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Agatha e Gustavo

Labirintos de Seda e o Veneno do Silêncio

A tarde em Seattle havia avançado, e a claridade cinzenta que entrava pelas janelas da cobertura começava a ceder espaço para um azul profundo e melancólico. Dentro do quarto, porém, o clima era de um calor absoluto. Agatha estava acomodada entre os travesseiros, observando Gustavo, que terminava de organizar algumas almofadas ao redor dela com um cuidado quase cômico.

— Gu, eu juro que não sou uma inválida — Agatha disse, soltando uma risadinha, embora seus olhos ainda estivessem levemente inchados pelo choro da manhã. — É só um corte na mão, não uma amputação.

Gustavo parou, com uma das mãos na cintura e a outra segurando um copo de suco que ele insistia que ela bebesse. Ele a olhou com aquele brilho travesso, o cabelo loiro bagunçado caindo sobre a testa.

— Você é a minha paciente e eu sou o médico chefe desta unidade — ele decretou, sentando-se na beira da cama. — E como seu médico, eu prescrevo repouso absoluto e... — ele inclinou-se, sussurrando perto do ouvido dela — ... doses cavalares de carinho.

Agatha sentiu um arrepio percorrer sua espinha. Mesmo com a mão enfaixada e o cansaço da crise de ansiedade, o toque de Gustavo e a proximidade de seu corpo sempre acendiam uma faísca nela que era impossível de apagar. Ela era, por natureza, uma mulher de desejos intensos, e Gustavo sabia exatamente como provocá-la.

— Carinho, é? — ela murmurou, mordendo o lábio inferior e olhando para ele por baixo dos cílios. — E que tipo de carinho o doutor recomenda para uma mão que não pode fazer muito esforço, mas para um resto de corpo que está perfeitamente funcional?

Gustavo soltou uma risada baixa, rouca, que vibrou no peito de Agatha. Ele deixou o copo na mesa de cabeceira e começou a traçar caminhos lentos com a ponta dos dedos pelo braço dela, evitando o curativo, subindo até o ombro e descendo pelo decote do roupão de seda.

— Bom — começou ele, a voz descendo uma oitava —, eu diria que o tratamento envolve muita exploração sensorial. Já que você não pode usar a mão direita, eu vou ter que trabalhar em dobro.

Ele se inclinou mais, capturando os lábios dela em um beijo que começou lento e doce, mas que rapidamente se transformou em algo faminto. Agatha gemeu contra a boca dele, esquecendo completamente a dor latejante na palma da mão. Ela tentou levar as mãos ao cabelo dele, mas lembrou-se do ferimento e soltou um resmungo de frustração.

— Shhh... — Gustavo a interrompeu, segurando o pulso dela com delicadeza e depositando um beijo suave sobre a gaze. — Deixa que eu cuido de tudo. Relaxa para mim, Agatinha.

Ele desamarrou o cinto do roupão dela com uma destreza impressionante. Agatha sentiu o ar frio do quarto tocar sua pele por apenas um segundo antes que o calor do corpo de Gustavo a cobrisse novamente. Ele começou a beijar seu pescoço, descendo para a clavícula, enquanto suas mãos grandes e firmes exploravam as curvas que ele conhecia tão bem.

— Você é tão linda — ele sussurrou contra a pele dela. — Mesmo toda descabelada e chorona, você me deixa louco.

— E você é um idiota por me amar assim — ela respondeu, a respiração ficando curta, mas desta vez por um motivo muito mais prazeroso.

Gustavo continuou suas provocações, usando a língua e os dentes com uma precisão que fazia Agatha arquear as costas. Ele brincava com ela, parando nos momentos mais críticos apenas para ver a expressão de súplica no rosto dela, provocando risos abafados e gemidos que ecoavam pelo quarto luxuoso.

— Gu... por favor... — ela implorou, a voz falhando.

— O que foi? — ele perguntou, com um sorriso angelical que não condizia em nada com o que suas mãos estavam fazendo. — O médico ainda não terminou o exame.

O momento de entrega total, no entanto, foi brutalmente interrompido pelo som estridente do interfone. Gustavo parou, a testa encostada na de Agatha, soltando um palavrão baixo.

— Ignora — ela pediu, puxando-o pelo pescoço com a mão boa.

