Acabou
O Eco do Silêncio e o Peso da Verdade
O ar dentro da cabana era denso, carregado com o cheiro de mofo e a poeira de décadas. Maya sentia sua cabeça latejar em sincronia com as batidas de seu coração. Cada palavra de Malu era como um prego sendo martelado em uma estrutura que ela achava que conhecia, mas que agora se revelava um castelo de cartas prestes a desmoronar.
— Precisamos nos mover — disse Malu, interrompendo o silêncio que se instalara após a grande revelação. — Não podemos ficar aqui por muito tempo. Se o fogo na estrada for controlado rápido, os cães de guarda da Lorena vão começar a vasculhar o perímetro.
— Mas como vamos sair daqui nesse estado? — Maya perguntou, tentando se levantar e sentindo o estômago dar uma volta violenta. Ela se apoiou na parede de madeira podre, fechando os olhos com força. — Eu me sinto como se um caminhão tivesse passado por cima de mim.
Sarah aproximou-se, preocupada.
— Você está pálida, Maya. O impacto foi forte.
— É só o susto... e o sangue — murmurou Maya, embora sentisse uma náusea que parecia vir de algum lugar mais profundo do que apenas o trauma físico.
Malu ajudou Sarah a organizar o pouco que tinham. Elas não podiam levar nada que denunciasse sua presença. O plano era simples, mas perigoso: atravessar a mata por uma trilha que Malu conhecia desde a infância, uma rota de fuga que ela usava quando queria se esconder das garras controladoras de Clara.
— Eu tenho uma casa — explicou Malu enquanto guiava as duas para fora da cabana. — Fica a cerca de cinco quilômetros daqui, em uma propriedade que comprei em nome de terceiros. É segura. Ninguém da família Torres sabe da existência dela. Lá teremos remédios, roupas e, o mais importante, comunicação segura.
A caminhada pela floresta foi um teste de resistência. Maya sentia cada músculo protestar. No entanto, algo além da dor física a incomodava. De tempos em tempos, uma tontura súbita a fazia vacilar, e o cheiro da terra úmida e das folhas em decomposição, que normalmente não a afetaria, agora parecia insuportável, embrulhando seu estômago de forma agressiva.
— Você está bem? — perguntou Sarah, segurando o braço de Maya quando ela quase tropeçou em uma raiz.
— Sim, só... o cheiro. Está muito forte, não acha? — Maya respirou pela boca, tentando afastar o mal-estar.
Sarah franziu a testa, olhando ao redor.
— Cheiro de mato? É o normal da floresta, Maya.
Maya não respondeu. Ela apenas apertou o passo, querendo chegar logo ao destino. O pensamento em Giovanna era a única coisa que a mantinha de pé. Ela imaginava a esposa agora, provavelmente cercada por Lorena e Clara, sendo alimentada com mentiras venenosas. A ideia de Giovanna sofrendo por uma morte que não aconteceu fazia o coração de Maya sangrar mais do que qualquer ferimento em seu corpo.
Depois de quase duas horas de caminhada sob a luz pálida da lua que filtrava pelas copas das árvores, elas finalmente avistaram uma construção pequena e moderna, camuflada entre os pinheiros. Era uma casa de campo discreta, feita de pedra e vidro escuro.
— Chegamos — anunciou Malu, destrancando a porta com um código eletrônico.
Assim que entraram, o conforto do ambiente climatizado e o cheiro de limpeza foram um choque para os sentidos de Maya. Ela cambaleou até o sofá mais próximo e desabou.
— Sarah, pegue o kit de primeiros socorros no armário da cozinha — comandou Malu, já retirando o casaco sujo de sangue. — Maya, vou precisar que você tome um banho e limpe esses cortes. Depois, vamos sentar e traçar o plano para tirar a Giovanna daquela fazenda.
Maya tentou se levantar, mas o mundo girou.
— Eu... eu preciso de um minuto — disse ela, levando a mão à boca. — Acho que vou vomitar.
