AETHER
Cicatrizes de Neon e o Som do Paraíso
O ano de 2024 estava terminando como um borrão de luzes estroboscópicas e flashes de câmeras. O ECHO não era mais apenas uma aposta da JYP; eles eram um fenômeno. No entanto, o conceito de "anjos caídos" estava prestes a sofrer uma mutação cromática. Se os primeiros lançamentos focavam na dor da queda e na melancolia do esquecimento, o planejamento para 2025 trazia algo mais vibrante, quase insolente.
— Estamos indo para o passado para encontrar o futuro — explicou o diretor visual durante a primeira reunião de conceito em novembro. — Vocês caíram no céu, mas em algum lugar entre as nuvens e a terra, vocês atravessaram uma fenda temporal. Vocês aterrissaram no auge dos anos 2000.
David Alexander, agora com os cabelos retornando ao preto natural — o que lhe dava um ar mais maduro e misterioso —, analisava os *moodboards* espalhados pela mesa. O contraste era fascinante. O "Angelcore" ainda estava lá, mas agora misturado com calças de cintura baixa, óculos de lente colorida, gloss labial e uma estética que gritava *Spice Girls* e *Charlie’s Angels*.
— Então, em vez de sofrermos em becos escuros, vamos ser ícones pop em um mundo de baixa resolução? — perguntou Harvey, rindo enquanto examinava uma foto de referência das *Pussycat Dolls*.
— Basicamente — respondeu o diretor. — É o "Paradise Lost", mas com uma estética de videoclipe da MTV de 2003. O "nós contra o mundo" agora é glamouroso, sensual e aventureiro. Vocês estão se escondendo à vista de todos, camuflados como as maiores estrelas de uma era que já passou.
O *Visual Film* para o novo EP foi gravado em janeiro de 2025. A narrativa era cinematográfica e divertida: os cinco anjos, ainda com suas auras enfraquecidas, caminhavam por um deserto digital até encontrarem um portal em forma de uma cabine telefônica transparente. Ao atravessarem, suas roupas de seda rasgada transformavam-se instantaneamente.
David aparecia usando uma jaqueta de couro curta e calças cargo largas; Harvey ostentava tranças impecáveis e um top de cristais; Yna, agora com o cabelo em um tom de rosa chiclete, usava minissaia e botas de cano alto; Daniel Mateo, com os cabelos tingidos de um azul elétrico, exibia uma regata branca e correntes de prata; e NaYoung, mantendo o preto clássico nos fios, era a personificação da *femme fatale* juvenil com um visual inspirado em filmes de espionagem.
— Isso é tão ridículo que chega a ser perfeito — comentou Daniel enquanto gravavam a cena em que todos entravam em um conversível rosa choque. — Eu me sinto em um filme que eu assistiria escondido da minha mãe quando era criança.
— O segredo é a confiança, Dani — David disse, ajustando os óculos escuros de lente azul. — Se a gente acreditar que esse é o nosso uniforme de batalha, o mundo acredita também.
Em 5 de maio de 2025, o mundo recebeu o primeiro sinal dessa nova era com o pré-release *HALO EFFECT*. A música era uma explosão de energia, com uma batida alegre que sampleava elementos do pop clássico do início do milênio. O clipe mostrava o grupo causando pequenos "milagres" caóticos em uma cidade estilizada: as luzes piscavam quando David passava, as flores desabrochavam instantaneamente ao toque de Yna, e Harvey fazia chover glitter durante seu verso de rap.
As fotos conceituais que se seguiram foram um evento à parte. Na primeira leva, o grupo aparecia em cenários mundanos, mas elevados ao extremo do luxo 2K: David em uma lavanderia cheia de luzes neon, Daniel em um fliperama retrô, e o grupo todo em uma lanchonete de estrada que parecia saída de um sonho febril. Na segunda leva, a sutileza angelical retornava. Em fotos individuais de close-up, era possível ver o reflexo de asas nas lentes dos óculos de David, ou uma pequena auréola feita de arame farpado e diamantes flutuando sobre a cabeça de NaYoung.
Finalmente, em 10 de julho, o EP *PARADISE LOST* foi lançado. A *tracklist* era uma jornada de versatilidade. Mas o coração do álbum, além da vibrante *ANGEL CITY*, era a faixa *Cielo Roto*.
— Esta música é sua, Dani — David disse durante as gravações no estúdio. — É a sua língua, a sua alma.
*Cielo Roto* era uma balada mid-tempo, majoritariamente em espanhol com inserções em inglês. Daniel liderou a distribuição de linhas, sua voz aveludada trazendo uma sensualidade melancólica que arrepiou a equipe de produção. O grupo todo cantou em espanhol, treinados exaustivamente por Daniel. O resultado foi uma música que falava sobre o "céu quebrado" que eles carregavam dentro de si, uma homenagem às raízes cubanas de Daniel que emocionou fãs na América Latina e no mundo.