— Eu queria, mas o porteiro só insiste assim se for algo urgente — Gustavo suspirou, levantando-se e ajeitando a calça de moletom enquanto Agatha se cobria apressadamente com o lençol, o rosto vermelho de desejo e irritação.

Ele foi até o painel na parede e atendeu.

— O que é? — perguntou ele, seco.

— Senhor, a senhorita Luiza está aqui embaixo. Ela diz que é urgente, que tentou ligar para a senhorita Agatha e ela não atendeu. Ela parece muito alterada.

Gustavo olhou para Agatha, que agora procurava o celular entre os lençóis.

— Meu celular descarregou na hora da confusão da caneca — explicou ela, preocupada. — Deixa ela subir, Gu. Ela deve estar achando que aconteceu algo ruim.

Gustavo hesitou. Ele não confiava no "urgente" de Luiza, especialmente depois dos olhares da noite anterior. Mas, vendo a expressão de ansiedade voltando aos olhos de Agatha, ele cedeu.

— Mande subir — ele ordenou ao porteiro, desligando e voltando para a cama para dar um beijo rápido na testa da namorada. — Fica aqui. Eu vou ver o que ela quer e já volto. E coloque uma roupa, antes que eu decida que a visita pode esperar lá fora.

Poucos minutos depois, o som do elevador privativo abrindo na sala ecoou pelo apartamento. Gustavo saiu do quarto, fechando a porta atrás de si, e encontrou Luiza parada no meio da sala. Ela não parecia a mulher elegante de sempre; seu cabelo estava levemente desarrumado e seus olhos brilhavam com uma mistura de raiva e ansiedade.

— Onde ela está? — Luiza disparou, sem nem cumprimentá-lo. — Eu liguei dez vezes! Pensei que você tivesse feito algo com ela, Gustavo!

— Baixe o tom, Luiza — Gustavo disse, a voz gélida, cruzando os braços sobre o peito nu. — Agatha está no quarto. Ela teve um pequeno acidente doméstico e precisou descansar. O celular descarregou.

— Acidente? — Luiza deu um passo à frente, a voz subindo de tom. — Que tipo de acidente? Você a machucou? Eu sei como você é, Gustavo. Eu sei o tipo de jogos que você gosta de jogar. Agatha é sensível demais para o seu mundo distorcido!

Gustavo sentiu o sangue ferver. Ele deu um passo predatório na direção dela, sua altura intimidando-a, embora Luiza não recuasse.

— Você está passando dos limites — ele sibilou. — Agatha se cortou com uma caneca que caiu. Ela teve uma crise de ansiedade porque se assustou. Eu cuidei dela. Eu a acalmei. O que você faz, além de projetar suas inseguranças e esse seu ciúme doentio nela?

— Ciúme? — Luiza riu, uma risada histérica. — Eu a protejo! Você a trata como um brinquedo, como algo que você possui. Eu a conheço desde antes de você aparecer com seus milhões e seus carros. Ela não precisa de um dono, ela precisa de alguém que a entenda sem precisar de contratos ou de joguinhos de poder!

— Você não sabe de nada sobre o que temos — Gustavo rebateu, a voz perigosamente baixa. — Você está obcecada por ela, Luiza. Você não quer a amizade dela, você quer a vida dela. Você quer estar no meu lugar, ou talvez queira que ela seja uma extensão de você. Isso é doentio.

— Doentio é o que você faz com a cabeça dela! — Luiza gritou, apontando o dedo para o peito dele. — Você a afasta de todo mundo. Ontem, na sala, o jeito que você a olhava... parecia que queria marcá-la. Eu não vou deixar você destruir a Agatha.

— Você vai sair daqui agora — Gustavo disse, cada palavra saindo como uma lâmina. — Antes que eu perca a pouca paciência que me resta. Você não é bem-vinda nesta casa se vier para atacar o meu relacionamento.

— Ou o quê? Vai me processar? Vai me calar com seu dinheiro? — Luiza estava fora de si. — Agatha! Agatha, saia daí!

A porta do quarto se abriu e Agatha apareceu, vestindo um vestido de malha simples, com a mão enfaixada bem visível. Ela parecia pequena e pálida diante da tensão que preenchia a sala.

— O que está acontecendo? — ela perguntou, a voz trêmula. — Luiza, por que você está gritando com o Gustavo?

Luiza correu até ela, tentando pegar sua mão, mas Agatha recuou instintivamente, protegendo o ferimento.

