Agora
O Crepúsculo dos Deuses do Reality
— Olha bem pra mim, Ana Paula — rosnou Juliano, o rosto a centímetros do dela, o suor pingando de sua testa e misturando-se às lágrimas de êxtase que borravam a maquiagem da loira. — Esquece o programa, esquece o público, esquece a porra da Marina por um segundo. Olha pra quem tá te possuindo agora.
Ana Paula arfava, os pulmões lutando por ar enquanto as mãos de Juliano a mantinham presa contra o colchão de luxo. Aquele "menino" que o Brasil via como um dançarino inofensivo havia se transformado em um predador implacável. Ela sentia cada centímetro daquela invasão, uma força que a despojava de toda a armadura de deboche que ela construíra ao longo de anos de carreira televisiva.
— Você... você é um demônio, Juliano — conseguiu dizer ela, a voz saindo entrecortada, rouca de tanto gritar. — Um demônio que eu mesma ajudei a criar.
— Então aguenta as consequências da sua criação — rebateu ele, voltando a se mover com uma violência rítmica que fazia a cabeceira da cama bater contra a parede, um som surdo que marcava o tempo daquela entrega absoluta.
O quarto, antes um refúgio de sofisticação, agora parecia um campo de batalha. Roupas de grife jaziam espalhadas pelo chão como carcaças de uma civilização que não fazia mais sentido. Ana Paula sentia o peso de Juliano, a musculatura rígida de suas pernas e o calor abrasador que emanava dele. Ele a girou novamente, sem qualquer cerimônia, forçando-a a ficar de joelhos mais uma vez, mas desta vez ele a puxou para a beira da cama, obrigando-a a olhar para o próprio reflexo no enorme espelho que cobria a parede lateral.
— Olha elaaaa! — ele sussurrou no ouvido dela, a voz carregada de uma malícia que a fazia tremer. — Olha o estado da rainha do deboche. Olha o que eu tô fazendo com você, Ana. É isso que você queria desde a primeira semana, não era? Alguém que não tivesse medo de te calar a boca.
Ana Paula olhou para o espelho. Viu seus cabelos loiros desgrenhados, o rosto vermelho, os lábios inchados. Viu Juliano atrás dela, uma figura de domínio puro, os olhos fixos no reflexo dela com um triunfo assustador. Ela nunca se sentira tão exposta, tão vulnerável e, ao mesmo tempo, tão poderosamente desejada.
— Cala a boca... e continua — ela ordenou, mas não havia autoridade em sua voz, apenas uma súplica desesperada. — Não para, Juliano... por favor, não para agora.
— Eu não vou parar até você admitir — ele disse, segurando-a pela cintura com tanta força que os dedos deixariam marcas. — Admite que você não me vê como filho. Admite que você me quer mais do que queria qualquer um naquele programa de merda.
— Eu admito! — ela gritou, a voz falhando. — Eu te quero, Juliano! Eu quero que você me quebre, que você me use... caralho, me fode de uma vez!
O ápice veio como uma explosão de estática, um curto-circuito nos sentidos. Juliano soltou um urro baixo, enterrando o rosto na nuca de Ana, enquanto ela sentia o mundo girar e sumir sob seus pés. O clímax foi tão intenso que, por alguns segundos, o silêncio na cobertura foi absoluto, quebrado apenas pela respiração pesada e descompassada dos dois.
Juliano desabou sobre as costas dela, o peito subindo e descendo freneticamente. Ana Paula permaneceu imóvel, o rosto enterrado no travesseiro, sentindo os batimentos cardíacos dele ecoarem em seu próprio corpo. O tempo parecia ter parado. A realidade do "fora", das redes sociais, dos contratos e das fofocas parecia algo de outra vida, algo que pertencia a pessoas que não conheciam aquele tipo de intensidade.
Alguns minutos se passaram antes que Juliano se afastasse, rolando para o lado e encarando o teto. Ele parecia exausto, mas havia um sorriso de satisfação plena em seus lábios. Ana Paula sentou-se lentamente, puxando o que restava do lençol para se cobrir, embora a nudez agora parecesse seu estado natural.
— E então? — perguntou Juliano, sem olhar para ela. — Ainda vai embora pra BH hoje?
Ana Paula pegou o maço de cigarros na mesa de cabeceira, as mãos ainda tremendo levemente. Ela acendeu um, deu uma tragada longa e soltou a fumaça, observando-a se dissipar sob a luz da manhã.
— Eu tenho um voo às quatro, Juliano — ela disse, recuperando aos poucos aquele tom de voz que o Brasil conhecia. — A vida não para porque você decidiu virar um animal na cama.
Juliano soltou uma risada curta e sentou-se, apoiando os cotovelos nos joelhos.
— Você é inacreditável, Ana. A gente acaba de ter a manhã mais intensa da sua vida, e você volta a falar de horários e voos. Você realmente não consegue baixar a guarda por muito tempo, né?
— O deboche é meu mecanismo de defesa, querido — ela respondeu, olhando para ele por cima do ombro. — Se eu levar tudo a sério, eu enlouqueço. E você... você é um perigo pra sanidade de qualquer mulher.
— A Marina sabe disso — ele disse, com uma naturalidade que sempre surpreendia Ana. — Por isso ela te trouxe pra cá. Ela sabia que só você aguentaria o tranco.
Ana Paula sentiu uma pontada de algo que poderia ser ciúme, mas que ela rapidamente transformou em ironia.
— Ah, então eu fui um experimento social da Marina? — ela perguntou, arqueando a sobrancelha. — Que fofo. A cantora e o tiktoker fazendo caridade pra loira solitária.
