Agatha e Gustavo
O Eco do Silêncio e a Redenção do Toque
O sol de Seattle havia se escondido atrás de uma cortina de nuvens cor de chumbo, transformando a tarde em um crepúsculo precoce e melancólico. Dentro da cobertura, o silêncio era interrompido apenas pelo som da chuva que começava a fustigar as vidraças. Agatha estava sentada no sofá de couro branco, observando a própria mão enfaixada. O episódio com Luiza e o acidente com a caneca haviam deixado uma ressaca emocional que ela ainda tentava processar.
Gustavo entrou na sala com dois copos de chocolate quente, o vapor subindo e perfumando o ar com um aroma doce e reconfortante. Ele notou o olhar distante da namorada e sentiu um aperto no peito. Ele odiava vê-la assim, com aquela expressão de quem carregava o peso do mundo nos ombros.
— Ei, pequena chorona — disse ele, sentando-se ao lado dela e oferecendo um dos copos. — Onde você está agora? Porque seus olhos estão em algum lugar bem longe daqui.
Agatha despertou de seus pensamentos e forçou um sorriso, aceitando a bebida com a mão esquerda, a única que não estava imobilizada.
— Só estava pensando no que a Luiza disse antes de ir embora — confessou ela, a voz baixa. — Gu, você acha que eu sou... instável? Que eu dependo demais de você para conseguir respirar?
Gustavo deixou o seu próprio copo sobre a mesa de centro e virou-se completamente para ela, pegando o rosto de Agatha entre as mãos com uma delicadeza que contrastava com sua energia costumeiramente elétrica.
— Agatha, olha para mim — pediu ele, esperando até que os olhos castanhos dela encontrassem os seus. — A Luiza não conhece a sua força. Ela só conhece as suas feridas, e ela gosta de cutucá-las porque isso a faz se sentir necessária. Você não depende de mim para respirar. Você escolhe compartilhar o seu ar comigo. E isso é a coisa mais linda que alguém já fez por mim.
As lágrimas, sempre prontas para emergir, começaram a brilhar nos olhos de Agatha. Ela encostou a testa na dele, sentindo o calor da pele de Gustavo acalmar o tremor que ainda persistia em seus dedos.
— Eu me sinto tão boba por ter tido aquela crise — sussurrou ela. — Foi só uma caneca, mas parecia que o chão estava sumindo.
— Não foi a caneca, meu amor — Gustavo murmurou, acariciando as bochechas dela com os polegares. — Foi o acúmulo de tudo. O ciúme dela, a pressão, o medo de me decepcionar... Você não é boba. Você é humana. E eu sou doido por cada pedaço dessa sua humanidade, inclusive a parte que chora por porcelana quebrada.
Agatha soltou uma risadinha entre o choro, o que fez o coração de Gustavo relaxar.
— Você é impossível, sabia? — disse ela, limpando o rosto com as costas da mão.
— Eu sou o seu doido favorito — retrucou ele, dando um beijo na ponta do nariz dela. — Agora, chega de papo sério. Eu tenho um plano para o resto desta noite e ele envolve zero lágrimas e muita safadeza... ou pelo menos muito carinho, se a sua mão não colaborar.
— Minha mão está machucada, Gustavo, não o resto do meu corpo — ela provocou, um brilho travesso voltando aos seus olhos.
— É essa a Agatha que eu conheço! — Ele se levantou, puxando-a gentilmente pela mão boa. — Vamos para o banho. Eu vou cuidar de você, mas aviso logo que sou um enfermeiro muito abusado.
No banheiro espaçoso, a banheira já estava cheia de água morna e espuma. Gustavo ajudou Agatha a se despir, tratando-a como se ela fosse feita de cristal. Ele beijou cada centímetro de pele que revelava, desde a curva do pescoço até a cicatriz quase invisível em seu joelho. Quando ela entrou na água, ele se juntou a ela, sentando-se atrás dela para que ela pudesse se apoiar em seu peito.
— Está bom assim? — perguntou ele, massageando os ombros dela com movimentos lentos.
— Está perfeito — respondeu ela, fechando os olhos e deixando a tensão finalmente se esvair. — Você tem mãos mágicas, Gu.
— Eu tenho motivação, isso sim — brincou ele, depositando um beijo úmido no ombro dela. — Quero que você esqueça o mundo lá fora. Esqueça a Luiza, esqueça Seattle, esqueça as sombras. Aqui dentro, somos só nós.
Eles ficaram ali por um longo tempo, trocando carícias suaves e palavras sussurradas. Agatha sentia-se segura, envolta pelo calor da água e pela proteção dos braços de Gustavo. No entanto, o silêncio foi quebrado pelo toque insistente do celular de Gustavo, que ele havia esquecido sobre a bancada.
