Voltar ao resumo

Adrien eu amo-te

O Sangue que se Torna Vinho e a Cura no Teu Corpo

O sol de terça-feira entrou timidamente pelas frestas da persiana no quarto de hóspedes da família de Daniel. Não era a luz fria e impessoal da mansão Agreste, que sempre parecia denunciar cada partícula de poeira e cada falha de Adrien. Era uma luz âmbar, quente, que trazia consigo o cheiro de café fresco e torradas que vinha do andar de baixo.

Adrien acordou devagar. Cada músculo do seu corpo protestava, e a bandagem em suas costelas limitava sua respiração, mas, pela primeira vez em muito tempo, a primeira sensação ao despertar não foi o medo. Foi o calor. Marinette estava entrelaçada a ele, com a cabeça descansando em seu peito ileso, a respiração rítmica e profunda de quem finalmente encontrara um porto seguro.

Ele ficou ali, imóvel, apenas observando os caracóis castanhos dela espalhados pelo travesseiro. A vulnerabilidade de Marinette enquanto dormia era o que ele tinha de mais precioso. Ela o havia resgatado do inferno na tarde anterior, enfrentando o monstro que ele chamava de pai, e agora, no silêncio daquela manhã, ele sentia que uma barreira havia sido quebrada para sempre. Não havia mais segredos, não havia mais a vergonha de suas cicatrizes.

Marinette começou a despertar, os cílios longos roçando na pele de Adrien antes de ela abrir os olhos castanhos, que brilharam ao encontrarem o verde dos dele.

— Bom dia — sussurrou ela, a voz rouca pelo sono. — Como você se sente?

— Como se um caminhão tivesse passado por cima de mim — Adrien tentou rir, mas uma pontada na costela o fez gemer baixo. — Mas, estranhamente... me sinto leve. Como se o peso daquela casa tivesse ficado nos cacos de vidro do chão.

Marinette se levantou um pouco, apoiando-se nos cotovelos para olhá-lo de frente. Ela estendeu a mão e acariciou o curativo na têmpora dele.

— O Daniel e a Bia já saíram para a escola. Os pais do Daniel também foram trabalhar, mas deixaram tudo pronto na cozinha. Estamos sozinhos, Adrien. Ninguém vai entrar por aquela porta sem a sua permissão.

Adrien sentiu um arrepio que não era de dor. A palavra "sozinhos" ecoou em sua mente com uma intensidade nova. A intimidade deles sempre fora cercada de pressa, de medo de serem descobertos, de sussurros em quartos escuros. Agora, havia uma liberdade crua e pulsante entre eles.

— Mari... — ele chamou, a voz descendo uma oitava. — Obrigado por não ter desistido de mim. Ontem, quando eu vi o meu pai segurando o seu braço... eu achei que ia perder a única coisa boa que eu tenho.

— Você nunca vai me perder, Adrien. Aquele homem pode ter tentado te quebrar, mas ele só conseguiu mostrar o quanto você é amado por quem realmente importa.

Ela se inclinou e beijou o pescoço dele, um toque suave que rapidamente se tornou mais persistente. Adrien sentiu a eletricidade percorrer sua espinha. A dor física parecia recuar, dando lugar a uma urgência que ele só sentia quando estava nos braços dela.

Marinette, percebendo a reação dele, começou a descer os beijos pelo peito de Adrien, contornando com extrema delicadeza as áreas onde a pele estava arroxeada ou coberta por esparadrapos. Era um ritual de cura. Cada beijo era uma promessa de que aquele corpo, tão maltratado pelo ódio, era agora um templo de adoração para ela.

— Eu quero você, Mari — confessou ele, as mãos trêmulas encontrando a cintura dela. — Eu quero esquecer o toque dele com o seu. Eu quero que a sua marca seja a única que eu sinta.

Marinette olhou para ele com uma determinação feroz. Ela amava a doçura de Adrien, mas amava ainda mais a necessidade que ele tinha dela. Ela se moveu com cuidado, sentando-se sobre o colo dele, sentindo o calor aumentar entre seus corpos.

