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Agatha e Gustavo

Cacos de Vidro e Corações de Seda

A manhã em Seattle nasceu cinzenta, com uma garoa fina batendo contra as imensas janelas de vidro da cobertura. O clima lá fora parecia o oposto do calor que ainda emanava do corpo de Agatha enquanto ela se espreguiçava entre os lençóis de algodão egípcio. Gustavo já não estava ao seu lado; o cheiro de café recém-passado e o som de uma música clássica suave vindo da cozinha indicavam que ele já estava de pé, provavelmente tramando alguma brincadeira para despertá-la.

Agatha sorriu sozinha, sentindo aquela dorzinha gostosa nos músculos, lembrança da noite intensa que tiveram. Ela se levantou, enrolando-se em um dos roupões de seda de Gustavo que ficava propositalmente grande nela. Ela adorava como o tecido carregava o perfume dele.

— Gu? — ela chamou, a voz ainda rouca de sono, caminhando em direção à cozinha.

Ao entrar no ambiente amplo e moderno, ela o viu de costas. Gustavo estava apenas de calça de moletom, os músculos das costas trabalhando enquanto ele cortava frutas. Ele se virou ao ouvir a voz dela, exibindo aquele sorriso que desarmava qualquer defesa de Agatha.

— Bom dia, minha chorona favorita — disse ele, deixando a faca de lado e caminhando até ela para lhe dar um selinho demorado. — Dormiu bem ou o "doido" aqui te cansou demais?

— Você sabe que eu amo o seu lado doido — ela respondeu, rindo e dando um tapinha de leve no braço dele. — Mas agora eu só quero cafeína e talvez um pouco de atenção.

— Café está saindo. E atenção... bom, você sabe que tem toda a minha, 24 horas por dia.

Agatha se aproximou do balcão para pegar uma caneca, mas, em seu jeito naturalmente estabanado e ainda meio sonolenta, seus dedos escorregaram. A caneca de porcelana favorita de Gustavo — uma que ele trouxera de uma viagem à Grécia — caiu no chão de porcelanato, estilhaçando-se em mil pedaços.

— Ai, meu Deus! Gu, me desculpa! — exclamou Agatha, os olhos já começando a marejar instantaneamente. — Eu sou tão desastrada, eu quebrei a sua caneca preferida!

— Ei, calma, Agatinha! É só uma caneca — Gustavo disse, tentando manter o tom leve, mas Agatha já estava se abaixando rapidamente para tentar recolher os cacos.

— Não, eu vou limpar, eu sou uma idiota mesmo... — As lágrimas começaram a descer.

— Agatha, espera! Não mexe nisso agora! — Gustavo avisou, mas foi tarde demais.

No ímpeto de recolher os pedaços grandes, uma lasca afiada de porcelana cortou profundamente a palma da mão direita de Agatha. Ela soltou um grito agudo, retraindo a mão imediatamente. O sangue vermelho vivo começou a brotar com rapidez, contrastando com a palidez de sua pele.

— Droga! — Gustavo exclamou, aproximando-se em dois passos e segurando o pulso dela com firmeza, mas com cuidado. — Eu falei para você esperar, sua teimosa.

O corte era feio, longo e profundo o suficiente para assustar. Ao ver a quantidade de sangue escorrendo pelo seu pulso e manchando o roupão branco, o interruptor emocional de Agatha virou. O susto do acidente, a culpa por ter quebrado o objeto e a visão do ferimento desencadearam algo que ela tentava controlar, mas que às vezes a vencia: uma crise de ansiedade.

A respiração dela começou a ficar curta e rápida. O peito subia e descia de forma irregular, e o rosto, antes corado de sono, ficou lívido.

— Gu... eu... eu não consigo... — ela começou a gaguejar, os olhos arregalados fixos na mão ensanguentada. — Está saindo muito sangue... eu vou... eu vou desmaiar... meu peito está doendo...

— Agatha, olha para mim! — Gustavo ordenou, a voz agora firme, perdendo o tom brincalhão. Ele a conduziu rapidamente para a banqueta mais próxima. — Respira, meu amor. Eu estou aqui. Não é nada grave, eu prometo.

— Está doendo muito, Gu! Eu quebrei sua caneca, eu estraguei tudo, eu sou um desastre... — Ela começou a soluçar compulsivamente, o choro tornando-se um chiado sufocado. — Eu não consigo respirar direito, parece que tem um peso no meu pescoço!

Gustavo percebeu que a situação estava escalando. Ele conhecia Agatha; sabia que ela era intensa em tudo, inclusive no medo. Ele pegou um pano de prato limpo e pressionou firmemente sobre o corte para estancar o sangramento, ignorando o fato de que o sangue também sujava suas próprias mãos.

— Shhh, foca na minha voz, Agatha — ele disse, agachando-se entre as pernas dela para que ficassem com os rostos no mesmo nível. — Esquece a caneca. Eu compro dez canecas novas. O que importa é você. Eu preciso que você tente respirar comigo. Vamos lá, inspira... um, dois, três... e solta.

— Eu não consigo... — ela choramingou, tremendo violentamente. — Eu vou morrer, Gustavo! Meu coração vai parar!

— Não vai parar, eu não vou deixar — ele afirmou, com uma segurança inabalável que só ele conseguia transmitir. — Você está tendo uma crise, é só o seu cérebro pregando uma peça. Eu estou segurando você. Você sente minha mão?

— Sinto... — ela sussurrou, tentando focar no calor da mão dele que não estava ocupada com o curativo.