— Não atenda — pediu Agatha, sem abrir os olhos.
— Eu não ia atender nem que fosse o presidente — respondeu ele, embora tenha lançado um olhar rápido para o aparelho.
O nome na tela era o de seu instrutor de Krav Magá, mas Gustavo o ignorou. Ele sabia que havia segredos e tensões que ainda precisariam ser resolvidos no futuro, mas aquela noite não pertencia a mais ninguém além deles.
Depois do banho, Gustavo a secou com uma toalha felpuda e a levou para o quarto. Ele a vestiu com uma de suas camisas de seda, que ficava enorme nela, e a acomodou entre os lençóis.
— Gu? — chamou ela, enquanto ele se deitava ao lado dela.
— Oi, minha vida.
— Obrigada por não me deixar cair — disse ela, segurando a mão dele com a sua mão enfaixada, sentindo a textura da gaze contra a pele dele.
— Eu nunca vou deixar você cair, Agatha — prometeu ele, a voz carregada de uma sinceridade profunda. — E se você cair, eu caio junto só para te dar impulso para levantar.
Gustavo se inclinou e a beijou, um beijo que começou doce e protetor, mas que rapidamente se transformou em algo mais intenso. Agatha respondeu com a mesma urgência, esquecendo a dor na mão e o cansaço na mente. Ela o puxou para cima de si, querendo sentir cada centímetro do corpo dele contra o seu.
— Tem certeza? — perguntou ele, parando por um segundo para olhar em seus olhos. — Sua mão...
— Esquece a mão, Gustavo — ela sussurrou, puxando-o pelo colar que ele sempre usava. — Eu preciso de você. Agora.
Eles se amaram com uma entrega que parecia uma cura. Cada toque de Gustavo era uma promessa, cada gemido de Agatha era uma libertação. Naquele momento, não havia ansiedade, não havia ciúme, não havia nada além da conexão pura e visceral entre dois seres que se completavam em suas imperfeições.
Horas depois, quando a chuva lá fora havia se transformado em um chuvisco suave, Agatha adormeceu nos braços de Gustavo. Ele permaneceu acordado por mais algum tempo, observando o rosto sereno dela sob a luz fraca do abajur. Ele sabia que Luiza voltaria a atacar, sabia que as sombras do passado ainda rondavam sua cobertura de luxo, mas ele também sabia que faria qualquer coisa para proteger o sorriso daquela mulher.
Ele se inclinou e beijou a testa dela, sentindo o cheiro de lavanda e de pele limpa.
— Eu te amo, sua chorona safada — sussurrou ele, fechando os olhos finalmente.
Enquanto o casal descansava, o celular de Gustavo na sala brilhou mais uma vez com uma mensagem não lida. Era de Luiza. "Isso não acabou, Gustavo. Eu sei o que você está escondendo."
Mas na privacidade do quarto, cercados por seda e pelo calor de seus corpos, a ameaça parecia distante. Eles haviam vencido a batalha daquele dia, e por enquanto, isso era o suficiente. O amor deles era um contrato que nenhum outro investidor poderia quebrar, e a proteção de Gustavo era o escudo que Agatha precisava para enfrentar qualquer tempestade que Seattle decidisse enviar em sua direção.
Na manhã seguinte, o sol finalmente rompeu as nuvens, iluminando a cobertura com uma luz dourada e esperançosa. Agatha acordou primeiro, sentindo-se renovada. Ela olhou para Gustavo, que ainda dormia com um braço jogado sobre os olhos, e sentiu uma onda de felicidade tão grande que seus olhos se encheram de lágrimas novamente — mas desta vez, eram lágrimas de pura alegria.
Ela se inclinou e sussurrou no ouvido dele:
— Acorda, doido. O mundo ainda está lá fora, mas eu acho que a gente pode vencer ele hoje.
Gustavo abriu um dos olhos e sorriu, aquele sorriso que fazia o mundo de Agatha girar mais devagar.
— Só se você prometer que não vai quebrar mais nada — brincou ele, puxando-a para um beijo matinal.
— Eu não prometo nada — respondeu ela, rindo. — Mas eu prometo que, se eu quebrar, eu deixo você me consertar de novo.
— É um acordo — disse ele, selando a promessa com um abraço que dizia tudo o que as palavras não conseguiam expressar.
E assim, entre risos e carinhos, eles começaram um novo dia, sabendo que, embora as sombras pudessem retornar, a luz que compartilhavam era forte o suficiente para dissipar qualquer escuridão. Eles eram Agatha e Gustavo, imperfeitos, intensos e inseparáveis, vivendo sua própria versão de cinquenta tons de amor e redenção.