Ela correu para o banheiro do corredor, fechando a porta a tempo de colocar para fora o pouco que restava em seu estômago. O esforço fez suas costelas doerem terrivelmente. Quando terminou, ela se sentou no chão frio do banheiro, trêmula e suada.
— Deve ser a concussão — murmurou para si mesma, lavando o rosto na pia. — O acidente... o estresse... é só isso.
Do lado de fora, Sarah e Malu trocavam olhares preocupados.
— Ela está muito mal, Malu — sussurrou Sarah. — O acidente foi feio, mas ela está agindo de um jeito estranho.
— É o trauma, Sarah. Ela quase morreu queimada viva e acabou de descobrir que a cunhada é uma psicopata e a sogra é uma criminosa. Quem não estaria vomitando? — Malu suspirou, passando a mão pelo rosto. — Vamos dar espaço a ela. Amanhã, se ela não melhorar, damos um jeito de conseguir um médico de confiança.
...
Enquanto isso, na fazenda Torres, o clima era de velório — literalmente.
Giovanna estava trancada em seu quarto. Ela não permitia que ninguém entrasse, exceto para deixar bandejas de comida que permaneciam intocadas. Ela passava as horas olhando para o lado da cama de Maya, sentindo o perfume dela que ainda impregnava os travesseiros.
— Por que você me deixou, Maya? — sussurrava ela, a voz sumindo na escuridão do quarto. — Por que você fugiu com ele?
As palavras de Lorena ecoavam em sua mente como um disco riscado. "Ela te usou". "Ela nunca te amou". Parte de Giovanna queria gritar que era mentira, mas a imagem do carro em chamas e o relatório policial sobre a fuga eram evidências que ela não conseguia refutar.
Uma batida suave na porta interrompeu seus pensamentos.
— Gio? Sou eu, a mamãe.
Giovanna não respondeu, mas Clara entrou assim mesmo, trazendo uma xícara de chá.
— Você precisa comer alguma coisa, querida. Vai acabar adoecendo.
— Eu não me importo — respondeu Giovanna, sem desviar o olhar da janela.
Clara sentou-se na beira da cama, sentindo um peso no peito que não esperava sentir. Ver a filha naquele estado era pior do que qualquer ameaça de Lorena, mas ela sabia que agora estava presa em uma teia que ela mesma ajudara a tecer.
— Você não está sozinha — disse Clara, tentando soar convincente. — Lorena está lá embaixo, arrasada também. Ela não sai da fazenda um minuto sequer, preocupada com você. Ela é uma verdadeira amiga, Giovanna. Poucas pessoas teriam essa lealdade depois de tudo o que aconteceu.
Giovanna finalmente olhou para a mãe. Seus olhos estavam opacos.
— Ela disse que a Maya estava me traindo há meses. Que aquele homem era o amante dela.
Clara hesitou por um segundo. A mentira de Lorena era audaciosa, mas servia aos seus propósitos.
— Infelizmente, as evidências apontam para isso, meu amor. Eu nunca quis te dizer, mas sempre achei que Maya escondia segredos. Agora, você precisa focar em se recuperar. Deixe que Lorena te ajude a passar por isso. Ela conhece você melhor do que ninguém.
Giovanna fechou os olhos, deixando uma lágrima solitária cair.
— Eu sinto que perdi tudo, mãe.
— Você ainda tem a mim. E tem a Lorena. Nós vamos cuidar de você.
Lá embaixo, na sala de estar, Lorena servia-se de um copo de uísque, observando as luzes das viaturas que ainda patrulhavam a entrada da propriedade. Um sorriso imperceptível brincava em seus lábios. O plano estava funcionando perfeitamente. Maya estava morta, Malu estava sumida e Giovanna estava vulnerável.
— Em breve, Giovanna — sussurrou ela para o vidro frio do copo. — Em breve você vai perceber que eu sou a única que restou. E você vai me amar por isso.
...