— Eu vou ser gentil, meu amor — sussurrou ela, começando a tirar a própria camiseta. — Eu vou te mostrar que o seu corpo não é um lugar de dor. É um lugar de prazer. O nosso lugar.

A manhã se arrastou em um ritmo lento e profundo. Naquela cama, a intimidade entre eles atingiu um novo patamar. Não era apenas o ato físico; era a entrega absoluta de duas almas que haviam passado pelo fogo juntas. Adrien, apesar das limitações físicas, entregou-se a Marinette de uma forma que nunca fizera antes. Ele permitiu que ela visse cada estremecimento, que ouvisse cada suspiro de alívio e desejo.

— Você é linda — murmurou Adrien, enquanto as mãos de Marinette guiavam as dele pelo corpo dela. — Eu não mereço você.

— Não diga isso — ela o interrompeu com um beijo profundo, um beijo que provava que ele merecia tudo o que ela tinha para oferecer. — Você é a melhor parte de mim, Adrien. E hoje, nós somos apenas nós dois. Sem passado, sem medo.

Enquanto o casal se perdia um no outro, em um mergulho de sensações que apagava as sombras da segunda-feira, a poucos quilômetros dali, o clima nas outras famílias também começava a mudar.

Na casa de Bia, o clima de rebeldia constante parecia ter dado lugar a uma trégua silenciosa. Seus pais, que sempre foram rigorosos e distantes, viram a filha chegar em casa na noite anterior coberta de poeira e com os olhos vermelhos de tanto chorar por um amigo. Pela primeira vez, eles não a repreenderam pelo horário ou pela atitude. Eles viram a lealdade de Bia e, talvez tocados pela tragédia de Adrien, perceberam que a rigidez excessiva só afastava quem eles amavam.

— Bia — disse o pai dela, enquanto ela se preparava para sair de casa naquela manhã —, se o seu amigo precisar de algum auxílio jurídico ou de um lugar seguro, avise-nos. O que aconteceu naquela mansão não pode ficar impune.

Bia parou na porta, surpresa. Ela nunca esperara apoio vindo deles.

— Obrigada, pai. Significa muito.

Do outro lado da cidade, Daniel conversava com seus pais na cozinha antes de seguir para a casa onde Adrien e Marinette estavam.

— Filho — disse a mãe de Daniel, colocando a mão sobre a dele —, nós estamos orgulhosos de você. O Adrien é como um segundo filho para nós. Ele pode ficar o tempo que precisar. Já entramos em contato com o conselho tutelar para entender como protegê-lo legalmente do pai.

Daniel sorriu, sentindo um peso sair de seus ombros. Ele sempre fora o influenciador, o rapaz simpático que tentava unir as pessoas, mas ver seus pais agirem com tanta humanidade o fez entender que a bondade que ele buscava no mundo começava ali.

— Valeu, mãe. Eu vou passar lá agora para ver como eles estão. Acho que eles precisam de privacidade, mas também precisam saber que não estão sozinhos na luta contra o senhor Agreste.

De volta ao quarto de hóspedes, o silêncio pós-êxtase era preenchido apenas pelo som das respirações sincronizadas. Adrien estava deitado de lado, com Marinette abraçada às suas costas, a pele dela colada à dele, servindo como um escudo contra o resto do mundo.

— Mari? — Adrien quebrou o silêncio, sua voz soando mais clara e firme do que em qualquer momento desde a agressão.

— Sim?

— Eu estava pensando... o Daniel e a Bia... eles mudaram a minha vida. Se o Daniel não tivesse insistido tanto para eu falar com você, se a Bia não tivesse nos ajudado ontem... eu ainda estaria naquele chão de vidro.

Marinette apertou o braço dele, enterrando o rosto em suas costas.

— Eles são a família que nós escolhemos, Adrien. E agora, as coisas vão ser diferentes. Meus pais também já sabem de tudo. Eles querem que você vá morar conosco na padaria assim que você se sentir pronto.