— Ótimo. Agora, me diga cinco coisas que você está vendo nesta cozinha agora. Vai, Agatha, me ajuda.

Ela piscou, as lágrimas borrando a visão.

— O... o fogão... — ela começou, a voz falha.

— Isso. Mais uma.

— A fruteira... a geladeira... os seus olhos... — Ela parou por um segundo, encontrando o olhar azul intenso dele, que brilhava com preocupação e amor. — E o sangue no seu braço. Desculpa, Gu... eu te sujem.

— Não peça desculpas por nada — ele disse, dando um beijo na testa dela enquanto mantinha a pressão no ferimento. — Sua respiração está melhorando. Viu? Você é forte, minha pequena chorona.

Gustavo esperou mais alguns minutos até que os tremores dela diminuíssem. Quando percebeu que o pânico estava dando lugar apenas ao cansaço pós-crise, ele a pegou no colo com cuidado, como se ela fosse feita de cristal, e a levou para o banheiro da suíte principal.

Ele a sentou no balcão de mármore e, com uma delicadeza que contrastava com sua personalidade elétrica, começou a limpar o ferimento com soro fisiológico. Agatha ainda soluçava baixinho, observando cada movimento dele.

— Vai precisar de pontos? — ela perguntou, a voz infantilizada pelo cansaço emocional.

— Acho que não, meu anjo. Foi profundo, mas as bordas estão certinhas. Vou usar um curativo de aproximação e enfaixar. Mas se você prometer não chorar mais um balde de lágrimas, eu te dou um prêmio depois.

Agatha soltou uma risadinha fraca, limpando o rosto com a mão livre.

— Você não consegue ser sério nem quando eu estou quase morrendo, não é?

— Você não estava morrendo, você estava apenas sendo a Agatha — ele piscou para ela, terminando de prender a gaze com fita micropore. — Prontinho. O curativo mais bonito de Seattle para a paciente mais dramática do mundo.

Ele a ajudou a descer do balcão e a abraçou com força, sentindo o corpo dela finalmente relaxar contra o seu. Agatha escondeu o rosto no pescoço dele, sentindo-se protegida. O cheiro de Gustavo e o som do seu coração batendo eram o melhor remédio para qualquer ansiedade.

— Obrigada, Gu — ela sussurrou. — Eu não sei o que eu faria sem você para me segurar quando eu surto.

— Você faria a mesma coisa por mim — ele respondeu, afastando-se apenas o suficiente para olhar em seus olhos. — Lembra daquela vez que eu achei que tinha perdido meu relógio de coleção e quase quebrei a TV de raiva? Você que me acalmou com aquela sua piada suja sobre o que poderíamos fazer com o tempo se não tivéssemos relógios.

Agatha sorriu, um brilho travesso voltando aos seus olhos.

— É, eu sou boa nisso. Mas hoje eu me superei no drama, né?

— Ah, com certeza. Nota dez em performance dramática. Quase chamei o corpo de bombeiros só para eles verem como você fica linda até em crise de pânico.

— Idiota! — Ela riu, sentindo o peso no peito desaparecer completamente. — Mas eu realmente sinto muito pela caneca. Eu sei que você gostava dela.

Gustavo a pegou pela cintura e a puxou para perto, seus olhos brilhando com aquela "loucura" saudável que ela tanto amava.

— Agatha, escuta bem. Eu não ligo para canecas, para carros ou para essa cobertura. Se você estiver bem, o resto eu construo ou compro de novo. Mas se você se quebrar... aí eu fico realmente doido. Entendeu?

Ela assentiu, sentindo as lágrimas voltarem, mas desta vez eram de felicidade.

— Eu te amo tanto, Gustavo.

— Eu também te amo, sua safada chorona. Agora, vamos voltar para a cama? Você precisa descansar essa mão e eu preciso ter certeza de que você não vai tentar limpar mais nada hoje. A faxina é por minha conta... e o resto da manhã também.

Ele a guiou de volta para o quarto, mas antes de deitarem, ele a parou na beira da cama.

— Sabe — ele começou, com um sorriso malicioso —, agora que você está com a mão enfaixada, vai precisar que eu faça tudo para você, não vai? Dar banho, trocar de roupa... talvez até te dar comida na boca.

Agatha soltou uma gargalhada alta, jogando a cabeça para trás.

— Você não perde uma oportunidade, não é?

— Nunca — ele respondeu, empurrando-a gentilmente para os travesseiros. — Sou um homem de negócios, Agatha. E o meu maior investimento é o seu sorriso.

Enquanto ele se deitava ao lado dela, cobrindo-os com o edredom macio, Agatha sentiu que, apesar do corte na mão e do susto, não havia lugar no mundo onde ela preferisse estar. A ansiedade era uma sombra que às vezes a perseguia, mas Gustavo era a luz intensa que sempre a trazia de volta para casa.

— Gu? — ela chamou, já fechando os olhos enquanto ele acariciava seu cabelo.

— Oi?

— Se eu chorar agora, é só porque eu sou muito feliz, tá? Não precisa pegar o kit de primeiros socorros de novo.

Gustavo riu baixo, beijando a têmpora dela.

— Eu sei, meu amor. Eu sei. Agora dorme um pouco. Eu estou aqui.

E ali, no silêncio daquela manhã cinzenta de Seattle, o único som era o da respiração ritmada dos dois, unidos por um amor que era capaz de colar qualquer caco de porcelana ou de alma.