AETHER
O Alvorecer da Tempestade: Entre o Êxtase e a Exaustão
A luz do sol de agosto filtrava-se pelas persianas do estúdio de dança principal na JYP, criando padrões lineares no piso de madeira que David Alexander agora conhecia melhor do que o próprio quarto. Fazia exatamente quatro meses desde o debut do ECHO, e o que antes era um sonho televisionado havia se transformado em uma rotina de precisão cirúrgica e pressão constante. O sucesso de "Forgotten" e "Lucid" não apenas colocou o grupo no mapa; ele os jogou no olho de um furacão global que exigia cada gota de sua energia.
David limpou o suor da testa com as costas da mão, observando seu reflexo. Seus cabelos vermelhos estavam mais desbotados, uma prova visual das semanas sem tempo para retoques. Pelo espelho, ele viu Harvey desabar no chão, ofegante, enquanto Yna tentava, sem sucesso, massagear os próprios pés.
— Se eu tiver que fazer esse *pivot* mais uma vez — disse Harvey, a voz rouca pelo cansaço —, eu juro que minhas pernas vão se desparafusar e sair andando sozinhas para fora deste prédio.
— Só mais dez minutos, Harvey — David pediu, embora seu próprio corpo estivesse gritando por um descanso. — O diretor disse que a transição entre o segundo refrão e o solo da NaYoung ainda está um pouco "suja". Não podemos levar isso para a KCON assim.
— Dez minutos na linguagem do David Alexander significam uma hora e meia — resmungou Daniel Mateo, que estava encostado na parede, tentando recuperar o fôlego. — David, cara, você é um líder incrível, mas às vezes eu acho que você esquece que a gente é feito de carne e osso, não de titânio e neon.
David suspirou, sentindo aquela pontada familiar de culpa. Sua natureza perfeccionista, que o levara do zero ao topo durante o reality, agora era sua maior virtude e seu maior demônio.
— Eu sei, Dani. Eu só... eu sinto que o mundo está esperando que a gente cometa um erro. Somos o primeiro grupo mista e *genderless* dessa escala. Se a gente tropeçar, não vão dizer que o ECHO errou. Vão dizer que o modelo de grupo misto não funciona.
— Deixe que digam — disse NaYoung, levantando-se com uma determinação que ainda surpreendia a todos. Ela, que antes mal conseguia falar em inglês, agora era o pilar de resiliência do grupo. — Nós já provamos que funciona. O que precisamos agora é de cinco minutos de silêncio e, talvez, de um pouco daquela comida que a Yna prometeu.
Yna sorriu, apesar da exaustão.
— Eu trouxe *lumpia* e alguns bolinhos de arroz. Estão na bolsa térmica. Mas só se o David prometer que vamos parar por hoje.
David olhou para os quatro amigos. Eles eram sua família, seu porto seguro. Ele viu as olheiras escondidas sob a luz do estúdio e o esforço genuíno em cada rosto.
— Tudo bem — cedeu David, soltando um sorriso raro e relaxado. — Pausa para o banquete da Yna. Mas amanhã, às seis da manhã, eu quero todo mundo aqui para o ensaio de figurino.
A sala, que momentos antes era um campo de batalha contra a exaustão, transformou-se em um piquenique improvisado. Enquanto comiam, o telão do estúdio, que geralmente exibia as coreografias para análise, mudou para o canal de notícias de entretenimento. A imagem de David e NaYoung na capa de uma revista de moda internacional apareceu, seguida por uma análise sobre como o ECHO estava mudando os padrões de beleza na Ásia e no Ocidente.
— Olhem só para o David — provocou Daniel, com a boca cheia de bolinho de arroz. — Olhar de "anjo caído que acabou de perder as chaves do céu". Você realmente leva jeito para o drama, Alex.
— Cala a boca, Daniel — David riu, sentindo o rosto esquentar. — O fotógrafo ficou gritando "mais melancolia, David! Imagine que o sol nunca mais vai nascer!". O que eu deveria fazer?