Adrien virou-se devagar, enfrentando a dor nas costelas para poder olhar nos olhos dela.

— Morar com você? — Um brilho de esperança, puro e genuíno, iluminou seu rosto. — Eu... eu nem sei o que dizer. Eu nunca tive um lar de verdade, Mari. Só uma casa grande e vazia.

— Agora você vai ter o cheiro de pão quente de manhã, as risadas da minha mãe e o meu pai tentando te ensinar a fazer croissants — Marinette riu, e Adrien sentiu que aquele era o som mais bonito do universo. — E você vai ter a mim. Todas as noites. Sem janelas para escalar.

Adrien puxou-a para mais perto, beijando-lhe a testa com reverência.

— Eu acho que eu morreria por você, Marinette.

— Pois trate de viver por mim — ela respondeu com um sorriso travesso, mas carregado de amor. — Porque nós temos muita vida pela frente.

Naquela tarde, Daniel e Bia chegaram à casa. O clima era de celebração silenciosa, mas profunda. Eles se sentaram todos na cama de Adrien — Daniel e Bia na ponta, Marinette e Adrien encostados na cabeceira.

— Meus pais estão movendo os pauzinhos — anunciou Daniel, cruzando os braços com um sorriso satisfeito. — O seu pai vai receber uma notificação judicial em breve. Ele não pode simplesmente te espancar e achar que o dinheiro vai calar todo mundo.

— E os meus pais... bom, eles estão sendo estranhamente legais — comentou Bia, revirando os olhos, mas com um sorriso no canto dos lábios. — Acho que eles finalmente entenderam que eu não sou uma rebelde sem causa. Eu só não gosto de injustiça.

Adrien olhou para os três. O rapaz loiro, que antes se via como um fardo, um erro ou uma sombra, finalmente se viu como parte de algo maior. Ele olhou para Marinette, cuja mão nunca soltava a sua, e sentiu que a violência de seu pai, embora tivesse deixado marcas em seu corpo, não havia conseguido tocar sua essência.

— Eu não sei como agradecer a vocês — disse Adrien, a voz levemente embargada. — Eu sempre achei que estava sozinho naquela mansão.

— Você nunca esteve sozinho, cara — disse Daniel, dando um tapinha leve na perna de Adrien. — Você só estava no lugar errado. Agora você está no lugar certo.

— E com as pessoas certas — completou Bia, piscando para Marinette.

A noite caiu sobre Paris, mas para os quatro amigos, era como se o dia estivesse apenas começando. Naquela pequena bolha de segurança, a dor era apenas uma memória que começava a desbotar diante da força da amizade e da intensidade do amor.

Adrien e Marinette voltaram a ficar a sós quando os amigos saíram para buscar comida. Eles se acomodaram novamente sob os lençóis, a pele ainda sensível e conectada.

— Você está cansado? — perguntou Marinette, acariciando o cabelo loiro e encaracolado dele.

— Um pouco. Mas é um cansaço bom. É o cansaço de quem finalmente parou de fugir.

— Então dorme — disse ela, puxando a coberta para cima de ambos. — Eu vou estar aqui quando você acordar. E amanhã. E depois de amanhã.

— Eu te amo, Marinette.

— Eu te amo, Adrien.

Enquanto o sono finalmente o vencia, Adrien não sonhou com vidros quebrados ou gritos de ódio. Ele sonhou com o mar, com a casa de praia do tio de Bia, com risadas de amigos e com o toque de Marinette. O trauma ainda estava lá, em algum lugar profundo, mas ele não era mais o protagonista de sua história. O protagonista era o amor, a intimidade e a coragem de recomeçar.

A mansão Agreste continuava lá, fria e escura, mas Adrien Agreste não pertencia mais àquela escuridão. Ele havia encontrado sua luz em um par de olhos castanhos e em um grupo de amigos que se recusou a deixá-lo cair. E naquela cama, cercado por carinho e promessas, ele finalmente soube o que significava estar em casa.