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Enquanto a música dominava as paradas, a personalidade dos membros começava a brilhar de forma mais crua fora dos palcos. Em 2025, o ECHO tornou-se o grupo mais "sem filtro" da indústria musical global. Suas lives no Weverse e Instagram eram eventos imprevisíveis.
Em uma noite de janeiro, Harvey estava sozinha em uma live, respondendo perguntas de fãs enquanto comia pipoca.
— "Harvey, você tem um tipo ideal?" — leu ela, rindo. — Meu tipo ideal é alguém que não me irrite antes do café da manhã. Mas, sendo sincera, galera... eu sempre fui *a little fruity*, sabe?
O chat explodiu. Harvey não se retraiu; ela apenas piscou para a câmera e continuou comendo. A declaração "um pouco frutada" — uma gíria comum para a comunidade LGBTQ+ — viralizou em minutos. A JYP não emitiu uma nota de repressão, mas sim de apoio, reforçando que o ECHO era um grupo global e que a autenticidade de seus membros era seu maior patrimônio.
Mas o momento que realmente quebrou a internet aconteceu em junho, o mês do orgulho. David e Harvey decidiram fazer uma live conjunta, algo que sempre garantia caos absoluto. Eles estavam sentados no chão da sala de prática, visivelmente relaxados.
— Feliz mês do orgulho, Harvey! — David disse, entregando a ela um refrigerante.
— Para você também, Alex! — Harvey respondeu, rindo e dando um tapinha no ombro dele.
Os dois se encararam por dois segundos. Era um daqueles silêncios que David e Harvey compartilhavam, onde uma piada interna parecia ser comunicada apenas pelo olhar. Eles começaram a rir histericamente, sem motivo aparente para quem assistia.
— Sabe de uma coisa? — David disse, recuperando o fôlego e virando-se para a câmera com uma expressão de "quem não tem nada a perder". — É isso, galera. Eu sou gay.
Harvey parou de rir por um segundo, olhou para ele com um orgulho imenso e soltou um grito de comemoração.
— Finalmente! — gritou ela. — O mundo precisava saber que o nosso líder é um ícone! Eu estou tão orgulhosa de você, Alex!
— Eu cansei de esconder, sabe? — David continuou, coçando a nuca, a timidez brasileira lutando contra a confiança do idol. — O ECHO é sobre ser verdadeiro. Eu não posso cantar sobre liberdade se eu não me sinto livre.
O impacto foi sísmico. David Alexander, o "visual" e líder de um dos maiores grupos do mundo, assumindo-se em uma live casual ao lado de sua melhor amiga. O apoio foi massivo, e a coragem dos dois abriu portas para conversas profundas sobre representatividade na indústria.
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Em outubro de 2025, o ECHO embarcou em sua primeira turnê mundial, a *ECHOES OF PARADISE*. A demanda por ingressos foi tão alta que estádios foram esgotados em minutos de Nova York a São Paulo, de Seul a Londres.
A performance de *ANGEL CITY* era o ponto alto do show. O palco transformava-se em uma metrópole futurista dos anos 2000. David, Daniel, Harvey, Yna e NaYoung entregavam uma coreografia sensual e divertida, focada em movimentos de quadril e interações provocantes com a câmera.
Durante o show em São Paulo, David não conseguiu conter as lágrimas. Ver a bandeira do Brasil misturada com as cores do orgulho e o logotipo do ECHO foi o ápice de sua jornada.
— Eu saí daqui como um garoto que só queria dançar — disse ele para a multidão de 50 mil pessoas. — Eu volto como alguém que encontrou sua família no mundo todo. Obrigado por não desistirem de mim quando eu mesmo desisti.
No camarim, após o show, os cinco estavam exaustos, mas a energia era vibrante. Daniel estava com o cabelo azul bagunçado, Yna tentava limpar o glitter rosa do rosto, e NaYoung ria de algo que Harvey estava mostrando no celular.
— Ei, pessoal — chamou David, sentando-se no centro do grupo. — Vocês viram o que estão dizendo da gente? Que somos o "grupo que mudou as regras"?
— Nós não mudamos as regras, David — disse NaYoung, limpando o suor da testa. — Nós apenas decidimos que não íamos seguir nenhuma delas.
— Eu gosto disso — Daniel Mateo sorriu, abraçando David pelos ombros. — Cinco anjos caídos, dois anos de treinamento, um milhão de polêmicas e a gente ainda está aqui.
— E vamos continuar — Harvey afirmou, levantando uma garrafa de água como se fosse um brinde. — Porque o paraíso pode estar perdido, mas a gente criou o nosso próprio inferno bem divertido aqui embaixo.
David olhou para cada um deles. O caminho de 2021 até 2026 fora longo e doloroso, mas cada cicatriz de neon valera a pena. Eles eram mais do que idols; eram sobreviventes. E enquanto o som do ECHO continuasse a ecoar, o mundo teria que aprender a ouvir a música da liberdade, independentemente do gênero, da língua ou das asas que haviam ficado para trás.
— Próxima parada? — perguntou Yna, animada.
— O mundo todo — David respondeu, sentindo-se, pela primeira vez, verdadeiramente em casa.