— Você fez o que sempre faz — disse Harvey, sentando-se ao lado dele. — Você se entregou. É por isso que os fãs te amam. Você não atua, você vive o conceito. Mas às vezes eu me pergunto onde termina o David do ECHO e onde começa o David Alexander do Brasil.
O silêncio que se seguiu não foi desconfortável, mas reflexivo. Era o dilema de todo idol, mas para eles, que haviam passado por um reality show de dois anos onde cada emoção fora documentada, a linha era ainda mais tênue.
— Eu ainda me sinto o mesmo garoto que ficava nervoso antes das avaliações mensais — confessou David, olhando para as próprias mãos. — Mas agora, quando eu olho para o lado e vejo vocês, eu sinto que o David Alexander é parte de algo maior. O ECHO não é um personagem para mim. É a minha voz.
— É a nossa voz — corrigiu Yna, tocando o ombro dele. — E é por isso que vamos arrasar na KCON. Não porque somos perfeitos, mas porque somos reais.
A conversa foi interrompida pelo som de notificações simultâneas nos celulares de todos. Era um e-mail oficial da gerência da JYP.
— "Assunto: Estratégia para o primeiro comeback - Álbum Completo" — leu NaYoung em voz alta, os olhos brilhando. — Um álbum completo? Já?
— Eles querem aproveitar o *hype* — comentou David, já sentindo a engrenagem do perfeccionismo girar novamente. — E querem que a gente participe da composição de pelo menos três faixas.
— Três faixas? — Daniel Mateo pulou de alegria. — Eu já tenho umas batidas de reggaeton misturadas com synth-pop que vão explodir a cabeça do Park!
— E eu tenho várias letras sobre o que significa ser um "eco" — acrescentou Harvey, já pegando seu caderno de rimas. — Sobre como as pessoas tentam nos definir e como a gente sempre volta mais forte.
A exaustão pareceu evaporar diante da nova perspectiva. Criar a própria música era o sonho definitivo de qualquer artista da JYP, e para o ECHO, era a chance de solidificar sua identidade além do conceito de anjos caídos.
— David — chamou NaYoung, aproximando-se dele enquanto os outros começavam a discutir ideias para o álbum. — Você está bem?
— Sim, Nay. Só estou pensando... um álbum completo é uma responsabilidade enorme.
— Eu sei o que você está fazendo — disse ela, cruzando os braços. — Você está começando a carregar o peso do mundo de novo. Lembra do que a Deva disse na varanda do dormitório no ano passado? Se um cair, os outros quatro seguram.
David olhou para a menina à sua frente. NaYoung não era mais a trainee tímida que precisava de proteção; ela era uma mulher forte, uma artista completa que dominava o palco com uma ferocidade silenciosa.
— Eu lembro — disse David, sorrindo de verdade. — Obrigado por me lembrar, Nay.
— Para isso servem os amigos — ela piscou. — Agora, vamos lá. O Daniel está tentando convencer a Yna de que um solo de trompete cubano combina com o conceito *dreamcore*. Alguém precisa impedir aquele desastre.
David soltou uma gargalhada e seguiu NaYoung para o centro da roda. Pelas próximas horas, o estúdio de dança transformou-se em um laboratório criativo. Eles trocaram ideias, cantaram harmonias improvisadas e riram até as barrigas doerem.
No entanto, nem tudo era luz. No final da noite, quando todos já haviam ido para o dormitório e David ficara para trás para fechar o estúdio — um hábito que ele não conseguia abandonar —, ele encontrou um envelope deixado na mesa da recepção. Não tinha remetente, apenas o logotipo do ECHO distorcido.
Curioso, ele abriu. Dentro, havia uma série de fotos impressas de comentários de ódio da internet, focados especificamente em sua nacionalidade e no fato de ele ser o líder de um grupo misto. "Um brasileiro liderando o futuro do K-pop? Que piada", dizia um. "O ECHO vai desmoronar assim que o primeiro escândalo de namoro aparecer. Grupos mistos são um erro biológico", dizia outro.