— Agatha, meu Deus, olha o que ele fez com você! — Luiza exclamou, ignorando a verdade dos fatos. — Venha comigo, vamos sair daqui. Você não está segura com esse homem.

— Luiza, para! — Agatha gritou, e o som de sua própria voz pareceu assustá-la, fazendo seus olhos se encherem de lágrimas. — O Gustavo não fez nada! Eu quebrei a caneca, eu me cortei! Ele me ajudou, ele me segurou quando eu achei que ia morrer de medo! Por que você está dizendo essas coisas?

Luiza parou, a expressão de fúria sendo substituída por uma mágoa profunda.

— Eu só quero o seu bem, Agatha... Ele está te transformando em outra pessoa. Você só chora agora, você está sempre nervosa...

— Eu choro porque eu sou assim, Luiza! — Agatha fungou, aproximando-se de Gustavo, que imediatamente passou o braço por sua cintura, oferecendo um porto seguro. — E eu estou nervosa porque a minha melhor amiga está agindo como uma louca e atacando o homem que eu amo!

O silêncio que se seguiu foi pesado. Luiza olhou para os dois — para a mão de Gustavo possessivamente espalmada nas costas de Agatha e para o jeito que Agatha se inclinava para ele em busca de proteção. O ciúme em seus olhos era quase palpável, uma chama verde que consumia qualquer lógica.

— Você escolheu ele, então — Luiza disse, a voz agora fria e sem emoção.

— Não é uma escolha entre vocês dois, Lu — Agatha pediu, a voz suave. — Mas eu não vou permitir que você desrespeite o Gustavo ou o que nós temos.

Luiza não disse mais nada. Ela pegou sua bolsa que estava no sofá, lançou um último olhar de puro ódio para Gustavo e caminhou em direção ao elevador. Antes das portas se fecharem, ela murmurou:

— Você vai se arrepender disso, Agatha. Ele vai quebrar você de um jeito que ninguém vai conseguir consertar.

Quando o elevador desceu, o ar na cobertura pareceu finalmente circular de novo. Agatha desabou contra o peito de Gustavo, chorando copiosamente.

— Eu não entendo... por que ela odeia tanto a gente junto? — ela soluçou.

Gustavo a pegou no colo, levando-a de volta para o sofá. Ele a sentou em seu colo, ninando-a enquanto ela chorava todas as frustrações do dia.

— Ela não odeia a gente, meu amor — Gustavo explicou, beijando o topo da cabeça dela. — Ela tem medo de perder o controle que acha que tem sobre você. E ela me vê como a pessoa que tirou esse controle das mãos dela.

Agatha respirou fundo, tentando se acalmar.

— Eu me sinto tão mal... ela é minha amiga há tanto tempo.

— Amigos não agem assim, Agatha. Amigos ficam felizes quando você encontra alguém que cuida de você — ele a afastou um pouco, limpando as lágrimas do rosto dela com os polegares. — Mas não vamos deixar que ela estrague o nosso dia. Eu prometi que ia cuidar de você, lembra?

Agatha olhou para ele, o choro diminuindo e dando lugar a um sorriso triste.

— Você já cuidou muito hoje, Gu.

— Nunca é o suficiente — ele disse, o brilho brincalhão voltando aos olhos. — E agora que a intrusa foi embora, onde foi que paramos mesmo? Ah, sim... o médico estava prestes a iniciar um procedimento muito importante para garantir que a paciente não ficasse triste novamente.

Agatha riu, uma risada genuína que aqueceu o coração de Gustavo. Ela o puxou para um beijo, desta vez mais calmo, mas carregado de uma gratidão profunda.

— Você é doido, Gustavo — ela murmurou entre os lábios dele.

— Doido por você — ele corrigiu. — E agora, vamos para o quarto. Eu vou trancar aquela porta e, se o mundo acabar lá fora, a gente só vai descobrir amanhã.

Ele a levou de volta para o refúgio do quarto, onde as sombras de Luiza não podiam alcançá-los. Naquela noite, entre carícias cuidadosas e promessas sussurradas, Agatha entendeu que, embora o mundo pudesse ser cheio de cacos de vidro e pessoas complicadas, nos braços de Gustavo ela sempre estaria inteira. E enquanto ele a amasse com aquela intensidade louca e protetora, nenhuma crise de ansiedade ou ameaça externa seria forte o suficiente para derrubá-la.