Na casa segura, o sol começava a despontar no horizonte, tingindo o céu de tons alaranjados e roxos. Maya havia conseguido dormir algumas horas, mas acordou com uma sensação de vazio e uma fome avassaladora, seguida imediatamente por outra onda de náusea.
Ela saiu do quarto, encontrando Sarah na cozinha preparando café. O cheiro do pó de café fresco atingiu o nariz de Maya como um soco. Ela teve que cobrir o nariz com a mão.
— Sarah, por favor, apaga isso ou leva para longe — pediu Maya, a voz embargada.
Sarah parou, com a cafeteira na mão, olhando para Maya com estranheza.
— É só café, Maya. Você adora café.
— Hoje não. O cheiro está... horrível. Me deixa tonta.
Sarah desligou a cafeteira e caminhou até Maya, observando-a de perto. Ela notou o brilho diferente nos olhos da amiga e a forma como ela segurava o próprio corpo.
— Maya, sente-se aqui — pediu Sarah, puxando uma cadeira. — Há quanto tempo você está se sentindo assim?
— Desde o acidente. Eu já disse, deve ser o estresse, a batida na cabeça...
— Náuseas matinais? Sensibilidade a cheiros? — Sarah cruzou os braços, a expressão tornando-se séria. — Maya, você e a Giovanna... vocês estavam tentando?
Maya congelou. O pensamento, que ela vinha empurrando para o fundo de sua mente desde que as tonturas começaram semanas atrás — de forma leve, quase imperceptível —, agora saltava para a frente.
— Não estávamos tentando ativamente, mas... nós não estávamos nos prevenindo — confessou Maya em um sussurro. — Mas não pode ser. Não agora. Com tudo isso acontecendo...
Sarah suspirou, sentando-se à frente dela.
— O corpo não escolhe o momento ideal, Maya. O estresse do acidente pode ter intensificado os sintomas, mas essa sua reação ao café é um clássico.
— Eu não posso estar grávida, Sarah! — Maya disse, a voz subindo de tom por causa do pânico. — Eu sou uma morta-viva! Minha esposa acha que eu a traí e morri em um incêndio! Como eu vou ter um filho agora?
— Ei, calma — Sarah segurou as mãos trêmulas de Maya. — Primeiro, precisamos ter certeza. Malu tem alguns testes de farmácia guardados aqui por precaução, sabe como ela é paranoica com tudo.
— Malu tem testes de gravidez? — Maya perguntou, levemente confusa.
— Longa história — Sarah deu um sorriso triste. — Mas o ponto é: você precisa saber. Se você estiver carregando um herdeiro dos Torres, isso muda tudo no nosso plano. Lorena não vai querer apenas a Giovanna; ela vai ver esse bebê como uma ameaça ou como a peça final para controlar a fortuna da família.
Malu entrou na cozinha naquele momento, já vestida com roupas táticas pretas, pronta para começar o monitoramento eletrônico da fazenda.
— O que muda o plano? — perguntou ela, olhando de Sarah para Maya.
Sarah olhou para Maya, pedindo permissão silenciosa. Maya assentiu, sentindo-se exausta.
— Achamos que a Maya pode estar grávida — disse Sarah.
Malu parou no meio do caminho, os olhos arregalados. Ela olhou para a barriga de Maya e depois para o rosto pálido da cunhada. Pela primeira vez, a fria e calculista Malu Torres pareceu perdida.
— Um bebê... — murmurou Malu. — Se a Giovanna souber disso... ela destrói aquela fazenda com as próprias mãos para chegar até você.
— Mas ela não pode saber — interrompeu Maya, levantando-se com uma determinação renovada. — Não ainda. Se Lorena descobrir, ela vai usar isso contra a Giovanna. Ela vai dizer que o filho não é meu, ou vai tentar algo pior.
Malu assentiu, recuperando a postura.
— Você tem razão. Se isso for verdade, você se tornou o alvo número um e a maior arma que temos ao mesmo tempo. Sarah, pegue o teste. Maya, faça o que tem que fazer. Eu vou começar a hackear as câmeras de segurança da fazenda. Preciso ver como minha irmã está.
