa.
Júlia deu um passo para trás, como se tivesse sido esbofeteada.
— Amor? — Júlia repetiu, a voz agora carregada de uma indignação ácida. — Uai, vocês estão namorando?
Ela se virou para Giovanna, os olhos brilhando com uma mistura de raiva e decepção.
— Giovanna, você não... você não disse que vocês eram apenas amigas! Você me disse que ela era uma cliente, uma testemunha de um caso que você estava protegendo!
O silêncio que caiu sobre o corredor foi ensurdecedor. Giovanna sentiu o mundo girar por um segundo. Ela olhou para Maya, que agora tinha os braços cruzados e uma expressão que misturava mágoa e fúria silenciosa.
— Júlia, eu nunca disse que éramos apenas amigas — defendeu-se Giovanna, a voz firme, mas interna mente desesperada. — Eu disse que não podia falar sobre a minha vida pessoal com você.
— Você me deixou acreditar que havia uma chance! — disparou Júlia, a voz agora mais alta, atraindo a atenção de Ana Clara, que apareceu logo atrás de Maya, observando a cena com os olhos arregalados. — Você me ajudou com o carro, aceitou os cafés, foi gentil... e o tempo todo você estava com ela? Com a "Doutora Perfeita"?
Maya deu um passo à frente, ficando ombro a ombro com Giovanna. O instinto protetor da médica, somado aos hormônios da gravidez e ao estresse do dia, transformou-se em uma aura de autoridade que fez Júlia recuar mais um pouco.
— Eu não sei o que você acha que estava acontecendo aqui, Júlia — disse Maya, com uma calma cortante que era muito mais assustadora do que um grito. — Mas a Giovanna é a minha namorada. E nós estamos construindo uma família. Se ela foi gentil com você, foi por educação profissional, algo que parece que você confundiu com outra coisa. Agora, se o seu carro tem um problema, sugiro que ligue para um guincho. A agente Torres está ocupada cuidando da vida dela. Comigo.
Júlia abriu a boca para retrucar, mas a expressão no rosto de Maya e o olhar de "agora chega" de Giovanna a fizeram desistir. Ela lançou um último olhar de desprezo para as duas, girou nos calcanhares e desceu as escadas pisando forte, resmungando algo sobre "policiais mentirosas".
Giovanna fechou a porta lentamente e encostou a testa na madeira fria, soltando o ar que nem sabia que estava prendendo. Ela se virou devagar, encontrando o olhar de Maya.
— Maya, eu juro que...
— "Apenas amigas", Giovanna? — Maya a interrompeu, embora o tom agora fosse mais de mágoa do que de raiva. — É assim que você me descreveu para a vizinha que claramente está a fim de você?
— Eu não descrevi você assim! — exclamou Giovanna, aproximando-se e tentando pegar as mãos de Maya. — Ela é insistente, Maya. Eu tentava ser educada para não criar problemas no prédio, e sempre que ela perguntava quem era a mulher loira que vinha aqui, eu desconversava dizendo que era um assunto de trabalho, para proteger a sua privacidade por causa do Christopher! Eu nunca quis que ela pensasse que tinha uma chance.
Ana Clara, percebendo que sua presença ali era agora um tanto quanto incômoda, pigarreou.
— Bom... acho que a cota de emoções por hoje já estourou para todo mundo. Gio, Maya... vou deixar vocês conversarem. Amanhã a gente se fala sobre o tribunal, com a cabeça mais fria.
Ana Clara saiu rapidamente, deixando o casal sozinho na sala.
Maya suspirou, sentando-se novamente no sofá e massageando as têmporas. Giovanna ajoelhou-se à sua frente, colocando as mãos sobre os joelhos de Maya.
— Me perdoa? Eu fui uma idiota por não ter cortado as asinhas dela de forma mais bruta, mas eu juro, por tudo o que há de mais sagrado, que para mim nunca existiu ninguém além de você. Aquela mulher é só uma vizinha carente que eu ajudei uma vez por educação.
Maya olhou para Giovanna, vendo a sinceridade e a angústia nos olhos escuros da namorada. Ela estendeu a mão e acariciou o rosto de Giovanna, sentindo a barba rala de quem teve um dia exaustivo.
— Eu acredito em você, Gio. Eu só... eu estou cansada. Cansada de sombras, cansada de segredos, cansada de pessoas tentando tirar um pedaço do que é nosso. O Christopher na delegacia, essa vizinha na porta... parece que o mundo não quer nos deixar em paz.
Giovanna pegou a mão de Maya e a beijou suavemente.
— O mundo pode tentar o quanto quiser, Maya. Mas eles não vão conseguir. Eu vou resolver a situação com o promotor, vou garantir que você não sofra naquele tribunal, e quanto à Júlia... amanhã mesmo eu deixo claro que, se ela encostar na minha campainha de novo, eu vou registrar uma queixa por perturbação.
Maya soltou uma risadinha fraca, a tensão finalmente começando a se dissipar.
— Não precisa de tanto, agente fiscalizadora. Eu acho que o meu olhar de "médica brava" já resolveu metade do problema.
— Com certeza resolveu — riu Giovanna, subindo para o sofá e puxando Maya para o seu peito. — Você foi incrível. "Amor", é? Eu gostei de ouvir isso.
— Não se acostume — brincou Maya, embora estivesse se aconchegando no calor do corpo de Giovanna. — Foi só para marcar território.
— Pode marcar o quanto quiser. O território é todo seu.
Ficaram ali em silêncio por um longo tempo, observando as luzes da cidade através da janela. O peso do julgamento de Christopher ainda pairava sobre elas, uma tempestade que se aproximava rapidamente, mas, naquele momento, dentro daquelas quatro paredes, elas eram apenas duas pessoas tentando proteger o amor que haviam lutado tanto para conquistar.
— Gio? — chamou Maya, com a voz sonolenta.
— Hum?
— Eu fui na mansão hoje. Falei com a Lúcia.
Giovanna ficou tensa por um momento, mas continuou acariciando o cabelo de Maya.
— E como foi?
— Foi bom. Ela ficou feliz pelo bebê. E eu... eu quero voltar para lá, Gio. Quero que a gente more lá. É grande, tem jardim, espaço para o bebê correr... e é o meu lugar. Eu quero que seja o nosso lugar.
Giovanna sorriu, sentindo uma paz inesperada.
— Se é lá que você se sente segura, então é para lá que nós vamos. Eu vou com você para qualquer lugar, Maya Manoela. Desde que seja com você.
Maya fechou os olhos, sentindo o chute leve do bebê em seu ventre, um lembrete vivo de que, apesar das sombras lá fora, o futuro estava sendo escrito ali, naquele abraço, e nenhuma Júlia ou Christopher teria poder suficiente para apagar o que elas haviam construído.