Adrien eu amo-te
O Sussurro das Ondas e o Peso do Silêncio
A luz pálida da manhã de sexta-feira filtrava-se pelas cortinas pesadas do quarto de Adrien, mas o habitual peso no peito do rapaz parecia um pouco mais leve. O plano de fuga estava em marcha. Marinette tinha passado a noite em claro, alternando entre vigiar o sono inquieto dele e organizar uma mochila com suprimentos médicos extras, roupas confortáveis e alguns dos seus cadernos de desenho. Ela sabia que, para Adrien, a arte era uma forma de expulsar os demônios que o pai plantava em sua mente.
— Adrien, acorda... — sussurrou Marinette, depositando beijos leves nas têmperas dele. — O Daniel já mandou mensagem. Eles estão contornando o quarteirão para nos buscar.
Adrien abriu os olhos devagar, a cor esmeralda ainda nublada pelo cansaço, mas um sorriso genuíno surgiu quando viu o rosto dela tão próximo ao seu.
— Eu tive um sonho onde não havia paredes de vidro — murmurou ele, sentando-se com cautela. As costas ainda repuxavam onde os curativos estavam colados, mas a dor era suportável. — Só areia e o barulho do mar.
— Vai deixar de ser sonho em poucas horas — prometeu ela, ajudando-o a vestir um moletom largo que esconderia as bandagens. — Vamos, antes que a secretária do seu pai venha verificar se você já está pronto para a "lição" de hoje.
A saída da mansão foi uma operação de precisão. Eles desceram pela janela, aproveitando o ponto cego das câmeras que Adrien conhecia tão bem. Quando os pés dele tocaram a calçada, um suspiro de alívio escapou de seus lábios. O carro de Daniel, um jipe antigo e barulhento que Bia chamava carinhosamente de "Lata de Lixo", parou na esquina com os faróis apagados.
— Entrem logo, seus fugitivos! — exclamou Daniel, rindo baixo enquanto destrancava as portas.
Bia estava no banco do carona, com os fones de ouvido no pescoço e um óculos de sol mesmo sendo madrugada.
— Se o velho Agreste descobrir que eu ajudei no sequestro do herdeiro, ele me processa até a quinta geração — comentou Bia, mas seus olhos azuis brilhavam de empolgação. — Estão prontos para a liberdade?
— Mais do que nunca — respondeu Marinette, apertando a mão de Adrien no banco de trás.
A viagem durou três horas. À medida que a paisagem urbana de Paris ficava para trás, substituída por campos verdes e, eventualmente, pelo azul profundo do horizonte, a tensão nos ombros de Adrien começava a se dissipar. Daniel dirigia de forma relaxada, conversando sobre música e criticando as escolhas de rádio de Bia, enquanto Marinette mantinha a cabeça encostada no ombro de Adrien, desenhando círculos invisíveis na palma da mão dele.
— Você está bem? — perguntou ela, baixinho, para que apenas ele ouvisse.
— Sinto que estou voltando a respirar — confessou Adrien. — É estranho como o ar parece diferente quando você não está esperando por um grito ou um barulho de algo quebrando.
— Isso se chama paz, Adrien — disse ela, inclinando-se para beijar o canto da boca dele. — E você vai ter muita dela este fim de semana.
A casa de praia do tio de Bia era um refúgio rústico, isolado entre dunas de areia e pinheiros. Assim que chegaram, o cheiro de maresia invadiu o carro, e o som constante das ondas quebrando serviu como uma canção de ninar para a alma traumatizada de Adrien.
— Divisão de quartos! — anunciou Bia, jogando as chaves para Marinette. — Eu e o Daniel ficamos com o andar de baixo, porque não aguento subir escadas com essa umidade. Vocês dois ficam com a suíte lá em cima. E antes que perguntem, sim, a geladeira está cheia. Meu tio é um acumulador de comida.
— Obrigado, Bia. De verdade — disse Adrien, pegando a sua mochila.
— Não me agradeça ainda. Você vai ter que me ajudar a cozinhar o jantar, e eu sou uma ditadora na cozinha — brincou ela, antes de arrastar Daniel para a varanda.
No quarto andar de cima, Marinette e Adrien encontraram um espaço amplo, com uma varanda que dava diretamente para o oceano. O sol agora brilhava intensamente, refletindo na água como milhares de diamantes.
— É lindo, Mari — Adrien caminhou até a varanda, sentindo a brisa balançar seus caracóis loiros.
Marinette aproximou-se por trás, abraçando-o pela cintura e repousando a bochecha em suas costas, tomando cuidado com os ferimentos.
— Eu queria que pudéssemos ficar aqui para sempre — disse ela. — Longe de tudo o que te machuca.
Adrien virou-se no abraço dela, envolvendo-a com seus braços longos. A intimidade entre eles era como um porto seguro. Ele não precisava fingir ser o modelo perfeito, o filho obediente ou o rapaz inabalável. Com Marinette, ele podia ser apenas Adrien: um jovem que amava, que sofria e que desejava desesperadamente ser feliz.
— Você é o meu "para sempre", Marinette — sussurrou ele, antes de selar seus lábios nos dela em um beijo profundo, carregado de gratidão e desejo.
A tarde passou entre caminhadas lentas pela areia — onde Adrien insistiu em não usar sapatos para sentir a textura da terra — e momentos de silêncio compartilhado. Daniel e Bia mantinham uma distância respeitosa, entendendo que, embora fossem um grupo de quatro amigos, Adrien e Marinette precisavam daquela conexão quase simbiótica para processar os eventos da semana.