— Não fode, Ana — Juliano levantou-se e caminhou até o banheiro, mas parou na porta e olhou para ela. — Você sabe que não foi isso. Você sabe que a química aqui é real. Você sentiu.
— Senti — ela admitiu, em um raro momento de honestidade. — Mas a química não paga as contas nem limpa a minha imagem de "mãe da nação" que os editores do programa tentaram criar.
— Foda-se a imagem — Juliano entrou no chuveiro. — A gente sabe quem a gente é quando as luzes apagam. É isso que importa.
Ana Paula permaneceu na cama por mais alguns minutos, ouvindo o som da água caindo no banheiro. Ela olhou para o próprio corpo, vendo as marcas que Juliano deixara. Havia uma satisfação estranha naquilo. Ela sempre fora a mulher que controlava as narrativas, que ditava as regras do jogo. Mas ali, naquela cobertura, ela fora apenas uma mulher entregue ao desejo, despida de todas as suas defesas.
Ela levantou-se e começou a recolher suas coisas. A mala estava quase pronta. Ela vestiu um conjunto de lingerie preta, colocou um vestido de linho bege e calçou seus saltos. Ao se olhar no espelho novamente, a "Ana Paula Renault" estava de volta. Maquiagem retocada, cabelo no lugar, o olhar afiado.
Juliano saiu do banheiro com uma toalha na cintura, o cabelo loiro molhado caindo sobre os olhos. Ele parou ao vê-la pronta para partir.
— Já vai? — perguntou ele, o tom de voz perdendo um pouco da arrogância de antes.
— O dever me chama, novinho — ela disse, pegando sua bolsa. — Tenho reuniões, marcas pra atender e uma vida pra retomar.
— E a gente? Como fica? — ele deu um passo à frente, diminuindo a distância entre eles.
Ana Paula colocou a mão no peito dele, mantendo-o à distância, mas deixando os dedos deslizarem pela pele úmida.
— A gente não fica, Juliano. A gente aconteceu. E foi maravilhoso, foi épico, foi... — ela sorriu — um deboche total. Mas eu pertenço ao mundo, e você pertence à Marina e aos seus milhões de seguidores.
— Você sabe que pode voltar quando quiser — ele disse, segurando a mão dela. — A porta está sempre aberta. E a banheira também.
— Vou levar isso em consideração — ela disse, dando-lhe um beijo rápido e casto nos lábios, um contraste gritante com tudo o que haviam feito horas antes. — Cuida da Marina. Ela é uma joia, e você... você é um moleque de sorte.
— Eu sei — ele respondeu.
Ana Paula caminhou até a porta da suíte, mas antes de sair, virou-se uma última vez.
— E Juliano?
— Oi?
— Se você contar pra alguém que eu pedi pra você me chamar de cadela, eu juro que volto aqui e corto esse seu brinquedinho fora enquanto você dorme. Entendido?
Juliano deu uma gargalhada alta, a cabeça jogada para trás.
— Entendido, mamãe. Seu segredo está seguro.
— Ótimo — ela sorriu, ajeitando os óculos escuros. — Olha elaaaa! Indo embora com a dignidade intacta e o corpo moído. Do jeito que eu gosto.
Ela saiu do quarto e atravessou a sala da cobertura. O sol de São Paulo brilhava intensamente, refletindo nos prédios de vidro da Avenida Faria Lima. Ao entrar no elevador, Ana Paula sentiu um vazio momentâneo, uma queda de adrenalina que a fez suspirar. Ela sabia que aquela semana mudara algo dentro dela. O deboche continuaria lá, a língua afiada continuaria sendo sua arma, mas agora havia um segredo, uma memória de fogo que ela guardaria apenas para si.
O elevador chegou ao térreo. O motorista já a esperava na porta do prédio luxuoso.
— Aeroporto, Dona Ana Paula? — perguntou o homem, abrindo a porta do carro preto.
— Aeroporto, sim — ela respondeu, entrando no veículo e cruzando as pernas. — E por favor, coloque um rádio que não toque Marina Sena por pelo menos uma hora. Eu preciso de um pouco de paz.
O carro partiu, deixando para trás a cobertura de Juliano Floss e todos os pecados que haviam sido cometidos ali. Ana Paula olhou pela janela, vendo a cidade passar como um borrão. Ela abriu o celular e viu uma notificação de Marina no Instagram: uma foto das duas rindo na cozinha, com a legenda: "Minha mentora, minha amiga, minha loira favorita. O BBB nos deu o melhor presente!".
Ana Paula sorriu e digitou um comentário: "Amiga, você não faz ideia do quanto esse presente foi bem aproveitado. Te amo, sereia! Olha elaaaa!".
Ela guardou o celular na bolsa e fechou os olhos. A viagem de volta para Belo Horizonte seria longa, mas ela tinha muito o que processar. A hierarquia do prazer fora estabelecida, o batismo de fogo fora concluído e a rainha do reality estava voltando para o seu trono, com a certeza de que, no jogo da vida, ela sempre dava as cartas, mesmo quando parecia estar perdendo o controle.
Enquanto o carro ganhava velocidade na Marginal Pinheiros, Ana Paula Renault sentiu um sorriso involuntário surgir em seu rosto. O mundo podia achar que sabia tudo sobre ela, mas a verdade — aquela verdade suada, proibida e deliciosa — pertenceria para sempre àquelas quatro paredes de mármore e vidro no topo de São Paulo. E para ela, isso era o maior deboche de todos.