AETHER
O Eclipse de Gênero: A Nova Ordem do Caos
A luz do auditório principal da JYP Entertainment nunca pareceu tão fria. O telão gigante exibia os nomes dos vinte sobreviventes, mas o clima não era de celebração. Daniel Kim acabara de cruzar as portas duplas, levando consigo seus sonhos e deixando um rastro de silêncio pesado. A desistência de Minseo Park, semanas antes, já havia abalado as estruturas do grupo, mas a eliminação final da primeira etapa trazia um peso definitivo.
David Alexander estava parado no centro do palco, as mãos enfiadas nos bolsos do moletom. Ele olhou para o lado e viu Deva, cujos olhos brilhavam com uma determinação feroz, e Yna, que apertava a mão de NaYoung com tanta força que os nós dos dedos estavam brancos. Daniel Mateo, geralmente o palhaço do grupo, estava estranhamente quieto, observando a silhueta de J.Y. Park que se aproximava do microfone.
— Parabéns aos vinte finalistas — a voz do mestre ecoou, preenchendo cada canto da sala. — Vocês sobreviveram a um ano de treinamento intensivo sob o olhar do mundo. Vocês provaram que são os melhores entre os melhores. Mas o "Global Star Project" não é apenas sobre sobrevivência. É sobre evolução.
David sentiu um calafrio. Ele conhecia aquele tom. Sempre que o tom de voz de Park mudava para algo mais solene, uma bomba estava prestes a explodir.
— Durante meses, observamos vocês — continuou J.Y. Park. — Vimos as colaborações entre David e Minseo, a química entre Deva e Daniel Mateo, a harmonia entre Yna e NaYoung. O público falou, e nós ouvimos. O mundo não quer apenas mais um grupo masculino ou feminino. O mundo quer algo que quebre as barreiras.
Ele fez uma pausa dramática, e o telão atrás dele mudou. O logotipo que antes se dividia em azul e rosa fundiu-se em um roxo vibrante e elétrico.
— A partir de hoje, a competição entre gêneros acabou. Não haverá um grupo de meninos ou um grupo de meninas. O "Global Star Project" irá debutar o primeiro grupo misto global da JYP Entertainment.
O suspiro coletivo foi audível. Deva soltou um grito abafado de surpresa, e David sentiu como se o chão tivesse desaparecido por um segundo. Um grupo misto? No cenário atual do K-pop, isso era um risco colossal, mas também uma oportunidade sem precedentes.
— No entanto — a voz de Park cortou a euforia nascente —, as vagas diminuíram. Serão apenas cinco integrantes. Cinco pessoas que representarão a excelência em dança, vocal e rap, independentemente de serem homens ou mulheres. E para decidir a balança desse grupo, teremos a primeira missão desta fase: Meninos contra Meninas.
David olhou para Daniel Mateo. Eles eram irmãos de alma, mas agora, por um breve momento, seriam rivais novamente.
— O gênero que vencer esta primeira batalha garantirá a maioria no grupo final — anunciou Park. — Se as meninas vencerem, o grupo terá três mulheres e dois homens. Se os meninos vencerem, três homens e duas mulheres. A escolha é de vocês. A música é de vocês. O destino do grupo começa agora.
***
Um mês depois, o clima na sala de prática 1 era de guerra fria, temperada com o carinho que apenas dois anos de convivência poderiam criar. O grupo das meninas havia se transformado em uma máquina de precisão. Lideradas por Deva e Yna, elas haviam criado uma performance que misturava a elegância clássica com o hip-hop agressivo.
Do outro lado, David tentava manter os dez meninos focados. Mas era difícil.
— David, se a gente fizer o mortal para trás sincronizado no segundo refrão, não tem como elas ganharem — sugeriu Luca Bianchi, limpando o suor da testa.
— Não é só sobre acrobacias, Luca — rebateu David, ajustando o boné. — Elas têm a Yna no vocal e a Deva no rap. Se não focarmos na harmonia e na presença de palco, vamos parecer apenas um grupo de dança de rua.