David sentiu o estômago revirar. Ele sabia que o ódio existia, mas vê-lo impresso, entregue dentro da própria empresa, era uma violação. Ele apertou os papéis contra o peito, sentindo a velha insegurança tentar sufocá-lo.
— Você não deveria estar lendo isso — uma voz firme ecoou do corredor.
David se sobressaltou. Era o Sr. Bang, um dos coreógrafos seniores e mentor de David desde os dias do acampamento de dança.
— Eu só... eu encontrei isso aqui — disse David, tentando esconder os papéis.
— David, escute bem — o Sr. Bang aproximou-se, colocando uma mão pesada no ombro do garoto. — O sucesso atrai luz, mas a luz também projeta sombras. Aqueles que tentam te diminuir são os mesmos que não suportam ver o brilho do que você e seus amigos construíram. Você não é um erro. Você é a resposta para uma pergunta que a indústria teve medo de fazer por décadas.
— Eu só tenho medo de decepcionar eles, senhor — confessou David, a voz baixa. — O Daniel, a Harvey, a Yna, a NaYoung... se eu falhar, eu levo todos comigo.
— Você não vai falhar porque você não está sozinho — disse o mentor. — A força do ECHO não está no fato de vocês serem perfeitos, mas no fato de vocês serem inquebráveis quando estão juntos. Agora, vá para casa. Durma. Amanhã começa a criação do seu primeiro álbum. Transforme esse veneno em música. É isso que os grandes artistas fazem.
David assentiu, sentindo um nó na garganta. Ele jogou os papéis no lixo e saiu do prédio da JYP. O ar da noite de Seul estava fresco, e as luzes da cidade pareciam estrelas caídas.
Ao chegar no dormitório, ele encontrou a sala na penumbra. Daniel estava dormindo no sofá com um fone de ouvido caído; Harvey e Yna dividiam uma manta enquanto assistiam a um drama coreano em volume baixo; e NaYoung estava na cozinha, preparando um lanche noturno.
— Chegou tarde — disse NaYoung, sem se virar.
— Fiquei conversando com o Sr. Bang — respondeu David, sentando-se à mesa.
— Ele te deu algum conselho de mestre?
— Ele me disse para transformar o veneno em música.
NaYoung finalmente se virou, observando o rosto de David com atenção. Ela parecia ler sua alma.
— Então é isso que vamos fazer — disse ela, colocando uma tigela de sopa quente na frente dele. — Vamos escrever algo tão forte que o ódio não terá espaço para respirar.
David tomou um gole da sopa, sentindo o calor se espalhar pelo corpo. Ele olhou para seus amigos na sala, para a vida que haviam construído a partir do caos de um reality show. Eles eram o ECHO. Eram o som que não morria, a vibração que permanecia no ar muito depois que o grito cessava.
Naquela noite, David Alexander não sonhou com quedas ou asas quebradas. Ele sonhou com palcos imensos, com vozes de todas as cores do mundo cantando em uníssono e com um futuro onde não importava de onde você vinha ou qual era o seu gênero, mas sim a força da mensagem que você carregava no coração.
O alvorecer da tempestade estava chegando, mas o ECHO estava pronto para dançar na chuva. O primeiro álbum completo não seria apenas uma coleção de músicas; seria o rugido de uma geração que se recusava a ser silenciada. E David, o líder improvável, o anjo de cabelos vermelhos e sangue brasileiro, estava pronto para conduzir a orquestra.
— Preparem-se, mundo — sussurrou David para o silêncio do quarto antes de fechar os olhos. — Porque o eco está apenas começando a ganhar força.
E no dia seguinte, quando o sol nasceu sobre Gangnam, o estúdio de prática 1 foi preenchido não pelo som de exaustão, mas pelo ritmo vibrante de uma nova melodia que Daniel Mateo começara a compor. Era o som do início de uma nova era. Uma era onde o ECHO não era mais apenas uma promessa da JYP, mas a realidade pulsante de um novo mundo.