— O Daniel me contou que o pai dele também era difícil — comentou Adrien, enquanto ele e Marinette estavam sentados em uma duna, observando o pôr do sol. — Não violento como o meu, mas frio. Ele disse que o segredo é construir a própria família.
— Ele tem razão — concordou Marinette. — Família nem sempre é o sangue que corre nas veias. Às vezes, é o sangue que alguém limpa das suas costas e as mãos que te seguram quando você acha que vai cair.
— Eu não sei o que eu faria sem você, Mari. Provavelmente já teria me tornado uma sombra completa.
— Você nunca será uma sombra, Adrien. Você brilha demais para isso. Mesmo quando tentam apagar sua luz, ela escapa pelas frestas.
Ao cair da noite, o grupo se reuniu ao redor de uma pequena fogueira que Daniel montou no quintal da casa. Bia, fiel à sua palavra, comandou a preparação de uma massa simples, mas deliciosa. O clima era de leveza, mas as cicatrizes de Adrien, tanto físicas quanto emocionais, ainda estavam lá, espreitando.
— Sabe o que eu acho? — começou Daniel, abrindo uma bebida e olhando para as chamas. — Eu acho que você não deveria voltar para aquela casa na segunda-feira, cara.
O silêncio caiu sobre o grupo. Adrien olhou para as próprias mãos, as juntas ainda um pouco marcadas pela tensão.
— Eu não tenho para onde ir, Daniel. Ele controla tudo. Minha conta bancária, meus horários, minha escola...
— Você tem a mim — disse Marinette, imediatamente. — Meus pais te amam. Eles sabem que algo está errado, embora eu não tenha contado os detalhes sórdidos. Eles te acolheriam num piscar de olhos.
— E você tem a gente — acrescentou Bia, com sua voz firme. — Se o seu pai tentar algo, eu conheço uns advogados... e bom, o Daniel é bom de briga, embora não pareça.
Adrien riu, uma risada curta e melancólica.
— Eu agradeço. Mas eu tenho medo do que ele pode fazer com vocês. Ele é um homem poderoso e... ele é instável.
— Ele é um covarde — rebateu Marinette, segurando a mão de Adrien com força. — Homens que batem em quem não pode se defender são os maiores covardes da Terra. Não deixe o medo dele ditar o seu futuro.
A conversa continuou, explorando possibilidades, planos e sonhos de uma vida onde as "Cicatrizes de Vidro" fossem apenas lembranças distantes. Por volta da meia-noite, Daniel e Bia se recolheram, deixando Adrien e Marinette sozinhos sob o céu estrelado.
— Vamos subir? — sugeriu Adrien. — Estou começando a sentir o cansaço da viagem.
No quarto, a atmosfera mudou. A urgência do dia deu lugar a uma ternura profunda. Marinette ajudou Adrien a tirar a camisa para trocar os curativos. Ela examinou a pele dele sob a luz do abajur, notando que a vermelhidão estava diminuindo.
— Está cicatrizando bem — disse ela, passando os dedos gentilmente ao redor de um corte maior. — Mas a sua alma ainda parece um pouco tensa.
Adrien suspirou, sentando-se na beira da cama.
— É difícil desligar, Mari. Eu fecho os olhos e ouço o som do cristal quebrando. Ouço ele me chamando de inútil. Parece que as palavras dele entraram por baixo da minha pele junto com o vidro.
Marinette ajoelhou-se entre as pernas dele, forçando-o a olhar para ela.
— Então vamos escrever novas palavras — disse ela, a voz carregada de uma sensualidade doce e protetora.
Ela começou a beijar as cicatrizes, uma por uma. Beijou o ombro, a base do pescoço, o meio das costas. Cada toque era um ato de rebeldia contra o ódio de Gabriel Agreste. Adrien sentiu arrepios percorrerem seu corpo, mas não eram de medo. Era uma onda de calor que começava a substituir o frio que habitava seus ossos.
— Você é amado — sussurrou ela contra a pele dele. — Você é valioso. Você é livre.
Adrien puxou-a para cima, fazendo-a sentar em seu colo. A intimidade entre eles floresceu em um ritmo lento, quase sagrado. Não era apenas sobre prazer físico; era sobre cura. Cada carícia de Marinette era um bálsamo, e cada resposta de Adrien era um grito de sobrevivência. Eles se perderam um no outro, no emaranhado de lençóis e suspiros, onde o único som permitido era o das ondas e o de suas próprias respirações sincronizadas.
Horas depois, enquanto Adrien dormia um sono profundo e sem pesadelos, Marinette permanecia acordada, observando-o. Ela viu a expressão relaxada dele, o jeito como a mão dele ainda buscava a dela mesmo durante o sono.
Ela sabia que a batalha estava longe de terminar. Segunda-feira chegaria, e com ela, a realidade sombria da mansão. Mas enquanto olhava para o rapaz ao seu lado, Marinette sentia uma determinação renovada. Ela não era apenas a namorada dele; ela era sua aliada, sua enfermeira e, se necessário, sua guerreira.
— Ele nunca mais vai te quebrar, Adrien — prometeu ela em um sussurro, fechando os olhos finalmente. — Eu vou juntar cada pedaço, quantas vezes for preciso.
Lá fora, o mar continuava seu ciclo eterno, lavando a areia e levando embora as marcas deixadas pelo dia, assim como o amor de Marinette prometia lavar as dores que Adrien carregava no coração. O fim de semana estava apenas começando, e para Adrien, aquele era o primeiro capítulo de uma história onde ele finalmente era o autor de seu próprio destino.