— O David tem razão — disse Daniel Mateo, sentando-se no chão. — Eu vi um pedaço do ensaio delas ontem. A NaYoung... cara, ela não é mais aquela menina tímida. Ela está com um olhar que me deu medo.
— Elas estão famintas — David murmurou, olhando para o próprio reflexo no espelho. — E nós também deveríamos estar.
A noite da performance chegou com a pompa de uma final de campeonato mundial. O auditório estava lotado, e as câmeras de transmissão ao vivo brilhavam como olhos de predadores.
Os meninos foram os primeiros. Vestidos em tons de cinza industrial e couro, eles entregaram uma performance explosiva de uma música original intitulada "Iron Heart". David liderou com um rap que parecia uma metralhadora, sua voz agora mais madura, transitando para agudos melódicos que deixaram os juízes sem fôlego. A coreografia era pesada, sincronizada ao milésimo de segundo, culminando em uma pirâmide humana que desafiava a gravidade.
Quando terminaram, os aplausos foram ensurdecedores. David ofegava, o coração batendo contra as costelas. Ele olhou para o lado e viu o time das meninas esperando nas sombras do palco. Deva piscou para ele, um sorriso desafiador nos lábios.
Então, as luzes ficaram vermelhas.
As meninas não usaram couro ou metal. Elas entraram usando vestidos de seda fluida que escondiam calças de alfaiataria por baixo. A música começou com um solo de violino quebrado por uma batida de trap profunda. Yna abriu a apresentação com uma nota tão alta e cristalina que parecia flutuar sobre a audiência.
Mas o momento que mudou tudo foi a ponte da música. Deva e NaYoung se posicionaram no centro. O rap delas não era apenas rápido; era teatral. Elas interagiam entre si, usando o palco como um campo de batalha de rimas. NaYoung, a menina que um dia chorou por não conseguir pronunciar o inglês, agora cuspia versos em três línguas com uma confiança absoluta.
Ao final, as meninas se ajoelharam no palco, as mãos dadas, enquanto a última nota de Yna ecoava no silêncio.
David, assistindo dos bastidores, soube naquele momento. Ele sentiu um orgulho imenso, mas também um aperto no peito.
— As vencedoras da primeira missão da fase mista... — J.Y. Park segurava o envelope com um sorriso enigmático — ...são as meninas!
O grito que ecoou no palco foi de pura libertação. Deva e Yna se abraçaram, caindo no chão, enquanto NaYoung escondia o rosto nas mãos, chorando de alegria.
— Isso significa — continuou Park — que o grupo global da JYP será composto por três mulheres e dois homens. Meninos, vocês agora lutam por apenas duas vagas.
***
Naquela noite, o dormitório estava estranhamente silencioso. A regra de "meninos de um lado, meninas do outro" havia sido relaxada, já que agora todos eram um único grupo de treinamento. Eles estavam reunidos na sala comum, sentados em almofadas e sofás desgastados.
Yna havia cozinhado uma montanha de *pancit* e *kimbap* para celebrar — e para consolar.
— Eu sinto muito, pessoal — disse Deva, embora seu sorriso ainda estivesse lá. — Mas a gente precisava daquela vitória.
— Não se desculpe — David respondeu, pegando um pedaço de kimbap. — Vocês foram melhores. Aquele conceito de "Seda e Aço" foi genial. Eu nunca vi a NaYoung dançar daquele jeito.
NaYoung ficou vermelha, escondendo-se atrás de uma caneca de chá.
— O David me ajudou muito no ano passado — ela disse em um inglês quase perfeito. — Eu só usei o que ele me ensinou sobre "dançar com a língua".
Daniel Mateo soltou uma gargalhada, quebrando o gelo.
— "Dançar com a língua"! Eu ainda não acredito que você usa essa frase, David. É a coisa mais cafona e funcional do mundo.
— Funciona, não funciona? — David rebateu, jogando uma almofada em Daniel.