Maya pegou a pequena caixa que Sarah lhe entregou com as mãos trêmulas. Ela caminhou em direção ao banheiro, sentindo o peso do mundo em seus ombros. Se houvesse uma vida crescendo dentro dela, aquela criança seria o fruto de um amor que Lorena tentava transformar em cinzas.
Minutos depois, Maya voltou para a sala. Ela não precisou dizer nada. O olhar de assombro e a lágrima que escorria por seu rosto diziam tudo.
— Positivo? — perguntou Sarah em voz baixa.
Maya apenas assentiu, sentando-se pesadamente.
— Eu vou ter um filho da Giovanna... e ela nem sabe que eu estou viva.
Malu, que estava concentrada em três telas de notebook, soltou um palavrão baixo.
— Venham ver isso — chamou ela, a voz carregada de urgência.
Sarah e Maya se aproximaram. Na tela, uma imagem granulada da varanda da fazenda mostrava Giovanna sentada em uma cadeira de balanço, parecendo uma sombra do que costumava ser. Lorena estava atrás dela, com as mãos repousadas nos ombros de Giovanna, falando algo em seu ouvido.
— Veja a mão da Lorena — apontou Malu.
Lorena deslizava a mão pelo braço de Giovanna de uma forma que não era apenas de consolo. Era possessiva. Era predatória. Giovanna parecia não ter forças para se afastar, apenas aceitando o toque com uma resignação dolorosa.
— Ela está drogando a Giovanna — afirmou Maya, sentindo a raiva suplantar a náusea. — Eu conheço aquele olhar. A Giovanna está dopada. Lorena está usando medicamentos para mantê-la submissa.
— Provavelmente com a ajuda do doutor Elias — rosnou Malu. — Ele sempre foi um lacaio da minha mãe.
Maya apertou o ventre de forma instintiva.
— Nós não temos mais tempo para planos elaborados, Malu. Minha esposa está sendo mantida prisioneira emocional e fisicamente, e eu tenho um filho para proteger.
Malu olhou para Maya, vendo nela a força que faltava em Giovanna naquele momento.
— Tudo bem. Se é guerra que a Lorena quer, é guerra que ela vai ter. Mas não vamos apenas entrar lá e atirar. Vamos destruir a reputação dela e da minha mãe peça por peça.
— Como? — perguntou Sarah.
Malu sorriu, um sorriso que não chegava aos olhos.
— Vamos começar enviando um presente para a Lorena. Algo que ela não espera. Algo que prove que os mortos nem sempre ficam enterrados.
Maya olhou para a tela, onde Lorena agora beijava o topo da cabeça de Giovanna. O ódio que sentia era puro e gélido.
— Eu vou buscar o que é meu, Lorena — sussurrou Maya para a imagem na tela. — E você vai desejar ter morrido naquele acidente no meu lugar.
O plano de Malu começava a tomar forma. Elas usariam a tecnologia e o conhecimento interno de Malu sobre os segredos da família para desestabilizar Clara e Lorena. A primeira fase seria semear a dúvida. Fazer Lorena acreditar que estava sendo assombrada, enquanto Maya se fortalecia para o confronto final.
No entanto, o segredo da gravidez permaneceria entre as três. Era o triunfo final, a prova viva de que a traição de Lorena havia falhado em destruir o vínculo entre as duas mulheres.
— Sarah, prepare as câmeras remotas — comandou Malu. — Maya, você precisa comer e descansar. Daqui a dois dias, faremos o primeiro movimento. O mundo vai descobrir que Maya Torres Garcia não é uma traidora... e que a verdadeira vilã da fazenda Torres está prestes a cair.
Maya olhou para a janela, vendo o sol finalmente iluminar a floresta. O caminho à frente seria perigoso e incerto, mas agora ela tinha mais de um motivo para lutar. Ela tinha Giovanna, e tinha a vida que pulsava dentro de si. A fênix estava pronta para ressurgir das cinzas, e desta vez, ela traria o fogo consigo.