— Funciona até demais — Daniel suspirou, ficando sério de repente. — Mas agora a realidade bateu. Dez de nós vão embora este ano. E só sobraram dois lugares para os homens. David, Luca, Ethan, Kenji... todos nós somos bons.
— O ranking não mente — comentou Kai Nakamura, que estava sentado em um canto, observando a todos. — David é o #1 no vocal agora e o #2 na dança. Se alguém tem uma vaga garantida, é ele.
David sentiu o peso dos olhares sobre ele. A baixa autoestima que ele carregava desde o Brasil tentou emergir, mas ele a empurrou para baixo. Ele não era mais apenas o garoto que dançava no quarto.
— Ninguém tem vaga garantida, Kai — disse David, a voz calma mas firme. — O Park disse que agora o que importa é a química. Não adianta eu ser o #1 se eu não conseguir brilhar em um quinteto com a Yna ou com a Deva.
— Ele está certo — Yna interveio, servindo mais chá. — A partir de amanhã, não somos mais concorrentes de campos diferentes. Somos peças de um quebra-cabeça. A JYP quer ver quem se encaixa melhor.
— Vocês já pararam para pensar no que isso significa? — Deva perguntou, olhando para o grupo. — Um grupo misto global. Nós vamos viajar o mundo. Vamos quebrar o estigma de que homens e mulheres não podem ser amigos e colegas de grupo sem que o mundo exploda em rumores.
— Vai ser caótico — Daniel Mateo sorriu, seus olhos brilhando com a ideia. — E se tem uma coisa que esse grupo sabe ser, é caótico.
David olhou para cada um deles. Yna, a alma cuidadosa; Deva, a força da natureza; NaYoung, a fênix que renasceu das cinzas; Daniel, o carisma em pessoa. E ele, o líder que ainda estava aprendendo a acreditar em si mesmo.
— Nós temos um ano — disse David, levantando sua caneca de chá. — Dez eliminações. Mas não importa quem saia ou quem fique, nós mudamos a história dessa empresa hoje.
— Ao caos! — gritou Daniel Mateo, levantando sua caneca também.
— Ao caos! — todos repetiram em coro.
Enquanto os outros continuavam a conversar e rir, David se afastou por um momento, indo até a varanda do dormitório. O skyline de Seul brilhava à sua frente, uma selva de neon e promessas. Ele sabia que a pressão agora seria dez vezes maior. Ser o favorito dos instrutores o tornava um alvo. A amizade com os outros quatro seria testada até o limite, pois no final, o funil só permitiria a passagem de cinco.
Uma mão tocou seu ombro. Era Deva.
— Pensando demais de novo, Alex?
— Só tentando imaginar como vai ser o primeiro ensaio amanhã. Sem divisões. Todos juntos.
— Vai ser um desastre nos primeiros dez minutos — ela riu, encostando-se na grade ao lado dele. — E depois vai ser a coisa mais incrível que essa indústria já viu. Você sabe que a gente tem algo especial, não sabe? Esse quinteto... a gente tem uma frequência diferente.
— Eu sei — David sorriu, sentindo a confiança de Deva o contagiar. — Eu só espero que os jurados vejam o mesmo que eu vejo.
— Eles vão ver. Especialmente se você parar de tentar carregar o mundo nas costas e apenas... você sabe.
— Dançar com a língua? — David brincou.
— Exatamente.
Eles ficaram ali por um longo tempo, observando a cidade que nunca dorme. O "Global Star Project" havia entrado em sua fase mais perigosa e emocionante. O gênero não era mais uma barreira, mas uma ferramenta. A competição não era mais sobre ser o melhor homem ou a melhor mulher, mas sobre ser a voz que o mundo não conseguiria esquecer.
Lá dentro, a risada de Daniel Mateo explodiu novamente, seguida pelo protesto fingido de Yna. O caos estava apenas começando, e David Alexander, pela primeira vez, não tinha medo dele. Ele estava pronto para liderar o eclipse que mudaria o K-pop para sempre.